Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço

IPA.00009630
Portugal, Viana do Castelo, Melgaço, União das freguesias de Vila e Roussas
 
Arquitectura religiosa, barroca. Igreja da misericórdia barroca de planta longitudinal e nave única, de fachada principal em cantaria aparelhada, em empena, com portal de arco apontado, de duas arquivoltas, assente em impostas lisas, e interior com tectos de madeira, coro-alto, púlpito no lado do Evangelho, duas capelas confrontantes com retábulos, em talha dourada, maneiristas e barroco, e retábulo-mor neoclássico.
Número IPA Antigo: PT011603180040
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Templo  Igreja de Confraria / Irmandade  Misericórdia

Descrição

Planta longitudinal, composta por nave única e capela-mor rectangulares, sacristia e Consistório, rectangulares, adossados a E. e sineira e "loggia", rectangular, percorrendo a fachada N. Volumes escalonadas, com coberturas diferenciadas, em telhados de duas e três águas. Fachadas, com paramentos em cantaria de granito em fiadas pseudo-isódomas, na igreja, e em alvenaria irregular de granito, na sacristia e Consistório, percorridas por cornija saliente. Fachada principal, orientada a O., em empena com cornija saliente, tendo, no remate, cruz sobre acrotério e cunhais sobrepujados por pináculos; portal de arco apontado, de duas arquivoltas, assente em impostas lisas, encimado por janelão, de brincos, com verga abatida sublinhada superiormente por cornija saliente, e sineira de uma ventana, em corpo rectangular adossado a N. Fachada S. com três janelas rectangulares e corpo saliente de altar, na capela-mor, e janela e porta rectangulares na sacristia e Consistório. A fachada E., com pilastras nos cunhais, tem escadaria, pétrea, de um lanço, de acesso ao Consistório, porta rectangular no 1º piso e janela rectangular e porta de verga abatida no 2º piso. Fachada N., com pilastras nos cunhais do Consistório e da "loggia", apresenta janelas rectangulares no Consistório e janelos rectangulares horizontalizados nos arrumos, sendo percorrida, no terço anterior, ao nível do 2º piso, por "loggia", com porta de verga recta, em ferro forjado, no 1º. INTERIOR rebocado e caiado, tendo ligado ao coro-alto, do lado da Epístola, formando L, tribuna assente em trave de madeira, sobre mísulas pétreas decoradas com dupla voluta e motivos fitomórficos, e balaustrada de madeira; guarda-vento em madeira e pia de água benta no sub-coro. Lateralmente, do lado do Evangelho, porta de verga recta com frontaleira e púlpito rectangular sobre mísula pétrea, com balaustrada de madeira. A capela-mor, definida por sanefa, em talha dourada e branca, com as insígnias da Misericórdia ao centro, apresenta-se sobrelevada e com acesso por quatro degraus, sendo cerrada por teia em ferro forjado; tem, do lado do Evangelho, capela de arco pleno, moldurado, sobre pilastras dóricas, albergando retábulo de talha dourada e branca, e, confrontantes, dois altares em talha dourada e branca. Retábulo-mor, em talha dourada e branca, albergando, centralmente, Crucifixo, e inserindo, ê esquerda, porta de acesso ê sacristia. Pavimentos em lajes de granito, na capela-mor, e soalhado, na nave. Tectos de perfil curvo, em madeira. Sacristia, com acesso exterior a partir a fachada S. e da fachada E., com paredes em aparelho de alvenaria irregular de granito, com as juntas tomadas e caiadas e rebocado e pintado de creme, com pavimento lajeado e com tecto cimentado e caiado. Consistório, com acesso a partir de pequeno átrio lajeado, no topo da escadaria, com paredes em aparelho de alvenaria irregular de granito, com as juntas tomadas e caiadas e rebocado e pintado de creme, com pavimento em mosaico cerâmico e com tecto cimentado e caiado.

Acessos

Largo da Misericórdia.

Protecção

Incluído na Zona Especial de Protecção do Castelo de Melgaço e muralha (v. PT011603180004)

Enquadramento

Urbano, isolado, integração harmónica no interior do perímetro muralhado de Melgaço (v. PT011603180007), com frontaria aberta para pequeno largo lajeado, sendo envolvido por estreitas ruelas calcetadas com cubos graníticos.

Descrição Complementar

Sineira de uma ventana, em corpo rectangular, com acesso a partir da "loggia", com janela de arco pleno rematada por cornija saliente, suportando cruz sobre acrotério, entre pináculos. A "loggia" apresenta, no 1º piso, porta, enquadrada por pilastras, que dá acesso a pequeno átrio onde se abrem portas de verga recta da nave, do arrumo e de ligação a outro pequeno átrio que comunica, por porta de vão rectangular, com a capela da capela-mor, e onde se encontra escadaria, pétrea, de caracol, que conduz ao piso superior. A "loggia", que estabelece a ligação com o coro-alto, apresenta friso de pedra separando os pisos, tendo colunelos toscanos com avental sob a base, aposto no parapeito, estando assente em cornija saliente. As capelas confrontantes da capela-mor, de arco pleno sobre pilastras dóricas, com sanefas em talha dourada e branca, possuem retábulos em talha dourada e branca, dedicados ao Senhor Preso à Coluna, do lado do Evangelho, e a Nossa Senhora das Dores, do lado da Epístola. A Sacristia apresenta arcaz de castanho, de grandes dimensões, e quadro, em madeira, contendo os Legados e Obrigações da Santa Casa de Misericórdia, tendo encastrado numa parede lavatório com remate de arco pleno, concheado, sobrepujado por cornija saliente, com torneira inscrita em carranca, sobre pia circular.

Utilização Inicial

Religiosa: igreja de confraria / irmandade

Utilização Actual

Religiosa: igreja de confraria / irmandade

Propriedade

Privada: Misericórdia

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 16 / 18 / 19

Arquitecto / Construtor / Autor

Pintor António de Figueiroa, pintor do retábulo-mor e da Bandeira da Misericórdia. Mestre imaginário galego Pero Lopes, autor dos baixos relevos do retábulo-mor.

Cronologia

Séc. 12 - referência documental à existência de três igrejas na vila de Melgaço, a igreja de Santa Maria do Campo, a de São Facundo e a de Santa Maria da Porta; 1240 - documento refere a existência de uma gafaria em Melgaço; 1258 - a igreja de Santa Maria do Campo foi integrada no padroado real; 1320 - foi taxada em 30 libras; 1432, 2 Julho - confirmação do bispo de Tui sobre o padroado da igreja de Santa Maria do Campo, pertencente a leigos, sendo, à data, a apresentação do abade feita por Geraldo Miguel e seu filho Geraldo, moradores no castelo de Melgaço; o pároco apresentado, Rui Lourenço, já era reitor da igreja de São Facundo, na vila; 1453, 20 Agosto - diploma anexando à igreja a de São Fagundo à de Santa Maria do Campo; 30 Agosto - a apresentação da igreja pertencia ao administrador perpétuo no espiritual e temporal do bispado de Tui na parte de Portugal, que nesta data apresentou Álvaro Rodrigues; séc. 16 - o padroado já pertencia ao arcebispado de Braga; séc. 16, inícios - fundação da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço; 1514 / 1532 - no sensual de D. Diogo de Sousa, a igreja de Santa Maria do Campo rendia ao arcebispo 78 reais; nas mãos deste prelado, Lopo da Cunha renunciou a igreja de Santa Maria do Campo, juntamente com as outras onde era abade: Santa Maria da Porta, São Fagundo e São João de Lamas de Mouro, no concelho de Valadares; 1517 - confirmação dos Estatutos da Santa Casa de Misericórdia de Melgaço (Compromissso); 1523, 5 Fevereiro - o abade da Igreja de Santa Maria do Campo foi substituído por Aires da Costa, que, poucos dias depois, também renunciou; 23 Abril - nomeado António de Castro, Clérigo de Ordens Menores para a Igreja de Santa Maria do Campo; anexou-lhe ainda - apenas em vida do clérigo - as igrejas de Santa Maria da Porta, São Fagundo e a metade sem cura de São Lourenço de Prado, no concelho de Melgaço e a de São João de Lamas de Mouro, no Condado de Valadares; 1531 - alvará real entregando à Confraria da Misericórdia de Melgaço o Hospital de São Gião existente na vila; 1564, Dezembro - diploma de extinção da igreja de Santa Maria do Campo pelo arcebispo de Braga, Frei Bartolomeu dos Mártires; séc. 16, finais - registado em tombo a mudança da igreja de Santa Maria do Campo para a Misericórdia; 1591, 2 Fevereiro - contrato entre a Misericórdia, sendo provedor Gil Gonçalves Leitão, e António de Figueiroa para este pintar o retábulo e fazer a bandeira, hoje já desaparecida, e grades, pelo preço de de 56.5000 reais; recebeu apenas 43.520 reais em dinheiro, dada a falta de recursos da Misericórdia, pelo que se decidiu "darlhe em satisfação do remate de pagua huma cruz que a Casa tinha a qual foi pesada nesta vila na feira por hos hourives de Salvaterra que a ela costumão vir e pesava doze mil novecentos e oitenta rs"; a obra de imaginária do retábulo foi feita por Pero Lopes, por 26.200 reais; Outubro - pagamento a António de Figueiroa 1400 reais por pintar o púlpito e a coluna das galhetas da igreja; 1619 - documento refere que os Irmãos da Confraria deveriam mandar buscar a telha à antiga igreja de São Fagundo para que, com ela, pudessem retelhar a Igreja da Misericórdia; 1641 - o Desembargador Gregório de Balcacem de Morais, Visitador e Reformador Geral das Fronteiras do Reino, procurou estabelecer um acordo com a Santa Casa da Misericórdia para ela tratar dos feridos de guerra; o provedor, no entanto, alegando o estado de pobreza da instituição, escusou-se a tratar gratuitamente os soldados e a fornecer-lhes remédios sem pagamento; 1672 / 1673 - era provedor Pero Gomes de Abreu Magalhães, altura em que tiveram origem os sermões quaresmais pregados na vila até finais do séc. 19 através de acordo deliberado pela Mesa em 12 Fevereiro 1673; 1676 - remoção das tábuas do antigo retábulo-mor para a Matriz da vila e feitura de novos retábulos pelo entalhador de Valadares Jácome de Araújo; 1692 / 1693 - eleito provedor Francisco de Araújo Sarmento, mas que por razão desconhecida foi preso, deixando a misericórdia um pouco à deriva; séc. 18 - provável remodelação do edifício; aumento das "capelas de Missas", substituição dos paramentos velhos e usados por outros novos, aquisição de alfaias para as procissões, mas devido à penúria em que vivia, recorriam constantemente às Misericórdias vizinhas de Valadares e Monção a fim de lhe emprestarem balandraus (capas); 1740 - embora o capital fosse de 3.521.000 rs, as esmolas dadas pela Misericórdia aos pobres não eram muito abastadas; diariamente dava-se a António Gomes, entrevado numa cama, 10 rs e a Francisco Quintela 7,5 rs; 1741, 19 Março - suspenção das esmolas, devido às poucas possibilidades da Confraria; 1758, 24 Maio - segundo a vila não tinha hospital, mas apenas Misericórdia que tinha de renda 400$000; 1769 - O Pe Manuel Esteves da Costa ofereceu à Misericórdia uma lâmpada de prata, à romana, para alumiar o Senhor da Cruz; 1790 - provisão de D. Maria I para a Mesa organizar o Tombo da Misericórdia; séc. 19 - provável construção do retábulo-mor; 1838 - o Administrador Geral do Distrito de Viana do Castelo afirma que a maioria das Misericórdias estavam muito mal administradas, o que originava a perda de muitas dívidas e foros, em resultado do desleixo e pouco zelo das Misericórdias; 1839 - o Administrador envia um comissário contabilista para reformar todas a sua escrituração e examinar os erros de liquidação e desleixo; 1840 / 1841 - sob a alçada de José Manuel Gomes de Abreu, a Mesa ruiu várias vezes; compraram-se as mãos e as cabeças precisas para se armarem as figuras das personagens necessárias para a procissão dos Santos Passos, a fim de evitar pedidos a outras misericórdias; 1846 - várias obras na igreja por se encontrar bastante danificada; 1849, 20 Novembro - João Correia dos Santos Lima, negociante na vila de Melgaço, procurador de Joaquim Maria Osório, natural da vila e morador no Grão Pará, Brasil, entregou na secretaria da Misericórdia a promessa feita pelo dito Osório ao Senhor dos Passos "uma tunica d'orbão de seda roxa, uma corda amarela e uma cabeleira preta, tudo novo e acondicimado em caixão de pau"; 1863 - a Misericórdia tinha 12 857$868 rs de fundos, sendo 138$040 em domínios directos, 12 519$828 em capitais mutuados e 200$000 em alfaias, jóias e móveis; tinha 627$015 rs em receitas ordinárias, sendo 4$902 em dinheiro e 622$113 em juros de capitais mutuados; e tinha ainda como despesas obrigatórias 300$000 rs, em encargos pios; 1943 - sendo Provedor Dr. Augusto Cesar Esteves, as mulheres passaram a ter o direito de se inscreverem como Irmãs da Misericórdia; 1944 - era capelão o páraco da vila António de Jesus Rodrigues, o primeiro a exercer funções de páraco da vila e capelão da Misericórdia, pois até então a Confraria sempre teve os seus próprios capelães.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estrutura em cantaria e em aparelho de alvenaria irregular de granito ê vista, com as juntas tomadas, com vãos e cunhais em cantaria, e rebocadas e pintadas a branco e creme, sineira em cantaria, cobertura em madeira e em viga de betão telhados, guarda-vento em madeira, coro-alto em madeira, púlpito de pedra com balaustrada em madeira, retábulos em madeira, teia em ferro forjado, pavimentos em lajes graníticas, soalhado e em mosaico cerâmico, portas de madeira e em ferro forjado, janelas envidraçadas e gradeadas e envidraçadas.

Bibliografia

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Alto Minho, Lisboa, 1987, p. 179; BARROCA, Mário, Necrópoles e sepulturas medievais de Entre Douro e Minho, Porto, 1987, p. 360 - 361, ROCHA, J. Marques, Melgaço de ontem e de hoje, Braga, 1993, p. 229; BARROCA, Mário, Epigrafia Medieval Portuguesa, vol. II ( tomo 2 ), Porto, 1995, p. 1648 - 1649; SERRÃO, Vitor, Sobre a Iconografia da Mater Omnium: a pintura de intuitos assistenciais nas Misericórdias durante o século XVI, in OCEANUS, nº 35, Julho / Setembro, Lisboa, 1998, pgs. 134 - 144; idem, André de Padilha e a Pintura Quinhentista entre o Minho e a Galiza, Lisboa, 1998; CERDEIRA, Amélia Esteves, Santa Casa da Misericórdia de Melgaço: Cinco Séculos ao Serviço das carências de um povo, in I Congresso das Misericórdias do Alto Minho, Viana do Castelo, 2001, p. 270 - 282; FONTE, Teodoro Afonso da, As Misericórdias do Alto Minho - perspectiva Histórica e actualidade, in I Congresso das Misericórdias do Alto Minho, Viana do Castelo, 2001, p. 96 - 117; ALMEIDA, Carlos A. Brochado, O sistema defensivo da vila de Melgaço, dos castelos da reconquista ao sistema abaluartado, Melgaço, 2003; ESTEVES, Augusto César, Obras Completas, vol. 1, tomo 1, Melgaço, 2003; DOMINGUES, José, Padroado Medieval Melgacence (Santa Maria da Porta, Santa Maria do Campo e São Fagundo), in Boletim Cultural de Melgaço, s.l., 2004, pp. 63-114.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Documentação Administrativa

IAN/TT: Dicionário Geográfico de Portugal, vol. 23, nº 121, pp. 765-770

Intervenção Realizada

Observações

*1 - A Igreja da Misericórdia resultou da adaptação de uma outra igreja pré-existente, com invocação de Santa Maria do Campo; esta tinha rendimentos bastante diminutos em 1320 e foi extinta por volta de 1551, por ordem do arcebispo de Braga, D. Frei Bártolomeu dos Mártires. Em 1564 foi anexada à paróquia vizinha de Santa Maria da Porta, actual igreja Matriz. *2 - As antigas tábuas do retábulo-mor e a sua talha encontram-se actualmente na Igreja Matriz de Melgaço, na Capela dos Almeidas no lado do Evangelho. As tábuas representam Cristo ressuscitado, São Pedro, Imaculada Conceição e São Sebastião, Apresentação da Virgem no Templo e Apresentação do Menino no Templo; na predela figuram as cenas, em baixo- relevo, da Visitação e da Anunciação, da autoria de Pero lopes. Também da predela é a representação da Adoração dos Magos, tendo no reverso a legenda "Mizericordia de Melgaço" e que, segundo Vítor Serrão, se inspira, de modo simplificado, numa estampa de Jerónimo Wierix do "Evangeliarium Imagines", do Padre Jerónimo Nadal, de 1591. *2 - Uma das principais cerimónias da Misericórdia era a procissão da 5ª feira Santa, dos Penitentes ou dos Fogaréus, largamente difundida no séc. 16 e 17. Com antecedência os irmãos reuniam-se e distribuiam os principais lugares da procissão e tomavam medidas para a sua realização. Na véspera, ornavam-se a igreja e as capelas da vila. No dia, no final da tarde os "salta na criba" andavam pelas ruas fazendo barulho com a matraca. Às 20H00 saía da igreja a procissão com todos os irmãos da Misericórdia, uns de opa preta, outros de fato preto em símbolo de luto. À frente ia o escrivão com a bandeira da Confraria, ladeado por dois mesários, cada um com tocha acesa. Atrás vinha o provedor do ano findo com o crucifixo ( quando estava ausente ou não podia comparecer, era o provedor em exercício ), ladeado por dois irmãos com tochas acesas. Depois seguia o andor do "Ecce Homo" acompanhado por duas ou quatro lanternas acesas. Os penitentes entrecortavam as insígnías da Paixão do Senhor, que eram conduzidas por irmãos da Misericórdia entre a bandeira e o crucifixo. Os irmãos envergando opas e portando tochas acesas, contornavam o centro da vila, onde se juntavam encabuçados, depois de andarem pelas ruas do percurso e muito à frente da procissão cantando, em voz de falsete, os mexericos e segredos da terra de um ano inteiro. Caminhavam a seguir os capelães da Misericórdia, de sobrepeliz e atrás, de fato preto, os irmãos que não tinham capa e os homens estranhos à confraria, segurando todos eles velas na mão direita. Os padres rezavam a ladainha de todos os santos e o grupo ia respondendo. Durante o caminho e enquanto durava a procissão, os penitentes martirizavam-se. As mulheres, proíbidas de participar nestes ajuntamentos nocturnos, ficavam em casa, acendendo velas à passagem do cortejo. A procissão entrava primeiramente na capela de Santo António do Campo da Feira de Dentro, onde estavam dois irmãos; depois seguia para a igreja de Nossa Senhora da Orada, onde mais dois irmãos pediam; regressava, passando pela Matriz, para visitarem o Santíssimo Sacramento, e terminava na Misericórdia. O provedor mandava lavar e tratar com mezinhas as feridas dos penitentes, confortando-as com vinho, marmeladas e outros doces. A cerimónia terminava com o proferimento de um sermão.

Autor e Data

Paulo Amaral 2000

Actualização

 
 
 
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