Convento de Nossa Senhora das Mercês / Museu de Artes Decorativas

IPA.00002723
Portugal, Évora, Évora, União das freguesias de Évora (São Mamede, Sé, São Pedro e Santo Antão)
 
Arquitectura religiosa, chã, proto-barroca, rococó. Convento agostinho construído no local de um palácio manuelino de que subsiste uma sala com abóbada polinervada; a igreja é de planta longitudinal composta por nave única, transepto, cruzeiro, capela-mor e coro-alto, dispondo de tribunas. Cobertura interior em abóbada de berço, rompida ao nível do cruzeiro por torre lanterna, sendo a importância deste último espaço reforçada pelos quatro arcos triunfais em talha dourada. Azulejos barrocos na sacristia. Importante programa rococó no desenho da fachada principal, conjunto azulejar da nave, cruzeiro e sub-coro, e retábulos. A organização espacial da igreja e a valorização do cruzeiro remete para uma tipologia de igrejas rococó onde se integra a igreja da Ordem Terceira de São Francisco em Faro (v. PT040805050076). Espaço de culto resgatado para uma função de índole cultural, onde se destaca o programa azulejar rococó com cenas da vida mariana.
Número IPA Antigo: PT040705210063
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Convento / Mosteiro  Convento masculino  Ordem dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho - Grilos

Descrição

Planta composta por igreja em cruz latina e nave única, transepto inscrito, coro-alto, duas capelas laterais reentrantes ladeadas por outras dependências intercomunicantes, quatro capelas com retábulos à face nos braços do transepto, capela-mor quadrada e sacristia por trás desta; corpo do antigo convento a N., de planta irregular. Volumes articulados, massas dispostas na horizontal com cobertura diferenciada em telhado de quatro águas sobre a torre do cruzeiro e de duas águas sobre os braços do transepto e sobre a nave, sendo este último ladeado por terraços. Fachada principal a NO. rebocada e pintada de branco, com cunhais, arquitrave e molduras de vãos em cantaria de pedra granítica; dispõe-se em três panos definidos por pilastras e dois registos definidos por arquitrave de cantaria com cornija saliente, sendo o registo superior encimado por cimalha em alvenaria pintada de branco; inferiormente, nos panos laterais, rasga-se fresta emoldurada e ao centro portal em cantaria com ombreiras ladeadas por colunas esguias, dupla-verga e frontão circular interrompido, sendo envolvido por arco abatido em cantaria inscrito nos limites do tramo; no registo superior abre-se, nos tramos laterais, janelão emoldurado e ao centro dois janelões idênticos separados por largo nembo; fachada rematada por três empenas na continuidade dos tramos, ladeadas por balaústres com fogaréus em alvenaria, a central a mais alta, rasgada por óculo oval com moldura pintada e a representação de uma águia bicéfala em massa, com remate em frontão curvo coroado por cruz latina ladeada por dois fogaréus. Empena sineira a N. encimada por cimalha e pequena empena rematada e ladeada por pequenos balaústres, sendo vazada por dois olhais com moldura pintada. Alçados exteriores da torre do cruzeiro com remate em beirado sobre cimalha envolvente e cunhais de alvenaria pintada de branco, com janelão reentrante ao centro de cada pano. INTERIOR DA IGREJA: alçados rebocados e pintados de branco, pavimento em madeira, revestimento dos muros até a meia-altura com painéis de azulejos alusivos ao culto mariano, cimalha envolvente, e cobertura em abóbada de berço na nave e transepto e em abóbada de aresta com fenestrações na torre do cruzeiro. Coro-alto assente sobre abóbada de berço com fenestrações e arco abatido no frontispício, apresentando inferiormente guarda-vento em madeira ladeado por dois painéis de azulejos envoltos em moldura arquitectónica; pia baptismal em mármore entre o painél e o silhar de azulejos; sob o coro-alto, nas paredes dos alçados laterais, mais quatro painéis de azulejo; pavimento do coro-alto em tijoleira e cobertura em abóbada de berço separada da restante cobertura por arco toral que descarrega em duas pilastras de alvenaria embebidas nos alçados laterais; espaço iluminado pelas duas janelas do tramo central com acesso por duas portas situadas nos alçados laterais; balaustrada do coro de mármore. Alçados laterais simétricos, divididos em três tramos por pilastras de alvenaria e em dois registos por arquitrave em alvenaria, sendo o tramo central o mais largo, apresentando inferiormente uma capela com seu retábulo, aberta para a nave através de arco de volta-perfeita com moldura em cantaria, e superiormente uma tribuna; em ambos os alçados, no tramo mais próximo do cruzeiro, dois púlpitos em madeira, idênticos e confrontantes. Cruzeiro delimitado por 4 arcos triunfais de volta-perfeita em talha dourada, descrevendo um quadrado, apresentando uma cartela no fecho, sendo ainda encimados por cornija envolvente em alvenaria; as impostas destes arcos são pronunciadas, extendendo-se a todas as paredes do transepto e capela-mor, embora de forma menos saliente. Braços do transepto simétricos, divididos em dois registos por duas cimalhas em talha dourada, sendo a parede fundeira subdividida em 3 tramos através de pilastras de alvenaria, ocupando o tramo central um retábulo em talha dourada; os tramos laterais são ocupados por painéis de azulejos, sendo o tramo lateral esquerdo da parte do Evangelho rasgado por um vão emoldurado que daria acesso ao antigo convento; retábulo colateral em talha dourada; na parede oposta abre-se inferiormente vão emoldurado por painéis de azulejos com acesso às várias dependências e capela lateral, e superiormente rasga-se o vão correspondente à tribuna. Capela-mor com cobertura em abóbada de berço, paredes laterais forradas, cada, com dois painéis de azulejos polícromos figurando cenas da hagiografia do Santo Bispo de Hipona; sobre os painéis janelões com moldura em talha dourada; retábulo-mor de talha dourada, de planta plana com embasamento, dispondo de duas portas nos extremos deste, a do lado do Evangelho de acesso à Sacristia; apresenta banco, sotobanco, corpo único e três tramos definidos por 4 colunas, sendo o central o mais largo apresentando uma tribuna que irrompe pelo entablamento e ático onde se ergue um trono piramidal de degraus que ostenta uma glória encimada por baldaquino. SACRISTIA: a uma cota inferior à da capela-mor, com paredes forradas a painéis de azulejos azuis e brancos, figurando cenas da Paixão de Cristo; pavimento em ladrilho cerâmico, cimalha envolvente em alvenaria e cobertura em abóbada de berço, dispondo de janela e de um lavabo de mármore. DEPENDÊNCIAS: correm paralelamente à nave em dois pisos: o inferior com acesso à capela lateral, aos confessionários e às escadas de acesso ao piso superior, com pavimento em mosaico; o superior correspondente às tribunas, com pavimento cerâmico e coberturas em abóbadas de berço; escada de acesso ao terraço em madeira.

Acessos

Rua do Raimundo

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º1/86, DR, 1.ª série, n.º 2 de 03 de janeiro 1986 / Incluído no Centro Histórico da cidade de Évora (v. PT040705050070)

Enquadramento

Urbano, planície, adossado, em pleno centro histórico; fachada principal aberta para rua empedrada aberta ao trânsito automóvel, ladeada por passeios em calçada portuguesa; a N. adossa-se edifício de dois pisos com fachada alinhada e a S. edifício térreo, antiga oficina automóvel, que confronta com edifícios de dois pisos.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Religiosa: convento masculino

Utilização Actual

Armazenamento e logística: reserva museológica / Política e administrativa: departamento municipal

Propriedade

Pública: estatal / Privada: várias entidades

Afectação

IMC, Dec. Lei nº 97/2007 de 29 de Março 2007

Época Construção

Séc. 17 / 18

Arquitecto / Construtor / Autor

AZULEJARIA: oficina de António de Oliveira Bernardes (1730); Real Fábrica do Rato (1773); ENTALHADOR: Jorge Guerreiro da Costa (1760); Joaquim Monge (1760); ORGANEIRO: Pascoal Caetano Oldovino (1762).

Cronologia

Séc. 13 - a Ordem de Santo Agostinho nasce na Itália a partir da união de várias congregações de eremitas que no século precedente observavam a Regra de Santo Agostinho; 1234 - entrada em Portugal de elementos da Ordem de Santo Agostinho, sendo fundado um convento em Lisboa; este convento fez parte, até 1387, à província de Espanha; Séc. 15 - é fundado, em data incerta, o convento de Évora, destacando-se esta enquanto casa de estudos durante o patronato dos condes de Vimioso; funda-se igualmente o Mosteiro de Santa Mónica de Évora (v. PT040705070092), mosteiro de onde partem as iniciativas para a construção do Mosteiro de Santa Cruz de Vila Viçosa (v. PT040714050015) e o de Santa Mónica de Lisboa (v. PT031106510339); Séc. 16, inícios - construção do Paço dos Senhores da Bobadela; 1569 - 1630 - época áurea da província agostinha portuguesa, contando com o multiplicar de casas e homens, muitos destes ilustres como arcebispos; 1664 - fundação da Congregação dos Descalços portugueses sob a protecção da rainha D. Luísa de Gusmão; esta última, pretendendo retirar-se, fundou um convento de freiras agostinhas em Xabregas, nos arredores de Lisboa, onde acabou por falecer, em 1666; 1669, 18 Dezembro - enquanto não fosse escolhido o melhor local para erguer o convento, as religiosas fixam a sua residência na R. Fria junto ao sítio dos Castelos, habitação concedida pelo Reverendo Bacharel da Sé de Évora, Luís Consorte Correia; a fundação do convento encerra uma história que principia em Madrid com o encontro entre Luís Ribeiro de Barros, descendente da nobre família dos Abelhos, e o religioso Frei José de Santa Teresa, um frade Agostinho que recentemente tinha entrado na Congregação dos Padres Agostinhos Descalços, igualmente conhecidos como frades grilos; o primeiro, sabendo que Évora ainda não dispunha de um Convento dessa Ordem, fez uma doação da sua quinta da Malagueira, situada extra-muros, para que aí fundassem o convento, sob a condição de este ser dedicado a Nossa Senhora das Mercês; Frei José comunica esta ideia ao Vigário Geral da Ordem Frei Manuel da Conceição e, apesar da localização visada para a edificação do convento não ter sido aceite, pela distância relativamente à cidade, o convento acabaria por ser construído; 1670, 16 Julho - por iniciativa da rainha D. Luísa de Gusmão, comprou-se o Palácio quinhentista que pertencera a Luís Freire de Andrade, Senhor da Bobadela, situado na R. do Raimundo, na área do antigo Paço Manuelino, onde acabaria por ser fixado o Convento; subsiste deste palácio uma sala rectangular com abóbada de cruzaria polinervada com fechos decorados com cordas e motivos florais; a rainha oferece uma imagem de roca de Nossa Senhora do Presépio que pertenceria ao seu oratório, mas tarde de invocação a Nossa Senhora das Mercês, entregando esta a frei Manuel da Conceição num acto do qual a rainha se afirma protectora da Ordem; o fundador do convento é Frei Manuel da Conceição, Vigário Geral da Ordem dos Agostinhos Descalços; 1676 - construção de um alpendre em frente à frontaria; 1683 - os Agostinhos Descalços contavam já com 11 conventos e três hospícios, vivendo nesses um total de 152 religiosos; estes religiosos ficariam a ser conhecidos como o nome de "Grilos"; 1690 - conclusão do convento; 1698, 17 Fevereiro - colocada na igreja a imagem de Nossa Senhora e o Santíssimo, acto que inaugura solenamente o culto; Séc. 18 - campanha de remodelação da fachada principal; 1730 - azulejos da sacristia; 1740 - 1759 - D. Miguel de Távora, agostinho, é nomeado arcebispo de Évora; 1758 - a igreja ainda se encontrava inacabada; 1760 - feitura do retábulo-mor e púlpito pelos mestres entalhadores Joaquim Sousa e Jorge Guerreiro; 1762 - feitura do órgão pelas mãos de Pascoal Caetano Oldovino; 1770 - 1773 - azulejos do presbitério e os silhares que revestem o cruzeiro, nave e sub-coro; Séc. 18, finais - ampliação do corpo da igreja e do coro monástico leva à destruição do alpendre seiscentista; Séc. 19, inícios - com as invasões francesas a porta da igreja é arrombada e o interior saqueado; 1820 - 1825 - o cardeal Patrício da Silva, agostinho, toma posse do arcebispado de Évora; 1834, após - venda do imóvel sendo cedido para abrigar um colégio masculino e posteriormente um colégio feminino, função que ainda estaria a ser praticada à data da obra Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal; 1917 - adquirido pelo Museu Regional; Séc. 20 - demolição do claustro; 1956 - obras de adaptação à secção de Artes Decorativas Reliogiosas, núcleo dependente do Museu Regional de Évora; 1992, 01 Junho - afecto ao IPPAR, por DL nº106F/92; 1996 - desafecto ao IPPAR por Despacho conjunto A-131/96-XIII, dos Ministérios das Finanças e da Cultura; 1997, 28 de Junho - afectação ao IPM por DL 161/97; 2013, fevereiro - obras de adaptação a unidade hoteleira da antiga oficina automóvel, adossada à fachada lateral S., provocam o aparecimento de fissuras na estrutura do templo; 2018 - a Proteção Civil alerta para o prisco de decorrada de elementos da fachada principal, urgindo o seu restauro.

Dados Técnicos

Estrutura autónoma.

Materiais

Estrutura de alvenaria e cantaria; coberturas em telhas cerâmicas, pavimentos em mosaico, ladrilho cerâmico, pedra e madeira; azulejos; talha dourada; portas, janelas e caixilhos em madeira.

Bibliografia

COSTA, António Carvalho da, Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal, 2º vol., Lisboa : na Off. de Valentim da Costa Deslandes, 1706-1712; SANTA MARIA, Frei Agostinho de, Santuário Mariano (...), Lisboa, 1718; IANTT, Memórias paroquiais (1758), vol. 14, nº 111a, p. 831 a 832; LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho, Portugal Antigo e Moderno (...), Lisboa, 1874, p. 94; Guia de Portugal, vol. II, Lisboa, 1927 (nova edição de 1991); FRANCO, Pe. António, Évora Ilustrada, Évora, 1945, pp. 363-364; MACEDO, Diogo, A Escultura em Portugal nos Séculos XII a XVII, Lisboa, 1953; SIMÕES, J. M. Santos, Alguns azulejos em Évora, A Cidade de Évora, n.º 5-10, Évora, 1954, pp. 101-102; SMITH, Robert, A Talha em Portugal, Lisboa, 1963; ESPANCA, Túlio, Inventário Artístico de Portugal - Distrito de Évora, Vol. VI, 1966; QUEIMADO, José Manuel, Évora - Suas Ruas e Conventos, Évora, 1975; REIS, Humberto; CHICÓ, Mário Tavares, A Arquitectura Religiosa do Alto Alentejo na Segunda Metade do Século XVI e nos Séculos XVII e XVIII, Lisboa, 1983; ESPANCA, Túlio, Évora - Arte e História, 2ª edição, Évora, 1987, pp. 35-38; IDEM, Évora. Encontro com a Cidade, Évora, 1988; Tesouros Artísticos de Portugal, Lisboa, 1988, p. 253; VALENÇA, Manuel, A Arte Organística em Portugal, Vol. II, Braga, 1990; ESPANCA, Túlio, Évora, Lisboa, 1993; AZEVEDO, José Correia de, Portugal Monumental, vol. 7, Lisboa, 1994; ESPANCA, Túlio, Évora, 2ª edição, Lisboa, 1996; TEIXEIRA, José de Monterroso, "Évora Barroca", in Évora. História e Imaginário, Évora, 1997; Évora, Itinerários Históricos, Évora, 1997; CÂMARA, Maria Alexandra Trindade Gago da, Azulejaria Barroca em Évora - Um Inventário, Évora, 1999; PÉREZ CANO, Arq. Maria Teresa, Os Conventos do Termo de Évora, 2 vols., exemplar policopiado (Tese de doutoramento apresentada à Universidade de Sevilha), Sevilha, 2005.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DREMS

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMS

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DREMS; Museu Regional de Évora *1; ANTT, Ministério das Finanças, Convento de Nossa Senhora das Mercês, n.º148, caixa 2214, 7

Intervenção Realizada

1956 - Restauro geral e recuperação para Museu Regional de Artes Decorativas, secção do Museu Regional de Évora; 1980 / 1981 - sistema automático detecção e alarme de incêndios; 1982 - beneficiação da instalação eléctrica; 1994 - restauro do órgão por António Simões; 1995 - obras de beneficiação*1; 2011 (em curso) - construção de habitação multifamiliar na cerca; 2013 (em curso) - obras de adaptação da antiga oficina automóvel, adossada a S., a unidade hoteleira.

Observações

*1 - a administração do Museu Regional detem o historial informatizado de todas as intervenções realizadas neste espaço desde a data da apropriação da igreja pelo Museu.

Autor e Data

Manuel Branco 1993 / Daniel Giebels 2006

Actualização

 
 
 
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