Casa de João Velho / Casa dos Arcos

IPA.00004118
Portugal, Viana do Castelo, Viana do Castelo, União das freguesias de Viana do Castelo (Santa Maria Maior e Monserrate) e Meadela
 
Arquitectura residencial, tardo-gótica e maneirista. Pequena casa de finais do séc. 15, inícios do 16, de planta rectangular, com lote estreito, fachadas de dois pisos, possuindo alpendre no primeiro piso com amplos arcos. Fachada principal em cantaria, tendo no primeiro piso arco abatido e acesso ao interior por porta de arco canopial, ladeado por duas janelas, e, no segundo, separado por cornija, duas janelas cruzetadas, maneiristas. Fachadas laterais com arcos quebrados. Interior com salas amplas em ambos os pisos, tendo o superior tecto de madeira em masseira. Inicialmente integrada numa frente de rua no centro da vila muralhada, composta por cinco lotes de casas com arcada, designada documentalmente como "Arcos da Matriz", constitui actualmente a única sobrevivente e uma das poucas casas de habitação urbana, de pedra, em estilo tardo-gótico, que se conservam no país. É semelhante a casas contemporâneas da Itália, França, Flandres e outras regiões da Europa do Norte, ou, segundo Carlos Alberto Ferreira de Almeida, ao modelo muito comum em Baiona, Noia e Pontevedra. O arco da fachada principal, de aduelas almofadadas, é abatido, enquanto os das fachadas laterais são quebrados e exterior e interiormente chanfrados. O brasão da fachada principal, com as armas de João Velho, deve ter sido ali colocada posteriormente, já que esta não era a casa daquele vianense, possivelmente tendo acontecido o mesmo com as mísulas de figuração antropomórfica da fachada principal. As janelas cruzetadas deverão ter resultado de uma reforma maneirista da casa. A sua situação inicial e o facto de, no séc. 19, ter pertencido com outros dois lotes a um só proprietário, poderão explicar a falta de comunicação interior entre os pisos e não possuir vestígios da cozinha. Os portais de acesso ao primeiro e segundo piso, com arco de inspiração canopial, parecem ser revivalistas, neomanuelinos.
Número IPA Antigo: PT011609310008
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Residencial unifamiliar  Casa    

Descrição

Planta rectangular de eixo interior longitudinal, composta por alpendre precedendo corpo, formando volume único, com cobertura homogénea em telhado de quatro águas, e tendo adossado à fachada lateral esquerda escada de acesso ao segundo piso e pequeno corpo também rectangular, este coberto ao mesmo nível da casa com telhado de duas águas. Fachadas de dois pisos. A principal surge virada a S., em cantaria aparente, de fiadas regulares, com os pisos separados por cornija e terminada em cornija sobreposta por beiral; no primeiro piso rasga-se amplo arco em asa de cesto, de uma arquivolta e aduelas almofadadas, assente em colunelo, encimado pelo brasão de João Velho seguro por dois etíopes; ao mesmo nível, dispõem-se lateralmente nos cunhais dois silhares relevados com representação antropomórfica, sendo o do lado nascente uma mísula. No segundo piso, intercalados por frisos verticais boleados, abrem-se duas janelas cruzetadas. Alpendre com pavimento em lajes de cantaria; na parede testeira, rebocada e pintada de branco e com embasamento de cantaria, rasga-se portal central, em arco canopial, ladeado por duas janelas rectangulares, com moldura simples de cantaria, gradeadas. Fachadas laterais com o primeiro piso em cantaria, rasgado por amplo arco quebrado, de duas arquivoltas, exterior e interiormente chanfradas, e o segundo, rebocado e pintado de branco, com cunhais em cantaria formando alheta, terminadas em beiral simples; na fachada lateral esquerda, adossa-se em plano recuado pano de muro, em cantaria, rasgado por pequeno janelo, com capialço e gradeado, e com portão de ferro, pintado de verde escudo, fechando as escadas, de acesso ao segundo piso, onde se abre portal de arco canopial, protegido por telheiro assente em mísulas. INTERIOR: com paramentos rebocados e pintados de branco, tendo no primeiro piso sala ampla, com pavimento de cantaria coberto por alcatifa e tecto de madeira sobre travejamento do mesmo material; à esquerda, sob a caixa das escadas existe quarto de banho. O segundo piso, apenas acedido pelo exterior, possui igualmente sala ampla, prolongada sobre o alpendre, com pavimento de madeira e tecto de madeira em masseira, tendo na parede frontal à porta de acesso porta transformada em armário. No pequeno corpo adossado ficam os sanitários e um pequeno gabinete.

Acessos

Largo do Instituto Histórico do Minho. VWGS84 (graus decimais) lat.: 41,693390; long.: -8,827570

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto nº 11 454, DG, 1.ª série, n.º 35 de 19 fevereiro 1926 / ZEP, Portaria, DG, 2.ª série, n.º 149 de 27 junho 1973

Enquadramento

Urbano, flanqueado. Ergue-se no centro histórico, no interior do antigo burgo muralhado, a poucos metros da qual ficava a porta de São Tiago, com a fachada principal voltada à fachada lateral esquerda da Sé de Viana (v. PT011609310013), formando pequeno recanto fronteiro lajeado. De ambos os lados adossam-se outras construções, em relação às quais avança. Nas imediações ergue-se a Casa de Miguel de Vasconcelos ou dos Lunas (v. PT011609310009).

Descrição Complementar

HERÁLDICA: brasão, muito delido, com as armas de João Velho: em campo vermelho, cinco cruzes de ouro de obra redonda, com engastes do mesmo e em chefe azul leão nascente de ouro, armado e linguado, de vermelho; tenentes com dois etíopes nus, de sua cor.

Utilização Inicial

Residencial: casa

Utilização Actual

Política e aministrativa: sede de organização cívica

Propriedade

Pública: municipal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 15 / 16

Arquitecto / Construtor / Autor

CONSTRUTOR CIVIL: António Domingues Esteves (1936 / 1937).

Cronologia

Séc. 15 - Provável construção; 1497 - João Velho, notável homem da vila, recebeu escudo de armas pelas façanhas praticadas na Costa da Guiné; 1502 - durante uma peregrinação a Santiago de Compostela, D. Manuel I visita Viana e fica hospedado nas casas de João Velho, "à Porta do Postigo"; 1759 - planta da cidade de Viana, assinada pelo Eng. José Martins da Cruz, representando a casa dos Arcos integrada numa frente de rua com arcada inferior disposta a N. da Sé de Viana, documentalmente designada "Arcos da Matriz"; 1780 - data num silhar do cunhal da fachada lateral direita; séc. 19, 2ª metade - a casa continuava integrada num conjunto de seis casas, cinco delas com arcada inferior, adossada à casa do Consistório da Irmandade dos Mareantes, a única que não tinha arcada; 1868 / 1869 - Planta Cadastral da Cidade de Viana do Castelo, mostra que se encontrava previsto o alargamento da rua da Praça, à custa de um realinhamento de fachadas, que desde 1862 vinha a ser pontualmente concretizado; 1876 - Manuel Roiz de Carvalho, proprietário do lote que fazia esquina com a R. de São Luiz, e que o comprara a Manuel António Pinto de Andrade, demoliu-o e reedificou-o de modo a dar-lhe duas frentes, mas a ampliação desalinhava-o dos restantes arcos da Matriz; a obra prejudicava a Irmandade dos Mareantes e a respectiva entrada da sua capela, bem como os outros moradores da rua, levando a vários protestos; 3 Maio - deliberação da Câmara Municipal, após um acordo com a Irmandade, para que o alinhamento da casa da esquina e arcos da Matriz fosse uma recta tirada do cunhal E. da casa a morrer no cunhal da casa do Consistório; posteriormente, o mesmo Manuel Roiz de Carvalho comprou a casa imediata a E. a Vicente José da Cunha e iniciou a sua reconstrução, afastando-se novamente do alinhamento estabelecido pela Câmara; os protestos da Irmandade levaram ao embargo das obras; por esta data, a casa dos arcos ainda existente era propriedade do Pe. António Vicente da Cruz, bem como os dois lotes seguintes a O.; 1877, 11 Abril - licença da Câmara conferindo um novo alinhamento da rua; 19 Setembro / 30 Outubro, entre - levantamento de uma nova planta, segundo a Irmandade forjada, e a que ela se opunha; séc. 19, finais / 20, inícios - durante este período, procederam-se a várias alterações nos edifícios dos Arcos da Matriz, cujo alinhamento foi recuado e os arcos de quatro lotes demolidos, mantendo-se apenas um deles com arcada; 1914 - adquirida pela Câmara Municipal para instalação do Instituto Histórico do Minho; 1918 - estava muito degradada; desde essa data esteve devoluta, foi armazém, abrigo de vagabundos e ciganos, ali esteve instalada a "Aliance Française" e outras; 1936 - cedência provisória dos baixos da casa dos Arcos pela Câmara Municipal ao Director dos Monumentos Nacionais, Baltasar de Castro, para instalação do seu escritório; 1961, 19 julho - Portaria fixa Zona Especial de Proteção conjunta à Igreja Matriz, Casa de João Velho ou dos Arcos e à Casa de Miguel de Vasconcelos, no DG, 2.ª série, n.º 168; 1980, cerca - instalação da Associação dos Reformados e Pensionistas do distrito de Viana no 1º piso.

Dados Técnicos

Estrutura autoportante.

Materiais

Estrutura de granito e alvenaria parcialmente rebocada; caixilharia, portas e tecto de madeira; portão de ferro; pavimento de lajes de granito e de madeira; vidros simples; algerozes metálicos; cobertura de telha.

Bibliografia

MONTEIRO, Manuel, A Casa de Gonçalo Velho in Límia, nº 1, 1ª série, Viana do Castelo, Outubro 1910, pp. 5 - 7; GUERRA, Luís Figueiredo da, Torre Solarenga no Alto Minho, Coimbra, 1925; KOCH, Wilfried, Estilos de Arquitectura, vol. 2, Lisboa, 1982; ALPUIM, Maria Augusta d', VASCONCELOS, Maria Emília, Casas de Viana Antiga, Viana do Castelo, 1983; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Alto Minho, Lisboa, 1987; FERNANDES, Francisco José Carneiro, Viana Monumental e Artística, Viana do Castelo, 1990; CALDAS, João Vieira, Casas nobres de Viana, in Monumentos, vol. 22, Lisboa, 2005, pp. 172 - 181.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID, DREMN; Arquivo Diocesano da Igreja Matriz de Viana do Castelo: Fundo da Irmandade dos Mareantes

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DREMN

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DREMN; Arquivo Diocesano da Igreja Matriz de Viana do Castelo: Fundo da Irmandade dos Mareantes

Intervenção Realizada

DGEMN: 1936 / 1937 - obras de beneficiação e restauro, pelo construtor civil António Domingues Esteves: execução de caixilharia, portas exteriores e tectos em masseira; cobertura de ferro forjado; execução de ferro forjado; reboco e caiação das paredes; 2004 - substituição do telhado do alpendre da escada de acesso ao segundo piso.

Observações

João Velho foi escudeiro do 3º Duque de Bragança, D. Fernando; guarda da Ribeira de Viana até Caminha (1450); juiz em Viana e Provedor da Irmandade dos Mareantes (1456); procurador nas Cortes em 1460, onde conseguiu que a vila de Viana voltasse a ser realenga e procurador nas Cortes pela Comarca de Entre Douro e Minho (1497). Tinha os padroados de Nogueira e Perre, que depois transitaram para os seus descendentes, com voto de apresentação do páraco de Perre. João Velho foi sepultado na Capela da Irmandade dos Mareantes, de que faziam parte as pedras inscritas existentes nos paramentos exteriores da Igreja Matriz, em frente da Casa dos Arcos, cuja tradução de uma das inscrições reza Aqui jaz João Velho, o qual ouve uma provisão por onde esta vila tornou a ser d'el rei realenga. Apesar de normalmente designada como casa de João Velho, esta não é, de facto, a sua casa já que os documentos referem que se implantava "à porta do postigo", ou seja, mais abaixo da Igreja Matriz.

Autor e Data

Paula Noé 1992 / 2006

Actualização

 
 
 
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