Conjunto da Horta do Ourives / Quinta do Ourives

IPA.00002843
Portugal, Faro, Faro, União das freguesias de Faro (Sé e São Pedro)
 
Arquitectura agrícola, residencial e religiosa, chã, barroca, rococó. Quinta de recreio com casa nobre de planta rectangular disposta em dois pisos, com dependências habitacionais e agrícolas, dispostas em dois corpos, desenvolvidas em torno da capela que marca o eixo central. Casa nobre de planta retangular, disposta em dois pisos, com cobertura em telhados de tesoura, apresentando grande unidade formal, com as varandas do piso nobre e restantes elementos organizados com notável equilíbrio e simetria, os telhados de tesoura na cobertura; fachada posterior contrafortada com varandim a toda a largura do alçado; no interior tetos de caixotão de expressivo cunho regional. Capela barroca, de planta interiormente octogonal, com coro-alto lateral proporcionado por janela a S. e alçados decorados por pinturas murais figurativas; fachada principal com amplo frontão ociltando o corpo alteado da cúpula e do sistema de iluminação da abóbada de lunetas. Fronteiro à casa o armazém (v. PT50805040009), de planta rectangular com uma das fachadas menores ornada de trabalhos de gesso, representando figuras alegóricas, típicos do artesanato algarvio, com contaminações mais ou menos eruditas, igualmente presentes na parede onde se integram o Tanque e a Nora. Um dos edifícios mais marcantes da entrada O. de Faro e de grande impacto urbanístico na zona rural periurbana, constituindo um dos mais interessantes conjuntos patrimoniais do Algarve; obra de conteúdo simbólico muito marcante, como o prova a alegoria da fachada superior da Casa das Figuras (v. PT050805040009), é também um marco da história de um dos personagens mais importantes da cidade durante o Séc. 18, o Desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel, patrocinador de outras obras na cidade e figura indissociável do percurso do arquitecto algarvio Diogo Tavares. Conjunto com características muito interessantes, apresentando a casa nobre uma tipologia pouco comum na região, com dois pisos e respectiva organização de elementos (varandas no piso nobre, telhados de tesoura sobre as várias secções do solar), sempre em constante simetria e racionalidade construtiva. Capela privativa com vestígios de pintura mural, interessante não apenas por estar atribuída a Diogo Tavares, mas também pela solução de comunicação com o interior do solar, pela janela no alçado S., que permitia aos proprietários disfrutarem de um verdadeiro coro alto lateral ao altar.
Número IPA Antigo: PT050805040015
 
Registo visualizado 207 vezes desde 27 Julho de 2011
 
   
   

Registo

 
Conjunto arquitetónico  Edifício e estrutura  Agrícola e florestal  Quinta    

Descrição

Planta composta pela Casa Nobre de planta rectangular, pela Casa das Figuras, antigo armazém da Quinta, fronteira à Casa Nobre e dela actualmente separado pela EN (v. PT050805040009), por Aqueduto, Tanque e Nora. Casa Nobre de planta rectangular, composta por solar, capela axial e dependências agrícolas à esquerda. Volumes articulados, dispostos na vertical com cobertura em telhados de tesoura no solar (3 telhados) e dependências agrícolas (1 telhado), de duas águas na Casa das Figuras, em cúpula na Capela e em terraço sobre as dependências agrícolas abertas para a fachada posterior. Fachada principal a SO. composta por três corpos organizados a dois registos; o corpo S. corresponde ao Solar, o corpo médio à capela e o corpo N. a uma outra secção do Solar; corpo S. delimitado por fortes cunhais de pilastras adossadas; primeiro registo rasgado por 4 vãos de arco recto com lintel e pés-direitos em cantaria, actualmente entaipados; segundo registo separa-se do primeiro através de uma cornija simples; é rasgado por 4 janelas de sacada, axiais, com moldura em cantaria sendo o lintel mais desenvolvido por cornijamento, com varandim de gradeamento simples em ferro forjado; telhado assenta numa ampla cornija tratada como arquitrave, suportando a linha do beiral. Fachada principal da igreja ligeiramente mais saliente que a fachada do corpo do solar e organizada a três registos, sendo delimitada por pilastras adossadas assentes em robustas bases e terminando em impostas muito desenvolvidas: primeiro registo ocupado pelo portal principal, entaipado, de arco recto com moldura em cantaria e lintel muito desenvolvido, repetindo o perfil das portas do segundo piso da fachada principal do solar; no segundo registo óculo mistilíneo, axial, com molduras de massa; terceiro registo em frontão contracurvado interrompido, delimitado por volutas invertidas e coroado por urnas de massa; corpo N. segue a mesma organização do corpo S. ( que corresponde ao solar ), mas sem marcação de cunhais no topo N., com dois vãos abertos no registo inferior e um apenas no superior, portas semelhantes ao daquele alçado. Fachada lateral S. organizada em dois corpos de dois registos: primeiro registo com uma porta simples de arco recto, adossada ao ângulo do edifício que liga com a fachada principal, ladeada por uma pequena janela rectangular disposta horizontalmente; segundo registo separa-se do primeiro por um telheiro de chapa, retomando-se a organização natural dos alçados do solar, com porta axial de arco recto com moldura em cantaria protegida por varanda com gradeamento simples de ferro; cornija superior desenvolvida, de perfil idêntico à da fachada principal, antecede a linha de beiral; corpo E. existe apenas no primeiro registo e compõe-se do muro da escadaria que dá acesso à varanda que corre ao longo de toda a fachada posterior. Fachada lateral N., parcialmente destruída, organizava-se a dois registos de dois corpos, mas apenas se mantém parte do primeiro, sem elementos decorativos ou vãos de acesso ao interior. Fachada posterior, virada a NE. organiza-se a dois registos; primeiro registo avançado em relação ao segundo, compõe-se de sete tramos definidos por contrafortes de perfil triangular, abrindo-se dois arcos de volta perfeita em cada tramo, hoje completamente entaipados; a S., a escadaria de acesso ao segundo registo; piso superior com varanda ao longo de todo o alçado, abrindo-se duas portas de arco recto e moldura em cantaria; adossado ao muro delimitador da varanda, do lado S., uma estrutura rectangular com telhado em chapa metálica; a partir do extremo N. da varanda acede-se ao telhado da capela, através de uma escada serpenteante que dá para um pequeno terraço que circunda a estrutura da cúpula; a partir desse mesmo ponto na varanda, uma porta de arco recto, idêntica às restantes da fachada principal, permitia o acesso ao corpo a N. da capela, pelo segundo piso; entre a última porta de acesso ao interior e a escadaria serpenteante existe um campanário, de sineira em arco de volta perfeita, com imposta marcada e terminação moldurada acompanhando a curvatura do arco inferior. INTERIOR DA CAPELA *3: planta circular com quatro arcos de volta perfeita assentes em pilastras adossadas que imprimem a planta octogonal ao interior; decoração ainda visível nas pilastras, com molduras policromadas, e na cúpula, com motivos decorativos murais de fénixes debicando grinaldas de flores; no alçado S. do interior, uma janela de perfil rectangular disposta verticalmente permitia a comunicação com o interior do solar; abobadamento em cúpula, sendo a iluminação efectuada através de um sistema de lunetas, com janelas de arco abatido inscritas numa cruzaria de nervuras; arcossólio com a sepultura do Desembargador Veríssimo de Mendonça. TANQUE E NORA: integram uma parede totalmente decorada com elementos ornamentais de gesso.

Acessos

EN125, à saída de Faro na direcção de Lagos

Protecção

Categoria: CIP - Conjunto de Interesse Público, Portaria n.º 618/2013, DR, 2.ª série, n.º 182, de 20 setembro 2013

Enquadramento

Periurbano, planície, junto à EN 125. Fachada principal a SO., abrindo para a antiga EN e para um imenso terreiro de terra batida utilizado na Semana Académica de Faro, passeio fronteiro à fachada, em calçada portuguesa e com três palmeiras. Fachada lateral S. abrindo para pátio de cimento delimitado por casas de piso térreo, anteriormente utilizado como parque de estacionamento de um restaurante nas imediações. Fachadas posterior e lateral N. viradas para a actual EN com uma série de tapumes de dois andares a ocultar o imóvel; a EN atravessa a Quinta, encontrando-se a Casa das Figuras (v. PT050805040009) e o Aqueduto do outro lado *1.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Agrícola e florestal: quinta

Utilização Actual

Devoluto

Propriedade

Pública: municipal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 18

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO: Diogo Tavares (atr. capela)

Cronologia

1669 - Nascimento de Veríssimo de Mendonça Manuel, filho ilegítimo do prior da Matriz de São Pedro de Faro (v. PT050805040039), o Padre Manuel Gago com a filha de um sapateiro de Santiago do Cacém, onde o Padre havia desempenhado funções; 1686 - Casamento de Veríssimo de Mendonça Manuel com D. Maria Rafaela de Sequeira, filha de António Martins Rolão e de Inês Rodrigues de Sequeira; Séc. 17, finais - O Desembargador Veríssimo de Mendonça de Manuel, licenciado em Leis na Universidade de Coimbra, Juíz de Fora em Portimão e depois em Tavira, manda edificar o solar na Horta do Ourives; 1700, 19 de Abril - Baptismo de sua filha, D. Teresa Francisca de Mendonça Manuel, na Matriz de São Pedro; 1705 - Ocupa o cargo de Familiar do Santo Ofício; 1719 - Enquanto Provedor da Fazenda do Reino do Algarve, ingressa na Ordem Terceira do Carmo; 1727 - Casamento de sua filha com Diogo de Mascarenhas Figueiredo; Séc. 18, segundo quartel - O Desembargador manda construir o Solar do capitão-mor, na cidade de Faro, para habitação de sua filha e genro; 1740, 16 de Julho - D. João V concedeu licença ao Desembargador para "fazer de novo uma ermida ou capela pública arrimada a umas casas nobres que tem em uma quinta chamada a Horta do Ourives e com porta para a estrada pública com a invocação de Sant'Ana e o Senhor do Bonfim, e dentro na mesma sua tribuna para dela ouvir missa sua família e sepultura para ele ser enterrado com toda a decência"; Por esta altura, já o conjunto da quinta existia; 1741 - Solar do Capitão-mor já era habitado; 1746 - 1747 - Testamento prevê que os seus restos mortais sejam trasladados para a pequena capela anexa ao solar da Horta do Ourives quando estivesse concluída, encarregando ainda Diogo Tavares de fazer uma lápide sepulcral com figura jacente, "vestido de toga, em idade idealizada de adulto"; 1747, 28 de Março - Morte do Desembargador, sendo sepultado na Igreja do Carmo de Faro; 1751 - A Família Manuel habita o Solar até esta data, passando então a ocupar um prédio na cidade, possivelmente o Colégio Algarve (v. PT05080540045), o única para albergar a família e pessoal auxiliar; 1979, 09 janeiro - Proposta de classificação pela DGEMN; 1984 - Degradação acentuada do estado de conservação do imóvel, em especial da capela, nas palavras de José Pinheiro e Rosa "tinha-a visto em 1977, completamente desocupada, ainda em estado tolerável. Agora, em 1984, fiquei desolado quando vi o estado de ruína que estes quase sete anos acarretaram"; 1980, 04 julho - Parecer da Comissão Organizadora do Instituto de Salvaguarda do Património Cultural e Natural a propor a classificação como IIP - Imóvel de Interesse Público do Conjunto da Casa Nobre, Capela e Antigas Dependências agrícolas na Horta do Ourives; 1980, 07 julho - Deaspacho de Homologação de classificação como IIP - Imóvel de Interesse Público do Conjunto da Casa Nobre, Capela e antigas dependências agrícolas na Horta do Ourives; Séc. 20, década de 80 - Parte do primeiro piso da fachada S. era habitada; em altura incerta entre 1987 e os meados da década de 90 a fachada principal foi pintada de branco (LAMEIRA, 1996 e ROSA, 1984); 2011, 27 julho - Proposta de ZEP pela DRCAlgarve; 2011, 26 outubro - Parecer da SPAA do Conselho Nacional de Cultura favorável à ZEP; 2013, 07 fevereiro - publicado no DR nº 27, 2ª série, o Anúncio nº 58/2013 de Projeto de decisão relativo à fixação da ZEP; 2013, 30 abril - Despacho da diretora-geral da DGPC a determinar que, após a publicação do diploma de classificação, se estudem as restrições a aplicar na ZEP.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes

Materiais

Alvenaria rebocada e caiada, cantaria, madeira em portas e caixilhos, telha de canudo, ferro.

Bibliografia

LAMEIRA, Francisco, Faro. Edificações notáveis, Faro, Câmara Municipal de Faro, 1995; IDEM, O desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel, (desdobrável), Faro, Câmara Municipal de Faro, 1996; ROSA, José António Pinheiro e, "uma capelinha com interesse nos arredores de Faro", O Algarve, nº 3609, 7 de Agosto, 1977; IDEM, Monumentos e edifícios notáveis do concelho de Faro, Faro, Câmara Municipal de Faro, 1984; SERRÃO, Vítor, O Barroco e o Rococó, encenações do poder religioso e laico in O Algarve da Antiguidade aos nossos dias (coord. Maria da Graça Maia Marques), Lisboa, Colibri, 1999, pp. 321- 328.

Documentação Gráfica

CMF

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN / DSID; CMF

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN / DSID; CMF

Intervenção Realizada

Observações

*1 - Até aos finais da década de 90 do séc. 20 a EN 125 passava diante da fachada principal do solar; com a construção de várias superfícies comerciais de grandes dimensões nas proximidades e o estabelecimento de agumas indústrias, a EN foi objecto de vários melhoramentos com a construção das duas rotundas e o novo traçado ocupou parte da antiga Quinta a N. do Solar; *2 - Nesta capela mandou sepultar-se Veríssimo Mendonça Manuel, lápide sepulcral que se encontra hoje depositada no Museu Arqueológico Infante D. Henrique em Faro (LAMEIRA, 1995); *3 - Diogo Tavares deve ter sido o arquitecto-pedreiro das obras mais importantes patrocinadas por Veríssimo de Mendonça Manuel. Para além desta referência à capela da Horta do Ourives, é-lhe atribuída a construção do Solar do Capitão-mor e o Celeiro do Convento de São Francisco (v. PT050805050005) ( LAMEIRA, 1996 e SERRÃO, 1999,). Diogo Tavares foi ainda o responsável pela construção da Igreja do Carmo, em Faro (v. PT050805040011), sendo esta mesmo a sua obra mais emblemática, assim como outras obras em Tavira. Não foi possível o acesso ao interior do solar, pelo entaipamento generalizado dos vãos.

Autor e Data

João Neto 1991/ Francisco Lameira 1997 / Paulo Fernandes 2002

Actualização

 
 
 
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