Escola Froebel / Creche do Jardim da Estrela / Lactário-Creche n.º 3

IPA.00007831
Portugal, Lisboa, Lisboa, Estrela
 
Arquitectura educativa, contemporânea. Chalé, destinado a jardim de infância, concebido para desenvolver o modelo de educação infantil de Froebel (o Kindergarten). A localização do edifício, a sua arquitectura e organização espacial respeitam este programa, obediente ao princípio do contacto com a natureza, à exigência de terrenos envolventes para recreio, exercícios físicos e trabalho educativo (entre eles a jardinagem), e à incorporação de preceitos de higiene escolar, sobretudo traduzidos na utilização de amplos vãos, em painéis móveis, que garantam iluminação natural e ventilação, de grelhas que permitam o arejamento permanente do edifício e ainda a separação das instalações sanitárias do edifício principal. Do ponto de vista pedagógico, a planta consagra igualmente a organização escolar do jardim de infância de Froebel: 4 salas destinadas às 4 classes que agrupavam as crianças por níveis etários, uma sala para jogos, além de sanitários, gabinetes e refeitório.
Número IPA Antigo: PT031106170470
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Educativo  Jardim de infância    

Descrição

Planta composta, desenvolvida segundo um eixo longitudinal (S.-N.) e em um só piso, resultante da articulação de corpos rectangulares e quadrangulares. A disposição dos volumes é horizontal e as coberturas, diferenciadas e escalonadas, são em telhados de uma, duas, três e quatro águas, à excepção da cobertura hexagonal de um dos corpos. Frontaria voltada a S., com acesso principal centralizado e assinalado por alpendre. As fachadas laterais são as de maior extensão. A disposição dos distintos corpos obedece à funcionalidade do edifício: dois rectângulos, correspondentes no plano original às salas de aula - intervaladas pelo vestíbulo, a S., e por um espaço de arrumações, a N. - encontram-se unidos por um corpo de base quadrangular, espaço este destinado a refeitório, casa de recreio e de exercícios escolares, assim se formando, nos alçados, dois pátios em "U", abertos e recolhidos. Este corpo central, mais elevado, recebe um tratamento distinto no topo, sobressaindo do conjunto a sua configuração hexagonal, desenho acentuado pela própria cobertura. A este conjunto, e a ele hierarquicamente subordinado, deverão ainda anexar-se as instalações docentes (dois gabinetes) e sanitárias (das crianças), localizadas na zona posterior da escola. Semelhante zona constrói-se a partir do corredor de ligação do edifício principal às instalações sanitárias, estas de planta rectangular, permitindo aquele ainda o acesso aos gabinetes laterais, de configuração quadrangular, localizados junto ao edifício principal. No prolongamento dos gabinetes, foram posteriormente adossadas duas construções. O edifício tem uma expressão arquitectónica próxima do chalé, cujo efeito geral decorre em grande medida dos materiais utilizados - a madeira, o vidro e a telha -, do aproveitamento da estrutura na composição dos alçados, da opção por uma fenestração continuada e da presença das coberturas de beirais salientes e distintas orientações. Na sua composição conjugam-se estes elementos, segundo uma matriz simétrica e repetitiva: alçados ritmados por linhas verticais e horizontais correspondentes ao esqueleto do edifício, elementos estruturais a servir de moldura aos vãos envidraçados e aos painéis de madeira, encimados, junto à cimalha, por respiradores contínuos. Antes das alterações introduzidas em meados do sec. 20, o edifício era quase intregralmente envidraçado, à excepção dos cunhais, dos painéis que ladeavam a entrada principal e do corpo das instalações sanitárias. Interior - Mantém a compartimentação primitiva, embora com modificações pontuais, quer de ocupação funcional quer de circulação, nomeadamente pela introdução de paredes divisórias nas salas a S. (um gabinete e uma casa de banho) e transformação de uma das salas (a O.) em cozinha. As paredes e os tectos são rebocados e pintados, encontrando-se hoje anulada a função inicial dos respiradores.

Acessos

Praça da Estrela, Rua da Estrela, Rua de São Jorge, Rua João Anastácio e Rua de São Bernardo (Jardim Guerra Junqueiro / Jardim da Estrela)

Protecção

Incluído na Zona Especial de Proteção da Basílica da Estrela (v. 00010613)

Enquadramento

Urbano, localizado no interior do Jardim da Estrela (v. PT031106170615), no ângulo NO., próximo do portão com acesso pelas ruas de São Jorge e da Estrela. Implantado num terreno nivelado entre um registo diferenciado de cotas, o edifício emerge de uma clareira serpenteada por arruamentos e enquadrada por frondosa arborização. Isolado, apresenta a fachada lateral E. voltada ao circuito interior do jardim, em cota ligeiramente superior, enquanto a lateral O., na zona de desnível mais abrupto, acompanha a poucos metros o muro de sustentação das terras da plataforma superior, em parte ocupada por um lago, junto ao gradeamento exterior do Jardim da Estrela e ao nível da rua. O espaço escolar diferencia-se do espaço público por um baixo gradeamento, onde se abrem duas entradas (uma a S. e outra a N.) de acesso ao recreio que envolve o edifício desde a frontaria até ao alçado posterior (pelo lado E.).

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Educativa: jardim de infância / creche

Utilização Actual

Educativa: jardim de infância / creche

Propriedade

Pública: municipal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 19

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTOS: José Luís Monteiro, Duarte Nuno Gomes Simões (1982). ENGENHEIRO: Amâncio Barge Rio Tinto; Aquilino Ribeiro Machado. EMPREITEIROS: J. Andrade Raposo, Construções Lda.. REABILITAÇÃO: Marcenaria e carpintaria Mecâniac Artex, Lda., Socodefil - Sociedade de Construções Manuel Delgado & Filhos, Lda.. ALARMES: Grupo 8 - Vigilância e Prevenção Electrónica, Lda.

Cronologia

1878 - A Carta de Lei datada de 2 de Maio, e assinada pelo ministro do Reino António Rodrigues Sampaio, constitui o primeiro documento legislativo a determinar a criação de estabelecimentos públicos de educação infantil, cabendo a sua promoção às juntas gerais do distrito e às câmaras municipais, coadjuvadas com o auxílio do Governo; 1880 - com José Luciano de Castro, o governo continua a insistir nesta política, pronunciando-se favoravelmente pelo sistema educativo de Froebel e, face à novidade que ele constitui em Portugal, pela necessidade da instituição de uma escola modelo: criados por este pedagogo germânico na terceira década do séc. 19 e divulgados nos demais países da Europa na segunda metade de oitocentos, os Kindergarten destinavam-se à educação da primeira infância (entre os 3 e 6/7 anos de idade), assentavam no princípio do desenvolvimento físico e intelectual das crianças em intímo contacto com a natureza e sustentavam-se numa prática pedagógica que incluia os jogos (ginástica), os cânticos, a jardinagem, os trabalhos manuais e uma aprendizagem realizada através de histórias e contos; 1880, Junho - no âmbito das Comemorações do Tricentenário de Camões, a Câmara Municipal de Lisboa toma a iniciativa de fundar um Jardim de Infância pelo método Froebel; 1880, Agosto - a Câmara envia um professor primário ao Congresso Internacional de Pedagogia, realizado em Bruxelas, onde este visita, juntamente com outros docentes portugueses, como Teófilo Ferreira, várias escolas froebelianas; 1881 - diversas reuniões do Governador Civil com as comissões nomeadas para a execução do projecto, uma da Câmara, composta pelos vereadores Luís de Almeida e Albuquerque, José Elias Garcia e Teófilo Ferreira, e outra da Junta Geral do Distrito, integrada por Ferreira Braga, Oliveira Soares e Serzedelo Júnior: entre outras resoluções, algumas ligadas à formação de professores no sistema Froebel, fica estabelecido que a Junta Geral do Distrito participaria na construção da escola com um auxílio pecuniário de 4.500$000 réis e que a Câmara cedesse o terreno, ficando por apurar qual o subsídio a dar pelo Estado para a escola-modelo e seu funcionamento; 1882 - a situação de impasse é desbloqueada, em parte por acção de Teófilo Ferreira, agora vereador do pelouro de Instrução da Câmara, que propõe a inauguração da escola para 21 de Abril, data do centenário do nascimento de Froebel, conseguindo em sessão camarária de 17 Março a aprovação necessária para a Repartição Técnica da Câmara elaborar o projecto, bem como recorrer ao sistema de tarefas de molde a que se procedesse à construção da escola em um mês; 1882 - a escolha do terreno a ceder pela Câmara recai no Jardim da Estrela, em detrimento das opções da Rua da Infância (actual Voz do Operário) e da Rua do Patrocínio, por esta localização permitir as recomendações de Froebel quanto à arquitectura escolar e sua envolvência: em vez de salas e pátios cercados por muros e habitações, os edifícios escolares deveriam ser rasgados por amplas janelas, para garantir a renovação do ar, a entrada do sol e a iluminação natural, bem como possuirem terreno para a existência de pátios cobertos e jardins onde as crianças poderiam trabalhar e brincar;1882, Março - a Câmara Municipal do Porto desenvolve diligências para fundar também naquela cidade um jardim de infância, requerendo a colaboração da Sociedade de Instrução do Porto, instituição que apresenta então diversos projectos de escolas froebelianas;1882, 13 Abril - suspensão das obras no Passeio da Estrela por vozes se levantarem contra a destruição de sete árvores e nove vergônteas, autorização entretanto obtida; 1882, 21 Abril - é inaugurado o Jardim de Infância de Lisboa desenhado por José Luís Monteiro, sensivelmente dois anos depois de tomar posse como Arquitecto da Repartição Técnica da Câmara: na inauguração estão presentes o ministro dos Negócios do Reino, Tomás António Ribeiro Ferreira, o governador civil de Lisboa, António Maria Barreiros Arrobas, e o presidente da Câmara, Rosa Araújo; 1882, Novembro - início do funcionamento da escola, equipada com material pedagógico concebido por Froebel, com capacidade para albergar 200 crianças, divididas por grupos etários em quatro classes e contando com 4 professoras, quatro educadoras (designadas jardineiras), um professor de ginástica e outro de canto, além de pessoal auxiliar e de substituição; 1886 - o Livro de Matrículas (CML: Arquivo Histórico) da escola regista até 26 de Junho 505 crianças inscritas; 1892 - ascende a cerca de 3.000 o número de crianças de ambos os sexos que, entre os 2 anos e meio e os 7 anos, frequentaram a escola desde 1882; 1915 - o jardim de infância deixa de funcionar, não se conhecendo com rigor qual a sua ocupação durante os dez anos seguintes; 1925 - no intuito de combater a mortalidade infantil e promover a saúde da criança, a Repartição de Instrução e Assistência da Câmara Municipal de Lisboa, ao tempo da vereação de Alexandre Ferreira, cria uma rede de lactários municipais a abranger diversas freguesias: além do fornecimento de leite de vaca às crianças até aos 18 meses, procedia-se igualmente a pesagens, banhos, vacinações e consultas de pediatria; 1925, 1 de Julho - é inaugurado o lactário n.º 3, aproveitando-se o pavilhão da antiga Escola Froebel, assim como se instala também uma creche onde as mães trabalhadoras podem deixar as crianças; 1926 - no segundo semestre a frequência média diária para o lactário ronda as 140 crianças para uma distribuição de mais de 100 l. de leite, enquanto na creche permanecem, para um horário que se estende das 9h às 18 h., cerca de 35 crianças, números estes que se mantêm até Julho do ano seguinte; 1927, 23 Junho - com a nova situação política decorrente da instauração da Ditadura Militar e a sequente revisão da política assistencial republicana da autarquia, a rede de lactários municipais, em número de 7, passa a ser gerida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, assinando-se uma escritura de cedência entre a CML e a SCML, mantendo-se assim em funcionamento o lactário-creche do edifício da antiga Escola Froebel; 1937 - por certidão de escritura infirma-se a continuação dos lactários municipais a cargo da Misericórdia: o n.3, além da função consignada, continua a manter a creche; 1938 - a Misericórdia de Lisboa concede autorização às alunas do Instituto de Serviço Social para ali realizarem parte da sua formação profissional; 1946 - o ensino prático da puericultura às filiadas no Centro da Mocidade Portuguesa Feminina do Liceu Pedro Nunes é realizado no lactário-creche aos Sábados; 1946, Maio - são estabelecidas novas lotações para os lactários, ficando a da Estrela fixada em 150 crianças; 1956 - a Misericórdia de Lisboa procede a uma reorganização dos serviços de assistência materno-infantil: o edifício da Estrela é encerrado para obras profundas, datando desta intervenção, entre outras opções, a redução das áreas envidraçadas e alterações na compartimentação interna; 1957 - reabre unicamente como creche; 1961, 13 Março - a regente solicitou a construção de uma nova divisão para sala de jantar, o que não foi concretizado; 1978 / 1980 - assaltos frequentes; 1982, Julho - a Comissão de Obras da SCML propõe ao IPPC a demolição do edifício e a construção em seu lugar de um novo edifício; 1982, 6 Dezembro - o Arquitecto Duarte Nuno Gomes Simões apresentou a proposta para a elaboração do projecto de reconversão do imóvel; 1983, 20 Novembro - o engenheiro Amâncio Barge Rio Tinto propôs a elaboração do projecto de instalação de águas e esgotos do imóvel; 1983, Novembro - o Engenheiro Aquilino Ribeiro Machado apresentou a sua proposta de elaboração dos cálculos dos novos elementos estruturais correspondentes às alterações projectadas; 1982, 28 Dezembro - Por proposta da Comissão Administrativa de Obras da SCML a Mesa deliberou adjudicar ao Arquitecto Duarte Nuno Simões a elaboração do projecto de remodelação do imóvel; 1983, 30 Novembro - Adjudicação à firma J. Andrade Raposo, Construções Lda. da empreitada de obras de conservação exterior; 2002 - continua a desenvolver o mesmo projecto, recebendo 50 crianças entre os três meses e os três anos.

Dados Técnicos

Estrutura mista

Materiais

Tijolo, madeira, vidro, telha

Bibliografia

Froebel, 1882 (revista pedagógica que publica diversos artigos de Teófilo Ferreira, José Elias Garcia e Simões Raposo sobre jardins de infância e a Escola Froebel); SAAVEDRA, Carlota A. de Carvalho e SAAVEDRA, João C. de Carvalho, Jardins de Infância, Escolas Primárias e Normais na Suiça, França e Espanha, Porto, 1888; Jardim de Infância de Lisboa, Coimbra, 1892; A Escola Froebel no Passeio da Estrela in Branco e Negro: semanário ilustrado, Lisboa, Ano 1, Vol. 1, n.º 20, 16 de Agosto de 1896, p. 6; CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA, Repartição de Instrução e Assistência, Ano de 1925 - Relatório do Vereador Alexandre Ferreira, Lisboa, 1926 (contém fotografias do lactário-creche); PIMENTEL Filho, Alberto, Lições de Pedagogia Geral: História da Educação, Lisboa, s.d., pp. 200-201; ALMEIDA, Pedro Vieira de, História da Arte em Portugal (vol.14 - A Arquitectura Moderna), Lisboa, 1986; GOMES, Joaquim Ferreira, A Educação Infantil em Portugal, Lisboa, 1986 (2ª ed.); Muitos Anos de Escolas (vol.1 - Edifícios para o Ensino Infantil e Primário), Lisboa, 1987; José Luiz Monteiro na Arquitectura da Transição do Século, Lisboa, 1990; CRISTINO, Ribeiro, Esculpturas do Passeio da Estrela in Estética citadina: a anotações sobre aspectos artísticos e pitorescos de Lisboa, s.l., 1990, pp. 130-133; Carta Topográfica da Cidade de Lisboa, e seus arredores, redigida e gravada na Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos (de 1856 /58), Lisboa, 1995; Provedores da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa desde 1851, Lisboa, 1995; José Luís Monteiro, Marcos de um Percurso, Lisboa, 1998; Inventários do Arquivo Municipal de Lisboa: Serviço de Instrução Municipal 1873-1926, Lisboa, 1999; DURÃO, Susana, "A primeira creche de Portugal", in História, nº 35, Abr.-Maio 2001, pp. 36-39;

Documentação Gráfica

CML: Arquivo do Arco Cego

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID; Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: Arquivo Histórico e Biblioteca

Documentação Administrativa

CML: Arquivo Histórico; SCML: DGIP; Obras

Intervenção Realizada

SCML: 1956 - obras de reconstrução e adaptação; 1981 / 1982 - introdução de sistemas anti-roubo pela firma Grupo 8 - Vigilância e Prevenção Electrónica, Lda.; 1984 - obras de recuperação que implicaram o fecho da creche; 1987 - obras de beneficiação; 2001 - obras de beneficiação

Observações

Autor e Data

Filomena Bandeira 1999 / 2001 / Helena Mantas e João Simões 2006

Actualização

 
 
 
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