Castelo de Alvito / Paço de Alvito / Pousada de Alvito

IPA.00000304
Portugal, Beja, Alvito, Alvito
 
Arquitectura militar e residencial medieval, gótica, manuelina e mudéjar alentejana. Paço senhorial fortificado, de planta rectangular, com as várias dependências organizadas em redor de pátio central quadrado, reunindo características da arquitectura militar (panos de muralha rematados por merlões, torreões de reforço, torre de menagem, troneiras cruzetadas) com elementos de uma habitação civil (funcionalidade espacial, fenestração generosa e ornamentada com vãos em arco de ferradura, mainelados, inscritos em arco conopial, com aduelas em tijolo e com decoração vegetalista nos capitéis, presença de gárgulas zoomórficas). Torre de menagem de planta quadrada com características góticas correspondendo a estratégia de defesa activa: adossamento à face exterior das muralhas, cobertura abobadada nos três pisos. O tipo do castelo de planta quadrada com torreões cilíndricos nos ângulos surge com frequência na fronteira continental portuguesa e na fortificação ultramarina entre o 3º quartel do século 15 e o início do 2º quartel do séc. 16. Merlões prismáticos com seteiras intercaladas semelhantes aos que se observam em Castelo de Viana do Alentejo (PT040713020002). Torre de menagem cuja posição parece apontar para um período de construção quatrocentista, anterior ao paço. Conjugação de janelas manuelinas com decoração mudéjar e janelas de lintel recto encimado por friso com características classicistas. Sobre o último patim da escadaria exterior de acesso ao piso nobre, existia um alpendre assente em colunelos, cujos vestígios ainda são visíveis, certamente semelhante ao do Paço de Água de Peixe (v. PT040203010032; FEIO, 1994). Estabelecimento de hotelaria inserido na rede Pousadas de Portugal, integrado no grupo das Pousadas Históricas.
Número IPA Antigo: PT040203010001
 
Registo visualizado 1467 vezes desde 27 Julho de 2011
 
   
   

Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Militar  Castelo    

Descrição

Castelo ou paço de planta quadrangular com os vértices orientados aos quatro pontos cardeais, interseccionados por três torreões circulares e por um torreão ovalado ou de planta em U, assim como uma torre quadrangular adossada do lado N. No interior do castelo, e rodeando um pátio central, existem edifícios de planta rectangular adossados às muralhas NO., SO. e SE.. Volumes articulados, com cobertura diferenciada em telhado e em terraço. Torre sineira (Torre do Sino) no lado O., implantada em cota sensivelmente mais elevada. O castelo possui duas entradas visíveis: a porta principal, no paramento SO., sobrepujada por lápide de fundação e armas reais, e outra ladeando a torre de menagem, ambas em vão de arco de volta perfeita. Exteriormente os panos da muralha são rectilíneos e os torreões são rematados por merlões prismáticos, com seteiras intercaladas. Os alçados SO., SE. e NE. mostram vãos distribuídos de modo irregular, mostrando a divisão dos corpos adossados em três pisos: uma porta de vão semicircular e vãos rectangulares irregularmente dispostos, os do piso superior adintelados, rasgam o paramento SO.; janelas de dupla arcada em ferradura, maineladas e vãos rectangulares abrem-se no alçado SE., igualmente marcado por chaminés em ressalto; no torreão do ângulo S. (Torre da Cerca), rasgam-se três vãos de diferente modinatura: uma porta-janela de verga recta e cornija arquitravada, com sacada em ferro, uma porta-janela e uma janela de dupla arcada em ferradura, mainelada; no torreão E. e paramento contíguo nascente, existem vãos de verga recta nos pisos inferiores, janelas maineladas no piso superior. A torre de menagem, de planta quadrada, do lado NO., de piso inferior cego, é rasgada por porta no 2º piso do alçado SE., mostrando pequenos vãos nos 2 pisos superiores. O pátio é rodeado por fachadas de 3 pisos, a SE. e a SO., rasgadas por vãos de verga recta nos 2 pisos inferiores e por janelas maineladas no piso superior; à ala NO. adossa-se um corpo de piso térreo com arcada de vão semicircular. Duas escadarias exteriores estabelecem a comunicação com os pisos superiores, uma encostada à ala SO., outra encostada ao pano da muralha NE.; pequenas escadas fazem a ligação entre o terraço a NO. e o adjacente corpo SO. e adarve envolvente das muralhas NO. e NE. Adossado à torre S., encontra-se ao nível térreo um pequeno volume quadrangular com pedra de armas dos barões de Alvito (Lobo da Silveira), implantado no interior de uma cerca, situando-se a sua fachada principal sobre parte da linha limítrofe orientada a N. INTERIOR: nos baixos da torre de menagem, existia o antigo cárcere, hoje integrado e aberto para a sala de jantar, e nos pisos superiores duas salas com abóbada de nervuras, assentes em mísulas prismáticas, bocetes ornamentados e capitéis esculpidos. A capela, de nave única, comunicando com a pequena capela-mor por arco triunfal redondo, situa-se no corpo SO., junto ao torreão O. Na nave, lambril azulejar de padrão polícromo seiscentista.

Acessos

EN257, Rua Almeida Garrett, Largo do Castelo. VWGS84 38º15'28.19''N 7º59'30.98''O

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto 16-06-1910, DG n.º 136 de 23 junho 1910

Enquadramento

Urbano, situado em planalto. Implanta-se num dos vértices de largo arborizado, próximo do Rossio de São Sebastião, dominando a povoação (v. PT040203010017). Está rodeado por ampla cerca ajardinada (v. PT040203010001) que ocupa um recinto aproximadamente rectangular, encontrando-se o resto da área ocupada com construções de apoio e maquinaria.

Descrição Complementar

Existem dois escudos com as armas dos barões de Alvito: no corpo adossado à torre S. e no corpo SE. do pátio. A torre N. e a torre O. apresentam seteiras cruzetadas em mármore. O interior do paço está hoje totalmente transformado pela adaptação a pousada. Gárgulas com motivos zooantropomórficos, de feição gótica, no alçado NO. e nos cachorros que sustêm a escada do alçado NE. do pátio. A torre de menagem tem 19,5m de altura e 10,7m de lado, a torre O. tem 15,5m de altura, a torre S. 20,2m, a E. 17,5m e a N. 14,8m. INSCRIÇÕES: 1. Inscrição comemorativa da construção da fortaleza gravada numa lápide, em campo epigráfico rebaixado enquadrado por moldura tripla escalonada, partida no topo superior. A encimá-la uma pedra de armas com o escudo de Portugal esculpida em campo rebaixado e delimitada por moldura quadrangular. A altura a que se encontra não permite obter dimensões; mármore; tipo de letra: gótica minúscula de forma, inicial capitular carolino-gótica e gótica maiúscula cursiva. Leitura modernizada: "Esta fortaleza se começou a xiij de agosto de mil cccc lRiiij (=ano de 1494) por mandado del Rei dom João o segundo nosso Senhor e acabou-se em tempo del rei dom Manuel o primeiro nosso Senhor fê-la por seus mandados dom diogo lobo barão de alvito."

Utilização Inicial

Militar: castelo

Utilização Actual

Comercial e turística: pousada

Propriedade

Privada: Fundação

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 15 / 17 / 20

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO: Afonso de Pallos (conjectural); Manuel Bagulho (projecto de adaptação a pousada); DECORADOR: Pedro Ferreira Pinto.

Cronologia

1251, Maio - doação da herdade de Alvito, pertencente a Rodrigo Pedro, Domingos João Pestana, Pelágio João e Pedro Martins a Estevão Anes, chanceler de D. Afonso III; 1257/1260 - aumento da herdade, ocupando zonas localizadas entre os concelhos de Évora e de Beja; 1260, Março - concessão por D. Afonso III de carta de couto a Alvito; 1263 - concluída a obra de fortificação do couto de Alvito empreendida por Estevão Anes, senhor terra-tenente da vila, como confirma carta de D. Afonso III, datada de 3 de Junho (Noé, 1994, doc.4); 1264 - D. Afonso III, D. Beatriz, os infantes D. Dinis e D. Branca e comitiva instalaram-se na vila gozando o direito de aposentadoria; 1264, 8 Março - carta de D. Afonso III isentando o couto da vila de Alvito do direito de aposentadoria (Noé, 1994, p.5); 1279 - Estevão Anes doou em testamento o couto de Alvito e a "adega" (designação pelo qual era conhecido o paço acastelado, composto por casas fortificadas e uma torre) ao Convento da Santíssima Trindade de Santarém; desconhece-se a localização precisa do paço, mas o topónimo Horta das Adegas, ainda hoje existente, situado no termo da vila e junto à Ribeira de Odivelas deve corresponder ao local; 1280, Agosto - concessão da primeira carta de foral a Alvito; 1283 - integração da vila de Alvito nos bens da Coroa por concordata feita entre D. Dinis e o Convento da Santíssima Trindade; 1387 - doação de Alvito e Vila Nova por D. João I a Diogo Lopes Lobo, cavaleiro, morador em Évora, por serviços prestados ao Reino; 1472 - o paço encontrava-se devoluto e o seu material de construção era reaproveitado para outros edifícios; 1475 - o Dr. João Fernandes da Silveira, escrivão da puridade, chanceler-mor e vedor da Fazenda de D. João II, genro de Diogo Lopes Lobo e portanto dono da casa e do senhorio de Alvito, obteve de D. Afonso V, o título de 1º barão de Alvito; 1481 - autorização de D. Afonso V para João Fernandes da Silveira edificar um castelo perto da fonte da vila, local para onde a povoação se tinha expandido; segundo o direito de anúduva todos os moradores da vila de Alvito, Vila Nova, Aguiar, Ouriola e Torrão tinham de participar nas obras de construção da fortaleza, pelo menos dois ou três dias por semana; cabia ao rei, depois de se obter o dinheiro para a obra, determinar o seu início; 1488, cerca - morte de João Fernandes da Silveira; 1494, 13 Agosto - início da construção da fortaleza por mandado de D. João II, segundo lápide sobre a porta principal; 1504 - conclusão da construção da fortaleza cuja supervisão esteve a cargo do 2º barão de Alvito, D. Diogo Lobo, filho do 1ºbBarão; 1504 - 1523 / 1528 - construção da torre de menagem (VALÉRIO, 1994), ou apenas alterações na mesma, a nível de fenestração (NOÉ, 1995); 1512 - novo ciclo de construção, tornando-se o castelo mais alto e robusto; 1516, 20 de Novembro - concessão de foral novo a Alvito por D. Manuel I; 1524, 8 Outubro - alvará para o almoxarife de Sintra entregar a Ramiro Álvares, recebedor do dinheiro da obra do castelo, 86.412 reais por conta da referida obra; 1531- nascimento no Castelo do príncipe D. Manuel, filho de D. João III e de D. Catarina, aí refugiados para evitar a peste que então grassava em Évora; 1548 - construção da capela; séc. 16, último quartel - construção da arcada no corpo N. e da escada de acesso à capela; séc. 17 - abertura de portas de lintel recto; 1747 - segundo o Padre Luís Cardoso, o castelo tinha cinco torres, sobre as quais se erguia o paço do barão-conde, estando a torre de menagem incompleta; 1755, 1 de Novembro - segundo Frei Ambrósio Brochado, o castelo não sofreu quaisquer danos com o terramoto de Lisboa; 1777 - obras de remodelação e conservação ordenadas por D. Maria Bárbara de Meneses; séc. 19 - obras de estuque e pintura; 1887 - promessa de compra e venda ao rei D. Carlos I, permitindo-se, no entanto, a D. José Lobo da Silveira Quaresma e a D. Carolina Augusta Duarte o usufruto do espaço até à sua morte, respectivamente em 1917 e 1936; durante este período algumas zonas do pátio foram arrendadas, o que levou à construção de anexos; 1897 - venda definitiva ao rei; 1915 - integração do castelo na Fundação da Casa de Bragança por D. Manuel II; 1975 - ocupação pela Comissão de Moradores de Alvito; 1993 - projecto de enquadramento paisagístico do parque pelo Arquitecto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles; 26 Setembro - inauguração da pousada.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes e estrutura autónoma.

Materiais

Estrutura de cantaria e alvenaria rebocada. Betão. Cobertura de telha. Janelas com aduelas em ladrilho e colunelos de mármore.

Bibliografia

ALMEIDA, Fialho de - O castelo de Alvito. Lisboa: Fundação Casa de Bragança, 1946; CID, Pedro de Aboim Inglez - A Torre de São Sebastião da Caparica e a arquitectura militar do tempo de D. João II. Lisboa: Edições Colibri, 2007; DIAS, Pedro - "Arquitectura Mudéjar Portuguesa: Tentativa de sistematização", Revista de História dos Mares. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1994 nº 8; FREITAS, Eugénio de Andrea Cunha - Os cinco castelos da Fundação da Casa de Bragança. Porto: Editor Marques de Abreu, 1964; HAUPT, Albrecht - A Arquitectura do Renascimento em Portugal. Lisboa: Editorial Presença, (1890) 1985; LOBO, Susana - Pousadas de Portugal. Reflexos da Arquitectura Portuguesa no Século XX. Coimbra: Imprensa Universitária de Coimbra, 2006; PINA MANIQUE, Luiz de - A arte manuelina na arquitectura de Alvito. Alvito: Câmara Municipal, 1949; NOÉ, Paula - O Castelo do Alvito. Lisboa: DGEMN, 1994 (texto policopiado - DGEMN); SILVA, José Custódio Vieira da, Paços Medievais Portugueses. Lisboa: IPPAR, 1995; VALÉRIO, António João Feio - Alvito: o Espaço e os Homens (1251 - 1640). Subsídios para a história de uma vila alentejana, Tese de mestrado. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1993; IDEM - O Paço dos Lobos da Silveira em Alvito - Notas de História e de Arte. Alvito: Câmara Municipal, 1994.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMSul

Documentação Fotográfica

IHRU: SIPA, DGEMN/DSID, DGEMN/DREMSul

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMSul; DGAR/TT, Corpo Cronológico, Parte I, Maço 31, doc. 70.

Intervenção Realizada

DGEMN: 1941 - consolidação e reconstrução de ameias e rebocos; reparação de telhados; demolição de paredes em alvenaria, demolição de escadas na fachada da horta, de balcão e escada da torre de menagem; construção de merlões na torre de menagem; 1975 - obras de adaptação no 1º e 2º piso (Comissão de moradores); 1980 - reparação de panos da muralha, rebocos, coberturas, portas e caixilharias; 1981 - reparação dos muros da cerca; assentamento de portas interiores; 1982 - obras de conservação geral; 1991 - projecto de adaptação a pousada.

Observações

A lápide sobre a porta principal que indica o início da construção do castelo em 1494 é posterior a 1499, uma vez que só a partir dessa data D. Diogo Lobo usa o título de barão. Em 1494 era sua mãe quem usava o título de baronesa de Alvito. A causa do atraso de treze anos para início da construção do castelo, dada a autorização de construção por D. Afonso V em 1481 e o início da construção em 1494, poderá prender-se com a participação de Fernão da Silveira, filho do barão, na conjura de 1484 contra D. João II e com a colaboração do barão na fuga do seu descendente para França, dois factos que poderão ter levado o rei, descontente com estas atitudes, a atrasar o início da obra. Nas paredes da Sala das Damas, no 1º piso, existiam pinturas murais a têmpera, de finais do séc. 18, representando cenas galantes e campestres; Valério (1994) indica o arquitecto Afonso de Pallos como o mais provável parater trabalhado na reestruturação manuelina do paço devido sobretudo aos elementos mudéjares próprios do manuelino alentejano e devido à participação deste arquitecto noutros monumentos do Alentejo, nomeadamente, em obras régias em Évora. No século 18, segundo Frei Ambrósio Brocado, o castelo servia apenas para chefiar as torres da baronia, não tendo valor militar.

Autor e Data

Margarida Alçada 1983 / Isabel Mendonça 1993 / Filipa Avellar 2005

Actualização

Margarida Contreiras 2013
 
 
 
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