Lagar de Varas do Fojo / Museu do Azeite

IPA.00000742
Portugal, Beja, Moura, União das freguesias de Moura (Santo Agostinho e São João Baptista) e Santo Amador
 
Arquitectura agrícola oitocentista. Lagar de azeite de vara e fuso, com mós de tracção animal. A estrutura e funcionamento evoluíu do lagar de tipo romano de vara e peso (neste a vara era accionada por meio de um sarilho, cujos montantes se encastravam nos entalhes abertos no peso, em vez do fuso do lagar de varas). Era um lagar de tipo comunitário, que trabalhava à maquia (qualquer pessoa que tivesse azeitona podia utiliza-lo deixando em compensação uma parcela do azeite produzido ao dono do lagar). Possuia três espaços distintos: a zona das tulhas onde a azeitona era depositada, a sala de moagem onde a azeitona era transformada em pasta, e a zona das varas onde esta era prensada *2. A sua autenticidade e bom estado de conservação, testemunhando a actividade oleícola que detinha importante papel económico no seio da comunidade mourense. Um dos últimos exemplares de lagares de varas de toda a Península Ibérica. Conserva toda a maquinaria original.
Número IPA Antigo: PT040210040010
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Extração, produção e transformação  Lagar  Lagar de azeite  

Descrição

Planta composta por 2 corpos rectangulares dispostos em "L", com pequenos corpos rectangulares adossados a O. e a S.. Um quintal rodeado por muro cerca o edifício do lado S.. Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhados de 2 águas. Alçado principal, virado a N., rasgado por porta de verga recta e por óculo; alçado S. rasgado por 2 janelas abrindo para o quintal. Interior com vigamento à vista e revestimento de cana; no corpo longitudinal (N. / S.), dividido por grandes arcos transversais, alinham-se 12 grandes tulhas encostadas às paredes laterais; no corpo transversal, de pavimento mais elevado, encontra-se o engenho da moenda, com 4 mós de galgas verticais, de tracção animal e as 2 prensas de varas (adaptadas a 2 pesos por meio de fusos) de tracção humana; entre as varas uma caldeira para aquecer a água usada na caldeação das seiras. A água necessária ao funcionamento do lagar era fornecida por um poço no corredor entre as tulhas e por uma cisterna existente no quintal. Nos pequenos compartimentos anexos, tulhas adicionais para azeitona (E.) e para bagaço (S.).

Acessos

Rua de São João de Deus, nº 20, Rua do Amparo

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 1/86, DR, 1.ª série, n.º 2 de 03 janeiro 1986

Enquadramento

Urbano, adossado. Inserido no centro histórico, no local onde se localizaram antigas portas da muralha. A fachada do lagar enquadra-se numa frente urbana sem grande interesse.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Extração, produção e transformação: lagar de azeite

Utilização Actual

Cultural e recreativa: museu

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

DRCAlentejo, Portaria n.º 829/2009, DR, 2.ª série, n.º 163 de 24 agosto 2009

Época Construção

Séc. 19

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido

Cronologia

1436, 12 de Julho - referência mais antiga que se conhece ao azeite de Moura *1, em resposta do Rei D. Duarte aos capítulos apresentados nas cortes de Évora pelos procuradores da vila de Beja: "Outrossy poucos tpos aca há em esta Vila muytos olivaes & se acrescentam em cada huu dia avendo hi doze vergas em que se lavra a dita azeitona & som dos mayores & mais poderosos que na uila há. E nom qrem leuar senom de sete huu & alqueyre de çevada. E per a hordenaçom que lhe o dito conçelho ponha per assy seerem podorosos nom a querem manteer. E por que nos avemos os foros & husos & custumes se Samtarem seja nossa merçee mandar quesse huse nos logares da dita Villa como sse husa e leua nos de samtarem. Ou como sse husa e leua nos logares das comarcas. E assy averam as gemtes voomtade dacrecentar nos ditos oliuaaes poendo nos pena aos que vosso rregm.to guardar nom quizerem. A esto vos rrespondemos que leuem como leuam em portell & moura que som lugares seus vizinhos em que mais azeite há"; Séc. 16, meados - Duarte Nunes de Leão refere "finalmente em todos os logares de Portugal & do Algarve se dá azeite contra o que Theophrasto screveo, que diz nam se darem oliveiras afastadas do mar quarenta milhas, que sam dez légoas, do que vamos ver o contrario nas Cidades de Évora, Beja, Elvas, & na Villa de Moura, em que há mais cópia que em nenhum lugar do reino, & nas Villas de Serpa, Estremoz, Porel (Portel?), & outras, & em outros muitos lugares do Alentejo, & de Estremadura, & da Beira mettidos pello sertam muitas mais legoas afastadas do mar por hi ser o ar mais tepido, & mimoso se dam as oliveiras melhor"; 1792 - Memórias para a História da Agricultura em Portugal referem "desde muito tempo, que a boa qualidade do azeite de Moura o põe a par dos melhores de Portugal, porque vemos, que Flandres, Alemanha, Castella, Leão, Galiza, se proviam de azeite de Santarem, lisboa, Abrantes, Moura, Elvas, Beja e Coimbra"; 1841 - construção do lagar que transformava a azeitona do proprietário e trabalhava também à maquia, com azeitona de outros agricultores.1855 - os Anais de Moura apontam uma produção anual na ordem dos 90 a 100.000 alqueires de azeite; existiam então dentro da vila seis lagares de azeite de vara e fuso, e fora dela, dois todos de tracção animal, havendo ainda mais dez accionados pela água (MOTTA, 1991); 1930, década de - existiam em Moura 26 lagares em funcionamento e uma Rua dos lagares; 1941 - o lagar deixa de funcionar; 1987 - era propriedade de António Francisco Fialho Pinto; 1990, 28 fevereiro - afecto ao Instituto Português do Património Arquitetónico por auto de cessão.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes

Materiais

Alvenaria de pedra e tijolo, rebocada e caiada, com cobertura de telha assente em vigamento de madeira, forrado a cana; pavimento de ladrilho e cimento.

Bibliografia

CORREIA, José António, Freguesia de Santo Agostinho, Moura, Junta de Freguesia Santo Agostinho, 2005 (não consultado); LEÃO, Duarte Nunes de, Descrição do Reino de Portugal, Lisboa,Iorge Rodriguez, 1610; MOTTA, José Avelino Silva, Anais de Moura, Moura, 1991 (manuscrito de 1855, Biblioteca Municipal de Moura); AREL, José, Dossier Lagar de Varas de Moura, 1987; http://www.cm-moura.pt/p_l_lagar.htm (18 Agosto 2010).

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID

Intervenção Realizada

DGEMN: 1989 - 1990 - substituição da cobertura, reparação de rebocos e pinturas.

Observações

*1 - Moura era famosa pela abundância de olivais e pela qualidade do azeite que produzia, figurando este entre os melhores do Mundo, qualidade traduzida na expressão popular "Fino como o azeite de Moura"; *2 - "As azeitonas chegavam ao Lagar e eram logo encaminhadas para as tulhas onde permaneciam até serem prensadas. Por ordem de chegada as azeitonas iam sendo levadas em cestos para a sala de moagem onde, pacientemente iam sendo moídas. Após o árduo trabalho do burro que accionava o engenho da moenda durante muitas horas, as azeitonas eram moídas até constituírem uma pasta. O pavimento do lagar destinado a este trabalho era de terra batida para facilitar a tarefa do animal. Quando bem moída, a massa de azeitona era retirada pela abertura existente na base do farneiro e levada em gamelas para ser enseirada. Após o enchimento das seiras, ou enseiramento, com a massa de azeitona, o lagareiro sobrepunha um conjunto de seiras sobre o estrado da prensa a que se dá o nome de algués. Sobre as seiras ainda se colocava a porta e os malhais, sobre os quais iria assentar a extremidade mais pesada da vara. Em seguida seria accionado o mecanismo da vara, que a faria baixar. Dois homens introduziriam uma alavanca, ou panca, na base do fuso da vara, fazendo com que o mesmo girasse sobre o eixo, assente no peso. Fazendo subir a ponta da vara, que em forma de forquilha actua ao longo do fuso, baixa a outra extremidade, transformando a vara numa espécie de alavanca inter-resistente. Quando a extremidade oposta ao fuso baixa, exerce pressão sobre as seiras, fazendo-as libertar azeite e água-ruça. Depois de escorridas as seiras, a vara subia novamente para que se pudesse proceder à caldeação. Nesta operação era utilizada a caldeira do lagar, onde era aquecida a água necessária a esta operação. Depois de quebrada e remexida a massa do interior das seiras, as seiras eram abertas, e era-lhes colocado uns paus ao alto que as mantinham abertas, e de seguida era-lhes deitada água bem quente. Esta água quente fluidificava a massa de azeitona que já havia sido prensada, e ao mesmo tempo iria permitir o desprender de azeite que esta massa ainda continha. Esta operação permitia que a vara fosse novamente accionada, de forma a realizar novo aperto. Juntamente com a água quente iria correr pelo boeiro até á tarefa, mais algum azeite á mistura.Para a separação do azeite da água ruça é necessário proceder à decantação destes líquidos, de forma a purificar o azeite o mais possível. Era na zona das tarefas que se procedia a esta operação, que, como atrás foi referido, era da responsabilidade do mestre do lagar e era determinante para a qualidade do azeite e para a própria reputação do lagar. O azeite corre das seiras pelo boeiro até ás tarefas, de mistura com a água ruça. Sendo mais leve que a água, o azeite sobrenada na tarefa, enquanto que a água ruça permanece por baixo. O azeite desta tarefa passa a uma outra tarefa, a que está ligada por um pequeno canal, a galeira. A água ruça é libertada para fora da primeira tarefa, destapando um buraco que possui próximo da base e que levará a água ruça para um tanque subterrâneo conhecido como inferno ou ladrões. Com o auxilio de uma candeia e de uma vara de marmeleiro o mestre de lagar mede o nível de água ruça, para conhecer o momento ideal de a escoar, destapando o espicho. À tarefa para onde vai só o azeite dá-se o nome de tesoiro, ou pilão, e o azeite era retirado daí para outros recipientes, pelo lagareiro, com o auxílio de uma concha. Um buraco na parede facilita o acesso do lagareiro ao fundo da tarefa, de onde retira também manualmente os assentos ou borras do azeite. Estas borras eram levadas para umas tarefas que apenas serviam esta finalidade.

Autor e Data

Isabel Mendonça 1994

Actualização

 
 
 
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