Ponte de Silves

IPA.00002849
Portugal, Faro, Silves, Silves
 
Ponte medieval erguida hipotéticamente no local de uma anterior de fábrica romana; a sua construção arrastou-se por vários anos e com várias intervenções de reconstrução. Apresenta tabuleiro ligeiramente rampante, com o talhe dos blocos, aduelas e vão dos arcos característicamente medievais; a presença de diversas siglas nos silhares, algumas de cunho gótico, bem como fragmentos cerâmicos, datáveis do séc. 15, descobertos no tabuleiro, confirmam a construção medieva da ponte de cuja primeira fase construtiva devem ser o 4º e 5º arco da margem esquerda, como testemunham o desgaste das pedras e o tipo e quantidade de siglas; da primeira reconstrução, do 3º quartel de quantrocentos, será o 3º arco, que apresenta siglas com pictogramas mais elaborados que os restantes e semelhantes aos que se encontram nas janelas góticas da Sé (v. IPA 0813070003); da reconstrução seiscentista serão os arcos da margem sul, onde surge menor quantidade de siglas (BERNARDES e GONÇALVES, 2005); a hipotética origem romana é atestata apenas pelos vestígios de Opus Signium testemunhados por Maria Luisa S. A. Estácio da Veiga, nas arcadas de volta perfeita *2.
Número IPA Antigo: PT050813070017
 
Registo visualizado 966 vezes desde 27 Julho de 2011
 
   
   

Registo

 
Edifício e estrutura  Estrutura  Transportes  Ponte / Viaduto  Ponte pedonal / rodoviária  Tipo arco

Descrição

Planta longitudinal, rectangular.Tabuleiro ligeiramente rampante *1, com 76m X 5,5m, lançado sobre 5 arcos de volta perfeita, intervalados por 4 talhamares, com 4,60m (na base), a montante e jusante; na margem norte, onde arranca o 1º arco, é visível parte de um quinto talhamar; os talhamares são piramidais excepto os segundos a contar da margem norte, marcando sensivelmente o eixo da ponte, e são constituídos por torre de três faces que se eleva à altura das guardas; todos os talhamares, de alvenaria rebocada e caiada, arrancam de alicerces triangulares, de arenito aparelhado e argamassado. Alçados de alvenaria rebocada e caiada elevados acima do tabuleiro em c. de 1m, constituindo as guardas, apresentando capeamento boleado granítico. Arcadas com silhares de arenito, colocados na vertical, produzindo espaços abobadados em canhão, de silhares idênticos.Tabuleiro com acesso a sul por rampas laterais e a norte por escadaria de três lances, dois afrontados, a poente e nascente, protegidos estes por murete de cantaria aparelhada; o lance central possui guardas de alvenaria rebocada e caiada com capeamento e cunhais de cantaria. Pavimento do tabuleiro em calçada alcatroada com bermas em calçada, em ligeiro declive; a meio do parapeito duas reentrâncias opostas, de planta triangular acompanhando o perfil das torres-talhamares, munidas de banco corrido com assentos lajeados de cantaria e pavimento em calçada portuguesa; o intradorso do parapeito apresenta vestígios de rodapé pintado a cor negra. No terraço da torre-tallhamar e nascente um poste eléctrico. Os silhares medem 0,90 X 0,30m c. e muitos apresentam siglas de canteiro.

Acessos

Largo Coronel Figueiredo

Protecção

Em vias de classificação (Homologado como IM - Interesse Municipal, Despacho de 18 maio 1978 do Secretário de Estado da Cultura)

Enquadramento

Periurbano, planície, atravessa o rio Arade num dos seus pontos mais largos, unindo as suas margens norte e sul. Para nascente, a c. de 400m, fica a Ponte Nova que faz a ligação rodoviária entre as duas margens. A margem norte apresenta passeio murado, com calçada à portuguesa, que desemboca a poente, a c. de 300m, em largo de terra batida utilizado como estacionamento automóvel e zona de desfrute do Rio Arade, em parte ainda navegável por embarcações de pequeno porte; desta margem, a ponte, tem-se acesso directo ao rio através de três plataformas munidas de escadaria, a central de lances opostos, em cantaria. A norte, tendo como elemento separador a EN, desenvolve-se o burgo, do qual se destaca, afrontando a ponte, o Edifício das Casas Grandes (v. IPA 0813070023). Na margem sul as rampas de acesso ao tabuleiro, apresentam, a poente calçada à portuguesa e a nascente pavimento alcatroado; possuem muretes de alvenaria mista, rebocada e caiada, com capeamento em granito na continuação das guardas do tabuleiro da ponte; a rampa nascente apresenta um troço, com c. de 5m, contrafortado por pegões rampeados graníticos; nesta margem a vegetação é abundante, constituída fundamentalmente por caniços, fetos e árvores de pequeno porte, invadindo o leito do rio em c. de metade da sua largura.; a sul, no sopé da encosta, desenvolve-se algum casario, bordejando a EN. e ocupando terrenos de antigas quintas arruinadas, salientando-se a localizada no desemboco da rampa poente, conservando ainda os muros da cerca e o portão de acesso.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Transportes: ponte

Utilização Actual

Transportes: ponte (encerrada ao trânsito)

Propriedade

Pública: municipal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 14 / 15 / 18 / 20

Arquitecto / Construtor / Autor

MESTRE PEDREIRO: Inácio Mendes (intervenção setecentista)

Cronologia

Séc. 04 - hipotética data de construção de uma primitiva ponte que servia a estrada militar romana que vinha de Castro Marim por Ossónoba e prosseguia por Monchique para Odemira; Séc. 14 - 15 - provável data de construção da ponte, eventualmente reutilizando as estruturas da primitiva ponte romana; 1439 - Cortes de Lisboa, nas quais os homens de Silves dizem que "por os nossos pecados somos postos em trabalhos e despesas (por causa) de huma ponte de pedra que nos cayo dhuua grande cheea.." (IRIA, 1990); é a primeira referência documental, sendo a obra de reconstrução orçamentada pelos mestres-pedreiros em 100.00 reais, tendo o rei atribuido um montante para as obras de 30.000 reais; 1459 - ainda decorrem as obras de construção da nova ponte; 1473 - nos capítulos de Silves às Cortes realizadas em Évora, refere-se que as obras se encontram concluídas; 1577 - Frei João de São José refere a ponte em bom estado (GUERREIRO e MAGALHÃES, 1983); 1600 - encontram-se derrubados dois arcos, sendo a travessia do Arade feita a vau; 1621 - já reconstruída, segundo a Descrição de Alexandre Massai; 1716, 02 de Março - obras de reconstrução da ponte que adquire então o aspecto odierno, tendo-se aproveitado as bases e talhamares quatrocentistas; na escritura, nesta data assinada em Faro com o pedreiro Inácio Mendes para reparação da ponte, refere-se a reconstrução do 1º e 2º arco da margem norte e que o "treceiro arco que esta pella parte da serra em parte aroenado (...) o quinto e ultimo leuara trenta pedras na mesma forma do ditto e as juntas dos dittos tres arcos que han de ser reparadas todas tomadas com cal e por ssima dos talhamares que acompanhão os dittos arcos vão quatro arcos pequenos os quaes ham de ser tapados a face de pedra e cal e entupidos(..) de forma que pareca que na ditta ponte não ha tais arcos"; o empreiteiro obrigava-se ainda a fazer "nouenta varas de parapeito pera resguardo da gente(..) na forma que esta o uelho" e a fazer "de pedra rujua que he de qualidada da mesma pedra de que esta feita a ponte velha, e se poder a elle arematante aproueitar da pedra que tem a ditta ponte pera o que lhe for necessario" (BERNARDES e GONÇALVES, 2005); 1950, década de - com a construção da nova ponte de betão, a nascente, é remetida para plano secundário, acabando por ser encerrada ao trânsito; construção da avenida marginal amputando a extremidade da margem direita; Séc. 20, 1ª metade - construção da escadaria de acesso a norte; Séc. 20, 2ª metade - escavações arqueológicas no tabuleiro põem a descoberto um fragmento cerâmico que suportaria um lajeado; 1975, 01 outubro - Processo de classificação iniciado na Direcção-Geral de Assuntos Culturais; 1978, 12 maio - Parecer da COISPCN a propor a classificação como VC - Valor Concelhio; 1989 - instalaçõa de uma conduta de água e de uma de esgotos, origina corte parcial das abóbadas de dois arcos; 1995, 04 dezembro - incluído no PDM de Silves, Resolução do Conselho de Ministros n.º 161/95; 2001, 23 outubro - Proposta da CMSilves para a classificação como IIP - Imóvel de Interesse Público; 2001, 20 maio - Informação do IPPAR/DRFaro favorável à classificação como IPP; 2002, 27 maio - Despacho de abertura do processo de classificação pelo Vice-Presidente do IPPAR; 2003, 07 maio - Parecer do Conselho Consultivo do IPPAR a manter proposta para VC - Valor Concelhio; 2003, 04 março - nova proposta do IPPAR/DRFaro para a classificação como IIP; 2005, 03 março - Novo parecer do Conselho Consultivo do IPPAR para classificação como VC; 2008 - Relatório de inspeção elaborado pelo LNEC refere anomalias graves que comprometem a estabilidade da ponte; 2004 - o Instituto Português de Arqueologia alerta a autarquia do mau estado da ponte em consequência de várias intervenções (iluminação e condutas de água), nomeadamente na deficiente recuperação do talhamar parcialmente demolido durante os trabalhos de limpeza da margem esquerda do rio; 2008 -2008 - Relatório de inspeção elaborado pelo LNEC refere anomalias graves que comprometem a estabilidade da ponte, nomeadamente pedras desalinhadas ou partidas e juntas não preenchidas; 2011, 09 dezembro - Parecer da SPAA do CNC a propor a classificação como MIP - Monumento de Interesse Público; 2011, 14 fevereiro - processo de classificação devolvido à DRCAlgarve para preparar proposta de ZEP; 2012, 13 março - Propsta de ZEP pela DRCAlgarve; 2012, 09 maio - Parecer favorável à proposta de ZEP pela SPAA do Conselho Nacional de Cultura; 2014 - a autarquia inicia processo para a conservação e restauro da Ponte; 2015 - estudo realizado no âmbito do processo de conservação e restauro da Ponte, conclui que esta se encontra muito degradada e em risco eminente de colapso; 2016, 18 fevereiro - publicado no DR, 2,ª série, n.º 34 o Anúncio n.º 71/2016 relativo à abertura de novo procedimento de classificação da Ponte Velha de Silves; 2016, abril - vistoria conjunta da DRCAlgarve e da autarquia corroboram o risco de colapso; 2016, agosto - a ponte fecha provisoriamente à circulação devido ao eminente colapso.

Dados Técnicos

Materiais

Grés de Silves, alvenaria

Bibliografia

ALMEIDA João de - Roteiro dos monumentos militares Portugueses. Lisboa, 1948, Vol. III; BERNARDES, João Pedro e GONÇALVES, Maria José - «A ponte "velha" de Silves». Revista Monumentos, Lisboa, 2005, nº 23, pp. 62 - 67; GODINHO, João Mira - «Ponte fechada por risco "iminente de colapso». Correio da Manhã Algarve. 10 agosto 2016, p. 22; GUEDES, Lívio da Costa - Aspectos do Reino do Algarve nos Séculos XVI e XVII. A descripção de Alexandre Massaii (1621). Lisboa: Arquivo Histórico-Militar, 1988; GUERREIRO, Manuel Viegas e MAGALHÃES, Joaquim Romero de - Duas descrições do Algarve do Século XVI. Lisboa: Sá da Costa ed., 1983; IRIA, Alberto - O Algarve nas cortes medievais portuguesas do Século XV - subsídios para a sua história. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1990, vol. I; LOPES, João Baptista da Silva - Corografia (...) do reino do Algarve. Lisboa, 1841; RIBEIRO, Aníbal Soares - Pontes Antigas Classificadas Lisboa: MEPAT- JAE, 1998; RODRIGUES, Sandra - As vias romanas do Algarve. Faro: Centro de Estudos do Património da Universidade do Algarve - CCDRA, 2004; SANTOS, Maria Luísa - Arqueologia Romana do Algarve. Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses, 1972, vol. II.

Documentação Gráfica

DGPC: IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Fotográfica

DGPC: IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

Arquivo Distrital de Faro, Livros Notariais de Faro, tabelião Borralho, 1716, nº 12, f. 34 e 35 (Cota M 242)

Intervenção Realizada

1950 - obras de construção da Avenida marginal com amputação da margem norte da ponte; CMSilves: 2008 - instalação condutas de água e esgotos; 2013 - pequena intervenção.

Observações

*1 - cota máxima ao centro do tabuleiro de 7,46m, descendo no extremo sul à cota de 6,15m; *2 - a negar a origem romana da ponte o facto das fontes islâmicas, algumas delas descrevendo pormenorizadamente Silves, não mencionarem qualquer ponte; no período romano a ponte ligaria a estrada militar romana que vinha de Castro Marim por Ossónoba e prosseguia por Monchique para Odemira, e da qual partia também a estrada secundária de Silves a Alvor e a Lagos.

Autor e Data

João Neto 1991 / Rosário Gordalina 2005

Actualização

 
 
 
Termos e Condições de Utilização dos Conteúdos SIPA
 
 
Registo| Login