Torre, Casa e Quinta de Aguiã

IPA.00003613
Portugal, Viana do Castelo, Arcos de Valdevez, Aguiã
 
Casa nobre gótica, barroca e neoclássica, integrada em quinta agrícola constituída por capela separada, portal armoriado, casa dos caseiros e solar do tipo casa-torre, englobando uma torre medieval quadrangular, em alvenaria de granito, ameada, à qual foram acrescentados corpos barrocos formando planta em L, ficando a torre no centro do conjunto. Fachadas dos corpos setecentistas rebocadas e pintadas de branco, contrastando com os elementos de granito, como o embasamento, cunhais apilastrados, molduras dos vãos e cornijas de remate. Fachada principal simétrica marcada por ampla loggia assente em arcaria plena, ladeada por escadarias de acesso ao piso nobre. Interior do solar com primeiro piso destinado a dependências agrícolas, adegas e arrumos e o segundo à zona da habitação. No primeiro piso os pavimentos são em terra batida e calçada e os tectos com o travejamento de madeira à vista, de suporte do soalho do piso superior. O segundo piso organiza-se por salas intercomunicantes com tectos de masseira de madeira, corredores de distribuição, alcovas e cozinha com lareira com chaminé tronco-piramidal assente em colunas chanfradas e paredes rasgadas por pilheiras. Capela barroca, de nave única, com sacristia adossada. Fachada principal com portal ladeado frestas, todos emoldurados, encimado por grande pedra de armas. Interior com cobertura em abóbada de berço de madeira, tribuna com acesso exterior e retábulo de talha policroma neoclássico. A ladear a capela, voltada para o exterior, encontra-se portal monumental com grande pedra de armas, ligado ao volume da casa dos caseiros, cuja fachada junto a este recebeu um tratamento especial de modo ser simétrico em relação à fachada da capela. É um dos exemplos mais notáveis no Alto Minho de solar barroco com torre integrada ao centro. A sua notabilidade, deve-se também, não só à simetria da planta, como à elegância do frontispício, que explora o efeito teatral criado pelo emprego de dupla arcada sobreposta e dupla escadaria lateral, desenvolvendo-se assim em comprimento e não em altura para exibir a torre. Os corpos que se foram adossando, e especialmente a implantação a N. da capela e o portão armoriado, constituem uma solução bastante interessante, visto permitir um certo enriquecimento da fachada posterior. O vão entaipado a O. na torre parece ter correspondido inicialmente ao de uma latrina.
Número IPA Antigo: PT011601020014
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Residencial senhorial  Casa nobre    

Descrição

Quinta constituída por núcleo habitacional com solar, capela separada e casa de caseiros. PORTAL de acesso à propriedade rasgado em alto muro ritmado por pináculos sobre plintos estriados, ladeado por corpos rectangulares. Do lado esquerdo, a capela, separada por pequeno arco pleno e do lado direito a casa dos caseiros, cujo o topo junto ao portal apresenta tratamento de fachada especial, rebocado e pintado de branco, em empena ladeada por pináculos, com grande janelão cego. O portal é enquadrado por pilastras de granito suportando arco pleno com chave saliente, sobrepujado por cornija, que se prolonga para o corpo da casa dos caseiros, encimada por espaldar recortado, emoldurado por volutas e flores, com pedra de armas. Acesso ao solar por caminho de terra batida correndo junto à casa dos caseiros desembocando a S. em terreiro fronteiro à fachada principal separado dos campos a S. por árvores de grande porte. SOLAR de planta em L, ligeiramente irregular, de predominância horizontal, quebrada pelo verticalismo da torre, integrada no centro do corpo principal. Coberturas em telhados de quatro águas. Fachadas rebocadas e pintadas de branco rematadas por cornija sob beiral, com cunhais apilastrados no corpo principal e cunhais em perpianho, no corpo secundário. Vãos de verga recta emoldurados a granito. Fachada principal voltada a S., com corpo principal organizado simetricamente, dividido em três panos por pilastras colossais. Pano central com arcaria plena, no primeiro piso e, no segundo, loggia também com arcaria plena e guarda em balaustrada. Interiormente encontram-se portas de verga recta, à excepção da central, em arco pleno, de acesso à torre. Cobertura interior em tecto de masseira de madeira. Panos laterais mais estreitos marcados por escadarias, de lanço único em pedra, possuindo no patamar superior balaustrada de granito. A ligar ao corpo secundário encontra-se um intermédio com arco pleno no primeiro piso e no segundo varanda alpendrada suportada por duas colunas galbadas. Pano do corpo secundário com par de portas de diferentes alturas, no primeiro piso, e no segundo, janelas de sacada com pedra de armas da família Barros e Brito entre elas. Torre com paramentos em alvenaria de granito rasgada irregularmente por pequenos vãos e rematada por merlões chanfrados. Fachada E. assente em alto embasamento de pedra saliente formando passeio, com organização regular simétrica de cinco vãos com dois registos separados por friso de pedra, composta no primeiro piso por portas nos extremos e três janelas entre estas, sendo a central de peito, e janelas de sacada com balcão assente em mísulas e guarda de ferro, no segundo registo. Fachada O. voltada ao caminho público e ao riacho, ritmada por quatro janelas jacentes e uma janela de peito junto ao topo S., no primeiro piso, e cinco janelas de peito, no segundo, com chaminé proeminente de silharia de pedra entre as duas janelas localizadas perto do topo N.. Fachada posterior a N., com corpo principal rasgado por três portas e duas frestas jacentes, no primeiro piso, e quatro janelas de peito e duas janelas de sacada com guarda de ferro, no segundo. INTERIOR organizado em dois pisos, o primeiro ocupado por dependências agrícolas, adegas e arrumos e o segundo pela zona da habitação. Os pisos comunicam verticalmente através de escada inserida na espessura da parede do topo N. do corpo secundário *1. Nesta mesma parede encontra-se, no primeiro piso, uma latrina de pedra. A compartimentação interior desenvolve-se em torno da torre. No primeiro piso através de salas intercomunicantes com acesso a partir do corpo de ligação entre o corpo principal e o corpo secundário, possuindo acessos autónomos às antigas cavalariças, através das portas da fachada E., dois espaços de arrumos de pequenas dimensões nos topos da galeria da fachada principal, uma adega com acesso pela mesma galeria e dois espaços de arrumos no corpo secundário com acesso pelo terreiro fronteiro à fachada principal. Os tectos são de madeira com a estrutura dos pavimentos em soalho do piso superior à vista. Pavimentos de terra batida no corpo de ligação e nas salas contíguas à adega O. do corpo principal, em calçada nessa mesma adega e na que se encosta à fachada E. da torre e nas divisões da ala E. do corpo principal, soalho de madeira na divisão localizada a N. da torre, e betonilha nos espaços do corpo lateral. As paredes não têm revestimento, excepto na sala a N. da torre que apresenta algumas paredes de tabique. O segundo piso organiza-se através de salas intercomunicantes, algumas das quais abrem para a loggia, contando ainda com dois corredores de distribuição, um encostado à fachada N. do corpo principal, e outro no corpo intermédio. As paredes são rebocadas e pintadas de branco. Sala de entrada localizada na ala O. do corpo principal, com tecto em masseira de madeira, com pedra de armas da famíla Rocha. Este espaço possui portas de acesso à loggia, a um quarto, ao corredor, e à sala de jantar, esta última com tecto de masseira de madeira estucado assente em cornija de madeira com janela com conversadeiras. Esta última sala possui copa anexa e porta de acesso a sala de estar que por sua vez abre para duas alcovas. Através desta sala de estar acede-se a corredor, que abre para cinco alcovas, e a salão nobre, dividido em dois espaços por parede com porta central e dois nichos laterais. O salão nobre não possui tecto, sendo visível a estrutura do telhado. Algumas das paredes não se encontram totalmente rebocadas e pintadas ou não possuem revestimento. Cozinha localizada no corpo secundário com acesso através de corredor. Tecto com guarda-pó e estrutura de suporte de tecto de masseira à vista, pavimento de cimento e paredes sem revestimento. Possui lareira de pedra com chaminé tronco-piramidal suportada por colunas chanfradas, ladeada por janelas com conversadeiras e pilheiras, rasgadas nas paredes. Para S. desenvolvem-se três salas intercomunicantes sem revestimento nas paredes, com pavimento de cimento. A última, localizada no topo S. do corpo lateral tem tecto de masseira de madeira e paredes revestidas com reboco de cimento. Torre funcionalmente independente com acesso pela loggia. Tecto em telha vã. Pavimento de terra batida com seixos rolados à superfície, e arranque de escadas de pedra constituído por cinco degraus e um patamar encostado ao canto NO. da torre. CAPELA de planta rectangular, nave única e com sacristia quadrangular adossada lateralmente. Coberturas em telhados de duas águas, na nave e três águas na sacristia. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, enquadradas por cunhais apilastrados, na nave coroados por pináculos piramidais com bola, e remates em cornija sob beiral. Fachadas de topo em empena com cruz sobre acrotério no vértice, formando frontão na principal. Fachada principal, voltada a NO., rasgada por portal de verga recta emoldurado ladeado por frestas também emolduradas e encimado por grande pedra de armas da família Rocha, com elmo e paquife. Corpo anexo com janela voltada para a fachada principal e sineira em arco pleno, acima do beiral, e porta aberta na fachada lateral. INTERIOR de espaço único com paredes rebocadas e pintadas de branco com tecto em abóbada de berço de madeira, sobre cornija de granito. Pavimento em lajeado de pedra com jazigo de família possuindo três lajes com argolas para acesso ao interior. Pias de água benta a ladearem as portas laterais. Parede testeira integralmente preenchida pelo retábulo, em talha policroma a branco e dourado, de planta recta, com três eixos. Eixo central constituído pela tribuna, com trono, em arco pleno, definido por colunas coríntias, demarcadas no terço inferior por estrias e encimado por espaldar com resplendor e acanto, ao centro. Corpo anexo de dois pisos, no primeiro a sacristia, com tecto de madeira de saia e camisa, e no segundo, tribuna privada com acesso pelo exterior.

Acessos

Aguiã, Lugar da Cardida, EN101. WGS84 (graus decimais): lat.: 41,882877; long.: -8,445613

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 95/78, DR, 1.ª série, n.º 210 de 12 setembro 1978 (Torre de Aguiã)

Enquadramento

Rural, próximo de pequeno aglomerado, implantação destacada em elevação do terreno a 154m de altitude, dominando visualmente o vale do rio Vez, entre campos de cultivo, limitada a NO. por monte arborizado. A casa integrada em quinta de produção agrícola localiza-se junto a caminho público, em terra batida, e a calçada, correndo paralelo um riacho junto à fachada O.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Residencial: casa nobre

Utilização Actual

Devoluto

Propriedade

Privada: pessoa singular

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 14 (conjectural) / 18

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido.

Cronologia

Séc. 13, finais - A quinta pertencia a dois cavaleiros de nomes Duram Martins de Guei e Martin Perez Carneiro, este último Monteiro de D. Afonso III; séc. 14 - provável construção da torre; séc. 15 - a quinta pagava um foro ao Mosteiro de Santa Maria de Valboa, em São João do Campo, concelho de Vila Nova de Cerveira; 1460 - Diogo Lopes de Aguiã aparece documentado como o primeiro senhor da Torre de Aguiã após casamento com Branca de Magalhães; 1528, 11 Fevereiro - provisão de anexação do Mosteiro de Santa Maria de Valboa ao Mosteiro de Santa Ana (v. PT011609310121), em Viana do Castelo, ao qual o foro passou a ser pago; 1550 - Rodrigo Álvares de Aguiã, Senhor da Torre de Aguiã e tabelião em Arcos de Valdevez, casa com Genebra da Rocha e dá aos seus filhos o apelido Rocha em detrimento de Aguiã; 1662 - as tropas espanholas incendeiam a quinta causando destruição nas suas casas; Bento da Rocha e Sousa faz um pedido para edificar uma casa junto à torre e abrir uma porta de comunicação interior, na parede E., a qual teve que ser novamente entaipada por dificuldades estruturais; séc. 18, início - a torre pertencia a Simão Rocha Brito, Comissário ou Coronel de Cavalaria e Governador de Valença; 1702, 18 de Agosto - Jácome de Brito da Rocha faz uma petição ao Arcebispo de Braga para construir uma capela, junto à casa e com serventia para o caminho público, com o orago de Santa Bárbara e obrigação de missas; 1703, 7 de Novembro - doação feita por Jácome de Brito da Rocha para obrigação da fábrica da capela; 1731, 3 de Janeiro - descrição dos bens do morgadio em que se inclui a casa principal com uma torre antiga ao centro, contendo na totalidade treze divisões, uma cozinha e uma varanda exterior sobre arcos de pedra voltada a S.. Inclui ainda uma casa com dois pisos a N. que serve de hospedagem e recolhimento de escudeiros e outros criados no segundo piso, contendo estrebarias no primeiro piso. A O. localizava-se um edifício térreo dividido em quatro divisões independentes que serviam de palheiro e lagares; 1758, Maio - a torre aparece descrita como tendo uma porta em arco pleno, algumas frestas e algumas janelas recentes. A porta de acesso interior entre a casa e a torre ainda se encontrava em funcionamento e a torre estava dividida em pisos e salas; séc. 18, finais - são feitas obras de melhoramento para acomodação de hóspedes convidados para uma grande recepção dada, aparecendo este evento documentado numa gazeta de Lisboa da época; 1992 - proposta de estabelecimento de Zona Especial de Protecção e inclusão na classificação da casa que envolve a torre, da capela, do portão armoriado e do terreiro fronteiro; 1999, 08 fevereiro - despacho de abertura do processo de ampliação da classificação à torre, casa e Quinta de Aguiã do Vice-Presidente do IPPAR.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes.

Materiais

Estrutura, elementos decorativos, molduras dos vãos, embasamento, cunhais, cornijas de remate, colunas, pilastras, pedras de armas, arcadas da loggia, escadarias, pavimentos, chaminé da cozinha e pias de água benta, em granito; portas, janelas e pavimentos, em madeira; retábulo em talha policroma; guardas das sacadas em ferro; cobertura exterior em telha de aba e canudo.

Bibliografia

GUERRA, Luís de Figueiredo, Torres Solarengas do Alto Minho, Coimbra, 1925; AZEVEDO, Carlos de, Solares Portugueses, Lisboa, 1969; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Alto Minho, 1987; BINNEY, Marcus, Casas Nobres de Portugal, Lisboa, 1987; ALMEIDA, José António Ferreira de, Tesouros Artísticos de Portugal, Porto, 1988; s.a., Breve Inventário Artístico do Concelho de Arcos de Valdevez, Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, s.d.

Documentação Gráfica

DGPC: DGEMN:DSID, DGEMN:DREMN

Documentação Fotográfica

DGPC: DGEMN:DSID, DGEMN:DREMN

Documentação Administrativa

DGPC: DGEMN:DSID; Arquivo privado da Casa da Torre de Aguiã

Intervenção Realizada

Proprietário: Séc. 20, anos 60 - Diversas obras de recuperação na ala E. que ficaram interrompidas, nomeadamente abertura dos nichos que ladeiam a porta de ligação dos salões nobres, alteração do muro de suporte de terras da fachada E. do solar para alargamento do caminho de acesso, remoção de escadaria exterior encostada à fachada E. do corpo lateral, execução da cornija do corpo lateral com elementos obtidos da escadaria removida; 1992 - colocação de pedra de armas da família Barros e Brito na fachada E. do corpo lateral; construção de laje de betão armado no corpo lateral; remoção de estrutura metálica envidraçada existente na loggia de ligação entre o corpo principal e o corpo lateral; remoção dos pisos interiores em madeira da torre medieval; reparação das coberturas da capela; substituição integral do tecto de madeira da capela que apresentava algumas pinturas mas que se encontrava muito danificado *3; remoção da caiação das molduras de pedra da capela.

Observações

*2 - há ainda uma escada de madeira com arranque em pedra encostada ao lado O. da base da torre central que no passado comunicava interiormente com o segundo piso, mas que actualmente não se encontra funcional uma vez que terá sido fechado o vão; *3 - a madeira com que esta cobertura foi executada veio de dois ciprestes que existiam a ladear o patamar que antecede a capela, mas que tiveram de ser removidos desse local nos anos noventa porque ameaçavam destruir o patamar.

Autor e Data

Paula Noé 1992 / Ricardo Graça 2006

Actualização

 
 
 
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