Capela de São Pedro de Varais / Capela de Varães

IPA.00004136
Portugal, Viana do Castelo, Caminha, Vile
 
Arquitectura religiosa, românica. Capela rural, de planta longitudinal composta por uma só nave e cpaela-mor, mais baixa e estreita, construída num românico tardio, como atestam os portais de arco já muito quebrado. Intrega-se na 2ª fase do Românico Português e, mais concretamente, na 2ª fase do foco do Alto Minho. O arcosólio parece datar do séc. 14, época em que provavelmente sofreu algumas modificações, denotáveis na diferença de frestas e na rosácea do frontispício. Interior com cobertura de madeira, pinturas a fresco do séc. 16 na nave, envolvendo o arco triunfal, e na capela-mor. O retábulo-mor é barroco, de estilo nacional. Incluída no Itenerário do Românico da Ribeira Minho. Caracteriza-se pela sua simplicidade, quase sem decoração, a qual reserva exclusivamente para os tímpanos, com grafitos de valor apotropaico, e para os modilhões, quase todos rudes e arcaicos, embora os da capela-mor, ainda que lisos, acusem um maior cuidado. Planimetricamente o eixo central da capela-mor desvia-se cerca de 10º para S. do eixo longitudinal da nave, sem qualquer razão de ordem topográfica. O facto do aparelho apresentar diferenças construtivas entre a nave e a metade inferior da capela-mor, os entablamentos serem mais cuidados e com cachorros na capela-mor e mais irregular e com cachorros grosseiros na nave, as diferentes modinaturas das frrestas, umas simples e capialçadas para o interior, e outras serem mais elaboradas, com fecho moldurado e capialçadas para o exterior, mas claramente rasgadas em fase posterior às primeiras, indiciam diferentes épocas construtivas. Possui pinturas murais do séc. 16 na nave, envolvendo o arco triunfal e organizando-se em três registos com várias imagens enquadradas por frisos, e na capela-mor. As pinturas do primeirro registo na nave utilizam mais recursos cromáticos o que, juntamente com a análise estilística, leva a crer serem posteriores às restantes. O friso lembra as pinturas da Igreja de Midões, datadas de 1536 e assinadas por Arnaus, embora esta seja de melhor execução.
Número IPA Antigo: PT011602200006
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Templo  Capela / Ermida  

Descrição

Planta longitudinal composta de nave única e capela-mor quadrangular irregular. Coberturas escalonadas com telhados de 2 águas. Frontispício orientado, terminado em empena truncada por sineira, de arco pleno e rematada em empena. Portal de arco quebrado, com duas aduelas sobre imposta saliente, assente em pés direitos e tímpano com cruz hasteada ladeada por dois sinos - saimões dentro de círculos; encima-o rosácea. Fachadas laterais iguais, com pórtico de arco quebrado, de duas aduelas sobre pés-direitos e tímpano com cruz hasteada, enquadrado por duas frestas capialçadas para fora, à excepção de uma na fachada N., e com moldura curva superior. Sob as frestas, surgem dois ou três cachorros dispostos regularmente. Cornija biselada assente sobre modilhões lisos ou de motivos geométricos. INTERIOR rebocado, com as frestas capialçadas para dentro com moldura curva superior. Pavimento de lajes graníticas irregulares e tecto com forro de madeira. No lado da Epístola, arcosólio de arco quebrado chanfrado, mas já sem tampa. Arco triunfal, quebrado, sobre impostas salientes e encimado por pequena fresta entaipada. É envolvido por pinturas a fresco, desenvolvidas em três registos, separados por friso ocre liso traçado a terra sienna de traçado livre sem preocupação de esquadria. No primeiro registo figura o Martírio de São Sebastião, no segundo um monge inserido numa edícula, segurando um livro e uma cruz, e no terceiro três cenas separadas por friso: na primeira figura Cristo morto no regaço da Virgem, tendo São João à esquerda e Maria Madalena enxugando as lágrimas, à direita; na segundo, ao centro, figura uma imagem muito incompleta e ainda por identificar; e na do lado esquerdo ilegível. Mesa de altar colateral, no lado da Epístola, em pedra, com o pano lateral pintado com motivos geométricos. O intradorso do arco é pintado com motivos decorativos variados, de forma geométrica. Capela-mor com duas frestas capialçadas para o interior e arcosólio sem tampa no lado do Evangelho; na parede testeira, pinturas a fresco, enquadradas por frisos geométricos e vegetalistas separadores; uma outra cena existe à volta da fresta sobre o arco triunfal. Retábulo-mor em pedra, com embutidos de várias cores, de nicho entre pilastras e arquivoltas a pleno centro, sobrepostas por raios e mitra papal com chaves - símbolo do Apóstolo Pedro. Mesa de altar também em pedra, com sebastos, sanefa e pano central destacados.

Acessos

Vile, EN. 13 - Viana do Castelo - Vila Praia de Âncora (Km 15); EN. 13 - Valença - Vila Praia de Âncora (Km 35); desvio para Vile na estrada Vila Pria de Âncora - Lanheses (Km 3); posteriormente, de Vile até Varais (Km 6); Rua São Pedro de Varais. VWGS84 (graus decimais): lat.: 41,827336; long.: -8,828338

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto nº37 728, DG, 1.ª série, n.º 4 de 05 janeiro 1950

Enquadramento

Rural, isolada, destacada em plataforma, na vertente de 2 montes escarpados, conhecido por "monte do cão vermelho", nos contrafortes da Serra de Arga. Ergue-se num adro lajeado e com "solo-cimento", acedido por rampas laterais para peões e com zona de parqueamento em terra vegetal. Fronteiro possui eucaliptos.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Religiosa: capela

Utilização Actual

Religiosa: capela

Propriedade

Privada: Igreja Católica

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 13 (conjectural) / 16 / 18

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido.

Cronologia

Séc. 10 / 12 - Provável construção de uma ermida alto-medieval, de que a metade inferior da capela-mor parecem ser os restos subsistentes; 1128 - documentos anteriores, referem-na como simples ermida pertencente ao Convento Vitoriano das Donas; séc. 12 / 13 - provável reconstrução ou ampliação da capela; 1258 - referida nas Inquirições; 1320, 23 Maio - Papa João XXII concede Bula a D. Dinis, por 3 anos, para ajudar na guerra contra os mouros, através da décima de todas as rendas eclesiásticas do seu reino, com excepção das igrejas, comendas e benefícios pertencentes à Ordem de Malta, onde se incluia a capela de São Pedro de Varais; séc. 13 / 14 - reconstrução; 1321 - o censual do cabido de Tui para o Arcediago da Terra da Vinha atribui-lhe o rendimento de 1 quarteiro de trigo e 1 libra de cera; 1551 / 1581 - O censual de Fr. Baltasar Limpo dá conta dos seus benefícios, metade na posse do mosteiro de São Salvador da Torre e outra metade na mão de senhores leigos. Refere também a confirmação duma doação do padroado ao Marquês de Vila Real por estes Senhores, feita pelo Arcebispo de Braga, D. Diogo de Sousa; 1640 / 1641 - as povoações de Vile e Azevedo, até ali congregadas numa só freguesia e tendo-a por matriz comum, desmembraram-se noutras freguesias, cada 1 delas procurando ter matriz própria; os párocos de Vile, não se contentando apenas com a sua nova igreja de São Sebastião, obtiveram direito à posse da antiga matriz, a ponto de irem ali anualmente dizer missa no dia de São Pedro; posteriormente, os de Azevedo obrigaram à sua cedência, integrando-a na interparoquial Confraria de Santo Isidoro; 1748 - data do altar-mor; 1758 - Memórias Paroquiais referem-na já na dependência do Mosteiro de Tibães, que supria o necessário à fábrica da igreja; 1850 - reparação pela confraria de Santo Isidoro; 1995 - assinatura de protocolo entre a Região de Turismo do Alto Minho, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, a Direcção-Geral do Património e o Fundo de Turismo para recuperação, beneficiação e criação de um itenerário de visitas integradas das igrejas românicas da bacia do Alto Minho; 1997 - durante os trabalhos arqueológicos, pôs-se a descoberto, fronteiro à fachada principal, o afloramento rochoso com diversos recortes artificiais, vestígiois de afeiçoamento da rocha para receber uma estrutura, possivelmente de um alpendre; perpendicularmente ao cunhal SE. da nave identificou-se parte de um alicerce, que poderá corresponder a restos de um simples anexo ou de uma ala de um edifício mais complexo; 1998, final - lançamento público do Itenerário Românico da Ribeira Minho.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Granito, talha, frescos e madeira. Pavimento de lajes e cobertura de telha.

Bibliografia

BARREIROS, Cónego Manuel de Aguiar, São Pedro de Varais. Uma Capela Românica do Concelho de Caminha, Porto, 1950; s.a., Guia de Portugal, vol. 4, Lisboa, 1965; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Primeiras impressões sobre a Arquitectura Românica Portuguesa in Revista da Faculdade de Letras, vol. 2, Porto, 1971, p. 65 - 116; idem, Arquitectura Românica de Entre Douro e Minho, dissertação de Doutoramento em História de Arte, vol.2, Porto, 1978; ALVES, Lourenço, Caminha e seu Concelho (Monografia), Caminha, 1985; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, O Românico in História da Arte em Portugal, vol. 3, Lisboa, 1986; idem, Alto Minho, Lisboa, 1987; ALVES, Lourenço, Arquitectura Religiosa do Alto Minho, Viana do Castelo, 1987; DOMINGUES, Humberto José P., A Capela de S. Pedro de Varais e um pouco da sua História in O Caminhense, Caminha, 15 Jan. 1991; QUADRIFÓLIO, Diagnóstico do estado de conservação e proposta de intervenção das pinturas murais da capela de São Pedro de Varais, Vile, Caminha, s.l., 1997; QUADRIFÓLIO, Observação e restauro nas pinturas murais da Capela de S. Pedro de Varais, Vile, Caminha, Viana do Castelo, Paço d'Arcos, 1999; idem, Informação final dos trabalhos de conservação realizados no interior dsa Capela de São Pedro de Varais. Vile. Caminha, s.l., s.d.; COSTA, Lídia, QUADRIFÓLIO, FONTES, Luís Fernando de Oliveira, LEMOS, Francisco M. S. de Sande, Capela de São Pedro de Varais, Monumentos, nº 13, Setembro 2000, pp. 132 - 143; Relatório dos Trabalhos de Acompanhamento Realizados pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, ao Abrigo dos Protocolos com a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (1997 - 1999) (2001 - 2002), (Universidade do Minho), Braga, 2002.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMN

Intervenção Realizada

DGEMN: 1992 - Substituição da cobertura e da única porta, demolição da base do púlpito; 1997 - peritagem e diagnóstico das pinturas murais interiores: levantamento de cal para percepção da extensão e estado de conservação das pinturas encontradas; análise superficial e recolha de amostras de vários pontos para análise laboratorial; intervenções pontuais de emergência; 1998 - obras de conservação e beneficiação geral do imóvel e arranjos exteriores: beneficiação dos paramentos exteriores; limpeza e refechamento das juntas; limpeza do pavimento interior; revisão geral das coberturas; sondagem ao entaipamento da rosácea; dreno perimetral da capela com acompanhamento por arqueólogos da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, no âmbito do protocolo realizado com a DGEMN, tendo-se descoberto uma necrópole da antiga paróquia com ruínas a N. da capela, sob a densa vegetação; fronteiro à fachada principalperpendicularmente ao cunhal SE. da nave identificou-se parte de um alicerce, que poderá corresponder a restos de um simples anexo ou de uma ala de um edifício mais complexo; arranjo da envolvente com construção de muros e pavimentação; desentaipamento dos portais laterais e feitura de portas; 1999 - tratamento e reconstituição da rosácea; trabalhos de conservação e restauro das pinturas murais do interior; beneficiação do caminho de acesso à capela. Junta de Freguesia de Vile: anos 90 - aproveitamento das plataformas criadas na sua proximidade para apoio a actividades de lazer, com colocação de mesas de pedra, um fontanário e sanitários públicos; 2000 - conservação de paramentos interiores da nave e capela-mor e execução de altar; 2001 - reparação de pavimentos e drenagens exteriores, destruídos pelo temporal.

Observações

Segundo a tradição, foi inicialmente uma igreja conventual, contudo nem os documentos fazem qualquer alusão ao facto, nem os vestígios materiais são suficientes para ateslá-lo. Os cachorros dispostos nas duas fachadas laterais serviriam para suporte de alpendre, como era comum na época. Durante os desaterros no adro, afloraram à superficíe algumas ruínas, designadamente partes de sepulturas nas proximidades do portal lateral S., o alicerce de uma parede e entalhes escavados na rocha. O alicerce, descoberto perpendicularmente ao cunhal SE. da nave, é constituído por alvenaria de blocos graníticos de várias dimensões, toscamente afeiçoados e alinhados em duas fiadas paralelas. Sobre ele elevar-se-ia uma parede com 90 cm de espessura, como revelam as marcas do seu arranque no cunhal da nave. Aí são visíveis os silhares partidos que "engatavam" na parede da igreja denunciando uma contemporaneidade construtiva dos vestígios, que poderão corresponder a restos de um anexo ou da ala de um edifício mais complexo. Frente à fachada principal identificaram-se diversos recortes artificiais na rocha, de planta quadrada, paralelamente à parede, inflectindo em ângulo recto para esta fachada no topo N. Este embasamento poderá ter pertencido a um alpendre / pórtico, que antecederia a estrada. Segundo os autores do artigo "Capela de São Pedro de Varais" in "Monumentos" nº 13 ( p. 140 ) a diferença de aparelho entre a nave e a metade inferior da capela-mor, das cornijas e cachorros e das frestas poderão ser justificadas por três fases construtivas distintas; 1) séc. 10 a 12 - como ermida alto-medieval, de que a metade inferior da capela-mor parece ser o resto subsistente; 2) séc. 12 - 13 - reconstrução / ampliação românica; séc. 13 - 14 - reconstrução gótica. As pinturas a fresco foram realizadas com pigmentos minerais de terras vermelhas, ocres, ocres amarelos naturais, vermelhão e negro. Os rebocos são constituídos por cal e areia fina e com muitas partículas de origem marítima como crustáceos. São compactados e finos não tendo havido preocupação de nivelamento exaustivo da superfície.

Autor e Data

Paula Noé 1992

Actualização

Paula Noé 2002
 
 
 
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