Convento e Igreja de São João de Alporão

IPA.00003393
Portugal, Santarém, Santarém, União de Freguesias da cidade de Santarém
 
Convento da Ordem de Malta, de arquitetura românica e gótica. Os muros robustos, os contrafortes exteriores, as bandas lombardas a nível da cornija, os pórticos em gablete, a decoração zoomórfica e vegetalista de capitéis, inserem-se dentro do formulário românico e restam como o único vestígio significativo da arquitectura românica de Santarém (SERRÃO, 1990). Por outro lado a verticalidade do edifício, o sistema de cobertura, a gramática decorativa de algumas mísulas e capitéis, inserem-se já no gótico. A igreja manifesta na sua construção duas campanhas essenciais, caracterizando-se a primeira pela edificação da nave única de planta rectangular e volume paralelepipédico, em silharia de calcário, de influência românica, datável do séc. 12; a segunda campanha manifesta-se no interior de linguagem proto-gótica visível na estrutura da cabeceira e no abobadamento primitivo da nave, observável no 3º tramo, antes do arco triunfal. O sistema de descarga da abóbada da ábside sobre os muros internos e a criação de um incipiente deambulatório, fórmula única inexistente no resto da Península Ibérica. Segundo Chicó, a nave primitivamente destinava-se a receber cobertura de madeira e não de abóbada de ogiva; por sua vez Serrão sugere a primitiva existência de uma abóbada de berço que teria possívelmente desabado num dos sismos ocorridos em Santarém no séc. 13. O pórtico saliente, de arquivoltas reentrantes e remate em gablete, no muro N., interrompe um contraforte por não se inserir no eixo do tramo. "A hibridez de elementos técnicos e decorativos, onde coexistem arcos torais e abóbadas de diferentes perfis, transformam São João de Alporão numa escola de experimentação arquitectónica da transição do séc. XII para o XIII" (CUSTÓDIO, 1996)
Número IPA Antigo: PT031416120002
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Convento / Mosteiro  Convento masculino  Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta - Hospitalários

Descrição

Planta longitudinal, orientada, composta pela nave e cabeceira poligonal mais baixa, de volume paralelepipédico. Fachada principal em empena triangular, de pano único e 3 registos demarcados por esbarros; no registo inferior abre-se o pórtico, inscrito em gablete que se eleva à altura do 2º registo; é formado por 5 arquivoltas de volta perfeita reentrantes descarregando em colunelos de capitéis vegetalistas; no registo superior grande rosácea de colunelos radiantes. Fachadas laterais de panos demarcados por contrafortes correspondendo aos tramos internos, onde se abrem seis frestas chanfradas quadrangulares, 3 de cada lado; um dos contrafortes da fachada N. encontra-se embebido numa porta lateral, também em gablete, transformada em janela. Cabeceira de planta poligonal, contrafortada, marcada em todo o seu perímetro por um esbarro. Nos panos do polígono abrem-se janelas rectangulares de maiores dimensões, semelhantes às frestas da nave e óculo; remate em modilhões (*1). INTERIOR: nave única de 3 tramos assinalados por pilastras facetadas; cobertura em abóbada de cruzaria com arcos torais de volta perfeita de tripla nervura, rematada por um fecho de folhagem espiralada; acesso à abside por arco triunfal de nervuras, sustentado por 3 colunas, de diferentes diâmetros, uma das quais participa da estrutura do presbitério, com capitéis de composição zoomórfica enquanto que os ladeantes são vegetalistas. A encimar o arco triunfal um óculo polilobado; abside com panos de duplas arcarias, criando-se entre eles um embrionário deambulatório (*2), apoiadas em colunelos e sobrepostas por óculos polilobados, com abóbada polinervada e perfis de nervuras de aresta chanfrada, rematada por pedras de fecho com símbolos da ordem dos Hospitalários. Vestigíos de transepto inscrito.

Acessos

Largo Zeferino Sarmento

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto de 16-06-1910, DG, 1,ª série, n.º 136 de 23 junho 1910 / ZEP / Zona "non aedificandi", Portaria, DG, 2.ª série, n.º 50 de 03 março 1947

Enquadramento

Urbano, adossado no vértice SO. a edifício particular. Implantado no centro histórico da cidade, tem junto à fachada S. vestígios de um claustro e de casas de um pequeno cenóbio. Numa dessas casas pode ver-se um escudo com a representação da Cruz Pátea, símbolo da Ordem dos Hospitalários. No lado oposto do largo, frente à igreja, fica a Torre das Cabaças (v. PT031416120020).

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Religiosa: convento masculino

Utilização Actual

Cultural e recreativa: museu

Propriedade

Pública: municipal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 12 / 13 / 14 / 19

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO: António do Couto (séc. 20). ENGENHEIRO: João Fagundo (séc. 19).

Cronologia

Séc. 12 - 13 - provável edificação, talvez sobre um templo mais antigo de que parece existirem vestígios; a igreja foi concluída tardiamente; 1207, 01 Março - falecimento de Frei Pedro Afonso de Portugal, filho natural de D. Afonso Henriques, sepultado no templo; 1269 - a igreja encontrava-se interdita pelo Bispo de Lisboa; 1785 - durante a visita de D. Maria I, foi demolida a torre românica, que flanqueava a fachada principal a N., para permitir a passagem do coche que transportava a rainha; 1834 - com a extinção das ordens religiosas, a igreja e o que restava do cenóbio de São João do Hospital passa para a posse do Estado; 1849 - a igreja encontra-se desprezada, servindo como arrecadação e armazém de produtos vários; 21 Junho - cedência da igreja uma sociedade de teatro, pelo Governador civil, Visconde da Fonte Boa; 1876, 16 Fevereiro - o Governador Civil, José Ferreira da Cunha e Sousa, obteve do Governo a concessão provisória do edifício, entregue à Junta Geral do Distrito que aí instala o Museu Distrital; 01 Julho - sai do local o Teatro; instalação do Museu de Santarém; 01 Agosto - última representação no Teatro de São João de Alporão; 02 Agosto - início da demolição do Teatro; 05 Setembro - a Comissão do Teatro de São João de Alporão entrega o seu espólio à Misericórdia; 1880, 01 Março - a Comissão Distrital requer a posse definitiva da Igreja; 1887 -/ 1882 - realização de profundas obras de consolidação e restauro, supervisionadas por uma comissão nomeada pelo Governador Civil, sendo responsável pelas obras o engenheiro João Fagundo; 1889 - abertura do Museu ao público; 1892, 24 Outubro - é entregue o Museu Artístico e Arqueológico à Câmara Municipal; 1893, 14 Janeiro - o Museu é entregue à Comarca; 1914 - 1936 - o director do Museu é Laurentino Veríssimo; 1937 - 1968 - é director do Museu Zeferino Sarmento; 1937 - obras no Museu, dirigidas pelo arquitecto António do Couto; 1941, 17 Janeiro - a Misericórdia devolve alguns objectos do Museu que tinha na sua posse; 1949 - o edifício passa para a posse da Câmara Municipal de Santarém; 1969 - danos causados pelo sismo; 1957, Janeiro - integra o Museu um painel da Assunção de Nossa Senhora, proveniente da Câmara; 1992 - 1994 - a Câmara Municipal de Santarém procede à reforma do Museu, sendo as obras de conservação da responsabilidade da Divisão de Núcleos Históricos; 1994 - a igreja de São João de Alporão passou a ser o primeiro núcleo museológico do Museu Municipal de Santarém e um centro de investigação e desenvolvimento; 2003 - encerramento do museu para obras de recuperação da pedra, no interior do edifício; 2012, 09 março - encerramento do Museu ao público, por questões de segurança; 2019, julho - abertura de concurso público para reabilitação exterior do edifício; 21 outubro - aprovação da adjudicação da obra à empresa Revivis - Reabilitação, Restauro e Construção, Lda.

Dados Técnicos

Estrutura mista

Materiais

Pedra calcária local (nave) e de Alcanede (cabeceira e presbitério)

Bibliografia

BRAZ, José Campos, Santarém raízes e memórias - páginas da minha agenda, Santarém, Santa Casa da Misericórdia de Santarém, 2000; CHICÓ, Mário Tavares, A Arquitectura Gótica em Portugal, Lisboa, 1981; CUSTÓDIO, Jorge, A Igreja de São João do Hospital ou de Alporão, in Património Monumental de Santarém - Inventário - Estudos Descritivos, CMS, Santarém, 1996; DIAS, Pedro, História da Arte em Portugal. O Gótico, Vol. IV, Lisboa, 1986; SARMENTO, Zeferino, Santarém in A Arte em Portugal, Porto, 1931; SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Inventário Artístico de Portugal-Distrito de Santarém, Vol. III, Lisboa, 1949; SERRÃO, Vítor, Santarém, Lisboa, 1990.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID

Intervenção Realizada

DGEMN: 1932 / 1933 / 1934 / 1935 / 1936 - obras gerais de restauro; apeamento do campanário de duplo olhal e parapeito, da fachada principal; tratamento das cantarias em todas as frentes exteriores das fachadas; limpeza de ervas; refechamento de juntas; consolidação e refechamento de algumas pedras das nervuras e forro da abóbada; substituição das caixilharias em ferro; colocação das vidraças; 1969 - trabalhos de consolidação dos danos causados pelo sismo; 1970 - recuperação da cobertura, conservação dos interiores; 1982 - beneficiação da cobertura da nave e capela-mor, dos tectos em abóbada, de caixilharias de chumbo e porta principal; CMS: 1992 / 1993 / 1994 - remodelação do espaço museológico; obras gerais de conservação.

Observações

"Nos sécs. XIII e XIV a Igreja de São João de Alporão fazia parte de um complexo monacal situado junto da porta de Alpram ou de Alporão, que se denominava Mosteiro de São João do Hospital, pelo que se pensa que uma das funções do templo junto à porta teria sido de proteger o acesso militar à cidade pelo lado Nascente e vigiar a entrada dos Judeus na cidade, de acordo com as regras estabelecidas entre os cristãos e aquela minoria étnica." *1: Os modilhões apresentam similaridades com a Fonte Medieval das Figueiras (v. 1416210004) (CUSTÓDIO, 1996, p. 49-53). *2: Para Jorge Custódio, o que alguns autores consideram de deambulatório, é a passagem de acesso a uma antiga torre. João Barreira (1927) faz sentir as semelhanças entre São João de Alporão e a Igreja de Quesmy, no Oise (2ª. metade do séc. XII); Mário Chicó (1954) refere a sua filiação com as igrejas ducentistas da IIê-de-France.

Autor e Data

Rosário Gordalina 1990 / Cecília Matias 2002

Actualização

 
 
 
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