Edifício da Standard Elétrica / Sede da Orquestra Metropolitana de Lisboa

IPA.00002618
Portugal, Lisboa, Lisboa, Alcântara
 
Arquitectura industrial, modernista. Fábrica de material eléctrico de planta longitudinal composta, de volumetria horizontal e com coberturas em terraço. Cottinelli refere-se ao seu projecto como sendo concebido "à maneira americana": "essencialmente um grande 'hall' - de estrutura constituída por pilares, vigas e lages de betão armado, distribuídos segundo um módulo único" onde ficariam reunidas as oficinas para a montagem de aparelhos eléctricos, os depósitos, os escritórios e os laboratórios. Os espaços amplos, inteiramente livres, seriam subdivididos "por envidraçados amovíveis" ou "apenas umas grades baixas para limitação, mais táctica do que prática, dos diferentes serviços". Esse recurso permitiria "modificar, em qualquer altura, as dimensões das salas destinadas aos diferentes serviços à medida que o progresso da industria [...] o torne necessário" (TELMO, 1945a, 1945b). Desde o projecto inicial previa-se também que o edifício pudesse ser ampliado sem que a sua funcionalidade ou coerência formal fossem afectadas. O edifício foi especialmente encomendado pela Standard Eléctrica, uma grande empresa americana fabricante de aparelhos eléctricos, e destinava-se às instalações da sua delegação em Portugal, reunindo oficinas de produção, depósitos, escritórios e laboratórios. A localização escolhida (Avenida da Índia) correspondia à intenção de criar um edifício representativo, ultrapassando os limites de uma simples instalação industrial e partia das determinações do plano existente para esta zona da cidade. Quando iniciou o projecto da Standard Eléctrica, Cottinelli havia acumulado já alguma experiência na resolução de edifícios destinados à indústria. De facto, o surto desenvolvimentista iniciado na década de 40 dera-lhe já a oportunidade de abordar este tipo de programas com uma atitude funcionalista e pragmática, semelhante àquela que, desde há muito, orientava a sua actividade de arquitecto ferroviário. Para Cottinelli, nestes casos mais do que em quaisquer outros, o espírito do programa devia prevalecer na concepção do projecto, condicionar a composição volumétrica, a distribuição dos espaços, a sua expressão exterior. Este foi o último projecto significativo cuja obra Cottinelli ainda pôde acompanhar integralmente, antes de uma morte prematura e inesperada (Setembro de 1948). Aqui testemunha a sua maturidade em termos de rigor das proporções, de controlo da construção, de exclusão do acessório para alcançar o essencial. Entre os seus últimos trabalhos, este foi também o único edifício realmente construído onde fica explicitado o sentido mais inovador das suas pesquisas e onde se revelam as suas inquietações e os compromissos que se esforçava por estabelecer. Cottinelli explorou aqui as virtualidades da composição assimétrica, articulando volumes puros de modo livre e expressivo, numa recusa das regras clássicas mais óbvias. No entanto, a expressão dos alçados contraria tanto o carácter moderno da composição como a identidade e a autonomia dos diversos volumes. Por um lado, a articulação clássica é inequivocamente retomada na forte ligação ao solo e na acentuação vertical dos ritmos das pilastras. Por outro lado, o desenvolvimento ao longo dos diversos alçados pórtico introduz uma nota de grande ambiguidade na definição dos volumes principais: os pisos inferiores são desenhados em continuidade; o corpo de quatro pisos é quebrado em dois registos sobrepostos. Também os ângulos do volume principal são resolvidos de modo pouco ortodoxo, em resultado do desfasamento existente entre a regra aplicada sobre superfície dos alçados e a base volumétrica e estrutural sobre a qual ela é aplicada. Na retaguarda do edifício é evidente a natureza inconciliável das linguagens em presença: o desenho dos alçados como que fica suspenso num somatório de acontecimentos sobrantes, descontínuos, sem uma articulação evidente. Mas, por um lado, essa fragmentação nunca é plenamente assumida (os distintos vãos organizam-se em grupos que buscam alinhamentos entre si, por exemplo). Por outro lado, o jogo volumétrico total é deliberadamente baralhado em definições ambíguas que recusam o elementarismo moderno ortodoxo (como nas cornijas e frisos que se suspendem sem remate lógico). Por todas as razões, esta pode ser considerada uma das mais interessantes obras da arquitectura portuguesa da década de 1940.
Número IPA Antigo: PT031106020197
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Extração, produção e transformação  Fábrica    

Descrição

Planta longitudinal composta. Massa de predominante horizontal, com volumes articulados e bastante fenestrados. Coberturas em terraço. O edifício é composto por um volume paralelepipédico horizontal alongado com 2 pisos, a O., e outro, sensivelmente cúbico, com 4 pisos, a E.. São ligados por um terceiro volume de planta quadrangular, mais alto que os restantes, como uma torre, onde se localiza a entrada principal original, aberta à Avenida da Índia, ladeada por 2 colunas encimadas por candeeiros ornamentais em ferro. Na retaguarda estes volumes são prolongados sem que existam nítidas soluções de continuidade. O volume de 2 pisos tem, em toda a periferia, vãos rectangulares verticais enquadrados por espessas molduras salientes, como pilastras de secção quadrangular, correspondentes à modulação da estrutura portante em betão armado. O mesmo tipo de vãos existe também sobre os 2 pisos inferiores dos alçados S. e E. do volume com 4 pisos. Em ambos os casos, a sucessão de pilastras é sobrepujada por uma cornija horizontal contínua pontuada por pequenos blocos. Os 2 pisos superiores deste volume têm janelas rectangulares com altura de um único nível. A torre tem vãos verticais com altura de 4 pisos nas suas fachadas livres, tal como sucede na retaguarda, nos paramentos exteriores correspondentes à zona da escada secundária.

Acessos

Avenida da Índia, n.º 64; Praça das Indústrias; Rua de Manuel Maria Viana; Travessa da Galé, n.º 36

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 2/96, DR, 1.ª série-B, n.º 56 de 06 março 1996

Enquadramento

Urbano. Isolado, tendo à sua volta um espaço ajardinado, vedado por um muro. Implantação harmónica.

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Extração, produção e transformação: fábrica

Utilização Actual

Educativa: faculdade / instituto superior

Propriedade

Pública: municipal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 20

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO: José Ângelo Cottinelli Telmo (1897-1948).

Cronologia

1944 - Início do processo de projecto por parte do arquitecto José Ângelo Cottinelli Telmo (1897-1948), de acordo com um "esquema de planta" elaborado pela delegação da Standard Eléctrica em Madrid e destinado à construção de uma instalação industrial na zona ribeirinha ocidental de Lisboa. Semelhante projecto integrava-se nos planos urbanísticos existentes para a zona. Na sequência da realização da "Exposição do Mundo Português" em Belém, a Avenida da Índia era uma das artérias da capital recentemente nobilitadas, integrada no plano para a faixa ribeirinha compreendida entre Alcântara e o porto de pesca de Pedrouços que foi elaborado pela "Comissão Administrativa do Plano de Obras da Praça do Império e Zona Marginal de Belém" dirigida pelo arquitecto Cottinelli Telmo e pelo engenheiro Sá e Melo. Em torno dos monumentos de Belém previa-se a criação de uma zona dedicada ao lazer, ao desporto e à cultura. A actividade portuária, por seu lado, ficava regulada pelo "Plano de Melhoramentos do Porto entre Alcântara e o Terreiro do Paço" (1942), elaborado em simultâneo pelo arquitecto Paulo Cunha (1909- ) na Administração Geral do Porto de Lisboa. Assim a Standard implantava-se na zona de contacto entre os dois planos, junto ao local então apontado para a construção de dois importantes edifícios públicos ? a Emissora Nacional e o Comissariado do Desemprego (onde depois seria instalada a Feira das Indústrias Portuguesas com projecto dos arquitectos Francisco Keil do Amaral e Alberto Cruz; 1953-57). Para a futura fábrica da Standard Eléctrica, Cottinelli elaborou um primeiro esboceto em perspectiva, a que se seguiram vários estudos de plantas e alçados sucessivamente submetidos à apreciação dos representantes da empresa em Nova Iorque, Madrid e Londres. Existia consenso quanto ao princípio de se tratar de uma composição de volumes puros, de arestas rectilíneas e coberturas planas e a assimetria do conjunto era também um dado adquirido: à face do plano marginal da avenida seria construído um corpo, destinado às áreas de escritórios e laboratórios; o bloco fabril seria estabelecido a um dos lados, em plano recuado e com acesso pelo logradouro da retaguarda; os dois volumes seriam articulados por uma grande torre, onde se abria a entrada principal e cuja função era "mais decorativa que utilitária" (TELMO, 1945b). 1945 - O anteprojecto é apresentado à Câmara Municipal de Lisboa no início do ano. Os alçados apresentam uma expressão claramente monumentalizante, bem distintas das fachadas austeras e despojadas, de longos vãos horizontais que o arquitecto propusera nos estudos iniciais. Os dois pisos da zona fabril eram envolvidos por um pórtico com colunas adossadas, suportando um forte entablamento. Em contraste com as superfícies envidraçadas predominantes nesses níveis, os dois pisos superiores do corpo avançado, destinados a escritórios e laboratórios, recebiam alçados com uma superfície mais opaca. A torre, como uma charneira de articulação entre os dois volumes principais, salientava-se superiormente num grande tambor envidraçado, rematado por uma "corôa de letras" com a designação da empresa que, durante a noite, daria lugar a um expressivo efeito de luz. O projecto final, datado de Junho, depurava a imagem classizante do conjunto, conferindo-lhe uma expressão mais sóbria. A presença da estrutura em betão armado, ficava bem evidente no exterior: as anteriores colunas e entablamentos davam lugar a pilastras de secção quadrangular, integradas no plano das fachadas e rematadas por uma simples cornija linear pontuada por pequenos blocos. A torre foi reduzida em altura e passou a constituir um bloco rigidamente definido, encerrado e mais integrado no conjunto. 1948 - Conclusão das obras iniciadas três anos antes. 1960, década de - O arquitecto Francisco Keil do Amaral elaborou um "Estudo de Valorização da Standard Eléctrica" (AMARAL, 1992). 1970, segunda metade da década - desafectado do seu uso inicial e, na sequência do processo de descolonização que se seguiu à revolução de Abril de 1974, o edifício foi utilizado como depósito de mercadorias, provenientes das ex-colónias de Portugal em África. Seguiu-se um período de abandono, de vandalização e progressiva degradação da construção. 1977 - A Câmara Municipal de Lisboa aprova um projecto que prevê a demolição das antigas instalações da Standard Eléctrica e a construção de edifícios em torre no seu lugar. Desencadeou-se então um movimento cívico de sensibilização da opinião pública através dos meios de comunicação social - pioneiro em Portugal - reclamando a sua utilização para sede do ensino artístico, de artes plásticas, teatro e cinema (Cottinelli Telmo. Standard Eléctrica, in AA.VV, Os Anos 40 na Arte Portuguesa, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, vol. I, pp. 136-137). 1981 - A Secretaria de Estado da Cultura classificou o edifício como "imóvel de interesse público". Impedindo o seu desaparecimento, a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu-o, procedendo então à sua reparação e manutenção. 1980, final da década - o edifício acolhe provisoriamente uma extensão da Escola Secundária Rainha D. Amélia (cuja sede ocupa então o palacete Ribeira Grande na R. da Junqueira, v. PT031106020296). Posteriormente, passa a ser utilizado como escola da Orquestra Metropolitana de Lisboa e do Hot Clube de Portugal, tendo sido também pontualmente usado como local de exposições de iniciativa municipal (nomeadamente o Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada). 1991 - No piso térreo instala-se a Escola de Comércio de Lisboa. 2000 - Os arquitectos Gonçalo Byrne, Manuel Mateus e Francisco Mateus projectam um edifício destinado à nova sede da Orquestra Metropolitana de Lisboa (Casa da Música de Lisboa) a ser construído no lote da antiga Standard Eléctrica, no terreno livre existente à retaguarda. O novo edifício - um volume paralelepipédico alongado, unitário e predominantemente opaco, cuja cércea não ultrapassava a da Standard - iria justapor-se ao existente tocando-o apenas pontualmente. A N. alinhar-se-ia pelo plano da Rua de Manuel Maria Viana. Entre os dois edifícios seria criado um espaço exterior público - como um pátio alongado, aberto num dos topos à Praça das Indústrias - através do qual o público poderia aceder a ambos. O novo edifício conteria um auditório (450 espectadores, palco com 330m2 e 12,5m de pé-direito livre, os respectivos espaços de apoio técnico: camarins, régies, etc.), espaços para o público (foyers, bengaleiro, restaurante), para além de serviços de direcção e administração da instituição. Não são conhecidas notícias quanto ao prosseguimento do processo deste projecto ou quanto à sua eventual concretização.

Dados Técnicos

Sistema estrutural - pilares, vigas e lajes em betão armado.

Materiais

Betão armado, alvenaria, ferro e vidro.

Bibliografia

TELMO, Cottinelli, Ante-Projecto das Novas Instalações da Standard Eléctrica. Memória Justificativa e Descritiva, Janeiro 1945, espólio Cottinelli Telmo; TELMO, Cottinelli, Projecto das Novas Instalações da Standard Eléctrica na Avenida da Índia. Memória Justificativa e Descritiva, 07.Jun.1945, espólio Cottinelli Telmo; [TELMO, Cottinelli], Carta a Percival Hart, Administrador Delegado da Standard Eléctrica, 1947, [manusc.], [trunc.], espólio Cottinelli Telmo; Arquitectura e Urbanismo, in AA.VV, Os Anos 40 na Arte Portuguesa, Lisboa, 1982, vol. I, pp. 128-131; Cottinelli Telmo. Standard Eléctrica, in AA.VV, Os Anos 40 na Arte Portuguesa, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, vol. I, pp. 136-137; FRANÇA, José Augusto, A Arte em Portugal no Século XX, 1911 - 1961, Lisboa: Bertrand, 1984 (2ª ed.); ALMEIDA, Pedro Vieira de, FERNANDES, José Manuel, História da Arte em Portugal, Vol. XIV, Lisboa: Alfa, 1986; AMARAL, Francisco Pires Keil (coord.), Keil Amaral Arquitecto (1910-1975), Lisboa, 1992; MARTINS, João Paulo, Cottinelli Telmo. A Obra do Arquitecto (1897-1948). Dissertação de mestrado em História da Arte, Lisboa: FCSH, UNL, 1995. 2 vol. Nova Sede da Orquestra Metropolitana de Lisboa, Lisboa Urbanismo, Ano 3, n.º 10, Março/ Abril 2000, pp. 22-24.TELMO, Cottinelli, Ante-Projecto das Novas Instalações da Standard Eléctrica. Memória Justificativa e Descritiva, Janeiro 1945, espólio Cottinelli Telmo; TELMO, Cottinelli, Projecto das Novas Instalações da Standard Eléctrica na Avenida da Índia. Memória Justificativa e Descritiva, 07.Jun.1945, espólio Cottinelli Telmo; [TELMO, Cottinelli], Carta a Percival Hart, Administrador Delegado da Standard Eléctrica, 1947, [manusc.], [trunc.], espólio Cottinelli Telmo; Arquitectura e Urbanismo, in AA.VV, Os Anos 40 na Arte Portuguesa, Lisboa, 1982, vol. I, pp. 128-131; Cottinelli Telmo. Standard Eléctrica, in AA.VV, Os Anos 40 na Arte Portuguesa, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, vol. I, pp. 136-137; FRANÇA, José Augusto, A Arte em Portugal no Século XX, 1911 - 1961, Lisboa: Bertrand, 1984 (2ª ed.); ALMEIDA, Pedro Vieira de, FERNANDES, José Manuel, História da Arte em Portugal, Vol. XIV, Lisboa: Alfa, 1986; AMARAL, Francisco Pires Keil (coord.), Keil Amaral Arquitecto (1910-1975), Lisboa, 1992; MARTINS, João Paulo, Cottinelli Telmo. A Obra do Arquitecto (1897-1948). Dissertação de mestrado em História da Arte, Lisboa: FCSH, UNL, 1995. 2 vol. Nova Sede da Orquestra Metropolitana de Lisboa, Lisboa Urbanismo, Ano 3, n.º 10, Março/ Abril 2000, pp. 22-24.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/Espólio de Cottinelli Telmo; CML: Arquivo de Obras, Proc. n.º 8337

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/Carta de Risco, DGEMN/Espólio Cottinelli Telmo

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/Espólio Cottinelli Telmo; CML: Arquivo de Obras, Proc. n.º 8337

Intervenção Realizada

Observações

Autor e Data

João Silva 1992 / JPaulo Martins 2002

Actualização

Lobo de Carvalho e Laura Figueirinhas 1998
 
 
 
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