Edifício na Praça D. Pedro IV, n. 21 - 27/ Tabacaria Mónaco / Livraria Diário de Notícias / Café Nicola

IPA.00007822
Portugal, Lisboa, Lisboa, Santa Maria Maior
 
Edifício residencial multifamiliar e comercial pombalino e arquitectura comercial, eclética e art déco. Prédio de rendimento, integrado nos planos pombalinos, de planta rectangular simples e evoluindo em cinco pisos, com águas-furtadas nas coberturas. O segundo piso apresenta tratamento mais cuidado, com janelas que abrem para sacada corrida, com vãos rectilíneos nos pisos inferiores e em arco abatido no antepenúltimo, todos com molduras de cantaria recortadas. No piso inferior, situam-se lojas, tendo a tabacaria Mónaco, um estabelecimento comercial de planta rectangular de reduzidas dimensões, de fundação oitocentista e na época destinado à venda de produtos específicos, de qualidade, como os tabacos, ou de distribuição restrita, como a imprensa estrangeira. Apresenta uma decoração concebida no seu todo, quer no aproveitamento do espaço quer na sua concepção estética, revelando um hibridismo que provém não só do eclectismo dos elementos decorativos utilizados (pintura naturalista, mobiliário neoclássico, caixilharias neogóticas, entalhamentos neobarrocos) como também da inspiração buscada em ambientes intimistas religiosos (capelas) ou domésticos (habitação). Em todo o projecto da tabacaria salienta-se a integração das artes, visto vários artistas se proporem a trabalhar em conjunto. A renovação qualitativa deste espaço aponta para uma preocupação oitocentista, onde a decoração de interiores arquitectónicos assentava na ideia da unidade das artes. O Café Nicola é um estabelecimento comercial com uma decoração interior art déco tardia, na época destinada a um público mais cosmopolita e refinado. Edifício pombalino, a que foi acrescentado mais um piso, elevando-se na cércea dos demais lotes que compõem a praça, este de sacada corrida, seccionada por papagaios. A Tabacaria Mónaco constitui um exemplar quase único duma tabacaria do fim do século 19, sendo um dos poucos estabelecimentos comerciais da sua época que mantém a actividade inicial, bem como a decoração interior e o mobiliário sem alterações. A azulejaria, da Fábrica das Caldas e com desenho de Rafael Bordalo Pinheiro, ilustram a vertente caricaturista deste artista, numa corrente minoritária em termos de produção de azulejos no século 19. O Café Nicola, inaugurado em 1929 e concebido pelo arquitecto Norte Júnior, obedeceu a uma linha mais mundana, exuberante e com uma rápida capacidade de absorção das correntes e gostos - uma estética citadina, muitas vezes revivalista, onde o fascínio pelo novo luxo urbano e civilizado, encontra nos equipamentos civis o suporte para a afirmação de autores. Este ecletismo historicista é caracterizado por uma modelação algo excessiva e pela saturação decorativa. O Café Nicola é um claro testemunho do ecletismo exuberante, ainda de tradição fino-oitocentista, que se desenvolveu nos primeiros anos do século 20. Norte Júnior nesta obra prende-se ainda à imagem oitocentista exótica, de linhas curvas e com recorrências a um sentido clássico da composição. Um eco tardio de uma gramática que, apesar de tudo, ainda fazia o gosto de muitos arquitectos. Em 1935, Raul Tojal coordena as obras de modernização, na qual utilizou uma gramática arte déco essencialmente gráfica e sintética. Gosto inspirado num estilo geométrico, expresso em: vãos rectos emoldurados por padrão vegetalista estilizado; divisão decorativa das paredes em sectores rectangulares através de pilastras simplificadas; cadeiras, mesas e candeeiros que obedecem também a uma estruturação geométrica. O recurso a espelhos, a cuidada atenção do mobiliário, as cores claras e lisas, a sanca de iluminação indirecta, são aspectos que mantém a traça original.
Número IPA Antigo: PT031106310493
 
Registo visualizado 1694 vezes desde 27 Julho de 2011
 
   
   

Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Residencial multifamiliar  Edifício  Edifício residencial e comercial  

Descrição

Planta rectangular simples, desenvolvendo-se em seis pisos - cave e quatro andares, de volumetria vertical, com cobertura homogénea em telhado de quatro águas, integrando águas-furtadas, parcialmente escondidas por uma platibanda balaustrada. A composição do edifício reflecte a sua ocupação, com o piso térreo integralmente ocupado por espaços comerciais (Tabacaria Mónaco, Livraria Diário de Notícias, Café Nicola e uma porta de acesso ao refeitório do Banco de Portugal), todas ela com decorações diferenciadas, de acordo com o gosto da época em que foram remodeladas; os restantes pisos estão ao serviço do BANCO DE PORTUGAL, com dois acessos, um pelo nº.16 da Rua 1º de Dezembro (antigo acesso da Tabacaria Mónaco, hoje ocupado por um elevador de serviço) e outro pelo lado do Rossio, numa entrada estreita e profunda, onde umas escadas e um elevador dão acesso aos restantes pisos. EDIFÍCIO com a fachada principal voltada à Praça D. Pedro IV de dois panos dividida por uma pilastra de cantaria que se alinha segundo o eixo centralizado do edifício, com os panos rebocados e pintados, apresentando, acima do primeiro piso, um friso de cantaria pouco saliente, salientada por uma varanda de sacada corrida, assente em base em cantaria e guarda metálica em ferro fundido, vazada. A composição simétrica da fachada é ritmada pela abertura regular de seis vãos de verga recta com emolduramento de cantaria recortada. No segundo piso, o andar nobre surgem, em cada pano, três vãos rectilíneos com moldura comum e divididos por pilastras de fustes almofadados, que sustentam o remate em friso e cornija. Os pisos imediatos possuem janelas de peitoril rectilíneas e em arco abatido, respectivamente, as segundas com os fechos salientes. No último piso, surge uma sacada corrida, seccionada por papagaios, com a bacia assente em modilhões, e com guardas metálicas em ferro fundido, para onde abrem janelas rectilíneas. A fachada posterior remata em cornija, acima da qual se eleva uma platibanda em balaustrada ritmada por acrotérios e é rasgada por seis vãos de verga recta em cada piso, sendo o piso térreo dominado pelas fachadas diferenciadas das lojas, o seguinte por janelas de sacada individual, com bacias em cantaria e guarda em ferro fundido; os segundo e terceiro pisos têm vãos de verga recta e o superior com vãos em arco abatido. TABACARIA MÓNACO com espaço único, de planta rectangular estreita e profunda, com acesso por porta de verga recta, rasgado sobre superfície rebocada e quase até ao limite da sacada do primeiro piso do edifício. A exiguidade do espaço interior, conformado a um rectângulo, é compensada por uma esmerada decoração a conjugar azulejaria, pintura mural e mobiliário. A fachada da loja circunscreve-se ao vão de verga recta, flanqueado por dois pilares, assentes em plintos salientes, ladeadas por dois painéis de azulejos de composição figurativa, policromos, representando cegonhas e rãs. No INTERIOR, a decoração murária e mobiliário contribuem para uma diferenciação funcional de um espaço arquitectonicamente não compartimentado, exceptuando a instalação sanitária. Assim, o tecto abobadado apresenta nas zonas do escritório (ao fundo) e da entrada caixotões de madeira, enquanto no espaço intermédio mostra pintura figurativa representando o céu com andorinhas esvoaçando. Nas paredes, a partir da zona do escritório, expositores de madeira encastrados a toda a altura, do lado direito, e até ao silhar de azulejos figurativos em monocromia azul e branco, do lado esquerdo. Estes retomam a temática dos painéis exteriores, conhecendo um desenvolvimento figurativo afim do espaço comercial que decoram: entre outros animais com atitudes humanas, observam-se rãs a ler os jornais "O Século" e o "Diário de Notícias". Do lado direito, os expositores são interrompidos por um nicho, também de madeira, em arco pleno, tendo nas cantoneiras as iniciais do proprietário; alberga um lavatório semicircular sustentado por coluna de secção quadrada, ambos de mármore, apresentado a bacia decoração geométrica na base e bordo, enquanto no bojo se observa a inscrição "Águas de Sintra, Caneças e Moura". A parede de fundo do nicho é revestida por azulejos relevados de padrão vegetalista, em policromia. A zona de atendimento encontra-se marcada pelo balcão em "L", de disposição longitudinal, correndo junto ao expositor do lado direito e no enfiamento do escritório, área de acesso restrita, definida por uma estrutura paralelepipédica a meia altura, de madeira e vidro martelado. Ao lado do escritório e prolongando o eixo de circulação do público, localizam-se umas escadas de madeira com corrimão trabalhado que dão acesso, por uma porta com caixilharia de madeira e vidro fosco, à instalação sanitária. Sobre a cornija de remate do expositor esquerdo e junto ao arranque do tecto, num complemento realista à sua decoração, estão colocados cabos telefónicos sobre os quais poisam andorinhas. CAFÉ NICOLA de planta rectangular, evoluindo em dois pisos, incluindo a cave. Fachada trabalhada em cantaria, com um único vão em arco abatido, assente em duas estípides, ornadas por elementos vegetalistas e assentes em plintos paralelepipédicos, sustentando dois candeeiros metálicos, e, ao centro, em duas colunas de fuste liso e capitéis jónicos *1, e com grande friso, volutado nos extremos, onde está inscrito o nome do café; está protegido por caixilharias de madeira e vidro, de perfil sinuoso, flanqueado por dois delfins e dois plintos que sustentam duas esculturas de vulto. Na fachada posterior, um segundo acesso ao Café, através de porta de verga recta, flanqueado por três vãos envidraçados, com molduras em calcário, superiormente com friso de óvulos e dardos, surgindo, entre elas, caneluras; na base, vãos rectangulares jacentes e circulares, servindo de respiradouros. No INTERIOR, desenvolve-se, no piso térreo, a pastelaria, salão de chá e copa, surgindo, na cave, a sala de refeições, cozinha e instalações sanitárias. O salão é composto por dois rectângulos, com decoração interior rica em materiais nobres, como o vidro, os ferros, cromados, pedra e os espelhos. Possui pavimento de xadrez e as paredes laterais revestidas por placas de opalina, divididas por pequenos frisos cromados, sendo seccionado por balcão em L, com telas pintadas a ólelo, retratando vários episódios anedóticos ligados à vida do poeta Bocage. A romper o pavimento do café, existe uma escada de acesso à cave, actualmente a sala do restaurante. Junto à zona de refeições, e colocada numa posição centralizada em relação à entrada principal, estátua de Bocage. A sub-cave, serve de sala de refeições e apresenta decorações em ferro, cromados e paredes forradas a tecido acetinado. A iluminação processa-se por lustres. LIVRARIA DIÁRIO DE NOTÍCIAS de planta composta por dois rectângulos alinhados verticalmente, desenvolvida em quatro níveis diferentes, ao nível da cota do pavimento; junto à entrada do estabelecimento pelo lado do Rossio, é inferior à da via pública; através de uma estrutura metálica, que divide o pé direito da livraria em duas zonas comunicantes, há um aproveitamento do espaço interno, criando assim mais um nível.

Acessos

Praça D. Pedro IV, n.º 21 a 27; Rua Primeiro de Dezembro, n.º 16 a 26. WGS84 (graus decimais): lat. 38,713034; long. -9,139710

Protecção

Categoria: MIP - Monumento de Interesse Público, Portaria n.º 269/2017, DR, 2.ª série, n.º 176, de 12 setembro 2017 (Tabacaria Mónaco) / Incluído na classificação da Lisboa Pombalina (v. IPA.00005966) / Em vias de classificação (Café Nicola)

Enquadramento

Urbano. Integra a frente urbana do quarteirão S. do lado O. da Praça D. Pedro IV (Rossio), constituída por vários edifícios adossados, com diversos espaços comerciais no nível térreo. Edifício de duas frentes, tem a fachada principal voltada para a área histórica central do Rossio, uma praça caracterizada pela homogeneidade das frentes e pela circulação pedonal. A praça, onde se situa o edifício, é marcada pela existência de algumas esplanadas, bem como por diversos estabelecimentos comerciais, e no topo Norte desta, o Teatro Nacional D. Maria II (v. PT031106310043).

Descrição Complementar

Aplicada na pilastra que secciona a fachada principal, placa comemorativa que assinala: "Neste prédio viveu e iniciou a sua vida literária o grande escritor Eça de Queirós. Homenagem do Círculo Eça de Queiróz e da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. 1866-1966." A entrada do refeitório do Banco de Portugal possui azulejos de padrão 2x2, formando silhar, com decoração de motivos vegetalistas, em monocromia de azul-cobalto sobre fundo branco. Possui, sobre a porta da entrada, um medalhão circular com as armas do Banco de Portugal em bronze. A TABACARIA MÓNACO tem, no exterior, dois painéis de composição figurativa, aplicados verticalmente, de monocromia azul-cobalto sobre fundo branco, delimitados por uma moldura em amarelo, representando animais com gestos humanos, femininos, quotidianos e socialmente distintos, tratados com ironia e em alusão ao consumo de produtos vendidos na tabacaria: rãs e cegonhas seguram caixas de rapé. No interior, silhar de azulejos figurativos em monocromia azul em fundo branco, servindo de enquadramento inferior um rodapé saliente em mármore rosado e de enquadramento superior o remate em madeira exótica de um expositor encastrado na parede; os motivos de inspiração são idênticos aos da azulejaria exterior desta feita surgindo de novo rãs e cegonhas que lêem os jornais da capital de maior tiragem, uma fábula que mostra rãs e aves imitando gestos urbanos, como ler e fumar. A aplicação de azulejos surge ainda nas paredes do nicho que enquadra para lavatório: azulejos relevados, do tipo das Caldas, com motivos em nenúfar e rã estilizados formando padrão policromo. Os expositores e balcão são executados em madeiras nobres.

Utilização Inicial

Residencial: edifício residencial e comercial

Utilização Actual

Residencial: edifício residencial e comercial

Propriedade

Privada: pessoa singular / Pública: estatal

Afectação

Sem afetação

Época Construção

Séc. 18 / 19 / 20

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITETOS: Alfredo Saldanha (1994); Carlos Augusto Sousa e Faro Clara; Eugénio dos Santos (1758); Graça Viterbo (1994); João de Sousa Araújo (1966); Jorge Segurado (1932); Manuel Joaquim Norte Júnior (1929); Raúl Tojal (1935); Rosendo Carvalheira (1894). DESIGNER: Frederico Augusto Ribeiro (1894). ENGENHEIROS: Carlos Mardel (1758); Carlos Santos; Diamantino Francisco Tojal (1950); João Pedro Dias de Almeida (1973); José Pereira Borda Júnior (1954); Lobato de Mello; Manuel da Maia (1755); Vítor Manuel Alves de Figueiredo (1973). ESCULTORES: Marcelino Norte de Almeida (1935); Pedro dos Reis (1894); Silva Carvalho (1929). PINTORES: António Ramalho (1894); Fernando Santos (1935). PINTOR DE AZULEJO: Rafael Bordalo Pinheiro (1894).

Cronologia

1755, 01 novembro - um terramoto arrasa grande parte da zona baixa da cidade; 29 novembro - alvará dando condições para que o ministro da inspeção de cada bairro procedesse ao levantamento de todas as ruas, praças e edifícios públicos existentes em 31 de Outubro, para elaborar um cadastro de cada um dos bairros da capital; o engenheiro Manuel da Maia é escolhido para proceder à direção técnica da reconstrução; 04 dezembro - entrega da Parte Primeira da Dissertação de Manuel da Maia; 30 dezembro - Sebastião José de Carvalho e Melo proibiu toda e qualquer construção até à definição de um plano; 1755 - 1758 - elaboração do projeto-piloto para a reconstrução da Baixa; 1756, 31 março - Parte Terceira do relatório de Manuel da Maia, onde se introduzem as primeiras quatro hipóteses desenhadas para reflexão sobre a reconstrução da cidade baixa; determina-se que os prédios devem ser todos de três pisos, o que viria a ser recusado; 1758, 12 maio - Lei estabelece os direitos públicos da edificação por meio de "um plano decoroso, digno da capital" e determinando que os terrenos em que se deviam levantar os edifícios se começassem a entregar; junho - estabelece-se que os prédios teriam uma cércea de quatro pisos com águas-furtadas; Manuel da Maia, lamenta não ter condições físicas para realizar os desenhos e informa ter designado para apurar a planta final e dirigir as obras os engenheiros Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, cabendo a Eugénio dos Santos, arquiteto do Senado, o desenvolvimento das peças principais; os projetos têm a convergência e cumplicidade de Sebastião José de Carvalho e Melo e os membros do seu gabinete; 1759, 12 junho - ordem para entrega dos terrenos das ruas antes chamadas dos Ourives do Ouro, dos Douradores e dos Escudeiros, que seriam integradas na nova rua nobre designada de Augusta; o Marquês de Pombal dá instruções sobre a maneira como os proprietários deveriam tomar posse dos seus terrenos, a fim de iniciar a reedificação da Baixa, começando simultaneamente do Terreiro do Paço para o N. e do Rossio para o S., para maior urgência; 1760 - 1769 - o chão do edifício pertence à Junta do Comércio; 1762 - 1777 - data provável da construção do prédio; 1769, 06 março - entre outras medidas legislativas do Marquês de Pombal para acelerar a construção da rua Augusta, surgiu nesta data um decreto que procurava salvaguardar a edificação desta rua em primeiro lugar; 1773, 21 junho - resolução do Marquês, alterando as disposições do anterior decreto, e estipulando que a Junta do Comércio deveria assumir a edificação dos prédios ainda não iniciados pelos proprietários dos chãos, gerindo depois as Obras Públicas a sua administração, enquanto as vendas não se verificassem; 1777 - 1779 data de fundação de um botequim; 1780 - primeira referência à existência de um café no local; 1787 - a "Gazeta de Lisboa" publicita pela primeira vez um café pertencente a um italiano de nome Nicola, ocupando a loja do Rossio com os números 24 e 25, e a loja com os números 22 e 23, ocupados então pelo bilhar do café; 1800 - o café era frequentado por muitos opositores do intendente Pina Manique; séc. 19, inícios - ainda no sítio do café, instala-se a Ourivesaria Xavier de Carvalho; 1809 - reunem-se no Nicola muitos partidários de ideias francesas, liberais e o poeta Bocage; 1824 - frequentado por gente suspeita; 1825 - o café passa de dono e pertence a Rosa Maria Athayde; 1829 - a "Gazeta" refere o trespasse ou o arrendamento do café com o seu bilhar; 1834 - encerramento do antigo botequim Nicola; Dias Sombreiro torna-se proprietário do espaço; 1837 - acabam os bilhares do café Nicola e o estabelecimento foi trespassado para albergar a Livraria Francisco Arthur da Silva; 1854 - passou para a firma Silva Junior & C.ª, ainda como livraria; 1875 - fundação da Tabacaria Mónaco no edifício por João César Vieira da Cruz; 1880 - o antigo café surge como um "Salon de Mode" do comerciante Francisco Salles Ramos; 1890 - antigo depósito de vidros da Marinha Grande ocupa o atual espaço da livraria Diário de Noticias, onde, anos mais tarde, será a sucursal de "O Século", fundada por Silva Graça; 1894 - obras de remodelação na tabacaria dirigidas pelo arquiteto Rosendo Carvalheira, com a ampliação do espaço interior na zona posterior, e recebe uma decoração resultante do contributo de diversos artistas como Rafael Bordalo Pinheiro para a azulejaria, António Ramalho na execução da pintura mural, Frederico Augusto Ribeiro na conceção do mobiliário e Pedro dos Reis na escultura; séc. 19, final - a Mónaco, que vendia tabacos e jornais nacionais e estrangeiros, era uma das tabacarias mais célebres da Baixa, sendo frequentada por artistas, intelectuais e políticos da época como Eça de Queirós, Rafael Bordalo Pinheiro, João de Deus, Trindade Coelho, Gualdino Gomes, Marcelino Mesquita, Gomes Leal, Henrique Lopes Mendonça, Brito Camacho, João de Menezes, Faustino da Fonseca, Fialho de Almeida, etc; 1907 - 1908 - alterações na fachada e interior da ourivesaria; 1910 - António Xavier de Carvalho, proprietário da Ourivesaria, manda por uma frente de ferro; 1916 - Júlio Vieira da Cruz trespassa a Mónaco a José Rodrigues Marecos, proprietário da tabacaria Marecos na rua Primeiro de Dezembro; 1928 - Joaquim Fonseca Albuquerque, um antigo sócio do Café Chave d'Ouro, transfere para si a já tão famosa casa; 1929 - o Café Nicola fez tentativa de negociar com a Sociedade Nacional de Tipografia, proprietária do espaço do jornal "O Século", tendo em vista ampliar o café, mas o negócio não progrediu e a sucursal manteve-se encerrada, à espera de novo trespasse; execução de uma escultura de Bocage por Silva Carvalho; 02 outubro - o prédio volta a albergar um café; o novo proprietário resolve homenagear o antigo Nicola fundando um recinto elegante, requintado e cosmopolita - o Café Nicola; interiores e fachada concebidos pelo arquiteto Manuel Joaquim Norte Júnior; o sucesso da ideia de produção própria, levou Joaquim Fonseca Albuquerque a iniciar a comercialização do café com a marca Nicola fora de portas, celebrizando-se por todo o país; 1932, fevereiro - projeto de transformação e decoração da sucursal de O Século, da autoria do arquiteto Jorge Segurado, abrangendo todo o interior e exterior; 1935 - redecoração do espaço do Nicola pelo arquiteto Raúl Tojal, num estilo déco tardio mais geométrico, fazendo a transição da década de 30 para a de 40; só a fachada principal e a escultura de Bocage se mantêm intactas; abertura da sub-cave; 1937 - instalação de reclame luminoso no primeiro andar da rua Primeiro de Dezembro; alterações na fachada da sucursal O Século; 1938 - instalação de porta giratória no Café; 1948 - colocação de reclame luminoso no Café; e de néon publicitário no Século; 1950 - incêndio no café Nicola, destrói totalmente a cozinha; obras de recuperação do espaço sob a direção do engenheiro Diamantino Francisco Tojal: obras profundas na cozinha, modificação da localização das casas-de-banho, construção de monta-cargas para o serviço da copa, demolição de pequena loja onde se vendia café, ampliação do balcão, construção do bengaleiro e degraus de acesso ao Salão do restaurante; 1965 - remodelação do edifico pelo Banco de Portugal; obras profundas em todos os andares mantendo a fachada exterior; colocação de elevadores; alteração do vão de escadas, vigas e pilares; substituição de escadas de serviço por monta-cargas; instalação de sanitários; cozinhas no 4º piso, refeitório, zona de vestiário; criação de um sótão; 1966 - obras que repõem a água do telhado virada para a praça do Rossio, ou seja, em vez de duas mansardas, passa a ter as quatro primitivas, sob a direção do arquiteto João de Sousa Araújo; 1970 - criação de uma livraria na parte traseira da sucursal: alteração de paredes, pavimentos, coberturas, sistema de iluminação, instalação elétrica, sanitária e esgotos; 1973 - eliminação de um pilar central existente no plano da fachada e ao nível do piso do estabelecimento; construção de um pavimento sobrelevado (elementos de madeira apoiados em estruturas metálicas, que por sua vez, se apoiam às paredes de alvenaria); obra a cargo do engenheiro Vítor Manuel Alves de Figueiredo; séc. 20, década 80 - a família Albuquerque institui o Prémio de Poesia Nicola; 1984 - instalação de um novo balcão no Café com materiais e design que respeita a traça dos anos 30; 1985 - atribuição, pela primeira vez, do galardão; 1994 - projeto de alterações a cargo do arquiteto Alfredo Saldanha e do engenheiro João Pedro Dias de Almeida na Livraria: onde estava uma montra, dando para a Rua 1º de Dezembro (n.º 18), abertura de uma porta; estruturação do espaço interior da loja em 4 níveis: entrada, primeira zona de atendimento, numa cota mais baixa; segunda zona de atendimento à cota da Rua 1º de Dezembro, e zona em galeria; 1994 - o Nicola fecha por 8 meses devido às obras do metropolitano de Lisboa; com o reforço dos alicerces com betão, estas obras encurtam a cave (antes o armazém, e onde passa a funcionar o restaurante) e as casas de banho são diminuídas; recheio e revestimentos retirados, com a garantia que após o período de obras, tudo será reposto; remodelação por Graça Viterbo que recuperou o mobiliário original de 1935; 2000, janeiro - a Nutrinveste S.G.P.S. adquire a totalidade do capital dos Estabelecimentos Joaquim Fonseca de Albuquerque que detêm a marca Nicola; dá-se a fusão dos negócios dos Estabelecimentos Joaquim Fonseca de Albuquerque com a sociedade Vilarinho e Sobrinho (Chave d'Ouro), curiosamente um antigo rival do Nicola; desta fusão resulta a Nutricafés, empresa que concentra a atividade industrial das duas marcas; a gestão desta área de negócio contempla o fabrico, a restauração e a distribuição pelas lojas das duas marcas; 2000, julho - o estabelecimento Nicola no Rossio é distinguido pelo projeto Café Crème com o título "Café do Ano", um galardão atribuído às lojas de restauração que mais se destacam para a sociedade do seu respetivo país; com esta distinção, o estabelecimento do Rossio ficará reconhecido, para sempre, como o espaço mais emblemático da marca Nicola, estando associado à tradição e aos grandes pensadores da nossa História, de que o maior exemplo é o poeta Bocage; 2014, 12 dezembro - publicação do Anúncio do Despacho de abertura do processo de classificação da Tabacaria Mónaco, incluindo o seu património artístico integrado, em Anúncio n.º 292/2014, DR, 2.ª série, n.º 240; 2016, 18 novembro - é publicado o projeto de Decisão relativo à classificação como monumento de interesse público (MIP) da Tabacaria Mónaco, incluindo o seu património artístico integrado, DR, 2.ª série, n.º 222; 2019, 20 fevereiro - publicação do Anúncio n.º 30/2019, referente à abertura do procedimento de classificação do Café Nicola, piso térreo, incluindo o património móvel integrado (publicado no DR, 2.ª série, n.º 36/2019.

Dados Técnicos

Estrutura mista.

Materiais

Tabacaria Mónaco - Pedra mármore, vidro simples, fosco e pintado, madeira exótica, azulejo; Café Nicola - Pedra mármore, cantaria, opalina, ferro, tecidos, espelhos, vidro, madeira, metais cromados; Edifício e Livraria do Diário de Notícias - Betão, ferro, vidro, madeira, alvenaria, azulejo.

Bibliografia

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Documentação Gráfica

CML: Arquivo de Obras, proc. n.º 5940

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

CML: Arquivo de Obras, proc. nº 5940

Intervenção Realizada

PROPRIETÁRIO: 1908 - obras diversas no edifício e modificação da cobertura do saguão; 1929 - Teixeira Campos L.da faz obras no primeiro andar e efectua a cobertura do saguão, com cimento armado; 1944 - profundas obras de reparação, mandadas efectuar pela Inspecção de Saúde na pensão situada no 2º, 3º e 4º andar, propriedade de Maria Eugénia R. Campos; 1946 - obras de pintura e reparações nas canalizações e esgotos pluviais; 1939 - obras de limpeza e pintura da armação exterior da Tabacaria Mónaco; a tabacaria, durante as últimas décadas, beneficiou periodicamente obras de manutenção; 1947 - renovação do pavimento interior da Tabacaria Mónaco; no primeiro andar, obras de reparação no Bilhar do Rossio, L.da; 1954 - obras de beneficiação e limpeza geral, sob a direcção do engenheiro José Pereira Borda Júnior; 1955 - obras de limpeza, pintura e manutenção dos pavimentos do Café; 1959 - obras de limpeza geral e pintura do edifício; 1962 - devido a problemas com canalizações, que estiveram na origem das infiltrações no tecto da Tabacaria Mónaco, o bilhar do 1º andar é intimado a fazer obras; obras na chaminé.

Observações

*1 - segundo Juan Fernandéz Delgado as duas colunas na entrada do Café Nicola provêm de uma antiga igreja do século 16.

Autor e Data

Marta Airoso e Filomena Bandeira 2001 / Ana Reis 2005

Actualização

 
 
 
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