Castelo de Marvão / Fortificações de Marvão

IPA.00003234
Portugal, Portalegre, Marvão, Santa Maria de Marvão
 
Fortificação de construção medieval, em local estratégico para defesa do território da raia espanhola, composto por castelo e cerca urbana, com barbacã extensa, do séc. 14 / 15, remodelada e reforçada por algumas obras modernas a partir de meados do séc. 17 e das Guerras da Restauração. Implanta-se sobre uma colina rochosa e escarpada, de forte declive, com as estruturas perfeitamente adaptadas à morfologia do terreno, orientadas no sentido noroeste - sudeste, em cujos topos, bem como à frente das portas da frente nascente e onde o declive é menos acentuado, se localizam as obras abaluartadas. O castelo é formado por dois recintos independentes, possivelmente já existentes no séc. 13, o inferior ou albacar, com funções militares e onde se poderia refugiar a população, integrando na frente sudeste cubelo retangular e, num recorte da muralha, porta em arco, e o superior composto por torre de menagem, num dos ângulo da muralha e avançando para o interior, cubelo ultra-semicircular no lado oposto, formando frente coberta por barbacã da porta, de perfil recortado, e tendo um outro cubelo a norte, disposto de ângulo. A torre de menagem possui acesso sobrelevado, por porta em arco sobre impostas, de feição medieval, e seteiras rasgadas em dois níveis, indiciando dois pisos, mas que foram reformados no séc. 15 / 16, altura em que, possivelmente, se executou a abóbada de nervuras biseladas com brasão real no fecho, no piso inferior, e se abriu a porta independente, a partir do adarve, para o piso superior, em arco biselado, entaipado entre 1942 e 1945. A cerca urbana terá sido construída em finais do séc. 13 / inícios do 14, no enfiamento do castelo e ocupando o remanescente da crista rochosa, conservando alguns cubelos retangulares ou ultra-semicirculares, e apresentando três portas, duas na frente nascente, ladeadas ou, no casa das Portas da Vila, flanqueadas por cubelos curvos, e a de sudeste, coberta por dois cubelos retangulares. Na transição do séc. 14 para o 15, foram construídas as barbacãs, uma extensa que se prolonga da frente sudeste até nordeste da cerca urbana, a da porta nordeste do recinto inferior do castelo e as das portas do recinto superior, a da frente noroeste subsistindo apenas pequeno troço inserido numa cortina. Possivelmente, foi também por esta altura que se construíram as várias linhas de muralhas e respetivos seccionamentos entre a frente sudeste do castelo e a cerca urbana, delimitando a cisterna grande e impondo ao inimigo percursos de entrada em curva por espaços confinados e cobertos a partir do adarve. Quer a cisterna grande, quer a pequena, no interior do recinto superior do castelo, possuem planta retangular, interiormente em cantaria siglada, com tramos definidos por arcos sobre pilares. As muralhas medievais do castelo e da cerca urbana apresentam os paramentos aprumados, rematados em parapeito simples, interiormente percorridos por adarve acedido por escadas adossadas, sem vestígios de seteiras ou troneiras, devido às demolições infligidas ou às reformas posteriores. Os acessos do castelo encontram-se bastante alterados e, desde meados de Setecentos, que se acedia ao seu interior a partir da vila, não existindo na cartografia da época qualquer marcação de caminhos no enfiamento das portas, tendo as das frente nordeste e noroeste do recinto inferior e a da frente noroeste do recinto superior, as duas últimas reaproveitando elementos antigos, pois apoiam-se em impostas, sido transformadas em poternas. Na sequência das Guerras da Restauração, optou-se por adaptar as estruturas medievais ao uso de artilharia, cortando alguns cubelos, criando plataformas de tiro e introduzindo canhoneiras nos seus paramentos e guaritas nos ângulos das muralhas, cubelos ou sobre as Portas de Ródão. Na torre de menagem elimina-se o piso superior e cria-se terraço sobre a abóbada da sala inferior, com parapeito e banqueta, esquema que mantinha em 1828, quando se projetava a sua adaptação a paiol permanente, e que ainda hoje preserva. É possível que o próprio perfil da muralha no topo noroeste do recinto inferior do castelo tenha sido alterado, visto atualmente formar como que duas tenalhas seguidas. Nos topos noroeste do castelo e sudeste da cerca, as barbacãs foram integradas ou reforçadas, respetivamente, por obras tipo tenalha, muito irregulares e adaptadas ao terreno, e a cobrir as portas da frente nascente da cerca urbana, reforça-se a barbacã extensa com meios baluartes. O das Portas de Ródão, remata em cordão, a diferentes alturas, e alto parapeito com canhoneiras e frestas de tiro, possuindo o terrapleno interior delimitado por panos de muro, criando corredor de circulação até à porta, coberto por frestas de tiro. Este meio baluarte conserva ainda pequeno paiol de bateria. Nas Portas da Vila sucedem-se três portas, em arco, a do meio baluarte, a da barbacã, flanqueada por cubelos ultra-semicirculares, e a da cerca. Todas as portas das estruturas modernas são em arco e despojadas de qualquer elemento decorativo.
Número IPA Antigo: PT041210020001
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Militar  Castelo e cerca urbana    

Descrição

Fortificação de planta poligonal irregular, desenvolvida no sentido noroeste - sudeste, adaptada à morfologia do terreno, composta por castelo e pela cerca da vila, possuindo entre ambos três cinturas de muralhas e várias compartimentações, barbacãs a cobrir as portas e setores mais frágeis, e estruturas abaluartadas a reforçar os topos noroeste e sudeste, bem como grande parte da frente nascente. As estruturas do castelo e da cerca da vila apresentam os paramentos aprumados, de espessura variável, em alvenaria de pedra, rematados em parapeito simples, inclinado, interiormente percorridos por adarve, acedido por escadas adossadas à muralha, tendo ainda escadas em alguns setores do adarve, para vencer os desníveis ou aceder aos cubelos. As estruturas abaluartadas possuem os paramentos com a escarpa exterior em talude, rematada em cordão e parapeito de canhoneiras, com terraplenos no interior. Quer estas estruturas, quer o castelo e a cerca urbana integram nos ângulos dos paramentos guaritas quadrangulares, com cobertura em domo facetado, rasgadas por três frestas de tiro e acedidas por vão retilíneo. O CASTELO é composto por dois recintos independentes, atualmente com acesso a sudeste, a partir do interior da vila, após se ultrapassarem várias linhas de muralhas e compartimentações. A muralha do topo da vila é mais baixa e interrompida no enfiamento da Rua Doutor Matos de Magalhães, possuindo no extremo sudoeste recorte irregular e avançado no terreno, com algumas canhoneiras no remate. Segue-se uma segunda linha de muralha, com espaço intermédio bastante estreito, interiormente percorrida por adarve e integrando no cunhal sudoeste guarita; é rasgada por portal em arco de volta perfeita, biselado, e, à sua esquerda, troneira circular. O portal acede a pequeno recinto intermédio de distribuição, possuindo no ângulo sudeste da muralha frontal ou noroeste dois cubelos cilíndricos, com estreita zona de passagem intermédia, conduzindo a recinto ainda mais pequeno e protegido a partir do adarve da muralha, que o inimigo tinha de atravessar, até um outro portal, em arco de volta perfeita, que conduzia ao recinto precedente do castelo. Da zona de distribuição, acedia-se, a poente, a espaço delimitado por muralha avançada, de perfil recortado e com canhoneiras, onde ficavam as latrinas; a nascente, um portal, em arco apontado, precedido por escada com patamar, seguido de um outro portal, de verga reta sobre impostas, dá acesso à cisterna grande (v. IPA.00036148). Esta é delimitada por muralhas e coberta por dois cubelos ultra-semicirculares, o mais a nordeste parcialmente encoberto por ampla plataforma, protegida por parapeito e acedida por escadas pela face interior da muralha sudeste. Sensivelmente a meio da terceira muralha abre-se portal, que permitia a ligação entre o recinto precedente do castelo e a cobertura da cisterna. O PRIMEIRO RECINTO ou ALBACAR tem planta irregular alongada, tendencionalmente retangular, com dois ângulos salientes a poente e a noroeste, integrando na frente sudeste, sensivelmente a meio, cubelo quadrangular, denominado Torre da Bandeira, coberto em terraço, acedido por dois lanços opostos de escadas a partir do adarve, e protegido por parapeito com uma canhoneira em três faces e possuindo no cunhal sudoeste guarita. O acesso ao interior do recinto é feito num ângulo côncavo a sudoeste, por porta em arco de volta perfeita, ladeada, na face interna, por escadas para o adarve. Num dos ângulos salientes virados a poente, abre-se a porta, de verga reta sobre impostas, e, na frente nascente, porta em arco para a liça, protegida por barbacã com cubelo curvo, prolongada até ao recinto superior, mas de que apenas subsistem as primeiras fiadas. Junto à muralha sudeste, ergue-se, a nascente, o edifício do antigo forno do assento, com planta retangular irregular, cobertura em telhados de duas águas, e fachadas de um piso, funcionando hoje como loja de produtos turísticos. Do lado poente, ergue-se edifício do antigo corpo da guarda, retangular, com cobertura em telhado de uma água, e fachadas de dois pisos, atualmente com instalações sanitárias e outros serviços de apoio ao turismo. O SEGUNDO RECINTO, implantado a nordeste, tem planta sensivelmente retangular irregular, e é composto por torre de menagem retangular, a sudoeste, cubelo curvo a sudeste, muito mais baixo, e, no topo norte, cubelo retangular, disposto de ângulo. A frente sudeste é precedida por barbacã da porta, de perfil recortado, criando plataforma sobrelevada a sudoeste, onde o parapeito do remate tem duas canhoneiras, rasgando-se no pano nascente porta em arco apontado. O castelo tem acesso a sudeste, por porta, em arco apontado, rasgada junto à torre de menagem, e que na face interna é protegida pelas frestas de tiro existentes na fachada lateral de edifício, adossado à muralha, de um piso e cobertura em telhado de uma água. A torre de menagem, designada por Torre do Boto, remata em parapeito simples e é rasgada por dois níveis de seteiras e, a norte, por porta sobrelevada, em arco de volta perfeita sobre impostas, com tímpano liso, atualmente acedida a partir de um passadiço desde o adarve. No interior possui uma única sala, coberta por abóbada de cruzaria, com nervuras biseladas desenvolvidas a partir do pavimento, e chave decorada por brasão real. Escadas permitem aceder ao terraço da cobertura, sobre a abóbada, e ao adarve do parapeito, num plano superior. A nascente adossam-se as escadas para o adarve da muralha circundante e para o cubelo a norte, o qual remata em terraço, protegido por parapeito com canhoneiras e uma guarita. No pano de muralha a noroeste, abre-se a porta da traição, de verga reta, sobre impostas, flanqueada por dois edifícios, de um piso e cobertura de uma água, criando corredor central, para onde se abrem frestas de tiro. Esta porta acede ao terrapleno das ESTRUTURAS MODERNAS DA FRENTE NORDESTE, compostas por baluarte irregular, a norte, denominado de São João e que se prolonga para sudeste por meio de um redente, e por uma obra quase retangular, a poente, integrando na cortina intermédia troço da antiga barbacã da porta, com parapeito de canhoneiras, tendo na face interna banquetas e algumas baterias. Da obra retangular parte túnel do transito, curvo, com bueira na abóbada da cobertura, tendo a porta exterior em arco. CERCA URBANA de planta trapezoidal, com o topo sudeste num plano menos elevado e declivoso, razão pela qual as suas muralhas, bem como as da frente nascente, são mais altas e reforçadas por barbacã extensa. A muralha da cerca integra um cubelo retangular a nordeste, com parapeito de canhoneiras e guarita. Na frente virada a nascente abrem-se duas portas. As PORTAS DE RÓDÃO, em arco de volta perfeita, encimado por guarita, acedida pelo adarve, são reforçadas por tramo da barbacã, também com adarve e porta em arco, ladeada, à direita por cubelo ultra-semicircular, com duas frestas de tiro e canhoneira, prolongada por meio baluarte, que nesta frente constitui o término da barbacã. O meio baluarte tem os paramentos da escarpa exterior em talude, os virados a noroeste de dois panos, rematados em cordão, a diferentes alturas, sobrepostos por alto parapeito com três canhoneiras, várias frestas de tiro e integrando guarita nos ângulos; na face nordeste tem também canhoneiras. Entre a muralha e a barbacã existe, de cada lado, pano de muro, com frestas de tiro, cobrindo a porta e o terrapleno do meio baluarte, onde se ergue pequeno paiol. A nascente, abrem-se as PORTAS DA VILA, com três portas sequenciais, em arco de volta perfeita, uma na cerca, propriamente dita, uma segunda, ligeiramente desalinhada, na barbacã, entre dois cubelos ultra-semicirculares, e outra no meio baluarte que a reforça e se interliga à barbacã. O meio baluarte, precedido por dois lanços rampeados, remata em parapeito com canhoneiras e com guarita no ângulo flanqueado. Nas imediações da porta da Vila, a barbacã possui, numa zona de inflexão, cubelo ultra-semicircular. Na frente sudeste, delimitada por dois cubelos retangulares, terminados em parapeito com canhoneiras e o disposto a sudoeste maior e com uma guarita, abre-se a POSTIGO DO SOL OU DO TORREJÃO, de verga reta, comunicando com a barbacã. Esta frente é reforçada por obra tipo TENALHA, composta por baluarte irregular, terminado em parapeito de canhoneiras, a sudeste, e baluarte terminado em cordão e parapeito de canhoneiras, a sudoeste, possuindo a cortina intermédia adarve, prolongando-se para poente com estrutura irregular, de paramentos aprumados, com parapeito e adarve na face interior, e com fosso.

Acessos

Santa Maria de Marvão, Travessa da Silveirinha; EN 359-6 ou 246-1. WGS84 (graus decimais) lat.: 39,396151, long.: -7,379897

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto n.º 8 228, DG, 1.ª série, n.º 133 de 04 julho 1922 / ZEP / Zona "non aedificandi", Portaria, DG, n.º 116 de 27 abril 1962 / Incluído na Área Protegida da Serra de São Mamede (v. IPA.00028261)

Enquadramento

Urbano, sobre colina da Serra do Sapoio, a cerca de 13 km da fronteira espanhola. Implanta-se sobre uma crista rochosa quartzítica, com altitude entre os 800,6 e os 845m, orientada na direção noroeste - sudeste, de forte declive em toda a sua extensão sudoeste, e de onde se tem amplo panorama sobre toda a zona envolvente. As muralhas circundam todo o Núcleo urbano da vila de Marvão (v. IPA.00003222), no interior do qual se destacam a Igreja Paroquial de Marvão (v. IPA.00015859), para noroeste, a Igreja do Espírito Santo (v. IPA.00028591), a Igreja Paroquial de São Tiago (v. IPA.00026534), a Capela do Calvário (v. IPA.00026535) e o Pelourinho de Marvão (v. IPA.00003238). Nas imediações da Igreja Paroquial e junto à muralha, desenvolve-se jardim de buchos. No interior do primeiro recinto do castelo existem grandes afloramentos rochosos e o segundo é pavimentado a calçada à portuguesa, formando quadrados.

Descrição Complementar

Junto à frente nascente do recinto superior do castelo, localiza-se a cisterna pequena, com cobertura plana ao nível do pátio, com boca gradeada. Possui planta retangular, interiormente com 6 m de comprimento, 2,70 m de largura e 3,80 m de altura. Apresenta-se revestida a cantaria, com cobertura em abóbada de berço, apoiada em arcos diafragmas, de volta perfeita, sobre pilares, ambos siglados, formando quatro tramos. Na parede nordeste parece ter tido uma porta, atualmente entaipada. A cisterna recolhia as águas pluviais através de bueiras abertas na abóbada que comunicavam com uma tanqueta de recolha, à superfície, de que há vestígios (BUCHO: 2001, p. 31).

Utilização Inicial

Militar: castelo e cerca urbana

Utilização Actual

Cultural e recreativa: marco histórico-cultural

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

Época Construção

Séc. 13 / 14 / 15 / 16 / 17 / 18

Arquitecto / Construtor / Autor

ENGENHEIROS MILITARES:: João Miguel da Silva (1801), luís Serrão Pimentel (1662), Manuel Azevedo Fortes (1710), Nicolau de Langres (1644, c.).

Cronologia

876 - 877 - Ibn Maruán instala-se na fortaleza; séc. 10 - primeira referência a Marvão pelo historiador cordovês Isa Fbn Ahmad al-Rázi, como Amaia de Ibn Maruán e por fortaleza de Amaia, constituindo "um monte alto e inexpugnável"; 1160 - 1166 - conquista cristã; 1217 - D. Afonso II doa o reguengo de Aramenha, existente no termo de Marvão, ao Convento de Alcobaça e ao seu abade Pedro; 1226 - concessão do primeiro foral por D. Sancho II, segundo o modelo de Évora, nele se estipulando que duas partes dos cavaleiros fossem a fossado e fizessem uma incursão por ano e a terceira parte ficasse na vila para a proteger; os soldados, que não acudissem ao alarme, exceto os que estivessem ao "serviço alheio", pagariam de multa dez soldos, no caso dos cavaleiros, ou cinco, caso fossem peões; concessão de carta do termo de Marvão; D. Afonso III terá doado a povoação fortificada à Ordem do Hospital; 1271 - D. Afonso III, juntamente com a rainha D. Beatriz, doa as "os meus castelos e as minhas vilas de Marvão, Portalegre e de Arronches" a seu filho D. Afonso; 1299 - D. Dinis conquista o castelo e confirma foral; 1300, 01 julho - D. Dinis e a rainha D. Isabel doam ao Infante D. Afonso, seu irmão e respetivos sucessores, os castelos e as vilas de Ourém e de Sintra, em escambo com os castelos e vilas de Marvão e Portalegre; provável reconstrução da fortificação existente; 1361 - estando a vila "mui despovoada e minguada de campanhas", bem como "de servidores de fora", D. Pedro manda que os moradores não sejam constrangidos a irem servir ao Algarve, "nem aduas nem outros lugares nenhuns" e que os mancebos e servidores de fora da vila de Marvão e seu termo que "forem constrangidos para servir e fugirem a seus amos para a dita vila e aí quiserem morar por suas soldadas costumadamente, que não sejam presos nem enviados aos lugares de onde fugiram" (BUCHO: 2001, p. 34); 1378 - estabelecimento de couto de homiziados "ataa duzentas pessoas"; 1397 - numa carta de mercê de D. João I a Martim Gonçalves de Tavares, coudel de Marvão, refere-se que "o dito lugar foi muito danado por azo da guerra", permitindo-se que "tenham todos bestas e folhas [espadas] para defesa da terra" (BUCHO: 2002, p. 38); séc. 14, finais - séc. 15, início - época provável da construção das barbacãs e das cisternas do castelo; 1407 / 1436 / 1497 - privilégios vários, potenciadores do povoamento do lugar; 1443 - Diogo Álvares, escudeiro do condestável D. Pedro, dá 3000 reais a Vasco Martins, morador em Marvão, para despender nas obras do muro; séc. 15 / 16 - época provável do reforço da fortificação, reforma da torre de menagem; 1527 - segundo o Numeramento, vivem na vila de Marvão 363 fogos, incluindo 11 clérigos de missa e 69 viúvas; 1641 - ataque e cerco espanhol à fortificação de Marvão; provável adaptação do castelo e cerca urbana à artilharia e construção de obras abaluartadas para reforço das portas e das zonas mais fragilizadas; segundo informação dos procuradores de Marvão nas Cortes, os moradores da vila "se querem mudar para outros lugares do sertão com suas famílias, e com efeito de um ano a esta parte se tem mudado mais de vinte" (BUCHO: 2001, p. 45), alertando que todos se desviariam se o rei não lhes acudisse com pão de munição, o que seria uma grande perda visto ser terra raiana; a partir desta data, o abade D. João Dama consegue meter no castelo uma companhia de mais de 50 homens, pagos à sua custa, com os quais assistiu de guarda durante dois meses, até se repararem as suas ruínas; 1644 - data da praça de Marvão, por Nicolau de Langres, a mais antiga até agora conhecida; 1644 - 1660 - segundo relata Nicolau de Langres a guarnição de infantaria de Marvão saía da do Castelo de Castelo de Vide (v. IPA.00004572), aí servindo também uma campanha de cavalaria, que tem de soldo apenas a subsistência dos seus cavalos e o pão da ração; a praça de Marvão tem então 400 habitantes; torna-se uma fortificação da primeira linha defensiva; 1648 - ataque espanhol sob o comando do Marquês de Laganes; 1662, até - o abade D. João Dama "manda reconstruir, à sua custa, um lanço de muralha, algumas barbacãs que estavam em ruína, portas do castelo e mandando fazer também outros concertos necessários à conservação e defesa da vila" (BUCHO: 2002, p. 46); 1662 - obras nas muralhas por Luís Serrão Pimentel; 1664 - ainda decorrem obras, atualmente já desaparecidas, fazendo-se da parte de Valença uma estrada coberta com sua estacada e três meias luas, não estando ainda na sua perfeição; 1704 - tomada da fortificação pelo exército franco-espanhol comandado pelo Duque de Berwick; 1705 - rendição da praça ao exército português comandado pelo Conde de São João; 1710 - Manuel Azevedo Fortes faz transportar a célebre porta de Aramenha para Castelo de Vide, onde é reconstruída; 1712 / 1713, cerca - abertura de um poço no terreiro, por altura de uma grande seca, mas que nunca teve água suficiente para abastecer uma fonte, acabando por ser entulhado; 1755 - planta da praça de Marvão, de Miguel Luís Jacob, representando-se o acesso à mesma pela Estrada de Portalegre, desenvolvida a partir da sua Portagem, pela Estrada do Castelo de Vide que, a partir das Portas de Rodão se dirigia para norte, e que passaria pela Escuda, e ainda pelo caminho que saindo das Portas da Vila passa a noroeste do Convento de Nossa Senhora da Estrela e se dirigia para Valência, designada por Estrada de Valência; 01 novembro - o terramoto causa susto a muitos mas não provoca acidentes; nos edifícios principais e templos provoca algumas fendas, mas pouco percetíveis, enquanto os prédios rústicos ficam com as paredes quase todas por terera, por serem a maior parte delas de pedra seca, sem cal, nem barro; 1758 - segundo o prior frei Miguel Viegas Bravo, nas Memórias Paroquiais da freguesia, é a "praça de armas, a mais inconquistável de todo o Reino; da parte do sul é inacessível, de tal sorte que só aos pássaros permite entrada, porque em todo o comprimento é contínuo, e continuado o despenhadeiro de vivos penhos em tanta altura, que as aves de mais elevados voos, dele se deixam ver pelas costas (...) o qual muro, serve mais para não deixar os de dentro, do que impedir a entrada aos de fora, e por isso em muitas partes é este muro baixo (...) sendo certo que esta praça ou presídio não pode ter contra si em tempo bélico mais que a falta de água. Tem mais contra si esta praça ou presídio a retirada, que seus moradores vão fazendo dela para os seus campos, (...), em que os moradores excedem grandemente na quantidade aos moradores da vila, e esta fugida é por estarem na sua liberdade, e não estarem fechados de noite, de que nasce que dentro dos muros, toda a casa que uma vez caiu, nunca mais se levantou; e muito mais sendo casas vinculadas de sorte que se acham já caídas quarenta e seis moradas de casas antes mais do que menos (BUCHO: 2001, pp. 54-55); 1762, novembro - no âmbito da Guerra Fantástica (1762-1763), a praça sofre um ataque surpresa pelo exército espanhol, que é repelido pela guarnição anglo-lusa comandada pelo capitão Brown; 1772 - o exército espanhol ataca Marvão; 1801 - no âmbito da Guerra das Laranjas, a praça é atacada pelo exército espanhol, no dia do Corpo de Deus, conseguindo resistir, graças à defesa comandada pelo sargento-mor de engenheiros João Miguel da Silva, que ali havia realizado obras de fortificação e que havia assumido o comando devido à avançada idade do governador; 1808, 25 junho - governada pelos franceses, a praça sofre assalto vitorioso por parte de um grupo de voluntários de Valência de Alcântara, instigados pelo juiz de fora da vila de Marvão, e comandados pelo tenente-coronel D. Vicente Perez (espanhol) e pelo tenente-coronel, graduado de milícias, D. Pedro de Mascarenhas; 1811 - referência à praça ter duas portas, uma chamada da Vila e a outra do Ródão, no entanto, como tinha então uma pequena guarnição, a do Ródão mantinha-se fechada; 1812 - segundo o general John Aitchison G. C. B., a força da sua fortificação reside na sua implantação, sendo acedida por estrada estreita, muitíssimo íngreme e em muitas zonas quase impraticável; "As fortificações são, na maioria, mouriscas, e em alguns locais tão baixas que facilmente seriam escaladas se não estivessem defendidas por uma poderosa guarnição que eu contabilizo em cerca de 2000 homens. As defesas, contudo, têm sido melhoradas por contraguardas que flanqueiam os velhos muros, de modo que, no presente, as consideraria inexpugnáveis. Ataques de surpresa ou fomes são os únicos modos de obter a sua posse. Não tem poços, mas é bem fornecida de água (particularmente o castelo) armazenada em cisternas" (BUCHO: 2001, p. 72); 1828, junho - orçamento das obras necessárias para adaptação de uma casa da torre de menagem a paiol permanente, pelo Real Corpo de Engenheiros; nele diz-se que "(...) a escada que nesta há e dá acesso ao terraço deve tapar-se com parede a fim de ficar independente esta serventia para o terraço da Casa da entrada, e deve então demolir-lhe parte da muralha, construir-se a escada; devem também, na Casa, reduzir-se a ventiladores as frestas; finalmente devem construir-se três portas novas (...)" (BUCHO: 2001, p. 43); 1831 - projeta-se a construção de um telhado sobre o terraço da abóbada da torre de menagem, devido à infiltração das águas da chuva "na casa destinada a paiol permanente", referindo-se que as muralhas que a constituem têm "(...) 10 a 12 palmos acima da abóbada e existindo no seu cume uma banqueta e parapeito (...)", devendo ainda construir-se dois algerozes para escoar as águas do telhado, rebocar todas as paredes que dão para a abóbada, ladrilhar o plano superior das banquetas e abrir bueiros no parapeito (BUCHO: 2001, p. 44); 1833, junho - julho - a praça comandada pelo miguelista coronel Francisco da Silva Lobo, resiste às intimidações de rendição feitas pela guerrilha constitucional comandada pelo antigo coronel do exército espanhol, D. Manuel Martini; 12 dezembro - tomada da praça de Marvão pelas tropas liberais, reunidas sob a designação da Legião Patriótica do Alentejo, com ajuda de tropas espanholas e com cumplicidade de elementos do interior da fortificação; 1833, dezembro - 1834, março - cerco pelas tropas miguelistas, sob o comando do brigadeiro António José Doutel; 1847, 23 - 25 julho - a praça é ocupada pelas tropas do general Concha, no âmbito das rebeliões da Patuleia; 1861 - documento militar refere que "dentro do Castelo há um paiol, uma cisterna (outrora a Mesquita dos Árabes) e alguns armazéns" (in BUCHO: 2001, p. 29); 1891 - demolição da porta de Aramenha primitivamente construída em Marvão mas transferida para a fortificação de Castelo de Vide; 1945, 22 fevereiro - auto de cedência do castelo à Câmara Municipal de Marvão; 1960, 21 outubro - fixação da Zona Especial de Proteção e Zona non aedificandi, em Portaria publicada no DG, 2.ª série, n.º 246, que seria revogada pela Portaria de 1962; 1984 - anulação do auto de cedência do castelo à Câmara Municipal, pela Direção-Geral do Património, ficando o IPPAR como organismo gestor do mesmo; 1997 - raio atinge a guarita do lado sul, perto do jardim-parque infantil, destruindo-a quase integralmente; 2013 - o Centro Cultural de Marvão vence o concurso promovido pela autarquia para concessão de exploração do imóvel.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estruturas em alvenaria, construída à fiada, predominantemente de pedra quartzítica, com elementos em xisto e cantaria de granito nos cunhais dos cubelos e torre de menagem, molduras dos vãos, arcos das abóbadas, cisternas e cordões dos parapeitos das estruturas modernas; guaritas em tijolo; estrutura das coberturas das casas adossadas no castelo, paióis, oficinas, corpo da guarda e portas em madeira de castanho; cobertura dos edifícios em telha.

Bibliografia

: ALMEIDA, João de - Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses. Lisboa: 1946; BUCHO, Domingos - Fortificações de Marvão. História, Arquitectura e Restauro. Marvão: Região de Turismo de São Mamede, 2001; BUCHO, Domingos Almeida - Marvão: Palavras e Olhares / Words and Views. Marvão: Câmara Municipal de Marvão, 2002; COELHO, Possidónio M. Laranjo - O Castelo e a Fortaleza de Marvão. Lisboa: 1916; COELHO, Possidónio M. Laranjo - Marvão (Elucidário Breve de uma visita a esta vila). 2.ª ed.. Marvão: 1982; COELHO, Possidónio M. Laranjo - Terras de Odiana. 2.ª ed. Castelo de Vide e Marvão: 1988; KEIL, Luís - Inventário Artístico de Portugal - Distrito de Portalegre. Lisboa: 1943; LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Pinho - Portugal Antigo e Moderno. Lisboa: Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia,1875, vol. 5; LOBO, Francisco Sousa - «A defesa militar do Alentejo». In Monumentos. Lisboa: Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, dezembro 2008, n.º 28, pp. 22-33; MATTOS, Gastão de Mello de - Nicolau de Langres e a sua Obra em Portugal. Lisboa: Publicações da Comissão de História Militar, 1941; SELVAGEM, Carlos - Portugal Militar. Lisboa: 1994; TRINDADE, Diamantino Sanches - Castelo de Vide, Arquitectura Religiosa. 2.ª ed. Castelo de Vide: 1989, vol. 1; Ibn Maruán, Revista Cultural do Concelho de Marvão. Marvão: 1991 e ss; «Vária». Monumentos. Lisboa: Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 1998-2000, 2003-2006, n.º 9 - 10, 13, 19 - 21; VITERBO, Sousa - Diccionario Historico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portuguezes ou a serviço de Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1904, vol. II.

Documentação Gráfica

DGPC: DEMN:DSID, DGEMN:DREMN, DGEMN:DREMS; Câmara Municipal de Marvão; GAT de Portalegre; Arquivo Histórico-Militar de Lisboa; Arquivo do Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar - Direção dos Serviços de Engenharia

Documentação Fotográfica

DGPC: DEMN:DSID, DGEMN:DREMN

Documentação Administrativa

DGPC: DEMN:DSID, DGEMN:DREMN, DGEMN:DREMS; Câmara Municipal de Marvão; Arquivo Histórico-Militar de Lisboa

Intervenção Realizada

1817, novembro - requisição de material para a construção de duas plataformas de formigão no "baluarte da esquerda da tenalha do Cubelo; uma dita do mesmo do Baluarte da Direita na Tenalha do Castelo" (BUCHO: 2001, p. 36), uma outra nas fortificações do lado poente; 1883, novembro - reparação dos telhados, portas e janelas dos paióis e armazéns da praça; DGEMN: 1938 - reparação de muralhas, escadas e adarves; 1947 - reparação de cortinas, canhoeiras, coberturas, telhados, portas e rebocos; 1952 - renovação de cobertura com telha romana e de rebocos em paramentos interiores, reparação de muralhas e do arco de acesso ao castelo, pavimentação, assentamento de soleira de cantaria e de porta exterior; 1957 - reconstrução de muralhas e assentamento de cantaria; 1958 - demolição de palco de alvenaria junto ao castelo, reparação de muralhas, guaritas, portas e pintura de peças de artilharia; 1961 - reparação de telhados do museu e de outras dependências do castelo, construção de caminho de ronda e escada para o terraço da torre de menagem; 1962 - reparação de muralhas, telhados e portas; 1963 - reparação de muralhas, guaritas, telhados e chaminé; 1965 - reparação de telhados e porta; 1967 - limpeza e reparação de muralhas, guaritas, telhados e portas; 1971 - reconstrução de uma guarita e reparação de muralha adjacente; 1974 - reconstrução de telhado, reparação de escadas em adarves, grades de ferro, portas e estrado; caiações; 1975 - reparação de muralhas e porta; 1976 - reconstrução de guarita, reparação de telhados e portas, desinfestação de ervas; 1977 - execução de sanitários, desinfestação de ervas e arbustos; 1979 - reparação de muralhas, rebocos e portas; desinfestação de ervas e arbustos; 1981 - reparação de muralhas, pinturas, desinfestação de ervas; 1984 - reparação de telhados, muralhas, pinturas; 1991 - reparação de guaritas e muralhas; 1994 - iluminação exterior do castelo; 1995 - obras de conservação nas casas da praça, muralhas e eletrificação exterior. obras de conservação corrente nos panos de muralha e casas da praça; 1998 / 1999 - reconstrução integral da guarita sul destruída em 1997; CMMarvão: 2000 - recuperação de uma das casas do castelo para polo militar; 2002 - realização de um plano geral de intervenção, subdividindo a estrutura defensiva em 9 zonas, pela DREMS; 2003, abril - abertura concurso pela DGEMN - DREMS para a realização de obras de beneficiação no castelo; DGEMN / CMMarvão: 2003 - beneficiação das muralhas entre o troço da barbacã e a Porta da Vila, com reconstrução do troço arruinado; 2003 / 2004 - beneficiação do troço entre a Porta da Vila e o Torrejão; reabilitação do forno do assento e casa do guarda; remodelação das instalações elétricas e rede telefónica; 2004 - projeto de remodelação da iluminação pública, em colaboração com a Câmara Municipal; construção de um palco desmontável, em ferro e madeira junto à torre de menagem; 2005 / 2006 - projeto anti-vandalização do sistema de iluminação pública.

Observações

Autor e Data

Paula Noé 2019

Actualização

 
 
 
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