Mosteiro de Santa Eufémia

IPA.00009882
Portugal, Viseu, Sátão, Ferreira de Aves
 
Arquitectura religiosa, românico-gótica, maneirista e barroca. Convento beneditino feminino, de clausura, composto por igreja de planta longitudinal, com nave única, capela-mor, sacristia e dois coros, mirante, dependências, estalagem e casa do capelão. Mantém portas de arcos apontados, de acesso ao coro-baixo, uma delas, policromada e siglada. Campanha maneirista de aumento do templo, pela construção da actual capela-mor, feitura dos tectos em caixotões de madeira policromadas, espaços unificados e portal principal rectangular, emoldurado por pilastras e encimado por entablamento. Porta principal lateral por ser convento feminino de clausura. Retábulos de talha dourada ou policromada, joaninos e, no caso dos laterais, rococó. Revestimento de azulejos de tapete, com pequeno registo hagiográfico.
Número IPA Antigo: PT021817040019
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Convento / Mosteiro  Mosteiro feminino  Ordem de São Bento - Beneditinas

Descrição

Conjunto composto por igreja, dependências arruinadas, mirante, hospedaria e residência do capelão. Igreja de planta longitudinal, composta e regular, com nave, coro-alto e coro-baixo, capela-mor ligeiramente mais estreita e baixa, e sacristia, com coincidência entre o exterior e o interior. De volumes articulados e disposição horizontalista das massas, cortada pela verticalidade da torre sineira e do mirante. Com coberturas de telhados diferenciados de duas águas. Os alçados são rematados por cornija e têm pináculos sobre os cunhais. A hospedaria e a residência do antigo capelão, de plantas rectangulares, com tendência horizontalista das massas e coberturas de telhados homogéneos de quatro águas. Embasamentos proeminentes. Fachada principal voltada a NE. com portal principal rectangular emoldurado por pilastras, com pináculos de bola parcialmente inseridos no muro e encimado por entablamento, sobrepujado por nicho de arco a pleno centro com aletas, encimado por frontão semi-circular. Ainda no corpo da nave, duas fenestrações rectangulares de volumetrias e planos diferenciados, outra de arco quebrado adulterada e uma porta de arco apontado de acesso ao coro-baixo. No corpo da capela-mor, janelões rectangulares de perfis e dimensões diferenciados. Existência de pequeno campanário de volta perfeita assente em pilares com impostas salientes e cruz no remate. Alçado E. com remate em empena com cruz assente em pequeno pedestal no vértice. Alçado lateral SO. é cego, apenas rasgado no corpo da nave e comunicando com o coro-baixo, por uma porta rectangular e outra de duplos arcos quebrados, com intradorso siglado com letras pintadas a vermelho. No tímpano, o que se afigura ser uma cruz pátea, igualmente pintada a vermelho. Nesta zona, a cobertura assenta em cachorrada. No alçado NO. parcialmente adossado a algumas construções em ruína, tem óculo circular e é rematado em empena com cruz no vértice. No interior da cerca e adossado ao alçado lateral SO., a torre sineira de três pisos, delimitados por frisos. Possui portas e fenestrações diferenciadas e é encimada por uma sineira de arco a pleno centro em cada face, rematada por pequena balaustrada, com um pináculo de bola em cada ângulo e coberta por um coruchéu prismático. INTERIOR com cobertura de madeira, em masseira na nave, totalmente revestida a azulejo tapete, com dois tipos de padronagem e respectivos alizares, surgindo, no lado da Epístola, um registo representando São Bento. Sob este, o púlpito quadrangular com bacia de cantaria, sendo a guarda deste e da escada de acesso em madeira entalhada, com acantos e volutas. Oa retábulos laterais são idênticos, dedicados ao Senhor dos Aflitos e a Nossa Senhora das Dores, de talha dourada e policromada, compostos por tribuna com moldura fitomórfica contracurvada, flanqueado por estípides com atlantes e colunas pseudo-salomónicas em plano mais recuado, assentes sobre consolas com pequenos anjos. O ático forma duplo frontão interrompido com anjos e espaldar central com resplendor. O conjunto é decorado com marmoreados pintados, pautados por exuberante decoração dourada. Junto ao arco triunfal, um janelão rectangular. Três degraus dão acesso ao arco triunfal, a pleno centro, policromado. A ladeá-lo e inseridos em nichos de volta perfeita, dois retábulos de talha dourada, dedicados a São João Evangelista e a Nossa Senhora do Rosário, com tribuna de fundo azul e decorados com motivos florais, contendo peanha com imagem, ladeada por quarteirões e mísulas com baldaquinos. Na base da tribuna, um sacrário. O ático é composto por fragmentos de frontão com pequenos anjos. Sobre o arco que integra o retábulo, revestimento em talha dourada, com frontões e motivos florais, que se prolonga sobre o arco triunfal. A capela mor, totalmente revestida de azulejo padrão tem, do lado do Evangelho, janelão rectangular e, do lado da Epístola, porta de acesso à sacristia, que se implanta atrás do retábulo principal, de planta rectangular e cobertura de apainelados em madeira policromada. Retábulo de talha dourada formado por dois pares de colunas pseudo-salomónicas, encimadas, as exteriores, por aletas formando nichos laterais com imagens de santos. Em posição centralizada, a tribuna que sustenta, sobre um trono com resplendor, a imagem do orago. Como coroamento, um baldaquino e frontões interrompidos, onde surgem pequenos anjos. O sacrário é decorado com querubins, motivos fitomórficos e resplendor envolvente. Em posição destacada o altar de talha dourada, decorado com dois anjos-tocheiros, estofados e policromados. A cobertura da capela-mor é formada por 25 caixotões da madeira policromada, representando cenas da vida de Nossa Senhora e de Jesus, bem como Santas e Santos da Ordem beneditina. Ao fundo da Igreja, porta de acesso ao coro-baixo, com a respectiva grade, a roda dos expostos e um confessionário. No coro-baixo, destaca-se uma fenestração quadrangular, no lado fronteiro, uma porta de acesso ao exterior de arco apontado e a escadaria para o coro-alto, com gradeamento que percorre toda a largura, de cinco grades divididas por pilastras de madeira entalhada. Na central, estrutura de talha proeminente, com drapeados. Dois cadeirais duplos com espaldares policromados a imitar embutidos de pedra e, nos topos, pinturas representando São Bento e São Bernardo. Ao fundo óculo rectangular a que se tem acesso por pequena escadaria. O mirante, ligeiramente mais afastado do conjunto, é de dois pisos, com porta rectangular de acesso e diversas fenestrações quadrangulares. No último piso e numa das faces, quatro janelas quadrangulares no mesmo alinhamento. No interior uma escadaria estabelece a ligação entre todos os pisos. Remate em cornija.

Acessos

EN 229, ao Km, 57,9, no Lugar de Decermilo, para Lamas e Convento, por EM, ao Km 3,5

Protecção

Inexistente

Enquadramento

Rural, em terreno desnivelado, em vale nas proximidades de curso de água, destacado, isolado, junto a construções que foram a antiga hospedaria e a residência do capelão, separado pela cerca do convento, parcialmente destruída, junto à EM.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Religiosa: mosteiro feminino

Utilização Actual

Religiosa: igreja / Devoluto

Propriedade

Pública: Igreja Católica (igreja) / Privada (resto do mosteiro)

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 12 / 16 / 17 / 18

Arquitecto / Construtor / Autor

CARPINTEIRO: José Dias (1709); MESTRE de OBRAS: António Correia de Bulhões, morador em Viseu (1596-1600); PEDREIRO: João Gonçalves de Tarouca (1561).

Cronologia

Séc. 12, meados - fundado por Soeiro Viegas, junto à antiga capela de Santa Eufémia, e ampliado e enriquecido por sua neta D. Maior Soares, abadessa do convento, pertença da ordem beneditina; 1156, Janeiro - a abadessa adquire a Paio Godins e mulher a herdade de Riba Vouga e a Salvador Fenrandes todas as propriedades que possuía em Riba Vouga; 1163 - o mosteiro já se encontrava ocupada por religiosas; a abadessa escamba uma herdade em Santa Eufémia por outra em Outeiro, com Pedro Justis e mulher; Pedro Miguéis e a mulher, Marinha Forjaz, vendem às monjas uma herdade ao longo do Rio Outeiro; Janeiro - Pedro forjaz vende metade de uma vinha junto ao Rio Outeiro; 1170 - escritura de doação dos filhos de D. Maior Soares, a favor desta, da quinta parte de todas as herdades, a favor da Ermida de Santa Eufémia; 1176, Novembro - Egas Neto vende herdades em Duas Igrejas, Pereira, Aladrim, Souto e "Ascalca", por 6 maravedis; 1183, antes de - Pedro Pelágio e seus irmãos doaram a sua mãe, D. Maior Soares uma herdade em Lamego, a Quinta de Maçãs, que ficou pertença do mosteiro; 1187 - Martinho Pelágio, abade de Ferreira e depois Bispo da Guarda, doa ao Mosteiro o dízimo das terras que o mosteiro fizesse agricultar, entre os rios Paiva e Vouga; 1195 - Martim Peres vende herdades em Ferreira de Aves por 18 maravedis; 1200, 26 Agosto - Malada e filhos vendem uma vinha em Pinheiro; 1202 - o mosteiro era ocupado por monges; 1206, Setembro - os bispos de Viseu, Guarda, Lisboa e Lamego concedem 30 dias de indulgências a quem auxiliar na contrução da abadia masculina; 1208 - já se encontravam no edifício novamente religiosas, sendo abadessa Maria Fernandes; 1220, Maio - Sancha Peres vende à abadessa Maria Fernandes a herdade de "Barrios" por 10 maravedis; 1228 - D. Martinho, bispo da Guarda, deixa vários bens ao mosteiro; Julho - Monio Pais e a mulher vendem uma herdade no Outeiro, em Cerzeira, por 2 maravedis; 1229, Setembro - escambo com Gonçalo Viegas de um casa em Ferreira por outro em Carvalhal; 1230, Fevereiro - compra da herdade em Barreiros a Pedro Fernandes; 1251, Janeiro - Pedro Martins doa herdades em Muxagata; 1270 - Pêro Martins entrega ao mosteior um casal em Mioma, que a mãe deixara em testamento; 1271, Fevereiro - Maria Moniza doou um casal em Outeiro de Aldeia Nova; 1277, Maio - Chamoa Mendes e o filho, João Pacheco, doam um casal em Ramos, por missas por sufrágio pela alma de Estêvão Soares; 1281, Março - a abadessa Maria Fernandes, vendeu uma vinha e herdade em Gondomar; 1298, 25 Setembro - Pedro Soveral, testamenteiro de Fernão Soveral, entrega ao mosteiro três casais em Porteiro, uma vinha em Santa Marinha, um lagar e herdade denominada "Tróia"; 1328, 31 Outubro - Fernão Gonçalves, testamenteiro do pai, doou um casal em Moimenta, no julgado de Sanfins, e as herdades de Baião; 1357, 22 Dezembro - D. Pedro ordena que os juízes de Ferreira entreguem mancebos e mancebas ao mosteiro para trabalharem nas terrras e cuidarem do gado; 1444 - encontrava-se bastante arruinado; D. João Vicente, bispo de Viseu, expulsou as freiras e introduziu religiosos da Ordem Terceira de São Francisco, ficando a administraçãos dos bens a cargo do bispo; 1456 - os religiosos de São Francisco abandonam o edifício; 1460, 4 Novembro - as religiosas ganham o pleito com o bispo e regressam ao imóvel, sendo abadessa Inês Martins de Balsa; séc. 16 - a infanta D. Maria deixou ao mosteior 60 arratéis de especiarias anuais; 1561 - a Abadessa D. Beatriz Coutinho, contrata com o pedreiro de Tarouca, João Gonçalves a construção da cerca para o convento, tendo cada braça 10 palmos de comprido, 10 de alto e quatro de grosso, por $330 a braça; 1566 / 1606 - governo de Filipa de Albuquerque, a última abadessa perpétua; 1596 - 1600 - para além de obras de conservação geral, no coro-alto, o gradeamento de ferro, substituição da porta, encasamento dos órgãos e levantamento do coro conforme a traça e sacada para a Igreja; no coro-baixo, foi executado o gradeamento, uma roda, um confessionário e uma porta; varandas soalhadas e madeiradas; recuperação e alteamento do portal da Igreja; na portaria de baixo, colocação de uma roda e, em cada uma das lojas, uma porta; construção de uma casa para o padre, no local previsto, com uma porta de loja e janela; a hospedaria travejada e soalhada e a reconstrução do quarto do padre em taipa e tabuado; colocação da roda na portaria; as obras foram efectuadas pelo mestre António Correia de Bulhões, morador em Viseu, sendo o dote da sua filha, Isabel de Amaral, que se recolheu ao mosteiro; obras orçaram em 150$000; 1616, 5 Outubro - uma grande inundação invadiu a igreja e dependências conventuais; 1624 - ampliação e reconstrução da cerca que se encontrava parcialmente destruída; 1632 - a abadessa, Joana de Jesus, mandou construir um dormitório "em quadrado", com 12 celas por lado; 1635 - conclusão da construção pela Abadessa, Bernardina da Ascensão; 1695 - a primitiva Ermida de Santa Eufémia foi reedificada "a fundamentis", conforme lápide no lado esquerdo do desaparecido altar; 1709 - obras de carpintaria por José Dias; 1730 - execução do retábulo por mestres do Porto; 1734 - a igreja encontrava-se em ruínas, pelo que por provisão do Cabido da Sé de Viseu, se dá 100.000 réis de esmola, para a sua reedificação; séc. 18, final - execução dos retábulos laterais; 1853, Abril- recolhem ao mosteiro duas freiras professas, provenientes de Semide; 1891 - morte da última freira, D. Joana Carolina; 1897, 5 Abril - a Igreja, com uma torre, 2 sinos e o relógio é concedida à Junta da Paróquia; 1899 - a Hospedaria é vendida a Albano de Magalhães Coutinho, por 200.000 réis, bem como a cerca do convento, composta por terras de cultivo, lameiros, pomares e Capela de Santa Eufémia, por 1:750$000 réis; 1909, 21 Novembro - o mosteiro é vendido a José Pedro Ferreira, por 390$000 réis.

Dados Técnicos

Estruturas autónomas autoportantes.

Materiais

Grantio, madeiras, talhas e azulejos.

Bibliografia

TOMÁZ, Fr. Leão de, Benedita Lusitana, Tomo II, 1651; LEAL, Augusto Soares D'Azevedo Barbosa de Pinho, Portugal Antigo e Moderno, vol. III, Lisboa, 1874; VITERBO, Fr. Joaquim de Santa Rosa de, "Ferros", in Elucidário das Palavras, Termos e Frases, vol. II, Lisboa, 1966; ALVELOS, Manuel da Cunha e, O Mosteiro de Santa Eufémia de Ferreira de Aves, Viseu, 1970; CORREIA, Alberto, Roteiro Turístico do Distrito de Viseu, Viseu, 1981; SOUSA, Albano Martins de, Terras do Concelho de Sátão, Sátão, 1991; SIMÕES, José Eduardo, e Associados, Plano Director Municipal de Sátão - História e Património Construído (Relatório 10), Sátão, s.d. (policopiado); RIBEIRO, Maria José Homem, Edição dos documentos medievais do cartório de Santa Eufémia de Ferreira de Aves, [dissertação de Paleografia e Diplomática apresentada à Universidade de Lisboa], Lisboa, 1994; ALVES, Alexandre, Artistas e Artífices nas Dioceses de Lamego e Viseu, vols. I e II, Viseu, 2001.

Documentação Gráfica

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

Intervenção Realizada

PROPRIETÁRIO: séc. 20, década de 60 - obras gerais de consolidação e restauro, pondo-se a descoberto o portal românico-gótico que permitia a comunicação do coro baixo com o desaparecido claustro.

Observações

*1 - o convento foi habitado, em épocas distintas, por monges e monjas.

Autor e Data

João Carvalho 2001

Actualização

 
 
 
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