Igreja Paroquial de Adeganha / Igreja de São Tiago Maior

IPA.00000779
Portugal, Bragança, Torre de Moncorvo, União das freguesias de Adeganha e Cardanha
 
Arquitectura religiosa, românica, gótica, maneirista e barroca. Igreja paroquial tardo-românica, de planta longitudinal composta por nave, capela-mor mais estreita e baixa e sacristia adossada ao lado esquerdo. Fachada-campanário com duas sineiras, num esquema recorrente no românico na região, com portal gótico, em arco apontado. Fachadas rematadas em cornija, as laterais assentes sobre cachorradas, rasgadas por portais em arco de volta perfeita, algumas frestas e, na capela-mor, janelas em capialço, de feição maneirista. Interior com coberturas de madeira, em masseira e com vigamento à vista na nave e em falsa abóbada de berço em caixotões na capela-mor. Pia baptismal junto ao portal axial, no lado do Evangelho, lado onde se acha o púlpito quadrangular. Retábulos colaterais de talha maneirista, com painéis pintados e remates em tabela com aletas recortadas e retábulo-mor de talha dourada do estilo nacional, de planta recta e três eixos. Pinturas murais quinhentistas na nave e capela-mor, com temática hagiográfica, envolvida por frisos geométricos e vegetalistas. Igreja de construção românica, com sucessivas intervenções nos períodos gótico e maneirista, tendo vários arcossólios apontados ainda com os respectivos túmulos, frestas românicas e portais intensamente decorados com motivos fitomórficos, bem como os vãos do campanário. Várias mísulas surgem nas paredes exteriores, fazendo acreditar na existência de um alpendre que protegeria os três pórticos. Nos muros, observam-se, ainda, várias figuras esculpidas com representações eventualmente religiosas, mas destinguindo-se, entre elas, um cavaleiro e uma cruz. Retábulos colaterais são maneiristas, protegidos por baldaquinos pintados com motivos fitomórficos, sendo o mor de estilo nacional, enquadrando duas pinturas quinhentistas, anteriores. Destacam-se as pinturas murais quinhentistas do interior, resultantes de sucessivas campanhas decorativas, sendo possível identificar quatro intervenções, com temática hagiográfica, surgindo, na nave, temas cristológicos, terminando em Calvário sobre o arco triunfal, este encoberto por razões de conservação. As mais recentes, datáveis do segundo quartel do séc. 16, com cenas da vida de Cristo, apresentam semelhanças compositivas, embora com tratamento mais ingénuo, com as da Igreja de Santo Isidoro, em Marco de Canaveses, datadas de 1536 e assinadas pelo pintor Morais. Algumas das pinturas da nave encontram-se envolvidas por molduras de fitas entrelaçadas, influenciadas pelo trabalho de couro decorativo, nomeadamente pelas costuras das várias peles, bem como por fundos brocados, inspirados nos tapetes islâmicos. Na capela-mor, a imagem do orago, envolvida por frisos geométricos.
Número IPA Antigo: PT010409020003
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Templo  Igreja paroquial  

Descrição

Planta longitudinal composta, de nave única, capela-mor mais estreita e baixa e sacristia adossada ao lado esquerdo. Fachadas em cantaria aparente, com as juntas preenchidas com argamass e remates em cornija boleada, nas laterais assente em cachorros, alguns decorados com elementos antropo e zoomórficos. Fachada principal virada a O., com portal em arco apontado, assente em impostas boleadas, com friso estriado servindo de moldura interior e que se prolonga nas jambas e dois frisos exteriores com enxaquetado e boleado; a arquivolta exterior é suportada por mísulas de feição antropomórfica. Por cima da pedra de fecho do portal, existe uma cruz pontentea, insculpida num silhar; ligeiramente acima e do lado esquerdo, existe um relevo, que parece representar três mulheres *2. Remata em empena seccionada e alteada na zona central, onde se rasgam duas sineiras de volta perfeita, como molduras fitomórficas, formando campanário e cruz no vértice. Fachada lateral esquerda, virada a N., mostra três arcossólios mantendo túmulos e outro com moldura estriada e friso crucífero; porta em arco de volta perfeita com decoração de estrelas, interrompida pelas impostas, estas com decoração de círculos entrelaçados. Surge, ainda, uma pequena fresta e algumas figuras esculpidas, como um cachorro antropomórfico a ladear o portal e um pequeno guerreiro. Adossada à capela-mor, a sacristia, com porta de verga recta de acesso. Fachada S. exibe arcossólio de volta perfeita, assente em mísulas zoomórficas, portal semelhante ao oposto, com acesso por dois degraus, várias mísulas e uma representação em baixo-relevo com duas figuras, estando uma delas deitada e a outra ajoelhada junto dela. No volume da capela-mor, duas janelas molduradas, uma quadrada e gradeada e outra rectilínea, em capialço. Fachada posterior em empena, alteada relativamente à cornija, rasgada por quadrifólio e, no volume da sacristia, fresta. O INTERIOR é em cantaria granítica aparente, com pavimento em lajeado, onde surge uma sepultura a ostentar a data de "1660", e cobertura de madeira em masseira, com vigamento à vista e tirantes do mesmo material. Apresenta vestígios de pinturas murais nas paredes laterais da nave junto ao arco cruzeiro, representando, no lado do Evangelho e correspondente a uma primeira fase, uma "Descida da Cruz", surgindo, de uma terceira intervenção, um painel com São Longuinhos e Stephaton *3, ostentando moldura de três fitas entrelaçadas, outro de São Francisco, este sobre um fundo com padrão floral comum, denominado "ao brocado", e uma "Missa de São Gregório", surgindo, da quarta intervenção, dois painéis enquadrados, a representar a "Natividade", "Apresentação do Menino no Templo" e "Adoração dos Reis Magos", bem como uma Santa Catarina e Santo António. Na parede da Epístola, surgem vestígios das quatro intervenções, aparecendo, da primeira, um painel de identificação difícil, surgindo, da segunda intervenção, um enorme São Cristóvão; da terceira fase, um fragmento que pode representar São Sebastião, painel envolvido por moldura com três fitas entrelaçadas e, da última, uma "Anunciação". No lado do Evangelho, sobre pequeno degrau, a pia baptismal de taça hemisférica assente em pequena base de perfil circular, e púlpito quadrangular, com bacia em cantaria, assente em consola decorada com elementos fitomórficos e guarda de madeira balaustrada. Os retábulos laterais são semelhantes, assentes em estrutura de madeira de castanho e supedâneo em madeira de sucupira, de talha dourada e planta recta, com painel pintado central, circunscrito por quatro colunas torsas com pâmpanos, encimados por entablamento e tabela central pintada, ladeada por quarteirões e aletas recortadas; altar paralelepipédico decorado com acantos. O do lado do Evangelho tem, no painel central, a representação de drapeados fingidos a abrir em boca de cena, surgindo, no oposto, uma "Virgem com o Menino"; nas tabelas, surge, na do lado do Evangelho, uma Nossa Senhora da Conceição, aparecendo, no oposto, a pomba do Espírito Santo. O arco triunfal de volta perfeira, assente em pilastras toscanas, acede à capela-mor com cobertura de talha em branco, formando falsa abóbada de berço em caixotões, tendo, a ladear a porta de verga recta de acesso à sacristia, pia de água-benta e nicho para alfaias. Na parede testeira e ilhargas, pinturas murais, figurando o padroeiro, Santiago, envolto por moldura de losangos denteados e com disposição de vários frisos de motivos geométricos e vegetalistas estilizados, como os entrançados de corações e flores quadripétalas, por seu turno com moldura de entrelaçados. Retábulo-mor encontra-se assente sobre estrutura de ferro e madeira, em torno do qual se pode circular, é de talha dourada e planta recta, de três eixos definidos por colunas torsas, o central com tribuna de volta perfeita, coberta por caixotões, integrando trono de quatro degraus; lateralmente, dois painéis pintados, provenientes de um primitivo retábulo, representando "São Martinho a repartir a capa com um mendigo" (Evangelho, 132,9 x 55,4 cm.) e São Lourenço (Epístola, 133,2 x 57,3 cm.), pinturas a óleo sobre madeira de castanho; o altar é paralelepipédicom sendo o remate ornado por folhas de acanto, a acompanhar a estrutura da cobertura.

Acessos

Saindo de Torre de Moncorvo pela EN 325 durante 8 km. até se apanhar a EN 102; nesse cruzamento, toma-se a EM que vai para Adeganha

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto n.º 33 587, DG, 1.ª série, n.º 63 de 27 março 1944 *1

Enquadramento

Rural, isolado, situa-se num vale, rodeado de pequenas elevações, existindo algumas habitações nas imediações e zonas de cultivo. O imóvel é envolto por uma adro murado com portal que dá para a fachada lateral, onde se implantam várias árvores de médio porte, encontrando-se em zona de pendor inclinado.

Descrição Complementar

PINTURAS: as pinturas do retábulo-mor apresentam desenho subjacente, de contorno a carvão, com marcações de luz e sombra e arrependimentos.

Utilização Inicial

Religiosa: igreja paroquial

Utilização Actual

Religiosa: igreja paroquial

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 12 (conjectural) / 13 / 16 / 17

Arquitecto / Construtor / Autor

PINTORES: Manuel Vicente e Vicente Gil, denominados como Mestres do Sardoal (atr.).

Cronologia

Séc. 09 - primeira referência documentada à povoação; 1112 - data que se encontrava no exterior, referida pelo abade de Baçal, correspondente a provável construção, pertencente ao bispado de Braga; 1259 - foral dado por D. Afonso III; séc. 13 - abertura dos arcossólio funerários no exterior; execução do portal axial; séc. 15 / 16 - execução de quatro campanhas de pinturas murais; 1498 - 1530 - pintura das tábuas que se encontram no retábulo-mor, atribuídas ao Mestre do Sardoal; séc. 17, inícios - execução dos retábulos colaterais; 1660 - data da sepultura no chão da nave; por esta altura terá sido executado o retábulo-mor; 1960, década de - descoberta pinturas murais junto ao arco triunfal encobertas por espessa camada de cal; 1990, década de - descoberta de vestígios de pinturas murais por detrás do retábulo-mor; 2001, Julho - desmontagem do retábulo-mor, revelando as pinturas murais por ele encobertas, na parede fundeira e paredes laterais da capela-mor.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Granito aparente na estrutura, molduras, cruzes, cachorrada, mísulas, túmulos, relevos, pavimentos, pia baptismal, bacia e mísula do púlpito, pias de água benta; cimento no alteamento da empena da capela-mor; madeira nas coberturas, portas, retábulos e imaginária; telha de aba e canudo; vidro simples nas janelas; pinturas murais a fresco, sobre preparação de reboco fino de cal carbonatada e areia do tipo cuarcífero, tendo, nos painéis da nave, acabamentos a seco, utilizando como aglutinante o carbonato cálcico e sendo visível o desenho preparatório com pigmento vermelho; os pigmentos utilizados são as terras naturais, óxido de ferro vermelho, vermelhão, ocre-amarelo e negro-de-carvão; as tábuas pintadas do retábulo-mor, são em óleo sobre tábua de castanho, com uma preparação fina de carbonato cálcico e cola animal.

Bibliografia

AFONSO, Belarmino, A Arte Religiosa na Diocese de Bragança, Brigantia, vol. I, Bragança, 1981; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, O Românico. História da Arte em Portugal, vol. 3, Lisboa, 1986; ALMEIDA, José António Ferreira de [coord.], Tesouros Artísticos de Portugal, Lisboa, 1988; AZEVEDO, José Correia de, Inventário Artístico Ilustrado de Portugal. Trás-Os-Montes e Alto Douro, Algés, 1991; LOPES, Flávio [coord.], Património Arquitectónico e Arqueológico Classificado. Distrito de Bragança, Lisboa, 1993; Dicionário enciclopédico das freguesias, 3.º vol., Matosinhos, 1997; ROSAS, Lúcia Maria Cardoso, São Lourenço e São Martinho. Duas tábuas quinhentistas da Igreja de São Tiago de Adeganha: uma hipótese de atribuição, in Douro, Estudos e Documentos, vol. IV, Porto, 1999, pp. 75-82; Monumentos, n.º 15, Lisboa, 2001, p. 152; Monumentos, n.º 16, Lisboa, Março 2002; Monumentos, n.º 17, Lisboa, Setembro 2002; Monumentos, n.º 18, Lisboa, Março 2003; Monumentos, n.º 19, Lisboa, Outubro 2003; BESSA, Paulo, A pintura mural, in Monumentos, n.º 20, Lisboa, Abril 2004, pp. 169-172; MAGALHÃES, Rosário e QUARESMA, Sandra, Intervenções recentes na Igreja de Adeganha, in Monumentos, n.º 20, Lisboa, Abril 2004, pp. 167-169; PEREIRA, Franklin, As pinturas a fresco e sua relação com os "couros" de arte, in Monumentos, n.º 20, Lisboa, Abril 2004, pp. 173-175; QUADRIFÓLIO, Conservação e restauro das pinturas murais e retábulos, in Monumentos, n.º 20, Lisboa, Abril 2004, pp. 176-181; ROSAS, Lúcia, São Lourenço e São Martinho: duas tábuas quinhentistas, in Monumentos, n.º 20, Lisboa, Abril 2004, pp. 175-176.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DEGEMN/DREMN; Arquivo "Mural da História"

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Intervenção Realizada

DGEMN: 1955 - desmonte do altar existente no vão da porta do alçado S. para desentaipamento desta; 1976 - reconstrução da abóbada em caixotões, execução de vitrais para a capela-mor e sacristia; arranjo do corpo da sacristia e da zona envolvente do imóvel; 1977 - conservação da capela-mor; 1978 - reconstrução da sacristia; Paróquia: 1991 / 1992 - renovação da rede eléctrica e sonora, substituição de partes do soalho, pintura de portas; DGEMN: 2001/ 2002 - obras de restauro incluindo desmontagem retábulo-mor, conservação e restauro dos retábulos da nave, com fixação da folha de ouro, limpeza, preenchimento de lacunas com madeira de balsa e castanho, sendo feitas as ilhargas dos altares dos retábulos laterais, em madeira de sucupira e aplicação de biocida; restauro e conservação das pinturas murais, com remoção da cal que as ocultava e consolidação; restauro das tábuas do retábulo-mor, sendo efectuados exames radiográficos, de infravermelhos, luz rasante e reflectografia no Instituto Politécnico de Tomar, procedendo-se à limpeza, desinfestação e aplicação de verniz protector; restauro, seguindo o mesmo processo, da tábua da "Virgem com o Menino", a que foi aplicado, no lado direito, uma tábua de castanho velho, para reforço do suporte; 2003 - início da conservação de coberturas exteriores e pavimentos, acompanhados pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Munho; limpeza dos paramentos exteriores e interiores; conservação da cobertura em madeira da nave e dos caixotões da capela-mor; substituição do pavimento cerâmico da sacristia por tijoleira quadrada, produzida artesanalmente; execução de um armário porta-bandeiras e quadro eléctrico em aço; colocação de candeeiros de suspensão em bronze e instalação eléctrica.

Observações

*1 - DOF: Igreja Românica de Adeganha; *2 - sendo voz corrente dizer-se que é a representação de um parto; *3 - este painel faria parte de um conjunto de um "Calvário", existente sobre o arco triunfal, de que resta o Crucificado, coberto com cal, por razões de conservação.

Autor e Data

Ernesto Jana 1994 / Paula Noé 1996 / Marisa Costa 2001

Actualização

 
 
 
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