Hospital Militar de Nossa Senhora da Boa Nova

IPA.00008099
Portugal, Ilha Terceira (Açores), Angra do Heroísmo, Angra (Sé)
 
Hospital militar construído no séc. 17, junto a uma ermida quinhentista, considerado o hospital real ou militar mais antigo, e que nunca esteve entregue à Ordem de São João de Deus. A capela tem planta retangular e eixo interior longitudinal, com a fachada principal desenvolvida na face mais comprida, planimetria pouco comum na ilha. Termina em cornija e é rasgada por vãos muito amplos, que não devem ser do templo primitivo, até porque a sua modinatura é semelhante aos do hospital, correspondendo a janelas retangulares de capialço e portal de verga reta, ornado de acantos e encimado por friso, cornijas e brasão nacional entre pináculos. O hospital tem planta em L, e fachadas de um piso, rasgadas por amplos vãos retangulares de capialço e, numa das fachadas, por portal de verga reta moldurado, encimado por símbolos régios. O hospital foi ampliado com a construção de um outro corpo, maior e mais alto, com dois pisos virados à cerca posterior.
Número IPA Antigo: PT071901160003
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Saúde  Hospital  Hospital militar  

Descrição

Planta em L, composta por vários corpos, um central em L, a capela retangular disposta à esquerda, e um outro corpo retangular no topo da outra ala, tendo no ângulo posterior um outro corpo irregular adossado. Volumes escalonados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na capela, e de quatro no corpo em L e no outro que o prolonga, sucessivamente mais altas. Fachadas rebocadas e caiadas, com embasamento em cimento pintado de cinzento, cunhais de argamassa igualmente pintados a cinzento, a imitar cantaria, e terminadas em cornija de cantaria sobreposta por beirada simples ou dupla na capela. Fachada principal da capela virada a sul, de um piso e dois panos; o esquerdo correspondendo à capela, é rasgado por quatro janelas rectangulares, com molduras de cantaria em capialço, e, entre as duas do extremo direito, portal de verga reta, com moldura terminada em acantos e cornija, encimada por friso e dupla cornija, sobre a qual surge brasão nacional e, lateralmente, dois pináculos relevados. As molduras dos vãos são pintadas a cinzento. Sobre a cobertura, surge sineira em arco de volta perfeita, sobre pilares, actualmente desnuda, terminada em cornija reta. O corpo do hospital é rasgado a S. por quatro janelas retangulares com molduras de capialço, estando a do extremo esquerdo entaipada, e a nascente por outras quatro, mas jacentes, estando a do topo esquerdo também entaipada; no topo direito, rasga-se portal de verga reta com moldura alta e percorrida por pequeno filete; sobre a cobertura, encima-o plinto paralelepipédico, decorado em cada uma das faces com cruz de Cristo relevada, sobreposto por esfera armilar. A ala acrescentada apresenta dois panos divididos por pilastras toscanas e é rasgada por oito vãos longilíneos, com molduras de capialço, abrindo-se quatro em cada pano. A fachada posterior desta ala possui dois pisos, seccionados por escadas de cantaria adossadas, muito estreitas, e é rasgada regularmente por vãos retangulares estreitos e sem moldura, ao nível do piso térreo, e janelas rectangulares, com molduras de cantaria ao nível do segundo. No INTERIOR, a capela possui coro-alto e um altar com imaginária.

Acessos

Angra (Sé), Largo da Boa Nova; Rua da Boa Nova

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto. nº 44 675, DG, 1.ª série, n.º 258 de 09 novembro 1962 (capela), Resolução do Presidente do Governo Regional n.º 98/1980, JORAA, 1.ª série, n.º 31 de 16 Setembro 1980 (hospital) / Incluído no Núcleo urbano da cidade de Angra do Heroísmo (v. PT071901160035)

Enquadramento

Urbano, adossado, no Centro Histórico de Angra do Heroísmo, adaptado ao declive do terreno, disposto de gaveto num arruamento, com passeio separador. A noroeste desenvolve-se a antiga cerca, murada, onde se erguem vários edifícios. Em frente, existe caminho de acesso à Fortaleza de São João Baptista (v. PT071901160001), e, a sudoeste, aos campos de cultivo. Nas imediações da capela *1, num pequeno campo murado existe o cemitério dos Ingleses, totalmente abandonado, cujo terreno foi concedido pelo capitão general Ayres Pinto de Sousa, em 1813, para sepultamento exclusivo de ingleses.

Descrição Complementar

Na fachada principal da capela existe lápide com a inscrição "NESTA ERMIDA REAL DA BOA NOVA EM OUTUBRO DE MDCLIV ESTEVE PREGOU E REZOU O PADRE ANTÓNIO VIEIRA S. J. (1608-1697). CIDADÃO HONORÁRIO DE ANGRA NO TRICENTENÁRIO DA SUA MORTE HOMENAGEM DA CÂMARA MUNICIPAL". No interior da capela encontram-se sepultados Manuel Luís Maldonado, os soldados espanhóis João Monroy e Alonso Martins, após terem sido garroteados, em virtude da sentença proferida pelo Licenciado António da Rocha Faria.

Utilização Inicial

Saúde: hospital

Utilização Actual

Cultural e recreativa: marco histórico-cultural

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

Época Construção

Séc. 16 / 17

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido.

Cronologia

1583 - durante a expedição militar que submeteu a ilha Terceira a Filipe II de Espanha, o marquês de Santa Cruz trouxe consigo um hospital de campanha, para atender aos doentes e feridos das suas forças militares; com a conquista da ilha, constituiu-se o Hospital Real de Angra, inicialmente instalado no hospital da Misericórdia, o qual, por sua vez, passa a funcionar na Casa da Moeda anexa; 1584 - época provável da construção da capela ou Ermida de Nossa Senhora do Terço; 1591 - 1615 - data provável da construção do hospital militar na cidade; 1615 - os soldados castelhanos deixam de utilizar o hospital da Misericórdia, possivelmente por passarem a utilizar o novo hospital da Boa Nova; 1641, 02 julho - realização de conferência de paz na capela da Boa Nova entre os terceirenses e os castelhanos, a fim de estes entregarem o castelo; acorda-se que viessem do castelo com reféns o tenente João Hernandes e o alferes D. Pedro Ortiz de Melo e que, da parte da cidade, viessem o tenente Sebastião Cardoso Machado, e o capitão Tomé Correia da Costa; juntando-se na capela, são lidas as ordens do rei e expostas as mercês que ao mestre de campo D. Álvaro, a seu tenente e ao alferes oferecia, entregando-lhe o castelo; 1643 - data do primeiro regulamento do hospital, obra de Joanne Mendes de Vasconcelos; segundo o mesmo, devia haver no hospital dois capelães, com o vencimento de 4$000 por mês, um sacristão para serviço da igreja, com o vencimento de $500 por mês, um médico e um cirurgião, cada um com 3$000, sendo obrigados a visitar os enfermos do hospital e fora dele e os mais do prezidio sem lhe levar cousa alguma por isso, um sangrador, com vencimento de 2$500 e obrigação de sangrar e barbear os oficiais e soldados no hospital e fora dele, um boticário, uma pessoa como mordomo do hospital e que servia simultaneamente de enfermeiro; 1653 - visita e prega na capela do hospital o Padre António Vieira no seu regresso do Maranhão; 1689, 25 julho - nomeação de Manuel Luís Maldonado como capelão-mor da Fortaleza de São João Batista e administrador do Hospital Militar da Boa Nova, que ficava anexo *2; séc. 17 / 18 - segundo o Dr. Alfredo da Silva Sampaio, a ermida tem Santíssimo Sacramento e nela funciona uma confraria, cujos rendimentos passariam para a Ordem de Cristo; segundo José Joaquim Pinheiro os assuntos espirituais da capela estão a cargo do 2.° capelão da praça, que residia na casa contígua do lado poente, o qual "celebrava missa quotidianamente, e administrava os divinos sacramentos aos doentes do hospital militar"; 1766, 28 agosto - Regulamento do hospital, elaborado por Lopes Durão, cria o cargo de almoxarife, o escrivão, o cirurgião-mor, o capelão, os serventes, o cozinheiro, o moço de compras e a lavadeira, indicando as responsabilidades de cada um; 1767, 30 maio - o capitao-general D. Antão de Almada escreve ao Conde de Leiras a informar que para se poderem curar os doentes do regimento no hospital de Nossa Senhora da Boa Nova, que muitas vezes excedem o número de 40 ou 50 pessoas, e não tem comodidade alguma para se fazer com desafogo, precisa ser acrescentado, pelo que mandara tirar uma planta para se regular pelo melhor método e comodidade que pudesse ser; porque não fora possível concluir-se a planta, não a remetia, fazendo-o na primeira ocasião que surgisse; 1803 - data de novo Regulamento do hospital com o título "Regulamento para os Hospitais Militares de sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor"; neste, os hospitais são classificados, sendo o da Boa Nova considerado Hospital Particular, ali devendo haver um médico diretor, um cirurgião-mor, um administrador, um escrivão, um capelão, um boticário, um ajudante, um fiel de rouparia, um fiel de despensa, um porteiro, um comprador, um cozinheiro, enfermeiros e moços; 1821, 02 abril - durante um levante de carácter liberal, quando os revoltosos chefiados pelo ex-capitão General Francisco António de Araújo e Azevedo se dirigiram à Fortaleza de São João Batista para a ocupar, alguns civis permaneceram na capela do hospital; 1824, 06 junho - alvará remodela internamente o sistema dos hospitais militares, passando a ser designados por hospitais regimentais, passando o da Boa Nova a designar-se como Hospital Regimental do Batalhão de Caçadores 5; 1828 - 1834, entre - profanação da capela durante a Guerra Civil Portuguesa; 1829 - a designação do hospital é alterada para Hospital Regimental Reunido, dos corpos de todas as armas estacionadas em Angra *3; 1832 - 1835 - funciona na capela a primeira tipografia dos Açores, enviada da Inglaterra pelo marquês de Palmela, e que até ali funcionava numa casa na Rua da Sé, já então denominada como "Imprensa da Prefeitura" ou "Imprensa do Governo", sendo o seu compositor o emigrado portuense, Sargento-ajudante do Batalhão de Voluntários da Rainha, João de Sousa Ribeiro; na parte do imóvel virado ao Largo da Boa Nova, funcionam também aulas de Filosofia e Retórica durante o período da Regência; no lado voltado à Rua da Boa Nova, continua a funcionar o hospital; 1842 - nova consagração do templo, após remoção da imprensa da Prefeitura ou do Governo, por determinação do prefeito Luís Pinto de Mendonça Arrais, barão de Valongo, e de alguns devotos, entre eles o mestre da Capela da Sé, o padre Mateus Pereira, Sousa Ribeiro e outros, com a concordância do governador da fortaleza, Joaquim Zeferino Sequeira; depois de restaurada, ali passa a rezar-se o terço todos os domingos à tarde; 1906, 23 dezembro - falece no hospital militar da Boa Nova Ngungunhane, o último Imperador de Gaza (Moçambique), vítima de hemorragia cerebral, sendo depois enterrado no cemitério da Conceição, numa das campas destinadas ao sepultamento da população católica local; 1909, 11 novembro - data do novo Regulamento do hospital, passando à categoria de Hospital Militar de 3.ª classe; 1911, 31 julho - morre no hospital Godide, filho de Ngungunhane, vítima de tuberculose; 1932 - a capela é votada ao abandono; 1937 - nova consagração da capela, passando a ter a celebração de missas dominicais por iniciativa do comando Distrital da Legião Portuguesa; posteriormente o imóvel é utilizado como arrecadação militar; 1939 - 1945- dada a necessidade do Governo em reforçar as guarnições militares dos Açores, durante a Segunda Guerra Mundial, em cerca de 30.000, obriga à criação de raiz dos dois hospitais militares de 700 camas cada, um na Ilha Terceira, em Terra Chã, e outro em São Miguel; a partir dai, o hospital da Boa Nova passa a enfermaria regimental; 1998 - assinatura de um protocolo entre o Ministério da Defesa e o Governo Regional dos Açores, prevendo a cedência de vários imóveis, nomeadamente o antigo hospital militar da Boa Nova para instalação da coleção militar do Museu de Angra; 2003 - aprovação de Resolução na Assembleia da República no sentido do Governo aprovar as medidas necessárias para que o hospital da Boa Nova "passe a ser administrado pelos órgãos do governo próprio da Região"; 2004, 09 setembro - publicação da Resolução do Conselho do Governo n.º 126/2004, referindo consumir a classificação anterior do imóvel por inclusão na Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo, em JORAA, 1.ª série, n.º 15; 2008, 12 novembro - Ministério da Defesa coloca à venda o hospital da Boa Nova o qual tem sido reclamado pelas autoridades açorianas para instalar a coleção militar do Museu de Angra do Heroísmo *4; 2010, 09 maio - Jorge Bruno, diretor do Museu de Angra do Heroísmo, confirma à Lusa a intenção de criar no imóvel o Núcleo de História Militar Baptista de Lima, para expor cerca de 1.200 uniformes militares que a instituição possui.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estrutura rebocada e pintada; molduras dos vãos, cornija, brasão e pináculos em cantaria basáltica; pilastras de argamassa; portas de madeira; grades de ferro; cobertura de telha.

Bibliografia

Angra do Heroísmo: Janela do Atlântico entre a Europa e o Novo Mundo. Horta (Faial): Direcção Regional do Turismo dos Açores, s.d.; FAGUNDES, Helena - «Na costa Terceirense Fortes ao Abandono». In Revista DI. nº. 357, 14 fevereiro 2010, p. 9; LUCAS, Alfredo (Pe.) - Ermidas da ilha Terceira. 1976; PINTO, Alexandre de Sousa - «O Hospital Militar da Boa Nova da Ilha Terceira». In O Serviço de Saúde na comemoração do IV Centenário dos Irmãos Hospitalários de S. João de Deus em Portugal. Actas do XVI Colóquio de História Militar. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar, vol. 2, pp. 953-959; http://saber.sapo.cv/wiki/Hospital_da_Boa_Nova, [consultado em dezembro 2011]; http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_do_Senhor_Bom_Jesus_da_Pedra, [consultado em dezembro 2011]; http://www.azores.gov.pt, [consultado em dezembro 2011]; http://www.auniao.com/noticias, [consultado em dezembro 2011]; http://ww1.rtp.pt/acores, [consultado em dezembro 2011]; http://www.acorianooriental.pt., [consultado em dezembro 2011].

Documentação Gráfica

Documentação Fotográfica

SIPA

Documentação Administrativa

Intervenção Realizada

1842 - restauro da capela; 1959 / 1965, entre - obras de restauro, durante a presidência do Dr. Manuel Coelho Batista Lima na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.

Observações

EM ESTUDO. *1 - A denominação de Capela da Boa Nova está ligada à rendição espanhola, no contexto da Guerra da Restauração Portuguesa, pois foi dali que, a 24 de agosto de 1642, saiu a "boa nova" que se espalhou por toda a ilha. Segundo o historiador Dr. Alfredo da Silva Sampaio, foi daquele local que o povo, que rodeava a ermida, viu a bandeira branca içada no mastro da fortaleza, soltando-se então de imediato o grito de boa nova, expressão que passou a denominar o local e a ermida. De acordo com Gervásio Lima, a ermida também foi conhecida inicialmente como de Nossa Senhora do Terço, devoção instituída em Angra pelo Padre António Vieira, em 1653, no regresso do Maranhão. Francisco Ferreira Drummond em seus "Anais da Ilha Terceira", refere um trágico episódio ocorrido na ocasião: "... consta-nos que achando-se este padre na ermida da Boa Nova, e um grande concurso de povo ao terço que ele ensinava pela primeira vez, se lhe cantasse, certo mancebo travara no adro algumas razões descompostas por um presbítero do hábito de São Pedro, e rugindo aquele para dentro da ermida, lá mesmo junto do altar, cruelmente o foi o mau clérigo atravessar com uma faca, de modo que logo faleceu". *2 - O Pe. António Cordeiro (1641-1722) na História Insulana, refere que a fortaleza "tem seu Hospital para os doentes soldados do castello, & com água dentro & cerca capaz de tudo, & em distancia do Castello hum tiro de mosquete; adiante e pouco mais de hum tiro de espingarda, está huma fonte perenne com seu chafariz, bicas & tanque água boa de que ordinariamente bebe gente do Castello & tem casa, & guarda do castello, & assentos com bella vista, etc. *3 - Posteriormente a denominação foi sendo alterada de acordo com a unidade que servia, tendo passado para Hospital Regimental de Infantaria 21, de Infantaria 5, de Infantaria 18, de Infantaria 8, de Caçadores 9, de Caçadores 10 e de Infantaria 25. *4 - Atualmente decorrem negociações entre o Governo e a Região Autónoma dos Açores, tendo em vista a transferência da posse do imóvel para o Governo Regional dos Açores, visando requalificar o espaço como um Museu Militar.

Autor e Data

Paula Noé 2012

Actualização

 
 
 
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