Quinta da Bacalhoa / Ville Fraiche / Quinta da Condestablesa / Quinta do Paraíso

IPA.00003425
Portugal, Setúbal, Setúbal, União das freguesias de Azeitão (São Lourenço e São Simão)
 
Quinta de Recreio, renascentista, permanecendo o todo multifuncional lúdico e produtivo num traçado regular. O jardim principal desenvolve-se ao redor de uma fonte, em buxo topiado a desenho geométrico. Regularidade do traçado, grande riqueza decorativa e iconográfica sobretudo ao nível azulejar, património do séc 15 e 16. Segundo CARITA, "O conjunto de azulejaria da Quinta da Bacalhoa é sem dúvida o exemplo mais rico que nos chegou, até hoje, do emprego de azulejaria nos jardins portugueses do Séc. 16"; Os azulejos têm presença em todo o jardim, nomeadamente nos canteiros, nos bancos de jardim e na Casa do Lago; Diminuta área de habitação relativamente à área lúdica exterior, funcionando "loggia", jardim de buxo e pavilhão de fresco, como um espaço uno e indissociável. Importância da paisagem como elemento de composição da quinta. Constitui um dos exemplares mais característico do modelo renascentista de jardim, servindo de modelo para os jardins mais tarde construídos em Portugal.
Número IPA Antigo: PT031512060025
 
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Registo

 
Conjunto arquitetónico  Edifício e estrutura  Residencial unifamiliar  Quinta    

Descrição

A quinta está cercada de muros ritmados por quatro cubelos. Topografia e necessidades de rega determinam construção em socalcos (quatro). Contextualização humanista determina a regularidade da organização do espaço. No primeiro socalco, a cota mais elevada, assenta o conjunto PÁTIO de recepção de planta quadrangular (com galeria de arcadas e fonte encostada à parede N. que servia de bebedouro), PALÁCIO (v. IPA.00004085) de planta em "L", JARDIM DE BUXO (de planta quadripartida centralizada por uma taça de água, podendo-se ler a composição formal das sebes do jardim de buxo, da loggia de onde se desfruta também o tapete formado pelo laranjal), percurso que une o edifício ao conjunto arquitectónico CASA DE FRESCO E PAVILHÃO / TANQUE. Segundo socalco, LARANJAL. Terceiro e quarto, VINHA. O sistema de rega nasce no enorme tanque de planta quadrangular, alimentado por gárgula de água, proveniente de nascente na mata localizada a S., é maioritariamente de Acácias e Eucaliptos. Deste tanque partem um conjunto de caleiras regadeiras que acompanham os diferentes desníveis do terreno definidos pelos socalcos, regando os diferentes campos de cultivo. O sistema de percursos reforça a regularidade da composição, desenvolvem-se na continuidade do eixo / percurso casa de fresco, percorrendo toda o perímetro da propriedade, do qual perpendicularmente se desenvolvem os percursos que acompanham o desnível do terreno e outros que dividem os talhões de cultivo. Um conjunto de elementos decorativos, nichos, medalhões, elementos de arquitectura de prazer (bancos, casas de água, casas de fresco - CASA DA ÍNDIA e CASA DAS POMBAS) transformam o percurso em ameno passeio de desfrute e contemplação da quinta e da propriedade. A vegetação surge organizada em Jardim, pomar e Vinha, distribuindo-se segundo os patamares descritos. As sebes constituem-se como planos verticais que revestem os muros e emolduram elementos decorativos, arquitectónicos e escultóricos. Surgem herbáceas nos alegretes que coroam e se adossam a muros. À simplicidade da composição opõe-se a riqueza da decoração. Em todo o percurso encontram-se pontos de paragem cuja ornamentação aumenta à medida que nos aproximamos da casa. Estes pontos desempenham usos variados (estadia, miradouro, funções religiosas). Na parte em que se encontra ligado à casa o pavimento é de tijoleira, o restante (que contorna a área envolvente à vinha) é de saibro, apresentando um carácter mais rural.

Acessos

Vila Fresca de Azeitão, junto à estrada Almada-Setúbal

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto nº 2/96, DR, 1.ª série-B, n.º 56 de 06 março 1996 / ZEP / Zona "non aedificandi", Portaria nº 255/96, DR, 2.ª série, n.º 263 de 13 novembro 1996

Enquadramento

A N. da serra da Arrábida, encosta suave exposta a N. que se estende até ao Tejo. A O. fica a Vila Fresca de Azeitão; a S. a estação de camionagens da Rodoviária Nacional; a E. um assento de lavoura constituído por um lagar de azeite, um lagar de vinho, estábulos e instalações rurais; a N. uma planície extensa onde foi edificada uma unidade industrial.

Descrição Complementar

Joaquim RASTEIRO, em 1630 na sua monografia diz-nos: "... ficando a quinta e o pomar com seus jardins da parte S. e poente (...) O conjunto de azulejaria é o exemplo mais rico que chegou até hoje do emprego de azulejaria nos jardins portugueses do séc. 16. Foi com as obras de D. Brites que o terrapleno foi nivelado (o inferior era parque), que foi criado o pátio da entrada e as casas de fresco, bem como as casas da India e das pombas. O pomar corresponderia à parcela entre a delimitação N. e a rua entre a Casa da Índia e a casa das Pombas. "O terraço inferior da quinta, que no tempo de D. Brites era ocupado por uma mata, mandou-o Brás de Albuquerque arrotear e plantar aí uma vinha." (ARAÚJO, Ilídio Alves de, Arte Paisagista e Arte dos Jardins em Portugal) No pátio da entrada realizavam-se uma festa, a quando da realização da procissão anual dos habitantes da aldeia de S. Simão, em que toda a quinta era percorrida seguindo as estações da Via Sacra ,colocadas ao longo do perímetro da Quinta. Cinco destas estações, correspondentes a cinco capelas circulares, muito pequenas, encontram-se no caminho de saibro que em tempos foi coberto por uma latada. Nas paredes da casa que dão para o jardim de buxo cresciam cidreiras e limoeiros.

Utilização Inicial

Residencial: quinta

Utilização Actual

Residencial: quinta

Propriedade

Privada: pessoa singular

Afectação

Época Construção

Séc. 15 / 16 / 17

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITETO: Diogo Torralva (atr.).

Cronologia

1427 - a quinta é pertença do infante D. João, Mestre de SanTiago, filho de D.João I, que começa a transformar a quinta, existindo um pavilhão de caça; 1442 - a sua filha D. Brites herda a propriedade, sendo erigido um palácio e definida a cerca com a construção de muros com os ângulos assinalados por cubelos de cúpulas gomadas; Édefinida a estrutura da quinta sendo o terreno dividido em dois patamares de área praticamente igual; 1506 - provavelmente terão sido os infantes de Beja a construir o palácio; 1528 - Braz de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque, compra a quinta, na altura conhecida por Quinta da Condestabelessa, a uma prima de sua mulher D. Joana de Noronha e promove algumas transformações; A nova construção mantém alguns elementos dos edifícios anteriores, como as abóbadas de ogiva, as torres com cúpulas de gomos incorporados no palácio e dispersos pela quinta, mas segue já os ensinamentos do renascimento, na planta am L, e na simplicidade das linhas direitas e os ritmos e equilíbrio da construção, bem como as loggia que se abrem nas fachadas; 1540 / 1545 - época de finalização das obras arquitectónicas; 1554 - Braz de Albuquerque edifica a "Villa"; 1581 - com a morte de Afonso de Albuquerque a quinta fica durante cerca de três séculos na família Albuquerque; 1609 - Propriedade passa a pertencer a D. Maria de Mendonça e Albuquerque, casada com D. Jerónimo Manuel, por alcunha "O Bacalhau"; É nesta altura que a quinta passa a ter o nome de Bacalhoa; 1620 - Morte de Jerónimo Manuel, a quinta passa a posse da viúva e adquire a designação actual; 1630 - o jardim murado junto da "loggia" poente era cercado de muros, tinha pelas paredes cidreiras e limoeiros; 1674 - a quinta é arrendada, sendo imposta ao rendeiro a obrigação de tosquiar o buxo do jardim e das ruas duas vezes por ano e de limpar os craveiros dos alegretes; séc. 18, início - os seus proprietários são D. Jerónimo Manuel; 1903 - a quinta é adquirida pelo rei D. Carlos e vendida em seguida a Raul Martins Leitão; 1910, 16 junho - decreto classifica apenas o palácio da Bacalhoa; 1914 - a quinta voltou a ser vendida, assim como outros bens da coroa. Foi comprada por um funcionário do Banco de Portugal, de nome Leitão; 1936 - é cedida por Raul Martins Leitão a Mrs. Orlena Z. Scoville, que a adquire em estado de ruína; 1937 - Mrs. Scoville realiza obras de restauro em que foram encontrados exemplares de azulejos da segunda metade do séc. 15; 1949, 29 julho - Portaria publicada no DG, 1.ª série, n.º 174, fixa Zona Especial de Proteção e Zona "non aedificandi" ao palácio da Bacalhoa; 1996, 06 março - decreto n.º 2/96, DR, 1.ª série-B, n.º 56, altera a designação para palácio e quinta da Bacalhoa; 13 maio - declaração de retificação n.º 10-E/96, DR, I série-B, n.º 127, retifica o distrito indicado no diploma de classificação anterior; 13 novembro - Portaria n.º 255/96, DR, 1.ª série, n.º 263, amplia a Zona Especial de Proteção à quinta; 1998 - é anunciada a venda da Quinta da Bacalhoa.

Dados Técnicos

Socalcos, muros de suporte, sistema hidráulico (grande tanque, caleiras)

Materiais

INERTES: Tijoleira 0,20 m x 0,10 m (jardim formal, caminho de alegretes, envolvente do lago e rua entre o tanque e a casa da Índia); saibro, alvenaria

Bibliografia

ARAÚJO, Ilídio Alves de, Arte Paisagista e Arte dos Jardins em Portugal, Lisboa, 1962, (pp. 93 - 97); CARITA, Helder, CARDOSO, Homem, Tratado de Grandeza dos Jardins em Portugal ou da originalidade e desaires desta arte, 1978, (pp. 49, 54 - 65, 70, 87, 89, 95, 118, 150, 175, 204, 216, 219, 222, 225, 244, 258); CASTEL - BRANCO, M. Cristina F. Ataíde, O Lugar e o significado - Os Jardins dos Vice Reis, Lisboa, 1992, (pp. 192 - 260); LINO, Raúl, A Casa Portuguesa, Lisboa, 1929, (pp. 32); MOREIRA, Rafael, "O Cadeiral dos Jerónimos" in O Rosto de Camões e Outras Imagens, CNCDP, Lisboa, 1989; MOREIRA, Rafael, A Arquitectura do Renascimento no Sul de Portugal, A Encomenda Régia entre o Moderno e o Romano, FCSH. UNL, Lisboa, pp. 356; PROENÇA, Raúl, Guia de Portugal, 1, Lisboa, 1924, (pp. 622 - 623); STOOP, Anne de, Quintas e Palácios nos arredores de Lisboa, 1986, (pp. 346 - 354);RASTEIRO, Joaquim, Quinta e Palácio da Bacalhoa em Azeitão, Lisboa, 1895 - 98; RODRIGUES, Jacinto, Arte, Natureza e a Cidade, 1993, (pp. 32) SANTOS, Carlos Alberto, Quinta da Bacalhoa, 1984, Évora, U. E..

Documentação Gráfica

IHRU: DRM,/DGEMN:.Arquivo Pessoal de Ilídio de Araújo; UE,

Documentação Fotográfica

IHRU: DRM,/DGEMN:.Arquivo Pessoal de Ilídio de Araújo; UE,

Documentação Administrativa

Intervenção Realizada

A sua anterior proprietária tinha realizado anteriormente obras de restauro.

Observações

A quinta, que só no séc. 17 tomou o nome de Bacalhoa, era conhecida por Quinta de Azeitão. Servirá de modelo para os jardins portugueses dos séc. 17 e 18, em que a casa de fresco e o lago-tanque serão fundamentais. É o monumento mais notável da nossa arte paisagista da primeira metade do séc. 16. Blac, em 1898, permitiu com as suas aguarelas a reconstrução cuidada.

Autor e Data

Paula Simões 1998 / Luísa Estadão 2005

Actualização

 
 
 
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