Forte de São Mamede / Fortim de São Mamede

IPA.00035778
Portugal, Portalegre, Elvas, Assunção, Ajuda, Salvador e Santo Ildefonso
 
Forte destacado construído no início do séc. 19, por ordem do Duque de Wellington, seguindo as características dos fortes das denominadas Linhas de Defesa de Lisboa e que, juntamente com os Fortins de São Pedro, da Piedade e de São Francisco, seus contemporâneos, reforçou o campo entrincheirado de Elvas, ficando o perímetro fortificado com cerca de 10km. Implanta-se num outeiro, que constituía um padastro ao Forte de Santa Luzia, onde no final do séc. 18 se iniciara e abandonara a construção de um outro reduto. Apresenta planta poligonal, de pequenas dimensões, composta por reduto, fosso e esplanada. O reduto tem quatro faces desiguais, de traçado adaptado ao terreno, orientadas para travar a aproximação do inimigo e bater uma das frentes do Forte de Santa Luzia, para onde se vira a gola, com os paramentos da escarpa exterior em ressalto e remates em parapeito, liso na gola, e com dez canhoeiras nas faces, hoje impercetíveis devido à sua ruína e a reconstruções posteriores. A meio da gola tem o acesso ao interior, onde ainda conserva través, disposto no local mais exposto ao ataque da artilharia, corpo da guarda, de planta retangular, com alojamento para o comandante, para os seus homens e um armazém, e um paiol à prova, com armazém e sala de receção. Ao contrário do marcado em planta oitocentista, os paramentos interiores não são percorridas por banqueta. O reduto é circundado por fosso, com contraescarpa em alvenaria rebocada, mas muito danificada, a partir da crista da qual se desenvolve a esplanada, que tinha cerca de 14 m, sem caminho coberto.
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Militar  Forte    

Descrição

Planta poligonal composta por reduto de quatro faces desiguais, com gola virada a noroeste, circundado por fosso e esplanada. O reduto apresenta paramentos com a escarpa exterior em ressalto e remates em parapeito liso, em alvenaria mista rebocada, mas com alguns troços derruídos, já sem reboco e cobertos de vegetação, especialmente nas faces das frentes sul e nascente. O acesso processa-se a meio da gola, por portão em ferro fixo a pilares laterais, pintados de branco, sendo precedido por ponte de alvenaria, construída sobre o fosso. O paramento a norte da ponte integra a fachada posterior da antiga casa da guarda. É circundado por fosso, com contraescarpa igualmente em alvenaria mista rebocada, mas muito danificada na maioria das frentes, exceto na frente noroeste; a partir da crista da contraescarpa, também rebocada, desenvolve-se a esplanada devidamente modelada. INTERIOR com paramento rebocado ou de alvenaria aparente, sem vestígios de antigas canhoeiras ou da banqueta que o circundava, devido ao seu mau estado e reconstruções posteriores. Quase no enfiamento do vão de acesso, dispõe-se na frente sudeste grande través, colocado perpendicularmente ao reparo e de topo arredondado. À esquerda do vão de acesso, ergue-se a antiga casa da guarda, de planta retangular e cobertura de uma água, com telhado de telha ou de chapa metálica, integrando ampla chaminé. Possui fachadas de um piso, rebocadas e pintadas de branco, com faixa e molduras dos vãos, retilíneos, sublinhados a ocre. À direita, isolado no terrapleno, ergue-se o paiol, também de planta retangular, composto por armazém e sala de receção, esta volumetricamente mais baixa. Volumes escalonados, com coberturas em telhado de uma água na sala de receção, alteada em data recente, e de perfil curvo no armazém. Apresenta fachadas rebocadas e pintadas de branco, com ligeiro talude, tendo nas laterais do corpo mais alto dois orifícios para escoamento da água da cobertura do armazém, abrindo-se na virada a nordeste janela quadrangular e, na lateral sudoeste da sala de receção, porta de verga reta, ambas de moldura pintada a ocre.

Acessos

Assunção, EN 4; estradão de terra batida, desenvolvido a partir da estrada, devidamente sinalizada, de acesso ao Forte de Santa Luzia e contornando a sua frente nascente. WGS84 (graus decimais) lat.: 38,871197; long.: -7,154864

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto n.º 30 762, DG, 1.ª série, n.º 225 de 26 setembro 1940 (muralhas e obras anexas) / MN - Monumento Nacional / ZEP, Aviso n.º 1517/2013, DR, 2.ª série, n.º 242 de 13 dezembro 2013 / Património Mundial - UNESCO, 2012

Enquadramento

Rural, isolado, a sudeste da Praça de Elvas, num pequeno outeiro denominado de São Mamede, onde existiu na Idade Média um templo dessa invocação. Implanta-se a cerca de 200m a sudeste do Forte de Santa Luzia (v. IPA.00003244), possuindo parte do fosse da frente noroeste cultivado e na frente sul e nascente coberto de mato. No terrapleno interior existem várias árvores, barracos adossados às estruturas e diversos materiais encostados ao parapeito, ocultando-o em vários troços; na frente poente, construiu-se mais recentemente pequeno edifício retangular, adossado ao parapeito. O forte confronta de todos os lados com propriedades particulares.

Descrição Complementar

No través possui lápide com a inscrição: "COOPERACIÓN TRANSFRONTERIZA / ESPAÑA - PORTUGAL / COOPERAÇÃO TRANSFRONTEIRIÇA / 2007 - 2013 / Entidade Responsável: / CÂMARA MUNICIPAL DE ELVAS / Designação do Projecto / Objectivo do Contrato: / VALORIZAÇÃO DAS FORTIFICAÇÕES / ABALUARTADAS DA FRONTEIRA / ELVAS/BADAJOZ - BALUARTES / Data: / 25-02-2012"

Utilização Inicial

Militar: forte

Utilização Actual

Cultural e recreativa: marco histórico-cultural / Residencial: casa

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

Época Construção

Séc. 19

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido.

Cronologia

Séc. 13 - já existe no local onde atualmente se ergue o forte uma Igreja dedicada a São Mamede; 1641 - no âmbito da Guerra da Restauração, a Igreja é demolida por se implantar num outeiro que constituía um padastro para o Forte de Santa Luzia, ou seja, era um local a partir do qual se poderia bombardear o forte; a imagem de São Mamede é então transferida para a Igreja da Madalena *1; 1797 - segundo a correspondência entre o governador da Praça de Elvas, o tenente general Francisco Xavier de Noronha, e o marechal general Duque de Lafões, D. João Carlos de Bragança e Ligne de Sousa Tavares Mascarenhas da Silva, "não tendo o Forte de S.ta Luzia esplanada nem obras q[ue] prometão duração na Rezistencia, se julgou essencialmente preciso fazer-se hum Reduto em huma pequena altura chamada de S. Mamede (...). Justamente se imaginou outro Reduto no Fortim chamado de S. Pedro"; quando os fortes já tinham "(...) as canhoneiras construhidas, e o fosso, e mais Obra no maior adiantamento", o marechal general do exército português, D. João Carlos de Bragança (1719-1806), 2.º Duque de Lafões, manda parar as obras, para grande desagrado do governador da praça, o tenente general Francisco Xavier de Noronha; 1811 - construção do forte de São Mamede, tal como os de São Pedro (v. IPA.00028519), da Piedade (v. IPA.00035779) e São Francisco (v. IPA.00035780), pelos ingleses e por ordem do marechal Arthur Wellesley, Duque de Wellington, quando comanda o exército anglo-luso da fronteira do Alentejo, o General Rowland Hill *2, e é governador da praça, o general Francisco Leite, tentando assim colmatar uma deficiência do campo entrincheirado sentida na batalha das Linhas de Elvas; 1815 - o forte de São Mamede é descrito como tendo planta poligonal, 10 canhoeiras, um espaldão, fosso, esplanada, um paiol à prova com corredor de ressalva e um edifício telhado (corpo da guarda) com alojamento para o comandante, outro para 6 homens e ainda um armazém; 1823 - segundo informação de Joaquim Jozé de Almeida e Freitas, tenente coronel Real Corpo de Engenheiros, "Estes reductos são p.te destacados da Fortificação desta Praça muito interessantes a boa defensa; por q[ue] estando elles bem reparados e bem fortificados hãode demorar tempo considerável os sitiantes dist.es do Forte de S. Luzia, e da Praça; port.o he de m.ta urg.ia a comcervação destes reductos, como Obras permanentes (...)"; a sua guarnição de infantaria é então de 272 soldados; 1831 - num relatório da Câmara Municipal faz-se a descrição da fonte de São Mamede e refere-se que "nas obras militares do forte, e pra uso da mesma tinha sido a dita fonte reparada e reduzida a melhor fórma a alvenaria que já tinha, e lhe deixaram uma pedra com a letra R. - Porém reclamada agora pelo senhorio do dito ferregial, se via esta Camara precisada, por falta de títulos, a declará-la não concelhia"; 1852 - segundo o relatório de José Manços de Faria, coronel graduado do Estado Maior de Engenharia, "os quatro reductos (...) destacados da Praça formão a sua primeira linha de defensa (...)"; 1875 - segundo o relatório do governador da Praça, o general Francisco Xavier Lopes, os fortes destacados da praça estão "completamente abandonados"; para a sua defesa, o forte de São Mamede precisa de 2 morteiros, 4 obuses e 4 peças estriadas; 1911, 25 maio - Decreto do Ministério da Guerra, Art. 315,2 define a Praça de Elvas e suas dependentes, tal como o forte de São Mamede, como fortificação de 2.ª classe; 1933 - a faixa da esplanada tem c. 14 m de largura, mas não se encontra marco algum do Ministério da Guerra a delimitar o seu perímetro exterior; 1934 - o valor patrimonial do forte é definido em 5.000$00; 1937, 01 maio - entra em vigor o arrendamento das pastagens do fosso e esplanada do forte, a José Piçarra, por 63$00 anuais e pelo prazo de três anos; 1938, 01 fevereiro - entra em vigor o arrendamento do forte a José Piçarra, por 188$00 anuais e pelo prazo de três anos; 02 dezembro - auto de entrega do forte ao Ministério das Finanças; 1951, 20 abril - despacho da Direção-Geral da Fazenda Pública manda rescindir o contrato de arrendamento do antigo prédio militar, dadas as obras realizadas pelo arrendatário, o qual procede à construção de uma casa junto a outras já existentes no centro do fortim, reconstrução da antiga casa do guarda e plantação de diversas árvores de fruto nos terrenos.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estrutura em alvenaria mista, rebocada, a do paiol e da antiga casa da guarda pintadas; portas, portadas e caixilharia de madeira; lápide no paiol em mármore e outra em acrílico; cobertura de telha, lajes ou chapa.

Bibliografia

AA.VV - Fortificações de Elvas. Proposta para a sua inscrição na lista do Património Mundial. Elvas (Portugal): texto policopiado, 2008; BUCHO, Domingos - Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas e suas Fortificações. Lisboa: Edições Colibri; Câmara Municipal de Elvas, 2013; JESUÍNO, Rui - Elvas - Histórias do Património. S.l.: Rui Jesuíno; Booksfactory, 2016; MORGADO, Amílcar F. - Elvas - Praça de Guerra (Arquitectura Militar). Caderno Cultural n.º 7, s.l.: Câmara Municipal de Elvas, 1993.

Documentação Gráfica

DGPC: DGEMN:DREMSul/DM; Direção de Infraestruturas do Exército: GEAEM, SIDCarta, Tombo dos Prédios Militares: PM n.º 43/Elvas - Reduto de São Mamede; Câmara Municipal de Elvas

Documentação Fotográfica

DGPC: SIPA

Documentação Administrativa

DGPC: DGEMN:DSID (DGEMN:DSID-001/012-1747, DGEMN:DSID-001/012-1749); Arquivo Histórico Militar: 3.ª Divisão, 9.ª Secção, Cx. n.º 67 (1797) (Administração Militar, correspondência entre o governador da Praça de Elvas - Tenente General Francisco Xavier de Noronha - e o Marechal General Duque de Laffoens, Dom João Carlos de Bragança e Ligne de Sousa Tavares Mascaranhas da Silva; Carta do Governador da Praça de Elvas, Tenente General D. Francisco Xavier de Noronha, para o Marechal General Junto à Real Pessoa), Cx. 76, NA8 (1823) (Informação do Forte de Santa Luzia, e Reductos destacados, Joaquim Jozé de Almeida e Freitas, T.e C.el do N.al R.al Corpo de Engenheiros), Cx. 72, n.º 3 (1852) (Relatório das Obras que se julgam precisas levar desde já a efeito na Praça de Elvas e Forte da Graça. Para constetuir as suas Fortificações n'um perfeito estado de defensa. José Manços de Faria, Cor.el Grad.º do Est.º M.or de Eng.riª), Cx. 73, n.º 11 (1875) (Relatório sobre a defesa da Praça de Elvas feito pelo seu atual governador, o General da Brigada Francisco Xavier Lopes); Direção de Infraestruturas do Exército: Tombo dos Prédios Militares: PM n.º 43/Elvas - Reduto de São Mamede

Intervenção Realizada

1997 / 1998 a Câmara Municipal de Elvas candidata os Fortins de São Domingos, São Pedro e São Mamede ao programa "Life" para obras de recuperação; DGEMN: 1998 - obras de recuperação do fortim, incluindo limpeza e remoção de lixeira do fosso, desmatação do fosso e zona envolvente, limpeza das alvenarias com arranque de vegetação, reconstrução de alvenarias em pedra nas zonas destruídas ou em ruína, proteção superior dos paramentos com construção de capeamento em argamassa de cal, areia e pedra miúda, refechamento das juntas, preenchimento de "lacunas" no reboco exterior dos panos das muralhas; CMELVAS: 1998 - fornecimento e plantação de prado na zona envolvente, fundo do fosso e parapeito, fornecimento e aplicação de cama de saibro na estrada de acesso e fornecimento e colocação de sinalética adequada; 2012 - obras de valorização das fortificações abaluartadas da fronteira Elvas / Badajoz - Baluartes, com financiamento da União Europeia, FEDER.

Observações

*1 - Junto ao templo existia uma importante fonte e poço que fornecia água aos viajantes e trabalhadores rurais da área, bem como ao Forte de Santa Luzia. *2 - Segundo o relatório do governador da Praça, o general Francisco Xavier Lopes, datado de 1875, "sabendo o Duque de Wellington que o General francez Soult se unira com Davoust e que Marmout passara o Tejo em Almaraz, convergindo todas as forças commandadas por estes generaes sobre Badajoz, levantou logo o cerco d'esta praça (1811) acolhendo-se a Elvas para se oppôr a tão grandes massas, que ameaçavam invadir novamente o nosso paiz; foi por esta ocasião fatal que aldeias, quintaes, pomares, Olivedos, casas, tudo em fim cahiu por terra e se destruiu! Até as próprias fontes foram inutilisadas, nada escapando á sanha destruidora dos engenheiros ingleses; surgindo apenas de todas estas ruinas e devastações, os fortes de S. Mamede, S. Pedro, Piedade e S. Francisco, que não serviram então, e que se acham hoje completamente abandonados". No mesmo relatório, o governador reafirma a autoria dos fortins por dizer: "A leste e oeste d'este forte [Santa Luzia], e sobre pequenas elevações de terreno, foram construídos pelos inglezes em 1811 os reductos de S. Mamede e de S. Pedro, a oeste do baluarte da Conceição, e junto ao aqueducto da Amoreira, á distancia de 700m da praça, os reductos da Piedade e de S. Francisco".

Autor e Data

Paula Noé 2017

Actualização

 
 
 
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