Convento de Arroios / Convento de Nossa Senhora da Nazaré / Hospital de Arroios

IPA.00003187
Portugal, Lisboa, Lisboa, Arroios
 
Arquitectura educativa, setecentista. Colégio da Companhia de Jesus composto por igreja à esquerda e edifício de planta rectangular com claustro de arquitectura simples. Igreja de planta cruciforme coberta por cúpula. Fachada principal da igreja, com portal armoriado com as armas de Portugal e Inglaterra, de D. Catarina de Bragança, rematada por um nicho central com a imagem de Nossa Senhora da Conceição e duas torres sineiras encimadas por pequenos campanários de sinetas. Igreja de planta cruciforme coberta por cúpula, presentemente despojada do seu recheio artístico. O edifício do colégio encontra-se bastante alterado pela transformação em hospital que implicou acrescentos de volumes, quer nas fachadas laterais quer a nível das coberturas. Da presença da Companhia de Jesus não subsiste nada. Possuía um dos raros conjuntos de painéis de azulejo com iconografia jesuíta, alusiva à vida de São Francisco Xavier, Santo Inácio de Loyola e Estanislau Kostka *4 e *5.
Número IPA Antigo: PT031106440317
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Convento / Mosteiro    

Descrição

Edifício conventual de um corpo com quatro pisos, de planta quadrangular organizada em torno de um claustro de planta rectangular, outrora ajardinado, actualmente revestido com mosaico hidráulico, delimitado por arcos plenos de cantaria e pilares de pedra de base quadrada, dois a N. e a S. e três a E. e O., com galeria de tectos abobadados assentes em pilastras visíveis nas paredes apenas ao nível do capitel. O alçado principal, virado a NO. é pobre. A zona nobre é a fachada da igreja, com portal armoriado ostentando um escudo bipartido, com as armas de Portugal e Inglaterra, de D. Catarina de Bragança. Coroa a fachada um conjunto em pedra, constituído por um nicho central com frontão com a imagem de Nossa Senhora da Conceição e duas torres sineiras encimadas por pequenos campanários de sinetas, coroadas tal como o frontão do nicho por cruzes de ferro. Os sinos desapareceram, havendo no seu lugar janelões. O alçado NE. é praticamente cego. O alçado SO. é composto por uma nova fachada que foi justaposta à do primitivo convento *1. O alçado SE., muito simples, é rasgado por janelas guarnecidas a pedra, de diferente tamanho e disposição. O piso térreo, situado numa cota inferior à do claustro, possui tectos abobadados. No primeiro piso, várias dependências que irradiam do claustro. A ala N. é ocupada na sua maior parte pela igreja de planta em cruz grega de centro octogonal, encimado com abóbada de oito panos, assente em cornija de cantaria de dois tipos, lioz e mármore encarnado dos Negrais, e arcos igualmente em pedra, de volta inteira, sobre pilastras dóricas as quais enquadram arcos semelhantes, situados a um nível inferior. Nas quatro esquinas deste polígono central, existem nichos guarnecidos a cantaria *2. Iluminam a igreja um janelão e duas janelas laterais *3. A sala da antiga entrada do edifício, virada a SO., era revestida de painéis de azulejo de composição figurativa, formando silhares, representando episódios da vida de Santo Inácio de Loyola: Conversão de Santo Inácio; Santo Inácio ajoelhado troca as vestes de guerreiro pelas de mendigo; Santo Inácio salva um rapaz de afogamento; Santo Inácio antes de morrer recebe a aparição de São Pedro. O quinto painel desapareceu em data desconhecida*4. No canto SE. do claustro uma porta dá acesso a um lance de escadas que leva ao segundo piso, onde as dependências se organizam em torno do vazio do claustro e ao longo de corredores, sendo o corredor principal aquele que percorre o eixo NE. / SO. Neste eixo todas as salas possuem tectos abobadados. Em frente às escadas primitivas abre-se a porta para o pequeno átrio da capela (actualmente quase destruída) que ocupa toda a ala S. / SO. do claustro. Tem tecto de abóbada de berço; nas paredes laterais tinha painéis de azulejo formando silhares, de composição figurativa, ilustrando episódios da vida de São Francisco Xavier e de Estanislau Kostka *5. Do lado do altar, arco abatido em pedra e a toda a volta, excepto desse lado, cornija em cantaria bicolor.

Acessos

Rua António Pereira Carrilho; Praça do Chile; Rua Quirino da Fonseca. WGS84 (graus decimais) lat.: 38,734348, long.: -9,134778

Protecção

Categoria: MIP - Monumento de Interesse Público / ZEP, Portaria n.º 740-M /2012, DR, 2.ª série, n.º 248 de 24 dezembro 2012 (igreja)

Enquadramento

Urbano. Em zona plana, isolado em relação à restante malha urbana, com boa visibilidade de todos os ângulos. A S.confronta com a Rua António Pereira Carrilho até à Praça do Chile, com a qual faz gaveto a SE. A E. é delimitado pela Avenida Almirante Reis. A N. tem um logradouro que o separa das construções adjacentes. A O. estende-se ao longo da Rua Quirino da Fonseca, desde o gaveto com a Rua António Pereira Carrilho.

Descrição Complementar

Do lado esquerdo do alçado principal existe um relógio em pedra, com números romanos, sem ponteiros. As cozinhas do hospital funcionavam no piso térreo que foi completamente remodelado para tal fim. Toda a zona do altar-mor está entaipada tendo aí sido construídos elevadores. O coro-alto está igualmente tapado e afecto aos serviços hospitalares. Do terceiro piso, em sotão, tem-se acesso a um terraço, situado por cima do coro da igreja, entre o janelão da cúpula e a fachada principal, no qual se localizam as antigas torres sineiras.

Utilização Inicial

Religiosa: convento / Saúde: hospital

Utilização Actual

Devoluto *8

Propriedade

Privada

Afectação

Época Construção

Séc. 17

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO: João Antunes (1705); Miguel Correia (2004-2005). ESCULTOR: João António Bellini de Pádua (1733). FORNECEDORES: Casa Olaio (1950-1951).

Cronologia

1705 - fundação do Colégio Conventual da Companhia de Jesus, sob a invocação de Nossa Senhora da Nazaré, com financiamento de D. Catarina de Bragança, viúva de Carlos II de Inglaterra, cuja morte ocorre neste ano; execução de uma Capela dedicada a Nossa Senhora da Nazaré no interior, encomendada por D. Catarina de Bragança a João Antunes; este Colégio destinava-se à preparação dos padres jesuítas que iam para as Missões da Índia; 1733 - execução de dois retábulos de pedraria por António de Pádua, transferidos para a actual Sé de Beja (v. PT040205130036); 1755 - abandono progressivo do noviciado de Arroios pelos padres jesuítas; 1756 - Transferência, por ordem do Marquês de Pombal, das freiras concepcionistas para o antigo noviciado de Arroios, o qual passa a chamar-se Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição da Luz de Arroios *6; 1807 - durante a 1ª. invasão francesa, sob o comando de Junot a população acampou em tendas improvisadas junto ao convento *7; 1831 - são encarceradas neste convento, por ordem do Governo absolutista, a Condessa da Ribeira Grande e a Condessa de Ficalho, libertadas dois anos depois após, a vitória do Duque da Terceira; 1833 - segundo Luís Gonzaga Pereira, a igreja tem três capelas, a mor com Nossa Senhora da Conceição e um retábulo antigo com o Santíssimo, semelhante ao das religiosas dominicanas de Alcântara; a igreja está pintada de branco e, nos ângulos da nave, tem as imagens de Santo Inácio de Loiola, São Francisco Xavier, São Estanislau Kostka e São Luís Gonzaga, de madeira a imitar pedra; na fachada, as armas de D. Catarina de Bragança; por ordem de D. Pedro, as religiosas refugiam-se em Santos-o-Novo; 1834 - extinção das ordens religiosas; 1856 - trasladação das ossadas do Marquês de Pombal da vila de Pombal para Lisboa em cortejo fúnebre o qual pernoitou na igreja; 1890 - o Convento fica devoluto com a morte da última freira e o Estado toma posse do edifício; 1892 - anexação do antigo Convento pelo Hospital de São José para instalação de enfermarias de epidémicos ("tísica" e "variola"), passando a chamar-se Hospital de Arroios; 1893 - entrega da igreja para celebração do culto do hospital; 1895, 12 Junho - a paróquia de Arroios passa para a igreja do convento, realizando-se, aí, os actos paroquiais; 1897, 31 Dezembro - a paróquia é de novo transferida para a igreja de Arroios; 1898 - o Hospital passa a chamar-se Hospital Rainha D. Amélia; 1910 - encerramento da igreja ao culto; o Hospital volta a denominar-se Hospital de Arroios; 1911 / 1917 - aquartelamento no Hospital de uma das primeiras Companhias da Guarda Nacional Republicana; 1930 / 1950 - período áureo do Hospital de Arroios, no qual funcionam em pleno dois serviços - cirurgia geral e medicina geral - dando origem à tropológica "Universidade de Arroios"; 1950 - com o apoio do Dr. Casanova Alves (Director dos Serviços do B.C.G.) e o parecer técnico do Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos (IANT), a Comissão para a Aquisição de Mobiliário foi incumbida do fornecimento de mobiliário e equipamento destinado aos Centros de B.C.G. das cidades de Lisboa, Porto (v. PT011312040296) e Coimbra (v. PT020603180165); 1951 - conclusão das obras do Centro de Profilaxia e Diagnóstico de Lisboa, sendo o mobiliário e equipamento fornecidos pela Casa Olaio, pelo Centro de Cooperação Técnica e pelo Instituto Pasteur de Lisboa; 1960 - são desenterradas da cerca do Hospital 3 lápides de mármore com inscrições latinas, no local onde estivera a cascata das hortas e pomares dos padres jesuítas; 1981 - descoberta de um "ossário" ou "carneiro", abobadado do início do séc. 18, por detrás do altar-mor da igreja, a três metros de profundidade, com esqueletos e inscrições murais de freiras; 1987 - por iniciativa do Conselho de Gerência do hospital, foram enviados para depósito, no Hospital de Santa Marta, uma grade de ferro e uma teia de madeira; 1992 - encerramento do Hospital, o qual passa a ser Arquivo Morto dos Hospitais Civis de Lisboa; 1996, Janeiro - proposta a classificação do imóvel; 2000, 25 janeiro - proposta de classificação da Junta de Freguesia de São Jorge de Arroios; 2000 - 2005 - o imóvel foi vendido sucessivamente, tendo sido comprado pelo Ministério das Finanças, pela Estamo participações Imobiliárias S.A, pela Fibeira Imobiliária, pela Euro Imobiliária, actual proprietária; a igreja foi entregue ao culto ortodoxo (comunidade ucraniana de Arroios); 2002, 15 maio - Despacho de encerramento do processo de classificação pelo vice-presidente do IPPAR; 2004, Março - a Câmara Municipal de Lisboa rejeita um projecto do arquitecto Miguel Correia, que previa a demolição de grande parte do núcleo; 23 março - proposta de classificação da CNP do ICOMOS; 2005 - aprovação de um projecto do mesmo arquitecto, que prevê a construção de 150 apartamentos e uma zona comercial, mantendo o claustro do imóvel; 2005, 20 julho - Despacho de abertura do processo de classificação pelo presidente do IPPAR; 2011, 19 Setembro - publicação do anúncio de abertura do procedimento de classificação do imóvel, publicado no Anúncio n.º 13021/2011, DR, 2.ª série, n.º 180; 14 dezembro - porposta de classificação como Monumento de Interesse Público e da fixação da Zona Especial de Proteção; 2012, 29 maio - publicação do projeto de decisão relativo à classificação como Monumento de Interesse Público e fixação da respetiva Zona Especial de Proteção da igreja, em Anúncio n.º 11818/2012, DR, 2.ª série, n.º 104.

Dados Técnicos

Estrutura de paredes autoportantes de alvenaria, rebocadas, cantaria, pavimentos em estrutura de madeira, cobertura em telha marselha com estrutura de madeira. Zonas de novos acessos verticais e distribuição horizontal com estrutura de betão e alvenaria de tijolo.

Materiais

Fachadas em cantaria de calcário e alvenaria mista, madeira, betão, alvenaria, tijolo, azulejo.

Bibliografia

PEREIRA, Luís Gonzaga - Monumentos Sacros de Lisboa em 1833. Lisboa: Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1927; SILVA, A. Vieira da, As Freguesias de Lisboa, Lisboa 1943; Ministério das Obras Públicas, Relatório da Actividade do Ministério no ano de 1951, Lisboa, 1952; Ministério das Obras Públicas, Relatório da Actividade do Ministério nos anos de 1957 e 1958, 1º Volume, Lisboa, 1959; Ministério das Obras Públicas, Relatório da Actividade do Ministério nos Anos de 1959, 1º Volume, Lisboa, 1960; Ministério das Obras Públicas, Relatório da Actividade do Ministério no Ano de 1961, 1º Vol., Lisboa, 1962; LEONE, José, Subsídios para a História dos Hospitais Civis de Lisboa e da Medicina Portuguesa (1948-1990), Portugal d"Aquém e d"Além Mar, Dezembro de 1981; LEONE, José Separata do Boletim Clínico dos Hospitais Civis de Lisboa, Vol. 43 - Nº. 1/2 Jan. - Jun. 1986; CAEIRO, Baltasar Matos, Os Conventos de Lisboa, Lisboa 1989; ARAÚJO, Norberto de, Peregrinação em Lisboa, Livro 4, Lisboa, 1993; SERRÃO, Vítor, História da Arte em Portugal - o Barroco, Barcarena, Editorial Presença, 2003; LAMEIRA, Francico, O Retábulo da Companhia de Jesus em Portugal: 1619 - 1759, Faro, Departamento de História, Arquelogia e Património do Algarve, 2006.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DRELisboa/DRC, DGEMN/DRMLisboa - Pormenor de plantas da Cidade (1890, 1958 e 1963), planta com projecto para enfermaria de variolosos, anterior a 1910, plantas do edifício com descriminação de afectações e usos e definição de áreas de ampliação recentes

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DRMLisboa

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/CAM (0192/02, 0207/01); CML: Arquivo do Alto da Eira, Processo nº 1849

Intervenção Realizada

1940 / 1950 - construção a S. de acessos verticais (escadas e elevadores) e distribuição horizontal (acrescento de corredor com janelas corridas à fachada original); renovação interior em diversas áreas afectas aos serviços hospitalares, com execução de revestimentos em paredes e pavimentos, execução de divisórias, portas e caixilharias; construção a N., de um anexo com dois pisos, aonde funcionou a morgue e de acessos verticais (elevadores e escadas) na zona onde se situava o altar-mor da igreja; renovação do sótão para instalação de novas enfermarias (obra inacabada); DGEMN: 1951 - obras de beneficiação pelas Direcções dos Serviços de Construção e Conservação; 1958 - trabalhos de remodelação para instalação de um ascensor, obras de beneficiação e conservação do Serviço 2, beneficiação das instalações sanitárias pelos Serviços de Construção e Conservação; 1959 - instalação de um monta-cargas e diversas obras, pelos Serviços de Construção e Conservação; 1961 - constinuação da 2 º fase de obras de ampliação do serviço 7, de oftalmologia, ampliação geral do serviço 1, da sala 1, e ainda a conclusão das beneficiações gerais e ampliação da consulta externa, pelos Serviços de Construção e Conservação

Observações

* 1- Justaposição que se pensa ter sido feita nos anos 1940 / 1950 e que constitui nó de acessos verticais e distribuição horizontal necessários ao funcionamento do hospital. É possível observar nitidamente este acrescento da fachada, quer pela sua composição a nível estético ou de materiais quer pela localização actual dos grandes cunhais de pedra das esquinas do primitivo convento. *2 - Nestes nichos encontravam-se imagens trabalhadas em mármore dos quatro santos da Companhia de Jesus - Inácio de Loyola, Estanislau Kostka, São Francisco Xavier e Luís Gonzaga. *3 - A igreja encontra-se actualmente despojada de quadros e objectos e serve de depósito a vários materiais hospitalares. Há registo da existência de uma grade de ferro forjado, à esquerda do altar-mor, do tempo das freiras, actualmente em depósito, juntamente com a teia de madeira no Hospital de Santa Marta (v. PT031106140062). *4 - Os outros quatro painéis foram retirados no início do séc.XXI pelo Museu Nacional do Azulejo, foram restaurados e estão expostos na Igreja. *5 - Painéis retirados pelo Museu Nacional do azulejo onde se encontram em depósito. *6 - Estas eram de uma Ordem adversa à Companhia de Jesus e tinham como superior o franciscano Paulo de Carvalho, irmão do Marquês de Pombal. *7- As freiras distribuiam duas vezes ao dia uma sopa a essa população desprotegida que ficou conhecida pela "Sopa de Arroios"; *8 - Comprado pela Euro Imobiliária o edifício vai ser demolido dando lugar à construção de um condomínio.

Autor e Data

Ana Rosa 1994

Actualização

Paula Correia 2005 / Margarida Elias (Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design (CIAUD-FA/UTL)) 2011
 
 
 
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