Igreja Paroquial de Caminha / Igreja de Nossa Senhora da Assunção

IPA.00004101
Portugal, Viana do Castelo, Caminha, União das freguesias de Caminha (Matriz) e Vilarelho
 
Igreja paroquial de transição entre o gótico final e o renascimento, integrando-se na tipologia das igrejas manuelinas de três naves, com cobertura de madeira, de dois registos na central, e cabeceira abobadada, seguindo assim o esquema das igrejas mendicantes do gótico português. É uma das igrejas paroquiais que no séc. 15 e 16 reproduz ainda as fachadas das igrejas monacais (de três corpos), variando apenas as proporções, e em que a decoração dos portais e dos pilares e a substituição dos arcos quebrados pelos de volta perfeita anunciam já o renascimento. O elaborado tecto de carpintaria, mudéjar, de "par e nó" é manuelino. Os azulejos de tapete são dos fins do 17 e os retábulos de talha dourada são do estilo nacional. O da Capela do Rosário tem, dentro do arco típico dos retábulos do 17, uma representação da Árvore de Jessé, com ramagens diagonais assimétricas, figuras baixas e movimentadas e raízes de grande realismo respirando sugestões manuelinas. Os dois confessionários são neomanuelinos. A decoração dos portais e a cabeceira revelam influência plateresca do N. de Espanha, fruto do mestre biscainho e castelhano que ali trabalhou. As janelas do clerestório no lado do Evangelho e no da Epístola, situam-se, respectivamente, nos eixos dos pilares e dos arcos. É nítida a diferença entre o portal principal e o lateral, sendo o primeiro relativamente simples e sem profundidade e o 2º trabalhado quase como se fosse o axial, o que, segundo Carlos Alberto Ferreira de Almeida, se poderá explicar pelo facto do frontespício ficar inicialmente apertado frente à muralha e ser servido por estreita viela, enquanto que o lateral se virava para a vila e era servido por dupla via. Sacrário rotativo barroco, decorado com esculturas dos Apóstolos, de grande qualidade.
Número IPA Antigo: PT011602070002
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Templo  Igreja paroquial  

Descrição

Planta longitudinal, composta de três naves, e cabeceira tripla, com capela-mor poligonal e dois absidíolos quadrangulares, com torre sineira, recuada do frontispício, sacristia e capela adossadas a norte. Volumes articulados com coberturas diferenciadas a uma e duas águas. Frontispício, orientado, de três corpos escalonados divididos por contrafortes rematados por pináculos. Frestas nos laterais; no central portal de arco pleno sobre pés-direitos enquadrados por alfiz sobre pilastra, ambos ricamente decorados com arabescos, urnas, grutescos e bestiário sobre friso. Encima-o rosácea com decoração arabesca. Fachadas laterais percorridas por cornija e friso de arabescos; na fachadaS., portal de arco pleno, organizado em retábulo. Cabeceira coroada por platibanda rendilhada e coruchéus sobre os contrafortes e gárgulas zoomórficas. INTERIOR: Naves de 5 tramos, divididas por arcos plenos sobre pilares circulares, de bases e capitéis oitavados. Nave central revestida a azulejos de padrão, com frestas nos eixos dos pilares; lateralmente, dois púlpitos confrontantes, facetados e esculpidos sobre colunelo; cobertura em tecto de laçaria geométrica em madeira de bordo "acer campestris", com esteira central e duas abas. Na esteira central desenvolvem-se as estrelas e entrelaços e abrem-se pequenas cúpulas preenchidas com pendentes, designrados por almocaravezes. Os tirantes apoiam-se em cachorros escalonados com figuras fantásticas e têm nas ligações construções poligonais. Naves laterais com tecto de madeira formando travessas rendilhadas e friso de arabescos. Na do lado da Epístola, pia de água benta esculpida e dois confessionários. Capela dos Mareantes, de planta quadrada, com arco pleno e pilares laterais esculpidos; nas paredes, pinturas murais, representando dois tondi, um deles com figuração apagada da Virgem e o Menino, e no topo, ornatos com filacteras e outros motivos; cobertura em abóbada polinervada e retábulo de talha dourada. Capela da Piedade com arco pleno entre coruchéus revestida a azulejos de padrão, coberta por abóbada sobre mísulas e retábulo pintado. Absidíolo do lado da Epístola abobadado, com retábulo de talha organizado em três níveis, com nichos e sacrário giratório com cenas da Paixão de Cristo. No absidíolo do Evangelho retábulo de talha com Árvore de Jessé. Capela-mor com abóbada polinervada sobre mísulas e bocetes dourados; as paredes são rasgadas por duas frestas de um lume. No absidíolo do Evangelho retábulo de talha com Árvore de Jessé. Sacristia de dois pisos, tendo no primeiro tecto de caixotões, arcaz com espaldar recortado e mesa facetada esculpida.

Acessos

Caminha, Largo D. António Mende; Largo da Matriz; Rua Ricardo Joaquim de Sousa (antiga Rua Direita, ou Rua do Meio)

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto de 16-06-1910, DG n.º 136 de 23 junho 1910 / Incluído no Núcleo Urbano da Vila de Caminha (v. IPA.00006175)

Enquadramento

Urbano, isolado, implantação harmónica. Insere-se na malha urbana inicialmente envolvida pela muralha medieval e com largo fronteiro protegido por baluarte seiscentista. Para além do baluarte, conhecido como "da Matriz" e de um trecho de muralha medieval pertencentes às Fortificações de Caminha (v. IPA.00002169), no mesmo largo localiza-se a Casa de Sidónio Pais (v. IPA.00032310) e, a cerca de 50 m para nordeste o atual Teatro Municipal Valadares (v. IPA.00011232).

Descrição Complementar

Na empena do frontispício assenta cruz em flor-de-lis sobre carneiro. O portal lateral S. tem pilastras esculpidas apoiando banda, com 4 nichos rendilhados contendo imagens dos Apóstolos Pedro e Paulo e dos Evangelistas Marcos e Lucas e, lateralmente, as da Esperança e Caridade. Remata-o frontão triangular com Nossa Senhora dos Anjos no tímpano, enquadrado por medalhões e urnas e coroado ao nível dos telhados por platibanda rendilhada e Cristo na Cruz. A capela lateral tem platibanda, pináculos nos cunhais e gárgulas de canhão. Na capela do Espírito Santo, sacrário rotativo. Torre sineira com parapeito saliente sobre cachorrada e coroada por merlões.

Utilização Inicial

Religiosa: igreja paroquial

Utilização Actual

Religiosa: igreja paroquial

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

DRCNorte, Portaria n.º 829/2009, DR, 2.ª série, n.º 163 de 24 agosto 2009

Época Construção

Séc. 15 / 16 / 17 / 18

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITETO: Baltazar de Castro (séc. 20). IMAGINÁRIO: Pedro Fróis. PINTORES: António de Araújo; Tomé de Tolosa; Francisco Fial; Pêro Galego. ENTALHADOR: Fernão Nuñoz.

Cronologia

1428, 10 março - lançamento da primeira pedra; 1488, 04 abril - celebração da primeira missa, estando ainda a igreja inacabada; séc. 16 - D. Manuel contribui generosamente para sua construção; construção da sacristia a norte; 1511 - construção da capela Bom Jesus dos Mareantes, segundo Rafael Moreira; 1520, cerca - o entalhador que fez o madeiramento da igreja, Fernão Muñoz, morador em Tuy, faz o primeiro retábulo da capela-mor, que pertencia ao Padroado Real; 1520 - 1530 - pintura do retábulo-mor, com tábuas alusivas à Paixão de Cristo, em torno da representação do Calvário; 1539 - feitura do retábulo da capela lateral com Passos da Paixão de Cristo; 1540 - Alvará real sobre as obras que estão a ser feitas na igreja; 1556 - conclusão da torre sineira, por Domingos Ruas e Diogo Enes, impulsionado por D. André de Noronha; 1563, 30 julho - autorização para cobrança de impostos por mais um ano para as obras; 1565, 20 abril - conclusão do teto, conforme consta da inscrição da pinha central do mesmo; 1569, 01 abril - conclusão do segundo retábulo para a capela-mor, por Manuel Asnão ou Armos; 1593, 30 julho - alvará de D. Filipe I prorrogando por mais 5 anos a imposição das taxas anteriormente estabelecidas para obras e reparação da igreja; 1598 - colocação de dois sinos na torre; séc. 17 - a Irmandade de Bom Jesus dos Mareantes tem uma sacristia pequena entre a sua capela e a do Senhor do Desterro; 1620 - reitor Manuel Lobo de Mesquita, de Lisboa, traz a imagem de São Carlos de Barromeu e coloca-a num vão da porta lateral norte; 1622 - restauro do teto; 1632 - Gonçalo Roiz do Vale e Catarina Lopo de Mesquita dotam de rendas capela que fundaram no lado do Evangelho; 1636, 21 julho - vendaval causa estragos na platibanda, merlões da torre e estátuas do portal sul; 1650 - Sebastião Pita Soares oferece painel de azulejos para janela sul, próximo da porta lateral; 1653 - feitura do púlpito; 1673 - substituição do antigo retábulo da Senhora do Rosário pelo actual; 1674 - Domingos Barbosa de Faria, sargento-mor da guarnição da vila, custeia charola do Santíssimo Sacramento e sacrário de Rodízio, pelo escultor Francisco Fernandes; 1693 - quebra-se o sino grande; 1694, 30 maio - funde-se o sino; 1695 - restauro do teto; 1701 - feitura do retábulo da Senhora dos Mareantes pelo entalhador Manuel de Almeida de Barcelos, por 450$000 e dourado por Manuel Fernandes de Oliveira, de Guimarães, por 250$000; 1705 - Irmãos da Confraria da Senhora do Rosário mandam colocar uma Árvore de Jessé feita pelo escultor Manuel de Azevedo; 1732 - 1733 - construção da sacristia do Espírito Santo; 1739 - o Padre Gonçalo da Rocha de Morais, no Livro coriozo das antiguidades desta villa de Caminha e termo, refere que foram vendidas diversas pinturas com cenas da Paixão de Cristo aquando da feitura do novo retábulo-mor; séc. 18 - Pe. António de Carvalho refere seis capelas e dezasseis altares; 1834 - extinto o imposto de sal, de onde se tirava algum dinheiro para reparação da igreja; 1932 - remoção e venda do retábulo da capela-mor por 5.000$00; séc. 20, meados - trabalha nas obras da igreja o arquiteto Baltazar de Castro; 1992, 01 junho - o imóvel é afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico, pelo Decreto-lei 106F/92, DR, 1.ª série A, n.º 126; 2002, março - encerramento da igreja ao culto; 2007, 16 dezembro - reabertura da igreja ao culto após obras de restauro e requalificação; 20 dezembro - o imóvel é afeto à Direção Regional da Cultura do Norte, pela Portaria n.º 1130/2007, DR, 2.ª série, n.º 245.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estrutura em cantaria de granito; painéis de azulejos; retábulos de talha dourada; pinturas murais; pavimento e cobertura das naves de madeira e pavimento de lajes nas capelas; cobertura exterior de telha.

Bibliografia

VITERBO, Sousa, Dicionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, vol. 3, Lisboa, 1922; CORREIA, J., Cidades e Vilas de Portugal. Caminha, vol. 1, Vila do Conde, s.d.; GUERRA, L. de Figueiredo, Viana e Caminha, Porto, 1929; DGEMN, A Igreja Matriz de Caminha, Boletim nº 6, Lisboa, 1936; Ministério das Obras Públicas, Relatório da Actividade do Ministério no ano de 1952, Lisboa, 1953; SMITH, Robert C., A Talha em Portugal, Lisboa, 1963; SANTOS, João M. F. Silva, Caminha através dos tempos. Igre2006, p. 19.jas e Capelas. Mosteiros e Conventos in Caminiana, Ano 2, vol. 2, Caminha, 1980, p. 127 - 159; CHICÓ, Mário Tavares, A Arquitectura Gótica em Portugal, Lisboa, 1981; GOMES, Comandante Carlos, EX-VOTOS, in Cadernos Vianenses, VIII, Viana do Castelo, 1984; GUERRA, L. Figueiredo da, Memória Histórica sobre a Matriz de Caminha in Caminiana, vol. 10, Ano 6, Caminha, 1984, p. 153 - 156; ALVES, Lourenço, Caminha e seu Concelho (Monografia), Caminha, 1985; DIAS, Pedro, Os Antecedentes da Arquitectura Manuelina in História da Arte em Portugal, vol. 5, Lisboa, 1986, p. 9 - 91; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Alto Minho, Lisboa, 1987; ALVES, Lourenço, Arquitectura Religiosa do Alto Minho, Viana do Castelo, 1987; FERREIRA, João Palma, Igreja de Caminha. Belo Exemplo Gótico in A Capital, Lisboa, 18 Jan. 1988; DIAS, Pedro, Arquitectura Mudéjar Portuguesa: Tentativa de sistematização, Mare Liberum, nº 8, Dezembro de 1994; SERRÃO, Vítor, André de Padilha e a pintura quinhentista entre o Minho e a Galiza, Lisboa, 1998; idem, O Retábulo da Capela do Santo Sacramento da Sé de Lisboa ( 1541 - 1555 ), Lisboa, 1999; FERNANDES, Ana Peixoto, Páraco de Caminha ameaça fechar Igreja Matriz, in Público, Porto, 14 Abril, 2001; GOMES, Paulo, Caminha vive a quinta Páscoa sem igreja matriz, Diário do Minho, 31 Março, 2006, p. 19; Deputado Jorge Fão questiona Governo sobre as obras de restauro da Igreja Matriz de Caminha, in Caminhense, 02 Junho 2006; MARTINS, Susana Ramos e ALDEIA, Cidália, Igreja Matriz de Caminha só deverá abrir portas em finais de 2008, in Caminhense, 11 Agosto 2006.

Documentação Gráfica

DGPC: DGEMN:DSID, DGEMN:DREMN

Documentação Fotográfica

DGPC: DGEMN:DSID, DGEMN:DREMN

Documentação Administrativa

DGPC: DGEMN:DSID, DGEMN::DREMN; IAN/TT: Corpo Cronológico, Parte I, maço 67, doc. 55

Intervenção Realizada

DGEMN: 1934 / 1935 - Obras de restauro; demolição dos edifícios ao redor, de 1 capela com anexo na fachada N.; demolição de 2 altares encaixados na parede S.; derrubamento do coro; reconstrução da armação dos telhados e cobertura; rebaixamento geral do adro; restauro das janelas da ábside e corpo da igreja; desentaipamento de 2 janelas na capela dos Mareantes; consolidação e reforço da abóbada da nave; demolição dos altares da capela-mor e da nave; rebaixamento e modificação do pavimento da capela dos Mareantes; reparação e limpeza da cantaria interior e exterior; construção de novo altar para capela-mor; demolição do paiol de pólvora; reconstrução do soco exterior de cantaria na torre, sacristia e outras; conclusão do revestimento de azulejos policromados em volta da rosácea; reconstrução do embasamento dos pilares das naves; reconstituição e assentamento de diversos vitrais; 1954 - reparação dos telhados; 1955 - obras de restauro e beneficiação; 1956 - reparação ligeira dos telhados e canais de esgoto; 1958 - prosseguimento das obras de restauro do pavimento; 1959 - continuação; abastecimento de energia eléctrica; obras de conservação; 1960 / 1961 - instalação eléctrica; 1967 - obras de conservação; instalação eléctrica; 1968 - construção de mísulas para colocação de imagens; diversos trabalhos de beneficiação; 1972 - reparações inadiáveis dos prejuízos causados pelo temporal; 1973 - reconstrução do altar do absidíolo N; 1976 - apeamento e reposição do altar do absidíolo S.; diversas obras; 1977 - trabalhos de conservação; reconstrução dos telhados do corpo da igreja; 1978 - reparação parcial dos taburnos da nave; 1979 - reparação dos vitrais; 1980 - pintura das portas exteriores; reparação de taburnos e revisão de vedações em coberturas; reparação da instalação eléctrica; 1986 - obras diversas de beneficiação; 1988 - reconstrução dos telhados das dependências a N.; IPPAR: 2002 / 2003 / 2004 / 2005 / 2006 - obras de restauro da igreja, com recuperação geral das coberturas; recuperação da sacristia; conservação e restauro dos azulejos policromos da nave e dos tectos da igreja; limpeza das cantarias interiores e exteriores e restauro das arcadas da sacristia; conservação e restauro dos arcazes da sacristia, do cofre em ferro policromo da sala da Confraria das Almas, dos confessionários oitocentistas e do conjunto escultórico; restauro dos azulejo da nave e elementos escultóricos; protecção e conservação dos portais e elementos decorativos em granito; intervenção arqueológica que revelaram vestígios das antigas muralhas (obras orçadas em 1.764.104.11 €).

Observações

Remoção do teto do sub-coro, sendo transferido para o edifício da Câmara Municipal.

Autor e Data

Paula Noé 1992

Actualização

Paula Noé 2001 / João Almeida (Contribuinte externo) 2018
 
 
 
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