Edifício na Rua Nova de São Mamede, n.º 3 a 9

IPA.00007796
Portugal, Lisboa, Lisboa, Santo António
 
Edifício residencial multifamiliar e comercial modernista, que consagra uma variante à pesquisa formal experimentada no Hotel Vitória (v. PT031106450151 ). Dentro das diversas fachadas projectadas por Cassiano Branco nos anos 30, período intenso de produção onde se fixam modelos de prédios contaminantes da arquitectura residencial plurifamiliar da capital, esta foi das que conheceu menor difusão, embora alguns dos seus elementos de composição bem como de concepção global se possam encontrar em outros edifícios. Este imóvel, de arquitectura à época percepcionada como moderna e luxuosa, é assim de alguma forma singular.
Número IPA Antigo: PT031106460543
 
Registo visualizado 604 vezes desde 27 Julho de 2011
 
   
   

Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Residencial multifamiliar  Edifício  Edifício residencial e comercial  

Descrição

Planta quadrangular regular, de seis pisos, sendo o último recuado e o térreo destinado a loja, apresentando cada um dos pisos dois fogos. A cobertura é em terraço. Além da entrada principal, centrada e ladeada pelos amplos vãos da garagem, o edifício dispõe de dois portões laterais, no topo do terreno, acessos aos corredores que percorrem os alçados do prédio até ao logradouro, parte dele ocupado por um terraço - corresponde à cobertura do piso térreo - e ao qual se acede por uma escada. Composição regular, baseada no simetrismo e na utilização de elementos geométricos criadores de formas que animam e ritmam as fachadas. O tratamento mais apurado recai naturalmente na frontaria. Um gume saliente, a subir da porta principal até ao terraço, define um eixo vertical centrado, desenvolvendo-se nesta orientação o pano central onde se inscrevem, a ladear o gume, dois vãos rectangulares moldurados, assim se diferenciando bem as metades esquerda e direita de habitação; os distintos pisos são depois essencialmente valorizados, segundo linhas horizontais, pelas varandas que crescem a partir do pano central e se enrolam numa forma circular final em torno do ângulo do edíficio, bem assinalado por uma coluna cilíndrica: o varão assente sobre subtil gradeamento acentua e completa este efeito geral, particularmente explorado no último piso, recuado, surgindo a varanda como um elemento de remate, abaixo do da cobertura. O piso térreo diferencia-se do corpo habitacional por um ligeiro recuo, com a superfície revestida a pedra, ficando "encoberto" pelas varandas do 1º andar, sob as quais se abrem as portas da garagem; já a entrada no edifício é rasgada no alinhamento do pano central, sendo coroada por uma pala semicircular. A intenção, subjacente a esta composição, de criar efeitos de claro-escuro através de distintos planos que ora avançam, recuam ou encurvam, está bem testemunhada nos sombreados do desenho onde, no projecto inicial, se representa o alçado principal. Nas outras fachadas a composição é mais simplificada, obedecendo no entanto aos mesmos princípios de regularidade e simetrismo: no alçado posterior a partir de esquerdo/direito tendo por eixo a escada de serviço; nos alçados laterais a partir dos pisos, reflectindo a organização interna do espaço (quarto mais amplo com duas frentes envolto pela varanda, zona correspondente aos quartos e por fim sala de jantar, também com duas frentes e dispondo de varanda a tardoz) e reintroduzindo a diferenciação dos pisos térreo e recuado face aos demais. A distribuição do espaço interno, por fogo e lida pela planta original, organiza-se a partir de um corredor longitudinal e conta com um saguão interior: para a frente, uma sala, um escritório e o quarto mais amplo da casa; para a fachada posterior, a sala de jantar, zona de engomados e a cozinha; no corredor que liga estas duas zonas abrem-se quatro quartos de áreas iguais, sendo-lhes fronteiras outras divisões mais reduzidas destinadas a "arrumações" e "dispensa", seguidas das instalações sanitárias, todas com aberturas para o saguão. No seguimento destas divisões encontramos por fim o vestiário comunicante com o hall: este o espaço que articula o exterior com o interior, permitindo ligação directa ao "escritório" e à "sala", e uma outra ao corredor. No ponto oposto da casa, outro hall faz a ligação entre dois espaços que surgem assim diferenciados na vivência doméstica: o da habitação familiar e dependências da empregada (cozinha e quarto da criada, com a respectiva casa de banho localizada no entanto no exterior, na varanda fechada por marquise).

Acessos

Rua Nova de São Mamede, n.º 3 a 9

Protecção

Incluído na Zona Especial de Proteção Conjunta dos imóveis classificados da Avenida da Liberdade e área envolvente

Enquadramento

Urbano, flanqueado. Integra uma mancha construída relativamente homogénea, formada por duas frentes de um quarteirão de forma triangular, resultante da urbanização desencadeada nas décadas de 20 - 30 do séc. 20 em terrenos atravessados pela Tv. da São Mamede e R. do Salitre, junto ao Rato. Deste modo, o quarteirão delimitado pelas ruas do Salitre, Nova de São Mamede e Escola Politécnica, com exclusão desta frente urbana dominada pelo Palácio Palmela ( v. PT031106460240 ) e Igreja de São Mamede ( v. PT031106460739) e parte da R. do Salitre, afirma-se quase como um "enclave" de construção modernista num tecido urbano preexistente. Na zona envolvente assumem por isso particular relevo outros imóveis de épocas mais recuadas, tais como: a E., a Faculdade de Ciências (v. PT031106460332 ), incluindo o Jardim Botânico (v. PT03 1106460435 ) e o Picadeiro do antigo Colégio dos Nobres (v. PT031106460108 ); a S., o Edifício da Imprensa Nacional / antigo Palácio Soares e Noronha (v. PT031106460830) e o Palácio Ceia (v. PT031106460082 ); e a O., a Real Fábrica das Sedas (v. PT03110646022 ).

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Residencial: edifício residencial e comercial

Utilização Actual

Residencial: edifício residencial e comercial

Propriedade

Privada

Afectação

Época Construção

Séc. 20

Arquitecto / Construtor / Autor

Jacinto Bettencourt (eng. ?-1959) e Cassiano Branco (arq. 1897-1970) *

Cronologia

1937 - inicia-se a construção do prédio, então propriedade da empresa Manuel José Júnior & Graça, com projecto assinado pelo engenheiro Jacinto Bettencourt; 1938 - conclusão do edifício com algumas alterações entretanto introduzidas (ampliação da garagem - um espaço inicialmente destinado a lojas -, prolongamento da escada principal até ao terraço e construção de casa para máquinas), datando de Agosto o auto de vistoria para habitação e sendo deste mesmo mês o contrato de arrendamento do piso térro à Sociedade Electro Mecânica de Automóveis Limitada; 1957 - o proprietário, Victor Saldanha de Lima Paula, solicita aprovação de um projecto para dotar o edifício com mais um piso, recuado, aproveitando-se a área da cobertura: os desenhos estão assinados pelos arquitectos Lopes Galvão e Manuel Correia e a argumentação para semelhante intervenção assenta, segundo a Memória Descritiva e Justificativa, nos "inconvenientes" do terraço ("infiltrações de águas" e "ruídos incómodos", pois utiliza-se o terraço como "recinto de patinagem e outros jogos") e numa solução que tem como resultado o "aproveitamento do vão para duas salas com óptimas condições de ateliers, dadas as suas dimensões e enquadramento" (CML, Proc.nº51011); 1958, Jan. - a 1ª Repartição do Serviço de Urbanismo e Obras da CML pronuncia-se desfavoravelmente com base em critérios urbanísticos e estéticos: embora o edifício seja de "construção moderna" - assim escreve o Chefe da Repartição, Tomás da Costa França -, "apresenta ainda características totalmente desactualizadas, nomeadamente, a excessiva profundidade da empena com vãos abertos e também com saguão interior"; além do mais, acrescenta aquele técnico, a zona tem índices elevados - 2,71, com uma área coberta de 40,5 m2 / hab. e densidade de 669 hab./ha, a ampliação excederia a cércea das frentes urbanas, bem como teria um "efeito estético inaceitável" (CML, Proc.nº51011); o projecto é portanto indeferido; 1958, Jul. - no 1º andar, esquerdo e direito, encontra-se instalada uma residência de estudantes do Centro Universitário de Lisboa, pretencente à Mocidade Portuguesa, entidade que promoverá algumas obras de adaptação, nomeadamente a ligação interna dos dois fogos; 1983 - os proprietários fazem uma exposição à Câmara no sentido de obterem licença para arrendamento comercial dos últimos andares, desocupados, pretensão já anteriormente recusada em favor das características habitacionais do edifício: as razões evocadas espelham a dificuldade em manter a ocupação inicial do imóvel e os problemas de rentabilidade e consequente manutenção de um edifício desajustado às condições actuais dos núcleos familiares urbanos - 12 inquilinos, para áreas entre os 212 m2 e os 220 m2 com 14 divisões; 1983 - neste ano o edifício registava a seguinte ocupação por arrendamento: no piso térreo, um stand de automóveis e oficinas; no 1º andar Esq. e Dt., os Serviços Sociais da Universidade de Lisboa; no 2º andar Dt., escritórios das oficinas; nos demais fogos habitações, encontrando-se os do 6º piso desocupados; 1999 - o prédio apresenta sinais de degradação, tendo grande parte das intervenções no edifício sido efectuadas na garagem (desde os anos 40 até hoje, contemplando-se aqui quer obras de readaptação periódicas relativas às oficinas, stand e garagem, quer ampliações e transformações de maior expressão);

Dados Técnicos

Estrutura autoportante

Materiais

Betão (pavimentos, cobertura e paredes exteriores), alvenaria de tijolo (paredes interiores), madeira, mosaico de pedra e ferro;

Bibliografia

MAIA, Mª Augusta da Silva Adrego, Cassiano Branco /1879-1970, Lisboa, 1986; Cassiano Branco, Lisboa, 1986; Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa, Lisboa, 1988; JANEIRO, Maria de Lurdes e FERNANDES, José Manuel, Arquitectura Modernista em Lisboa (1925-1940), Lisboa, 1988; Cassiano Branco - Uma obra para o futuro, Lisboa, 1991; FERNANDES, José Manuel, Arquitectura Modernista em Portugal, Lisboa, 1993; Portugal/Arquitectura do Século XX (Catálogo da Exposição Portugal-Frankfurt 97), Lisboa, 1997; FRANÇA, José-Augusto, Monte Olivete, Minha Aldeia, Lisboa, 2001;

Documentação Gráfica

CML: Arquivo de Obras, Proc. nº 51011

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

CML: Arquivo de Obras, Proc. nº 51011

Intervenção Realizada

Observações

*1 - o projecto deste imóvel encontra-se assinado por J. Bettencourt, engenheiro civil que colaborou assiduamente com Cassiano Branco, tal como o eng. Ávila Amaral. Nos diversos estudos e inventários sobre a obra deste arquitecto, o prédio da R. Nova de São Mamede aparece sempre atribuído, sem qualquer dúvida para aqueles investigadores, a Cassiano Branco, ao contrário de outros projectos em situação idêntica onde a atribuição surge a título hipotético. O motivo evocado reside na dificuldade de aprovação dos projectos deste arquitecto e no recurso a semelhante expediente para contornar o problema. No espólio de Cassiano Branco (CML) nenhum documento sobre este prédio existe.

Autor e Data

Filomena Bandeira 1999

Actualização

 
 
 
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