Torre das Águias / Solar das Águias

IPA.00002763
Portugal, Évora, Mora, Brotas
 
Arquitectura residencial, tardo-medieval. Casa-torre de planta quadrangular, com quatro pisos abobadados, troneiras cruzetadas e remate com ameias decorativas e coruchéus cónicos. Integra apontamentos da arte manuelina característica do Alentejo. Enquadrada no grupo de construções senhoriais que constituem símbolo de apropriação do território (domus-fortis), conjugando a função residencial temporária ou permanente com características formais associadas à arquitectura militar (torre). No contexto das suas contemporâneas, é considerada o último estádio da casa forte medieval (Silva, 1995), apresentando-se como a última e mais representativa do seu universo na época manuelina. Insere-se no mesmo horizonte ideológico de alguns exemplos do Norte, como o Torre de Refóios (PT011607370044) e a Torre de Quintela (v. PT011714290003), e da mesma região alentejana, como a Torre do Esporão (PT040711040005), a Torre da Camoeira (v. PT040705090077) ou a Torre do Carvalhal (v. PT040706050026), à semelhança das quais apresenta também construções anexas. A torre encontra-se dividida em dois eixos horizontais, bem assinalados no pano exterior dos muros e é rematada por seis coruchéus cónicos, sendo um deles o remate de uma escada em caracol. Apresenta uma dimensão maior e mais magnificente do que as demais que seguem o mesmo tipo arquitectónico. Nicho na fachada SE. com esgrafitos de losangos laterais e cálice rodeado de estrelas no centro. Apesar da sua aparência defensiva, possui maior fenestração relativamente a qualquer outro edifício semelhante, conferindo-lhe maior semblante residencial. Encontram-se vestígios de um aparente adossamento de varanda ao nível do segundo piso. Fachada com proporção de raiz quadrada de dois mais um.
Número IPA Antigo: PT040707010002
 
Registo visualizado 2467 vezes desde 27 Julho de 2011
 
   
   

Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Residencial senhorial  Casa nobre  Casa nobre  Tipo torre

Descrição

Torre senhorial de planta centralizada quadrada, simples. O corpo principal definido por volume paralelepipédico, com alçado na proporção de raiz quadrada de dois mais um, está dividido em dois eixos horizontais, bem assinalados no pano exterior dos muros, e rematados por cornija. O primeiro corresponde ao piso térreo e segundo piso e o segundo aos terceiro e quarto pisos. O volume sofre um ligeiro estreitamento da base até ao topo, onde é rematado por ameias decorativas e 6 grandes coruchéus cónicos em tijolo e taipa assentes em base circular com cachorros e matacães. As quatro fachadas apresentam fenestração em alinhamentos segundo um eixo de simetria vertical e vários orifícios quadrados dispersos. A fachada SE., aparentemente a principal, apresenta o maior número de aberturas, tem, no piso térreo, uma porta de ferro com lintel recto e duas frestas de enxalço profundo com gradeamento; no primeiro piso, dois vãos de janela rectangulares com gradeamento e entre eles um nicho com moldura e arco canopial com uma flor lavrada no tímpano; no segundo piso, um vão de janela e um de porta em arco abatido; e, no terceiro piso, dois vãos de janela do mesmo tipo. A fachada NE. encontra-se adossada às construções anexas e corresponde à zona de menor cércea, por se localizar em cota mais elevada; aqui apenas se encontram aberturas relativas a três registos, todas elas centradas e alinhadas no pano murário: primeiro registo com vão de porta rectangular e pequena escadaria exterior de acesso ao interior da torre, segundo registo com porta equivalente e terceiro registo com vão de janela em arco abatido. A fachada NO. apresenta embasamento em declive e, em termos de aberturas, tem duas canhoneiras assimétricas a nível do piso térreo, dois vãos de janela rectangulares com gradeamento de ferro no primeiro piso, um vão de porta e um vão de janela em arco abatido no terceiro registo e dois vãos de janela do mesmo tipo no quarto piso. A fachada SO. é a que tem maior cércea e apresenta uma abertura centralizada por cada piso, possuindo, do piso térreo para o terceiro piso: canhoneira, vão de janela rectangular com gradeamento, e dois vãos de janela em arco abatido. O remate apresenta a SE. cinco ameias, a SO. três, a NE. cinco (apenas do lado direito) e a NO. não tem nenhuma. As fachadas SE. e NE. são também rematadas por um coruchéu centrado, mas, no caso da primeira, este encontra-se integrado no espaço cimeiro do terraço e, no caso do segundo, apresenta-se projectado para o exterior e apoiado em base circular de quatro cachorros e três matacães. INTERIOR: dividido em quatro pisos separados por coberturas abobadadas, sendo atravessado verticalmente por, pelo menos, duas chaminés para saída de fumo das diversas lareiras. Primeiro, segundo e terceiro pisos constituídos por cinco dependências abobadadas, sendo a área a NO. um espaço amplo abobadado com três tramos no primeiro piso, cinco no segundo e quatro no terceiro. Acesso vertical do segundo piso para o terceiro através de escada de dois lanços no ângulo SE. O segundo piso tem amplo salão, provavelmente um salão nobre, coberto por abóbada de cruzaria de ogivas com arco toral abatido, com vasto fogão de chão, e divisões contíguas; terceiro piso com configuração similar mas com acessos entaipados, integrando escada em caracol de acesso ao terraço no centro da área SE. Todas as chaves e mísulas das abóbadas apresentam bocetes com ornamentos de carácter manuelino, como cruzes da Ordem de Cristo e motivos vegetalistas e geométricos diversos, tais como bolas, espirais, círculos concêntricos, entre outros que, devido ao estado de degradação, não são identificáveis. Apresenta vestígios de pavimento interior em tijoleira e orifícios quadrados nos paramentos externos.

Acessos

N2, saída para Brotas, Herdade das Águias, acessível por caminho vicinal.. VWGS84: 38º52'30.45''N 8º07''35.02''O

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto de 16-06-1910, DG n.º 136 de 23 junho 1910

Enquadramento

Rural, em planície, localizada na extinta vila das Águias, a SO. da aldeia de Brotas. Localizada no outeiro do Peso, sensivelmente à mesma latitude da povoação de Brotas, a 100m de altitude, entre as ribeiras do Vale da Horta e do Vale de Olheirões, a S. da ribeira do Divor e a 64km de Évora. Orientada a SE. para rua larga formada pelo conjunto arquitectónico rural do Monte da Herdade, constituído por casario térreo setecentista. A fachada NE. encontra-se adossada a edifício setecentista -oitocentista com dois pisos, em ruínas, , através de cujo portão se faz actualmente o acesso ao imóvel. A cerca de 300m fica a Ermida de São Sebastião (v. PT040707010020), caminho que fica no eixo da torre. Faz parte de um conjunto de torres de origem senhorial erguidas no Alentejo e também no Norte do país. Na aldeia de Brotas (v. PT040707010016), para NO., fica o Santuário de Nossa Senhora das Brotas (v. PT040707010005 e PT040707010006).

Descrição Complementar

A torre mede 18 x 22m de lado; Na zona mais perto do solo a espessura da parede atinge os 2m. O primeiro e o segundo pisos têm vestígios de pavimentação em tijoleira.

Utilização Inicial

Residencial: casa nobre

Utilização Actual

Devoluto

Propriedade

Privada: pessoa singular

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 16 (conjectural)

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido.

Cronologia

1361, 5 Setembro - doação da vila das Águias por D. Pedro I a Pedro Afonso, desanexando-a do concelho de Coruche; 1519, 20 Novembro - antiga Vila das Águias recebeu carta de foral de D. Manuel I; 1520 - passagem da posse da vila para D. Nuno Manuel, almotacé-mor de D. Manuel I (quando este era ainda duque de Beja), filho da ama do monarca e seu guarda-mor, por compra do primeiro feita a André do Campo; 1527 - uma descrição feita da Vila das Águias não fez referência à torre, podendo-se depreender que então não existiria (Silva, 1993); 1527 / 1531 - durante este período de tempo, a Torre das Águias terá sido construída, por iniciativa de Fradique Manuel; 1531 - Torre das Águias estava construída, como se sabe através da estadia de Bernardo de Bronseval na casa forte, durante a sua viagem a Espanha e Portugal (Silva, 1993); 1535, 7 Abril - transferência da sede paroquial da vila das Águias para Brotas, devido à importância do milagre de Nossa Senhora de Brotas, com a consequente perda de importância da primeira matriz; 1665 - Álvaro Manuel, conde da Atalaia, fixou residência na Torre das Águias; 1686, 9 Fevereiro - morte de D. Álvaro Manuel na Torre das Águias; 1708 - segundo António Carvalho da Costa, o termo da Vila das Águias pertencia aos condes da Atalaia e tinha dezasseis herdades, sobretudo para caça; 1755, 1 Novembro - com o terramoto, a Torre das Águias sofreu apenas uma fissura ao longo de uma parede que foi facilmente reparada com estuque; 1758 - a torre não apresentava ruína e cada andar estava dividido ao meio em duas salas, com setenta palmos de comprimento e trinta de largura; 1927 - a torre estava na posse do conde de Fontalva; 1950 - o proprietário da torre era João Lopes Fernandes, residente em Cabeção (Mora); 1958 - a torre encontrava-se em avançado estado de ruína e foi expressa disposição por parte do proprietário em ceder a Torre das Águias ao estado, sem efeito futuro; 1974 - ocupação da Torre das Águias por outrem; 1984 - queda de pedras do suporte da entrada principal da torre e aparecimento de fendas extensas na fachada principal; 2000, 03 Novembro - reunião entre a DREMS, a CMM e o proprietário, visando a adaptação a unidade de turismo rural; 2001, 05 de Setembro - o proprietário do imóvel informou a DREMS, que se encontrava em execução o projecto de reabilitação, apontando a sua conclusão para Setembro de 2002, facto que não ocorreu.

Dados Técnicos

Estrutura autónoma

Materiais

Alvenaria e cantaria de granito, tijolo, ferro, cal.

Bibliografia

ALMEIDA, João - Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses. Lisboa: Edição de Autor, 1948; AZEVEDO, Carlos de - Solares Portugueses. Lisboa: Livros Horizonte, 1988; BINNEY, Marcus - Casas Nobres de Portugal. Lisboa: Difel, 1987; CHICO, Mário Tavares - História da Arte em Portugal. Porto: Portucalense, 1953, vol. 2; ESPANCA, Túlio - Inventário Artístico de Portugal - Distrito de Évora, Lisboa: SNBA 1975, vol.8; LOPES, Correia - Mora e o seu Concelho. Mora: Câmara Municipal, 1991; SILVA, José Custódio Vieira - Paços Medievais Portugueses. Lisboa: IPPAR, 1993; Idem - "A Torre ou Casa Forte Medieval". Pontevedra. Museo de Pontevedra, 1999; PEREIRA, Gabriel - Estudos Diversos. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1934

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID

Intervenção Realizada

DGEMN: 1946 - reparação geral; 1978 - obras de reconstrução das abóbadas dos dois primeiros pisos e obras de consolidação; 1979 - reconstrução de nervuras e abóbadas de alvenaria de tijolo no 2º e 3º pisos e trabalhos de consolidação, sobretudo a nível do 1º piso, nas paredes, pavimento e escadas, que não ficaram concluídas por falta de verba; 1991 - reconstrução das abóbadas do 2º piso e das fachadas 2 e 3

Observações

Muitos dos vãos em arco abatido perderam já a pedra de fecho. Alguns autores, como José Custódio Vieira da Silva (1995) e Correia Lopes (1991), defendem que terá sido D. Nuno Manuel que ordenou a construção da casa. A fachada principal deverá ter sido a orientada a SE., uma vez que apresenta um nicho onde poderá ter figurado um brasão de armas. Pode conjecturar-se, por motivos de simetria, que as fachadas NO. e SO. também tivessem tido coruchéus ao centro. A torre poderá ter sofrido um incêndio desencadeado por um raio durante o séc. 20.

Autor e Data

Manuel Branco e Castro Nunes 1994 / Rosário Gordalina 2006 / Margarida Contreiras 2012

Actualização

 
 
 
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