Torre de Dornes

IPA.00003361
Portugal, Santarém, Ferreira do Zêzere, Nossa Senhora do Pranto
 
Atalaia possivelmente construída no início do séc. 13, pela Ordem do Templo, sobre estruturas romanas, integrada no sistema defensivo da Ordem, tendo sido remodelada no séc. 16, para colocação dos sinos do concelho. Implantada num esporão avançado sobre o rio Zêzere, de onde se tem domínio sobre o mesmo e se desfruta magnifico panorama, apresenta planta pentagonal, uma planimetria invulgar para as torres defensivas medievais, com paramentos aprumados, evoluindo em dois pisos, rematados em friso e cornija, de feitura quinhentista. As gárgulas dispostas nos cunhais sob o remate deverão ser também desta época. Tem acesso sobrelevado, virado ao topo do esporão e ao rio, por porta de verga reta, reaproveitando estela funenária, decorada com lança, dardo e escudos relevados, sobre importas, sendo atualmente acedido por escada adossada em L, mas que primeiramente teria apenas um lanço. As fachadas não possuem qualquer tido de fenestração, abrindo-se apenas no topo de duas das faces, viradas a poente, três ventanas em arco de volta perfeita, com sinos. Na visitação de 1536 referem-se apenas dois sinos do concelho, sendo, provavelmente, o terceiro de feitura posterior e para serventia da igreja. No interior, o segundo piso, ao nível dos sinos, possui cobertura em abobadilha de tijolo, reaproveitando materiais antigos, sobre trompas de ângulo, de possível feitura quinhentista.
Número IPA Antigo: PT031411050004
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Militar  Atalaia    

Descrição

Planta pentagonal, de massa simples, com cobertura em cúpula, rematada por pináculo cilíndrico, inserida em terraço protegido por guarda plena, rematada em beirada simples, coroada por ameias em chanfro sobre os cunhais. As fachadas, em alvenaria de xisto argamassada, têm cerca de 20 m de altura, cunhais em cantaria calcária, tendo alguns silhares siglados e integrando, sob o remate, em friso e cornija, gárgulas de canhão. A fachada norte é rasgada por portal sobrelevado, de verga reta, com o intradorso decorado com elementos relevados (dois escudos, uma lança, um dardo e uma cartela retangular com os ângulos cortados), assente em impostas. Sobre a verga existe viga em ferro a reforçar a fachada. O portal é acedido por escada de alvenaria de pedra, em L e de dois lances, adossada à torre, com guarda do mesmo material, sendo a norte parcialmente rebocada. As fachadas viradas a nascente e a sudeste são cegas e a disposta a ocidente é rasgada, superiormente, por duas ventanas, descentradas e desiguais, em arco de volta perfeita, albergando sinos. Na fachada sudoeste abre-se superiormente ventana, de igual modinatura, também com sino. INTERIOR de dois pisos, interligados por escada de madeira, com pavimento em soalho e cobertura do segundo piso, ao nível dos sinos, em abobadilha de tijolo, integrando no fecho lápide romana com inscrição ilegível, assente em trompas de ângulo. Na cobertura abre-se vão para aceder ao terraço.

Acessos

Nossa Senhora do Pranto, EM. 521; EN. 238

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 32 973, DG, 1.ª série, n.º 175 de 18 agosto 1943 / Incluído na Zona de Proteção da Igreja Paroquial de Dornes (v. IPA.00001992)

Enquadramento

Urbano, isolado, no topo norte da povoação, desenvolvida num monte oblongo, avançado sobre o rio Zêzere, formando quase uma península, com encostas muito inclinadas, à exceção da virada a sul, que é menos inclinada. A torre ergue-se numa posição dominante, a norte da Igreja Paroquial, sobre afloramento rochoso, inserido em plataforma pentagonal, de dois níveis, com escada de acesso a poente. Entre a fachada norte da torre e o cemitério, disposto do limite norte do monte, existe largo pavimentado a paralelepípedos, com duas faixas longitudinais enquadrando cruzes da Ordem de Cristo. Junto à fachada nascente da torre existe um marco, em calcário, com a cruz da Ordem de Cristo, tendo no reverso inscrição romana, a qual foi retirada da igreja paroquial aquando das obras de restauro, em 1964.

Descrição Complementar

No interior da torre existem várias lápides funerárias de cavaleiros da Ordem do Templo.

Utilização Inicial

Militar: atalaia

Utilização Actual

Cultural e recreativa: marco histórico-cultural

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

Sem afetação

Época Construção

Séc. 13 (conjetural) / 16

Arquitecto / Construtor / Autor

EMPREITEIRO: Joaquim da Silva Ramalho (1961). FIRMA: Construções Anselmo Costa, Ldaª (1992).

Cronologia

Séc. 01 a.C. - segundo Carlos Batata e Paulo Arsénio, no local onde se ergueria a torre existia um castro romanizado, conforme documentam os vestígios arqueológicos; Carvalho da Costa refere uma lenda que atribui a construção da torre ao general romano Quinto Sertório por esta época; séc. 08 - 09 -durante a ocupação muçulmana, o território é integrado no domínio do Castelo de Monsalude, cujas possessões se estendiam de Alvaiázere a Vila de Rei; 1159, fevereiro - D. Afonso Henriques doa à Ordem do Templo o castelo de Ceras e respetivo distrito, cujos limites, segundo António Baião, se estendiam até ao rio Zêzere, no sítio chamado Cais, vinham pelo caminho público até ao mosteiro de Murta (cujos vestígios desapareceram) e ribeira do mesmo nome, até Fraxineta, descendo para o sítio de Tomar, na estrada de Coimbra a Santarém, e daí a Ourém, Beselga e depois rio Zêzere até novamente ao sítio de Cais; 1200 - D. Sancho I doa parte do reguengo de Monsalude a D. Pedro Afonso, filho ilegítimo de D. Afonso Henriques; 1201 - D. Pedro Afonso, filho de D. Afonso Henriques, cria naquele território o concelho de Arega, a quem concede carta de foral, onde surge a referência mais antiga conhecida de Dornes, sendo uma das testemunhas registadas "prelatus a Dornas"; 1206 - D. Pedro Afonso doa a povoação de Dornes à Ordem do Templo; é provável que posteriormente a Ordem do Templo tenha construído a torre de Dornes sobre uma estrutura pré-existente; 1225 - a partir desta data Dornes passa a comenda da Ordem do Templo; 1307, 12 agosto - o papa Clemente V, pela bula "Regnans in ecclesis triumphans", dirigida a D. Dinis, convida o rei a acompanhar os prelados de Portugal ao Concílio de Viena, onde se procuraria determinar o que fazer da Ordem do Templo e dos seus bens, por causa dos erros e excessos que os seus cavaleiros e comendadores haviam cometido; pouco depois, pelas letras "Deus ultiorum dominus", dirigidas ao arcebispo de Braga e bispo do Porto, nomeia-os como administradores dos bens templários em Portugal; D. Dinis empreende uma série de medidas, internas e externas, para evitar que os bens dos Templários em Portugal integrassem o património da Ordem do Hospital; assim, ordena que seja tirada inquirição sobre o património da Ordem e, pela via judicial, incorpora-o na Coroa, alegando que as doações haviam sido da responsabilidade régia e que obrigavam à prestação de serviços ao rei e ao reino; 1312, 22 março - extinção da Ordem do Templo, pela bula "Regnans in Coelis"; 02 maio - bula "Ad Provirem" concede aos soberanos a posse interina dos bens da Ordem do Templo, até o conselho decidir o que fazer com eles; 1319, 14 março - bula "Ad ea ex quibus" de João XXII institui a Ordem de Cavalaria de Jesus Cristo, ou a Ordem de Cristo, para quem passam todos os bens e pertenças da Ordem do Templo: "outorgamos e doamos e ajuntamos e encorporamos e anexamos para todo o sempre, à dita Ordem de Jesus Cristo (...), Castelo Branco, Longroiva, Tomar, Almourol e todos os outros castelos, fortalezas e todos os outros bens, móveis e de raiz"; 1321, 11 junho - divisão em 38 comendas da Ordem de Cristo dos antigos bens pertencentes aos Templários, onde se integra a vila de Dornes; 1453 - o comendador-mor D. Frei Gonçalo de Sousa manda re-edificar a igreja paroquial e construir a Quinta da Granja (atual Quinta do Cerquito) para aposentadoria dos comendadores; séc. 16 - Dornes adquire categoria de Comenda-mor, sendo entregue a D. Fernando de Sousa, filho de frei Gonçalo; 1504 - data do Tombo de Dornes, que refere a torre junto da igreja como pertencente à Ordem de Cristo; séc. 16 - reforma e alteamento da torre, com colocação de ventanas para os sinos do concelho em duas fachadas; 1513 - Carta de Privilégio de D. Manuel determina que os moradores de Dornes deviam levar a madeira e tabuado que dela mandasse vir, até à serra e, competindo o seu transporte dai até Tomar aos moradores das terras vizinhas, o que reflete o aumento da silvicultura na região; 10 novembro - concessão de Foral Novo a Dornes; 1527 - data do Numeramento então realizado, tendo Dornes e seu termo 381 fogos, 79 deles na vila; 1536, 22 junho - segundo a visitação de Frei António de Lisboa às igrejas do Bico e de Dornes, junto da última igreja "esta huua torre de pedra alta e antiga q serve per huua escada e em que estam dous sinos q sam do concelho e são de boa grandura"; 1607 - data do Tombo da comenda de Dornes, tendo então à frente D. Afonso de Lencastre; 1621, 22 outubro - sucede na comenda seu filho, D. Afonso de Alencastre; 1631 - a comenda é avaliada em 265$000 anuais; 1654, 11 agosto - D. João IV institui a Casa e Estado do Infantado e dou-a a seu filho D. Pedro com o título de Duque de Beja; compreendia a cidade de Beja, e todas as vilas e lugares, castelos, padroados, etc. que, por condenação do marquês de Vila Real e duque de Caminha, lhes tinham sido confiscados para a Coroa; 1656, 25 maio - anexação da comenda de Dornes à Casa do Infantado, rendendo então 512$500; 1666 / 1686 - data do Tombo da comenda de Dornes; 1686, 06 abril - prolonga-se por um ano a sua administração à Infanta, filha de D. Pedro II; 03 maio - concede-se-lhe mercê da mesma comenda; 1693, 02 março - a comenda passa para o Infante D. Francisco; 1736, 27 fevereiro - confirmação da concessão da comenda de Dornes ao Infante D. Francisco; 1750, 15 outubro - alvará a confirmar a passagem da posse da Casa do Infantado para o Infante D. Pedro, na sequência da morte do Infante D. Francisco; 1753 - 1757 - data de feitura do Tombo da comenda de Dornes, sendo juiz e corregedor da comarca o Dr. Manuel Jacinto Leitão; a comenda pertence então ao Infante D. Pedro, irmão de rei D. José; 1755, 01 novembro - o terramoto sente-se durante cerca de 9 minutos, mas a torre e a igreja não sofrem danos; 1791, 02 setembro - vários juízes reunidos decidem apresentar ao rei um pedido de mudança da sede do concelho da vila de Dornes para o Beco, dado em Dornes não existir cadeia, nem casa da câmara, mas apenas se divisarem os seus alicerces, e atendendo ao facto da vila estar deserta, sem povoação, ser muito distante das povoações do seu termo, com muito más serventias, e por ser edificada em sítio áspero e fragoso, enquanto o Beco ficava no centro do termo, ser o mais povoado e com grande capacidade para servir duma grande vila; 1792 - as rendas da comenda de Dornes orçam em 1:915$000; 1796 - os juízes ordinários renovam a solicitação para mudar a sede do concelho da vila de Dornes para o Beco, parecendo ao corregedor da comarca ser uma representação muito digna de ser atendida; 1799 - 1801 - durante estes anos, o rendimento anual da Comenda é de 2:960$000; 1810, 19 novembro - durante as invasões francesas, as tropas de Napoleão entram em Dornes e aí permanecem durante 4 meses causando muitos estragos; 1834 - extinção da Casa do Infantado; 1836, 06 novembro - extinção do concelho de Dornes, sendo a vila integrada no concelho de Ferreira de Zêzere com as suas freguesias de Paio Mendes e Bêco; 1940, 26 setembro - publicação de Decreto nº 30 762, no DG, 1.ª série, n.º 225, determinando a classificação do edifício como Imóvel de Interesse Público; 01 novembro - publicação do Decreto nº 30 838, DG, 1.ª série, n.º 254, suspendendo o decreto n.º 30 762, de 26 de setembro do mesmo ano, relativamente à classificação de imóveis de propriedade particular.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estrutura em alvenaria de xisto argamassado; cunhais, frisos, cornijas, molduras dos vãos e ameias em cantaria calcária; viga e gatos de ferro; sinos em bronze; cabeção dos sinos em madeira; porta, pavimento e escada interior de madeira; abobadilha de tijolo; beirada de telha.

Bibliografia

BAIÃO, António - «A Vila e concelho de Ferreira do Zézere. Dornes e o seu termo no século XVII». In O Archeologo Português. Lisboa: Imprensa Nacional, 1912, vol. 17, pp. 222; BAIÃO, António - «A Vila e concelho de Ferreira do Zézere. Dornes e o seu termo no século XVIII». In O Archeologo Português. Lisboa: Imprensa Nacional, 1913, vol. 18, pp. 8-57; BAIÃO, António - A Vila Concelho de Ferreira do Zêzere. Apontamentos para a sua história documentada. Lisboa: Imprensa Nacional de Lisboa, 1918; BATATA, Carlos, ARSÉNIO, Paulo - Carta Arqueológica do Concelho de Ferreira do Zêzere. S.l.: Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere; Ozecaurus, Serviços Arqueológicos Lda., 2006; CÂNCIO, Francisco - Ribatejo Histórico e Monumental. S.l.: s.n.,1938, vol. 3; Dornes (http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/?sid=sitios.resultados&subsid=54067), [consultado em 26 abril 2016]; GONÇALVES, Iria (organização) - Tombos da Ordem de Cristo. Comendas do Médio Tejo. Lisboa, Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2005, vol. 2; SEQUEIRA, Gustavo de Matos - Inventário Artístico de Portugal. Distrito de Santarém. Lisboa: Academia Nacional de Belas Artes, 1949, vol. 3; TEIXEIRA, Armindo (coordenação geral) - Dornes O Tesouro dos Templários. S.l.: Junta da Freguesia de Dornes, 2010; TORREJAIS, Ana - Torre Pentagonal em Dornes (http://www.zezerepedia.com/pagina-inicial/wiki/torre-pentagonal-dornes-2), [consultado em 26 abril 2016]; Unidade Pastoral de Ferreira do Zêzere (http://hist-upfzz.blogspot.pt/), [consultado em 26 abril 2016]; http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/73796 [consultado em 21 dezembro 2016].

Documentação Gráfica

DGPC: DGEMN:DSID

Documentação Fotográfica

DGPC: DGEMN:DSID

Documentação Administrativa

DGPC: DGEMN:DSARH (DGEMN:DSARH-010/098-0002, DGEMN:DSARH-010/098-0021), DGEMN:DSMN (DGEMN:DSMN-0314/19)

Intervenção Realizada

1895 - escavações arqueológicas realizadas em volta da torre, por Leite de Vasconcelos, tendo-se encontrado um denário de prata do séc. 1 a.C., bem como diversa cerâmica um pouco posterior; DGEMN: 1948 - obras de conservação; 1961 - obras de conservação, consistindo no escoramento da armação e escadas em madeira de pinho no interior, pequenas consolidações em paredes de alvenaria, incluindo o refechamento das juntas, e reparação da cobertura, pelo empreiteiro Joaquim da Silva Ramalho; 1968 - instalação elétrica; 1992 - obras de reparação, gateação e refechamento de juntas na alvenaria, executadas pela firma Construções Anselmo Costa, Ldaª; IPPC: 1992 - escavações arqueológicas por Carlos Batata, que encontra no local grande quantidade de cerâmica, manual e cerâmica comum indígena, bem como cerâmica de construção e doméstica romana; é ainda encontrado um denário da família "Iunia" e uma moeda de "Decimus Iunius Silanus" (89 a.C.); IPA: 2004 - trabalhos arqueológicos de prospeção por Carlos Batata, para a realização da carta arqueológica de Ferreira do Zêzere.

Observações

Autor e Data

Paula Noé 2016

Actualização

 
 
 
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