Igreja Paroquial de Marvila / Igreja de Santa Maria / Igreja de Santa Maria de Marvila

IPA.00006532
Portugal, Santarém, Santarém, União de Freguesias da cidade de Santarém
 
Igreja paroquial gótica, manuelina, renascentista, ecléctica, de grandes dimensões; espacialidade e planimetria associáveis ainda ao gótico mendicante; elementos estruturais e decorativos característicos do manuelino: cobertura da cabeceira, rebaixada, polinervada, com combados (capela-mor), apoiada em mísulas, fechos com heráldica régia; modinatura e decoração do portal, dos janelões, dos arcos de acesso à cabeceira e dos arcos divisórios da mesma. Elementos classicizantes nas colunas e arcos dvisórios da nave, nos portais laterais e no púlpito. Dinâmica barroca introduzida pelo revestimento integral dos alçados internos e pelo altar em talha da capela-mor. Eclectismo: torre sineira integrada na fachada, neo-gótica, portas de acesso ao batistério e coro-alto neo-góticos, guarda-vento com vão de bandeira neo-gótica e ornatos clássicos entalhados. Designada por Santos Simões como a catedral do azulejo, a igreja constitui o maior núcleo seiscentista existente em Portugal, com 1200m2 de área, correspondendo a mais de 65 000 placas cerâmicas (SIMÕES, 1971). Na parte superior das paredes da nave é empregue o maior padrão azulejar - 12 x 12 - conhecido pelo nome de padrão rico de Marvila (MECO, 1985). O arco triunfal, polilobado, formando uma espécie de cortina, é idêntico ao da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, nas Caldas da Raínha (PT03100603001) e à Igreja da Madalena de Olivença. A torre sineira oitocentista, demasiado esguia e integrada na fachada, perturba o equilíbrio da mesma. O pórtico è semelhante ao figurado no retábulo de Santa Auta, hoje no MNAA. O interior da igreja mostra semelhanças com a sinagoga de Amsterdão - dimensões, banco corrido, colunas e capitéis, arcaria divisória das naves (CUSTÓDIO, 1996). As mísulas da cabeceira recebem deficientemente as descargas das nervuras e apresentam uma gramática decorativa "sui generis", formalmente desiquilibrada.
Número IPA Antigo: PT031416120016
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Templo  Igreja paroquial  

Descrição

Planta longitudinal, composta pelo corpo das naves rectangular, cabeceira tripartida escalonada a E., de planta rectangular, a que se adossam 2 corpos rectangulares. Volumes articulados, cobertura diferenciada em telhado sobre a nave e cabeceira, em coruchéu piramidal sobre a torre sineira. Fachada principal em empena, com 2 pisos vazados por portal de arquivoltas trilobadas, flanqueado por pilares escalonados com cogulhos e óculo redondo no eixo central, integrando a torre sineira esguia e elevada a N., com ventanas em arco quebrado na secção superior. Fachadas laterais de 2 pisos vazados por 4 janelões em arco levemente quebrado e portal de vão rectangular, verga denticulada e frontão triangular; pequenas janelas em arco quebrado rasgam as paredes laterais das capelas laterais e capela-mor; gárgulas zoomórficas nos vértices superiores das capelas laterais. INTERIOR: 3 naves de 5 tramos, mais elevada a central, cobertas por tecto de madeira de 3 planos; arcos redondos assentes em colunas de bases quadradas com fitas enroladas nos vértices, fustes cilíndricos e capitéis canelados, com meninos alados e volutas nos vértices dos ábacos; coro-alto muito elevado ocupando parte do 1º tramo, assente um muro vazado lateralmente por 2 vãos em arco apontado, dando acesso ao baptistério de um lado e à torre sineira e coro do outro; arco triunfal polilobado, arcos de acesso às capelas laterais levemente apontados; cabeceira com arcos intercomunicantes, coberta por abóbadas rebaixadas, polinervadas, com fechos decorados. Alçados internos integralmente cobertos por azulejos, demarcando os 2 registos de altura: enxaquetados duplos na cabeceira, padrões de tapete na nave, registos representando símbolos marianos nas enjuntas dos arcos da nave central; retábulo em talha branca e dourada, de estilo nacional, na capela-mor; imagem de Cristo crucificado, indo-portuguesa, em marfim, com cruz revestida a tartaruga, sobre o sacrário; guarda-vento em madeira com portas de vergas apontadas e decoração entalhada ecléctica; púlpito em mármore adossado à coluna divisória do 4º e 5º tramos, de forma quadrada, com colunas compósitas formando as guardas, assente em balaústre com grande nó e capitel da mesma ordem; pias de água benta em pedra, com decoração manuelina, no subcoro e capela lateral N.; banco em pedra corrido ao longo das paredes da nave; tela com moldura redonda, figurando a Crucifixão sobre o arco triunfal, tapando o óculo. Sacristia: abóbada de berço pintada com brutescos, azulejos enxaquetados e de padrão azul e branco nas paredes.

Acessos

Largo de Marvila; Praça Visconde da Serra do Pilar. WGS84 (graus decimais) lat: 39.235223 long: -8.681326

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto n.º 3 318, DG, 1.ª série, n.º 144 de 27 agosto 1917 / ZEP, Portaria, DG, 2.ª série, n.º 262 de 11 novembro 1946

Enquadramento

Urbano, monte, isolado. Implantada no coração da antiga povoação, em posição destacada, rodeada por vias de circulação e flanqueada do lado N. por amplo largo empedrado, a antiga Praça Nova, para a qual deitavam os Paços do Concelho.

Descrição Complementar

No interior do órgão que se encontra no coro alto, lê-se a seguinte inscrição: "Este órgão pertenceu ao extinto Convento de Santa Clara, santarém, e por despacho ministerial em 7 de Novembro de 1902 foi dado a esta igreja de Marvila, sendo seu prior o Reverendo Sousa Refoios. Depois de restaurado pelo organeiro José Linhares de Lisboa inaugurou-se em 19 de Março de 1903 na festividade de São José".

Utilização Inicial

Religiosa: igreja paroquial

Utilização Actual

Religiosa: igreja paroquial

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 12 / 13 / 16 / 19

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO: João de Castilho (atr., séc. 16). ORGANEIROS: António Xavier Machado e Cerveira (1817); Dinarte Machado (2008); José Linhares (1903). PINTOR: Simão Rodrigues (1617-1620). PINTOR DE AZULEJO: Sebastião Domingues (1617-1620).

Cronologia

Séc. 12 - provável fundação do primitivo templo, doado à Ordem dos Templários por D. Afonso Henriques; 1149 - a posse reverte para a Mitra de Lisboa, no tempo do bispo D. Gilberto; 1241, 15 janeiro - surgindo dúvidas sobre a posse da igreja, é concedida por D. Sancho II ao bispo de Lisboa; 1244 - reforma pelo bispo D. Aires Vasques, passando então a sede de colegiada; séc. 16, 1.ª metade - reforma total da igreja, por iniciativa régia, sendo possível a intervenção do arquiteto João de Castilho; 1530 - já estava construída, com a sua torre sineira e alpendre em frente à fachada principal (iluminura da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, da Biblioteca de Madrid - realizada por Simão Bening a partir de desenho de António de Holanda); 1573, 03 abril - reúne-se na igreja o Capítulo Geral da Ordem de Cristo, presidido por D. Sebastião; 1617 - 1620 - aplicação dos azulejos das capelas da cabeceira; retábulo pictórico pelo pintor Simão Rodrigues, de que apenas resta a tela sobre o arco triunfal; pintura a ouro, com florões e rosetas, de alguns azulejos da capela-mor por Sebastião Domingues; 1629 - sentença sobre as precedências nas procissões em Santarém, aplicada às igrejas da Alcáçova e de Marvila, gravada numa das colunas da nave do lado do Evangelho; 1635 - 1639 - colocação dos azulejos nas naves laterais; 1659, Fevereiro - Dr. Paulo Pedrosa Meireles institui a Capela do Santíssimo, com missa quotidiana e duas lâmpadas; no carneiro, estão os seus pais e herdeiros, bem como os administradores da Capela, os priores da paróquia; 1663, 27 Novembro - falecimento de Dr. Paulo Pedrosa Meireles, que jaz na Capela do Santíssimo da Igreja; 1670, 20 Julho - Brites da Costa institui uma capela, a administrar por José Ferreira Cabral; 1690 - pintura da abóbada da sacristia; 1700 - construção do retábulo-mor; 1727, 20 junho - instituição da Capela do Senhor Jesus dos Terços, por António de Matos Ferreira e Josefa Maria, com missa quotidiana; tem Confraria, denominada Congregação dos Pobres, que pagavam, anualmente, $020; 1787 - obras na Igreja, sendo os ofícios transferidos para a Igreja do Salvador; 1817 - construção do órgão, inicialmente na Igreja de Santa Clara, pelo mestre António Xavier Machado e Cerveira; 1865, 20 Abril - constituição da Irmandade de Nossa Senhora do Monte do Carmo na Igreja; 1869, 13 junho - a Irmandade constitui um Monte Pio; 01 Dezembro - extinção da Colegiada; 1873 - a Irmandade de Nossa Senhora do Monte do Carmo tem 144 associados; 24 Setembro - início da demolição da torre; 12 Outubro - o Governo Civil embarga as obras; 18 outubro - recomeçam as obras de demolição; 29 Novembro - envio dos dois sinos mais pequenos para Vila Nova da Barquinha, adquiridos pela Junta da Paróquia; 1874, 10 janeiro - abertura de um túmulo existente na parede da torre virada à Praça, trasladado para a Igreja; 1876 - demolição da torre sineira para ampliação do largo da igreja, a que se seguiu a construção da actual torre integrada na fachada, dos vãos de acesso ao baptistério e torre sineira e do guarda-vento; 1903, 27 fevereiro - são transferidos para o edifício os seguintes objetos provenientes do Mosteiro de Santa Clara de Santarém (v. IPA. 00003392): um órgão em bom estado, a cadeira do órgão, dois retábulos de talha e a balaustrada da tribuna do coro; 1928, 28 Julho - todos os bens da Paróquia são entregues à Corporação incumbida do culto católico da freguesia; 1940 - cedência do altar de São Nicolau Tolentino do Convento da Graça, para a Igreja de Marvila, por interferência do engenheiro Zeferino Sarmento, depois transferida para a Igreja de Jesus Cristo, do antigo Hospital; 1949, abril - arranjo da cobertura da Igreja; 1992, janeiro - o vereador José Miguel Correia Noras pede explicações à DGEMN sobre as sucessivas interrupções das obras.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes (naves) e estrutura mista (cabeceira).

Materiais

Estrutura em alvenaria de pedra, rebocada e caiada; cantaria em molduras, colunas e pavimentos, telha cerâmica na cobertura, azulejo em revestimentos internos, madeira em pavimentos, portas, guarda-vento e caixilhos.

Bibliografia

BARREIRA, João - Arte Portuguesa. Lisboa: Edições Excelsior, 1946; BRAZ, José Campos - Santarém raízes e memórias - páginas da minha agenda. Santarém: Santa Casa da Misericórdia de Santarém, 2000; CÂNCIO, Francisco - Ribatejo Histórico e Monumental, Coimbra: s.n., 1938, vol. I; CUSTÓDIO, Jorge - Candidatura de Santarém a Património Mundial. Santarém: s.n., 1996. Texto policopiado; FEIO, A. Areosa - Santarém princesa das nossas vilas. Santarém: J. Cardoso da Silva 1929; GOMES, Maria Manuela Malhoa - «Um exemplo de construção e Restauro de Revestimentos Cerâmicos: Intervenção nos Azulejos da Igreja de Santa Maria de Marvila». Monumentos. Lisboa: Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 1995, n.º 2; MARIA, Frei Nicolau de Santa - Crónica dos Cónegos Regrantes do Patriarca S. Agostinho, Lisboa: Officina de João Costa, 1668, Livro V; MECO, José - Azulejaria Portuguesa. Lisboa: Edições Alfa, S.A., 1985; MENDES, Octávio da Silva Paes - Santarém Monumental. Santarém: Comissão Cultural, Desporto e Tempos Livres da Câmara Municipal de Santarém, 1988; SARMENTO, Zeferino - História e Monumentos de Santarém, Santarém: Câmara Municipal de Santarém; 1993; SEQUEIRA, Gustavo de Matos - Inventário Artístico de Portugal. Lisboa: Academia Nacional de Belas- Artes, 1949, vol. III; SERRÃO, Joaquim Veríssimo - Santarém - História e Arte. Santarém: Comissão Distrital de Turismo, 1959; SERRÃO, Vítor - «A pintura de brutesco do século XVII em Portugal e as suas repercussões no Brasil» in 2º Congresso do Barroco no Brasil. Ouro Preto: 1989; SERRÃO, Vítor - Santarém. Lisboa: Editorial Presença, 1990; SIMÕES, J.M. dos Santos - Azulejaria em Portugal no século XVII. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1971, vol. II; VALENÇA, Manuel - A Arte Organística em Portugal. Braga: Editorial Franciscana, 1990, vol. II; VASCONCELOS, Padre Inácio da Piedade - História de Santarém Edificada. Lisboa: s.n., 1740.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREML

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREML

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREML; DGARQ/TT: AHMF - Conventos extintos, Convento de Santa Clara de Santarém, caixa 2041

Intervenção Realizada

1903 - restauro do órgão por José Linhares, de Lisboa; DGEMN: 1935 / 1936 - substituição das coberturas, demolição de anexos e de parte do coro; reconstituição dos arcos primitivos em cantaria; 1938 - transferência para a igreja do Hospital dos 2 altares das paredes laterais, vindos da igreja de Santa Clara; 1940, c. de - demolição de anexos encostados à fachada N. e construção da escadaria de acesso à porta desse lado; remoção da escadaria da fachada S.; substituição do anexo da sacristia, que de semi-circular passa a rectangular; apeamento dos altares barrocos da nave e capelas laterais, transferidos para a Direcção-Geral dos serviços Jurisdicionais de Menores; abertura dos vãos de comunicação entre as capelas da cabeceira; modificação do arco triunfal da capela lateral do lado da Epístola; arranjo do coro e construção da escada de acesso; colocação de azulejos em vários pontos da igreja; reparação de tectos de madeira; restauro da pintura do tecto da sacristia; modificação do estrado do coro; 1961 - reparação do telhado; 1971 - continuação da reparação do telhado; 1973 / 1974 - instalação eléctrica e montagem de lustres; apeamento, tratamento e reassentamento de azulejos; 1983 - arranjo da cobertura junto à torre; 1984 - picagem de rebocos das fachadas e torre sineira; pinturas exteriores; 1990 - início restauro painéis de azulejo das naves da igreja, incluindo arranque, limpeza, tratamento e recolocação dos mesmos; arranjo do órgão por António Simões; 1992 - rebocos; beneficiação de azulejos; 1993 - conclusão do restauro de azulejos; reparação dos tectos de madeira das naves da igreja; limpeza e reparação dos lustres da igreja; 1996 - continuação das obras anteriores; beneficiação e reparação das coberturas; instalação de pára-raios na torre; 2008 - restauro do órgão por Dinarte Machado.

Observações

Segundo a tradição a igreja deve o seu nome a uma imagem de Nossa Senhora das Maravilhas oferecida por São Bernardo ao primeiro templo, no Séc. 12. A demolida torre sineira, rematada por coruchéu piramidal, com gárgulas e torsal intermédio, visível na iluminura da Crónica de D. João I de Fernão Lopes, era rasgada na secção inferior por 2 arcosólios, que enquadravam os túmulos de Gonçalo Gil Barbosa e Francisco Barbosa.

Autor e Data

Rosário Gordalina 1990 / Isabel Mendonça 1996

Actualização

 
 
 
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