Praça de Aguada / Forte de Aguada

IPA.00024413
Índia, Goa, Goa Norte, Goa Norte
 
Fortaleza marítima construída no início do séc. 17, pelos portugueses, composto por cidadela, edificada no cimo da elevação, e por uma obra exterior, tipo cauda de andorinha, ao longo da encosta rematando ao lume de água por bateria, conforme defendido pela tratadística militar. A construção da Praça da Aguada visava proteger a entrada da barra do Rio Mandovi e o acesso ao porto de Goa, evitando incursões marítimas inimigas ou ações de bloqueio do porto, nomeadamente por navios holandeses, bem como constituir um último reduto face a incursões de forças desembarcadas nas praias de Bardez, ou terrestres, em especial de marattas e bounsulós. A construção teve início, em 1604, pela denominada "couraça", junto à linha de água, inicialmente designada por Forte de Santa Catarina e depois por Fortaleza Real. Compõe-se por uma bateria de traçado poligonal, larga e pouco profunda, tendo a frente marítima com duas tenalhas, desiguais, inicialmente com parapeito de 19 canhoneiras, permitindo efetuar tiro em 6 direções diferentes com alguns cruzamentos, e a frente terrestre retilínea, junto à qual se erguiam, no interior, o antigo palácio do governador, uma capela, quartéis e outros edifícios. Esta obra era rasgada por três portas, a principal a norte, de ligação à cidadela, uma a poente, de serventia às baterias e baluarte do Galvão, e outra a nascente, de serventia ao cais e às restantes obras de fortificação da defesa marítima. A cidadela, destinada a proteger a gola da Fortaleza Real, contra um ataque inimigo de revés, e os ramais até à couraça tiveram início logo em 1605, estando concluídos em 1612. A cidadela possui planta poligonal irregular, de grande modernidade, composta por dois baluartes e dois meios baluartes acasamatados e com um ou dois orelhões curvos, caso do baluarte noroeste e do meio baluarte sudeste, revelando as principais direções de ameaça de perigo, interligados por cortinas retas, com várias inflexões, criando redente a sul. As estruturas têm escarpa em cantaria, com os paramentos terminados em cordão e parapeito liso, sobreposto nos baluartes e meios baluartes por canhoneiras, interiormente circundados por adarves, acedidos por rampas e existindo sob as cortinas nascente, norte e poente casernas, com amplos arcos, atualmente entaipados. A porta magistral, interiormente com transito em L e duas escadas para o terrapleno, rasga-se a sudeste, protegida por obra avançada acasamatada, com duplo orelhão, formando T, tendo inicialmente acesso por ponte de madeira, metade fixa e metade levadiça. No interior conserva ampla cisterna, de três naves, separadas por arcos assentes em possantes pilares, e torre de farol, de planta circular e caráter robusto, que se acendia à noite quando se esperavam as naus do Reino. Na década de 1640, a cidadela foi parcialmente circundada por fosso, de traçado tenalhado e tendo no alto da contra escarpa caminho coberto. Os ramais possuíam na face interna escadas de 100 degraus para vencer o declive, erguendo-se no ângulo norte paiol. A defesa da Fortaleza de Aguada era reforçada por longa linha defensiva, construída na década de 30 e 40 de Seiscentos, na base do morro e da península, interrompendo-se apenas onde o terreno é naturalmente inacessível, sendo uma parte destinada à defesa marítima e outra à defesa terrestre. Tais obras fazem desta fortificação uma das maiores construídas pelos portugueses na Índia. A linha defensiva é composta por cortinas, baterias e baluartes, predominantemente poligonais, com paramentos em talude e a escarpa em cantaria, terminada em cordão e parapeito liso ou, em alguns baluartes, em canhoneiras. Atualmente, já não existe na frente norte, apesar de subsistirem evidências do fosso contíguo em quase toda a extensão do istmo, e, a nascente e a sudeste, conservam-se apenas alguns vestígios. Das suas estruturas destaca-se o baluarte de D. Maria, numa pequena baía a sul da praia de Sinquerim, a poente do morro, que fazia a ligação entre as obras de defesa marítima, com as quais podia cruzar fogos, a sudoeste e sul, e as de defesa terrestre, para nascente. Construído em 1643, o baluarte de D. Maria tem planta circular e implanta-se em posição avançada no mar, ligando-se a terra por caminho em aterro, tendo ambas as estruturas terminadas em cordão e parapeito liso, o baluarte com duas canhoneiras e o caminho de aterro com frestas de tiro. Ao que parece, o baluarte da Cava, que se erguia na frente norte, era o único que composto por dois recintos, o inferior integrando uma das entradas na praça. A Mãe d'Água ou a Fonte da Aguada, onde se abasteciam as naus e que acabou por dar nome à fortaleza, foi construída em 1624, na frente sul, nas imediações da Fortaleza Real e junto ao cais e à Porta do Mar.
Número IPA Antigo: IN931101000017
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Militar  Fortaleza    

Descrição

Fortificação composta por cidadela, no cimo do Morro da Aguada, uma obra exterior, tipo cauda de andorinha, ao longo da encosta, interligando a cidadela à denominada couraça ou Fortaleza Real, e por uma linha de defesa circundando quase todo o perímetro da península. A CIDADELA tem planta poligonal irregular, composta por dois baluartes desiguais, um a nordeste, com orelhão curvo e flanco retirado a poente e um a noroeste, com orelhões curvos e flancos retirados de ambos os lados, dois meios baluartes, um a sudoeste, com orelhão curvo e flanco retirado a norte, e um a sudeste, bastante irregular e com duplo orelhão curvo, associada à defesa da entrada, interligados por cortinas retas que, entre as estruturas meridionais com várias inflexões, cria redente. As estruturas apresentam paramentos em talude, com escarpa em cantaria, terminados em cordão e parapeito liso, sobreposto nos baluartes e meios baluartes por canhoneiras, interiormente circundados por adarves, pavimentados a cantaria. No ângulo sudeste rasga-se a porta magistral, protegida por obra avançada acasamatada, rematada em duplo orelhão, formando T, atualmente acedida por ponte de cantaria, com guarda metálica. Na cortina nascente rasga-se alto arco, de volta perfeita, formando transito com cobertura em abóbada de berço, seccionado por vão em arco, fechado por porta gradeada de acesso à cidadela. Lateralmente, tem portas de verga reta, a da esquerda com escadas até à bateria superior e a da direita de acesso à segunda seção do transito, com canhoneiras laterais, e ao adarve nascente; frontalmente tem escadas de acesso ao terrapleno superior, as quais são cobertas no topo por alpendre. À direita, na obra intermédia de defesa da porta, abre-se porta, de verga reta, possuindo a norte paramento com canhoneiras alteadas a defender o fosso. INTERIOR parcialmente pavimentado a cantaria. O comandamento da crista interior do parapeito é de cerca de 7,5 m. Os baluartes e meios baluartes, que podiam ser guarnecidos com 33 peças, são acedidos por longas e largas rampas a partir do terrapleno interior e têm as baterias lajeadas, existindo sob os mesmos casamatas de flanqueamento do fosso, com acesso por arco de volta perfeita. Ao longo das cortinas nascente, norte e poente desenvolviam-se casernas para alojamento da guarnição, acedidos por amplos arcos de volta perfeita, sobre pilares, atualmente entaipadas. Sensivelmente a meio do recinto, existe CISTERNA, com capacidade para cerca de 9.000 m3 de água, com corpo ligeiramente alteado do pavimento, pintado de rosa, e com 15 bocais quadrangulares de receção de água. Tem planta quadrada, com cerca de 35 m de lado, e três naves, separadas por arcos sobre 16 pilares possantes, que suportam a cobertura, em abóbada de aresta. É acedida por corpo rampeado, com porta de verga reta. Junto ao baluarte sudeste, eleva-se o antigo FAROL, com torre tronco-cónica, com cerca de 12 m de altura e 10 m de diâmetro na base, rebocada e pintada de branco , com três registos, separados por cornija boleada, e remate em cornija de igual modinatura e platibanda vazada, intercalada por acrotérios, coroados por pináculos piramidais. Sobre a torre, dispõe-se alto soco, também circular e rematado em cornija boleada e guarda em ferro vazada, formando terraço, acedido por escadas de perfil curvo e guarda com remate igual ao da torre, sobre a qual se dispõe a cúpula envidraçada; ao soco, adossa-se corpo irregular, facetado, protegendo o acesso ao terraço da torre. Esta tem acesso a sul, por porta de verga reta, rasgada ao nível do segundo registo, tendo ainda, a nascente vão quadrangular. A cidadela é parcialmente circundada por FOSSO, disposto na frente nascente, norte e poente, com 4,5 m de profundidade e 12 m de largura, percorrido no perímetro exterior e no alto da contra escarpa por caminho coberto, de traçado tenalhado, com pequenas praças de armas e banqueta, para a infantaria bater a esplanada, na frente nascente atualmente com guarda metálica. A comunicação com o fosso fazia-se pela poterna contígua à casamata inferior do baluarte de entrada. A partir dos ângulos sul da cidadela desenvolvem-se, ao longo da encosta, duas CORTINAS que se interligam à Fortaleza Real, destinadas a cobrir a comunicação entre as duas obras. Têm paramentos em talude, com escarpa em cantaria, terminados em cordão e parapeito liso, interiormente percorridas por adarve ou integrando escadaria, e possuindo nas zonas de inflexão baluartes destinados ao flanqueamento mútuo e a efetuarem tiro curvo sobre a barra. No ângulo norte destas cortinas e adossado e comunicando com a cidadela, ergue-se PAIOL. Tem planta retangular e cobertura em telhados de duas águas, rematados em aba corrida, de madeira, envolvido por muro corta-fogo. Apresenta fachadas rebocadas e caiadas. O muro corta-fogo possui soco em cantaria aparente, sobre o qual se dispõem regularmente várias gárgulas, e remata em cornija e moldura em garganta reversa. O armazém tem a fachada principal virada a sul, terminada em empena, inferiormente com cornija em arco alteado e cunhais horizontalizados; é rasgada por portal de verga reta, com moldura de alvenaria, e janela retilínea, de moldura igual, mas côncava. As fachadas laterais são percorridas superiormente por cornija, ao nível da horizontal da frontaria, encimadas por frestas, de forte capialço, protegidas pelas abas corridas do telhado. A fachada posterior termina em empena curva, de cunhais horizontais. A denominada COURAÇA ou FORTALEZA REAL é composta por uma bateria, de traçado poligonal largo e pouco profundo, tendo na frente marítima duas tenalhas, com parapeito de canhoneiras entaipadas, sobreposto por muro de betão, e, a frente terrestre, retilínea. No interior, encostados ao muro retilíneo, localizavam-se vários edifícios, correspondendo ao antigo palácio do governador da fortaleza, a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, quartéis, cozinhas, prisão e paiol. OBRAS DE FORTIFICAÇÃO DA PENÍNSULA: o recinto exterior do morro era circundado, em quase todo o seu perímetro, por uma linha de defesa, atualmente inexistente na frente norte e apenas com alguns vestígios a nascente e sudeste, composta por cortinas, baterias, baluartes, predominantemente de planta poligonal, e bastiões, em alguns setores circundados por fosso, de que subsistem vestígios em praticamente toda a extensão do istmo, linha que se interrompe apenas onde o terreno é naturalmente inacessível. As estruturas existentes apresentam paramentos em talude, com escarpa em cantaria, terminados em cordão e parapeito liso ou, em alguns baluartes, com canhoneiras. Na frente sul, a barra do Rio Mandovi é protegida por linha fortificada desenvolvida junto à linha de água. Para nascente da Fortaleza Real é composta por uma bateria, que podia comportar 22 peças de artilharia, no extremo da qual se localiza o cais que constituía a entrada na praça pelo lado do mar, denominada PORTA DO MAR, defendido pelo BALUARTE DA PORTA DO MAR, com planta aproximadamente retangular. Este podia ser guarnecido com 10 peças e era servido por várias construções de quartéis e armazéns. Junto destas, implanta-se a fonte Mãe d'Água, ou Fonte da Aguada e um poço com nora. A partir do Baluarte da Porta do Mar, corria para nascente cortina até ao BALUARTE DE SÃO LOURENÇO, o último da linha fortificada de defesa marítima, a cerca de 600 m da Fortaleza Real. O Baluarte de São Lourenço, que podia ser guarnecido com 10 peças, tem traçado poligonal e no seu interior existiam edifícios de quartel e armazéns. Para nascente deste baluarte e até ao limite leste da linha de defesa terrestre, o terreno é muito escarpado, constituindo um obstáculo natural ao desembarque e progressão de forças. Para poente da Fortaleza Real desenvolve-se cortina, integrando algumas baterias, com traçados diversos, a maior das quais podia albergar 8 peças de artilharia, para efetuar fogo rasante ao lume de água. No seu término, a cerca de 700 da Fortaleza Real, integra o BALUARTE DO GALVÃO, com planta sensivelmente trapezoidal e paramentos terminados em cordão e parapeito de 7 canhoneiras, com bateria defendida dos tiros de escarpa do lado poente por uma muralha que subia parte da encosta e onde se abria uma porta para o exterior. No baluarte existia um ou mais edifícios de aquartelamento, entretanto desaparecidos. A poente do morro e da península, implanta-se isoladamente o BALUARTE DE OESTE, obra destacada, de planta pentagonal e com a escarpa em cantaria, terminada em cordão e parapeito com cinco canhoneiras, o qual cruzava fogos, a sul e sudoeste, com o Baluarte do Galvão, a cerca de 650 m para sudeste, e a noroeste, com um baluarte sem nome conhecido. A cerca de 120 m para norte, implanta-se BALUARTE SEM DESIGNAÇÃO CONHECIDA, de planta aproximadamente retangular, mas com uma face semicircular voltada a noroeste, sobre o mar, com parapeito de oito canhoneiras, o qual cruzava fogos com o Baluarte de Oeste e com o Baluarte de D. Maria. A partir deste baluarte, desenvolvia-se cortina, com paramento terminado em parapeito liso, acompanhando o recorte da costa e protegendo caminho. A noroeste, a cerca de 150 m do baluarte anterior, em pequena baía a sul da praia de Sinquerim, implanta-se o BALUARTE DE D. MARIA, em posição avançada no mar. Apresenta planta circular, com paramentos terminados em cordão e parapeito liso, ligando-se a terra por caminho em aterro, igualmente protegido por parapeito liso mas rasgado por frestas de tiro, sendo percorrido na face interna por banquetas. Dispunha de dois recintos ligados entre si por rampa, atualmente por escadas, o superior ao longo do caminho de aterro e ao nível da terra firme, e o inferior no baluarte, dividido em duas partes, a de nascente constituindo pequena casamata para peça destinada ao enfiamento do fosso, onde se rasga canhoneira, e a de poente paiol. Para nascente, integrado na cortina, existe um outro BALUARTE SEM DESIGNAÇÃO, que apoiava a defesa da praia. A linha de defesa terrestre, de que existem menos vestígios, tem início na base do esporão que a nascente da península da Aguada penetra no Rio Mandovi, onde se localizava o BALUARTE MAMAM, que permitia bater com fogos toda a baía formada frente à foz do Rio Nerul, ou Rio Sinquerim, até à base da Fortaleza dos Reis Magos. Para sudoeste deste baluarte desenvolvia-se cortina até à zona onde a encosta se torna inacessível. Para noroeste do Baluarte Mamam e ao longo da margem dos rios Mandovi e Nerul, existia uma cortina, integrando diferentes obras, com canhoneiras e frestas de tiro, cujo primeiro lanço se prolongava até ao Baluarte do Emygdio, interrompendo-se na PORTA DE SINQUERIM, junto à foz do Rio Nerul, que era a entrada na praça por nascente e onde uma barca estabelecia a ligação fluvial com a margem esquerda daquele rio. Perto desta porta localizava-se o aquartelamento da guarnição. O BALUARTE DO EMYGDIO, de que se desconhece a estrutura, localizava-se frente ao local onde o Rio Nerul inflete para sudeste e dele era possível bater a várzea em ambas as margens, enfiar o rio para norte ou sudeste, e flanquear a cortina e o fosso para oeste até à praia de Sinquerim e ao baluarte de D. Maria, fechando o recinto exterior e a linha de defesa terrestre. A partir deste baluarte desenvolvia-se para poente cortina e fosso, interrompida por três baluartes desiguais. O primeiro, era o BALAUARTE DA CAVA, implantado a cerca de 750 m a poente do Baluarte do Emygdio e 550 m a nascente do Baluarte de D. Maria, essencialmente para proteger a PORTA DA CAVA que integrava inferiormente e a ponte de acesso, em alvenaria, sobre o fosso, a qual permitia ligar a praça ao exterior norte. O baluarte da Cava compunha-se de dois recintos, o inferior com duas canhoneiras abertas no pano à esquerda da porta da praça, e o superior, com seis canhoneiras, permitindo bater a várzea a norte e enfiar o fosso para oeste e a rampa de ligação dos dois terraplenos, dele se podendo ainda fazer fogo de infantaria sobre o recinto inferior caso este caísse em poder do inimigo. Para poente, existiam DOIS OUTROS BALUARTES SEM DESEIGNAÇÃO conhecida, um maior, a cerca de 250 m para oeste, que podia ser guarnecido com 8 peças, e um pequeno baluarte, a cerca de 100 m do Baluarte de D. Maria, com o qual cruzava fogos sobre a praia.

Acessos

Goa Norte, Fort Aguada Road, Aguada Fort Area, Candolim, Goa 403515. WGS84 (graus decimais) lat.: 15,492506, long.: +73,773487

Protecção

Monumento de Importância Nacional *1

Enquadramento

Rural, fluvial e marítimo, destacado, desenvolvendo-se, através de diferentes obras de fortificação, no perímetro e no interior do denominado Morro da Aguada *2, que forma uma península entre o Oceano Índico (Mar Arábico) a poente, o Rio Mandovi a sul e nascente, e o Rio Nerul, também referido como Rio Sinquerim, a nordeste. A nordeste da península, em plataforma sobranceira ao Baluarte de D. Maria, implanta-se o Aguada Beach Resort. No mesmo morro, protegido pela linha fortificada, a cerca de 850 m para nascente, da cidadela, localiza-se a Igreja de São Lourenço, de Linhares edificada em 1630, por ordem do Vice-Rei, Conde de Linhares. Na mesma margem direita do Rio Mandovi, a cerca de 4 km para nascente-nordeste, localiza-se a Fortaleza dos Reis Magos (v. IPA.00024414) e a Igreja dos Reis Magos (v. IPA.00024889). A cerca de 3.300 m para sul-sudeste na margem esquerda do Rio Mandovi, localiza-se o Forte ou Couraça de Nossa Senhora do Cabo, que fechava, por sul, a barra do rio.

Descrição Complementar

Na porta da Fortaleza Real, sob as armas reais, ladeadas da Roda de Santa Catarina podia ler-se: "REINANDO O MVI CATOLICO REI DOM / FELIPE SEGVUNDO DE PORTUGAL MAN / DOV A CIDADE FAZER ESTA FORTALE / ZA DO DRº DO HVM POR CENTO PERA GVAR / DA E DEFENSAO DAS NAOS QUE A ESTE / PORTO VEM A QVAL FOI ACABADA PELOS / VEREADORES DO ANNO D 1612. SENDO VI / ZO REI DESTE ESTADO RVI L.ÇO D TAVORA". A nascente da Fortaleza Real, por cima da fonte a que dão o nome de Mãe d'Água, existente junto da bateria da Porta do Mar lê-se: "REINANDO O MVI CATOLICO REI DOM / FILIPPE III DE PORTVGAL E SENDO SEGVUNDA / VES VIZO REI DESTE ESTADO O CONDE ALMIRÃ / TE DÕ FR.CO DA GAMMA MANDOV A CIDADE / FAZER ESTA FONTE DO DR.O DE HVM POR 100 / PERA NELA FAZER AVGOADA AS NAOS / DESTE PORTO A QVAL MANDARÃO FAZER OS / VEREADORES DO ANNO 1624". TELLES (1938) cita Teixeira de Aragão, referindo que na porta da cidadela, à esquerda de quem entra, junto das armas dos Gamas, lia-se: "ESTE FORTE SE ACABOV EM TEMPO DE D. FRANCISCO DA GAMA CONDE / ALMIRANTE SENDO A SEGVNDA VEZ VISO REI DA INDIA NO ANNO DE / 1627 E OS ADMINISTRADORES DA FORTIFICAÇÃO EM RECONHECIMENTO / AO DITO VISO REI E CVIO VISO REINADO SE FEZ A MOR PARTE DESTE / FORTE PERA DEFENSÃO DO QVAL MANDOV DE GOA 4 PESAS GRANDES / DE ARTILHARIA ORDENARÃO QVE NESTA FRONTARIA SE ENTALHASSEM / AS SVAS ARMAS PERA ETERNA MEMORIA". Também, segundo TELLES (1938), a Porta de Sinquerim era encimada pelas armas reais e uma lápide onde se lia: "REINANDO A CATHOLICA E REAL MAGESTADE DEL REI NOSSO SENHOR / D. JOÃO 4º QUE DEVS GOARDE E GOVERNANDO ES / TE ESTADO O CONDE DE AVEIRAS JOÃO DA SILVA TELO DE MENEZES / V. R. DA INDIA E DO CONSELHO DESTADO DE SVA MAGESTADE MANDOV / ESTA NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE DE GOA DE ANO / DE 1642 PÔR AQVI ESTE LETREIRO EM MEMORIA DA DITA OBRA / TÃO IMPORTANTE E NECESSARIA A FORTIFICAÇÃO DA / ILHA DE GOA QVE COM PARECER E ASSISTENCIA DO DITO CONSELHO / MANDOV A NOBRE CIDADE DE GOA FAZER NESTE SITIO DAGOADA".

Utilização Inicial

Militar: forte

Utilização Actual

Cultural e recreativa: marco histórico-cultural

Propriedade

Pública: Estado Indiano

Afectação

Época Construção

Séc. 17

Arquitecto / Construtor / Autor

ENGENHEIROS: Júlio Simão (atr. - 1604).

Cronologia

1604, 26 setembro - sete navios holandeses lançam ferro no surgidouro a sul do Morro da Aguada impedindo o movimento de navios na barra do Rio Mandovi e não sofrendo qualquer dano face aos fogos da artilharia executados pelos fortes de Reis Magos (v. IPA.00024414) e Gaspar Dias *3; outubro - os navios holandeses levantam ferro e deslocam-se para sul; por ordem do vice-rei Ayres de Saldanha, é iniciada a construção de uma couraça ao lume de água que viria a receber as designações de Fortaleza de Santa Catarina e Fortaleza Real; a obra é da atribuída ao engenheiro Júlio Simão; 1605 - iniciam-se as construções da cidadela, no cimo do Morro da Aguada, e das restantes obras de ligação entre os dois níveis de fortificações; 1606 - uma outra esquadra holandesa aproxima-se da barra do Rio Mandovi mas, à vista da couraça então já artilhada e convenientemente guarnecida, apesar de inacabada, afasta-se; André Furtado de Mendonça, às ordens do qual estava a guarnição, foi o primeiro capitão da nova fortaleza; 1612 - sendo vice-rei Ruy Lourenço de Távora, é concluída a Fortaleza Real; 1615, cerca - data de um mapa onde já figura o Farol da Aguada; 1624 - sendo vice-rei D. Francisco da Gama, os vereadores mandam construir a Mãe d'Água, também designada por Fonte da Aguada, a cerca de 200 metros a nordeste da Fortaleza Real, junto ao cais e Porta do Mar *4; 1627 - encontram-se concluídas as obras no interior do recinto da cidadela; 1630, década - encontram-se concluídos os baluartes e cortinas próximas, a poente e nascente da Fortaleza Real, estando em fase de conclusão as obras do cais, a nascente da mesma fortaleza, e tendo-se iniciado as obras de fortificação a norte do Morro da Aguada, por terra, entre a praia de Sinquerim e a foz do Rio Nerul ou Rio Sinquerim, e entre essa foz e a Porta do Mar; 1632 - o rei D. Filipe II de Portugal ordena ao vice-rei da Índia, D. Miguel de Noronha, conde de Linhares, que lhe enviasse "as descripções de todas as costas, portos, abras e surgidouros desse Estado, cada governo ou capitania de per si, com as mais declarações que na mesma carta se relatam" (BOCARRO: vol. 2, p. 13); 1633, 02 janeiro - o vice-rei reponde ter encarregado de tal trabalho António Bocarro, cronista do Estado da Índia; 1635, 17 fevereiro - data no manuscrito de Bocarro com dedicatório ao rei *5; 1640, década - são executados os fossos em torno da cidadela; 1642 - segundo Ricardo Michael Telles (1938), sendo vice-rei da Índia o conde de Aveiras, João da Silva Teles de Meneses, o rei D. João IV manda colocar inscrição sobre a Porta de Sinquerim, em memória dessa obra; 1643 - construção, por ordem do Conde de Aveiras, do Baluarte de D. Maria, a sul da praia de Sinquerim; 1713 - existe notícia de que na cidadela da Praça da Aguada "está uma torre de altura de seis braças e no alto d'ella o pharol, que se accende na moção do Reyno"; 1739 - uma incursão maratta na província de Salcete, aproveitada pelos bounsulós para também atacarem na província de Bardez leva a que a Praça da Aguada e a Fortaleza dos Reis Magos sejam sitiadas durante meses sem, contudo, serem tomadas; 1770, década - o farol existente na torre da cidadela, destinado a guiar as naus do reino e até aí alimentado por fachos ensopados em azeite, cujo custeio era garantido pelas câmaras agrárias de Bardez, deixa de ser utilizado; 1774, 10 fevereiro - no art.º 25º, Capítulo II, referente à "Reparação e segurança do Porto da mesma Cidade de Goa, e suas Fortalezas", da Instrução Primeira dada ao Estado da Índia, o Marquês de Pombal, em nome de El-Rei D. José I, após analisar a situação da Praça da Aguada, nomeadamente no que concerne ao pessoal que a guarnece, e concluir que a importância da fortaleza torna necessário dar-lhe um outro governador e uma outra guarnição militar que seja competente, determina que se estabeleça na fortaleza o Quartel do Regimento de que é Coronel Ignacio de Sousa e Brito, determinando ainda possíveis missões futuras entre as quais nas províncias de Bardez e Pernem, e de socorro às praças de Chaporá e Tiracol; 1799 - a pretexto da ameaça dos franceses tomarem Goa, e até ser declarada a Paz de Amiens, em março de 1802, forças militares inglesas tomam posição em pontos estratégicos do território; séc. 19, primeira década - com o mesmo pretexto, e na sequência das invasões francesas sobre Portugal, forças inglesas voltam a ocupar pontos estratégicos em Goa, Damão e Diu; 1808 - as forças inglesas instalam-se na Praça da Aguada; 1832 - a praça, com baterias que poderiam comportar até 200 bocas-de-fogo, dispõe de 11 peças de bronze (4 de calibre 16, 5 de calibre 18 e 2 de calibre 24) e 79 de ferro (1 de calibre 3, 29 de calibre 9, 33 de calibre 12, 4 de calibre 16 e 12 de calibre 18); grande parte do perímetro fortificado encontra-se desguarnecido; 1840, cerca - as obras de fortificação da praça encontram-se, de uma forma geral, em bom estado, exceto as muralhas do recinto na base do Morro da Aguada, na margem do Rio Nerul, que estão derrocadas em muitos pontos e o fosso, a norte que está entulhado; na chamada Fortaleza Real junto ao Rio Mandovi existe o edifício da antiga habitação do Governador, ou Palácio, a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, diferentes casas para prisões *6, armazém de pólvora e de munições e os quartéis para artilharia; para nascente da Fortaleza Real, protegidas pela cortina, existem algumas casas de empregados, a casa do comandante da fortaleza junto de pequeno torreão, uma fonte e um poço frente ao cais que avança rio dentro, um armazém de efeitos e sobressalentes dos navios, um alojamento denominado Quartel de Granadeiros e um edifício de alojamento de oficiais da praça; na cidadela existe um alojamento da Guarda, um armazém abobadado para depósito de pólvora, a torre tronco-cónica do farol, o alojamento da guarda do telégrafo e uma cisterna; guarnecem a praça 64 peças de ferro de calibres 9, 12, 16 e 18, e muito poucas de bronze por terem sido vendidas; o comandante da praça é o Comandante do Regimento de Artilharia ali aquartelado; 1841, janeiro - sendo governador interino da Índia Portuguesa José Joaquim Lopes de Lima, determina-se a reforma e colocação em funcionamento do farol na Praça da Aguada; é regulamentada a cobrança, aos navios entrados no porto, dos impostos de farol e de aguada, este último, até então, cobrado a título particular, sem controlo, pelos governadores da praça, constituindo sua receita particular; a partir de então o imposto de farol reverte para o governo da praça a fim de custear as despesas associadas ao funcionamento e manutenção do equipamento e, do imposto de aguada, 10% revertia para o governo da praça, 5% para o escrivão e o restante para a tesouraria pública; 21 outubro - restabelecimento do serviço de farol após, com instalação de uma lanterna, com eclipses regulados pela máquina de um grande relógio que batia as horas num sino retirado da torre do extinto Convento dos Agostinhos (v. IPA.00030658); 1843 - o imposto de aguada passa a ser, na totalidade, receita da tesouraria pública; 1844, junho - o imposto de farol passa a ser, na totalidade, receita da tesouraria pública; 1850 - a Praça da Aguada continua a ser quartel do Regimento de Artilharia e da Companhia de Veteranos do Norte, sendo o Governador da Praça e comandante do Regimento um major; 1853 - o governador Visconde de Vila Nova de Ourém manda reconstruir o baluarte de D. Maria, o que não se chega a realizar; 1864, 14 outubro - sendo governador da Índia Portuguesa o Conde de Torres Novas, após reforma do Farol da Aguada, entra em funcionamento um novo aparelho de iluminação Argand, da classe catóptrica, de rotação contínua, ativo apenas nas noites de verão uma vez que durante o inverno não havia navegação; 1866, 11 junho - portaria do governo geral ordena que o farol passa a funcionar todas as noites do ano; 1876 - a Praça da Aguada funciona apenas como prisão militar, sendo guarnecida por um pequeno destacamento e governada por um oficial qualquer, por vezes mesmo um reformado (CHAGAS: 1876, 1 vol., p. 236); 1880, 21 outubro - decreto extingue os impostos de aguada e de farol, devido à entrada em vigor do imposto de tonelagem cobrado sobre a navegação nacional e estrangeira, geral para todas as províncias ultramarinas portuguesas; séc. 20 - a Praça da Aguada mantem a função de prisão, incluindo de presos políticos, em especial durante a vigência do regime do Estado Novo; 1961, 18 dezembro - forças militares da União Indiana desencadeiam a Operação Vijay e invadem o território do então designado Estado Português da Índia, tomando posse dos territórios que vinham reivindicando desde a sua independência face ao Reino Unido em 1947; incidente no Forte da Aguada *7; 19 dezembro - na sequência da ação militar indiana, a pequena guarnição militar portuguesa *8, apesar de alguma resistência, rende-se e é feita prisioneira, recolhendo a diversos campos, um dos quais estabelecido no Forte da Aguada *9; 1976 - o farol, no interior da cidadela, deixa de funcionar, sendo substituído por outra estrutura localizada cerca de 200 m a poente; 2016, 22 julho - ordem de transferência da Prisão do Forte da Aguada para o Goa Tourism Development Corporation, no sentido de desenvolver o forte como destino turístico de património, no âmbito de um plano integrado do Governo Indiano, o Swadesh Darshan Scheme *10.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Fortificação e edifícios: alvenarias em laterite, argamassas à base de cal e areia, cal; edifícios: telhados com estruturas de madeira e telha cerâmica, madeira e ferro.

Bibliografia

BARBUDA, Claudio Lagrange Monteiro de - Instrucções com que D. José I mandou passar ao Estado da Índia, O Governador, e Capitão General, e o Arcebispo Primaz do Oriente, no anno de 1774. Pangim: Typographia Nacional, 1841, p. 5 da Instrução Primeira e nota 6ª, pp. 33-37, das Notas do Editor; BOCARRO, António - O Livro das Plantas de todas as Fortalezas, cidades e povoações do Estado da India Oriental. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1992; CASTRO, Neves e - A Praça da Aguada, Oriente Português. Nova Goa: Imprensa Nacional, vol. I, n.º 12, Dezembro 1904, pp. 630-635 e vol II, n.º 1 e 2, Fevereiro 1905, pp. 59-80; CHAGAS, Manuel Pinheiro - Diccionário Popular. 1º vol. Lisboa: Lallement Fréres, Typ. 1876, p. 236; CID, Isabel - O livro das plantas de todas as fortalezas, cidades e povoações do estado da Índia oriental de António Bocarro. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1992; DIAS, Pedro - História da Arte Portuguesa no Mundo. O Espaço do Índico. Lisboa: Círculo de Leitores, 1998; FONSECA, José Nicolau da - An Historical and Archaeological Sketch of the City of Goa. Bombaim: Thacker & C.o, Limited, 1878, pp. 40-42; GALOPE, Francisco - Invasão pela madrugada. Visão História, n.º 14, dezembro de 2011, pp. 20-31; GARCIA, José Manuel - Breve roteiro das fortificações portuguesas no Estado da Índia. In Oceanos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1996, nº 28; MARTINS, José Marcelino - «A queda da Índia» (https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2011/12/guine-6374-p9219-efemerides-61-invasao.html), [consultado em 14 julho 2018]; MATTOSO, José (dir.) - Ásia, Oceania, Património de origem portuguesa no mundo, arquitectura e urbanismo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, pp. 212-213; MENDES, A. Lopes - A Índia Portugueza. Breve descripção das possessões portuguezas na Ásia. Sociedade de Geographia de Lisboa. Lisboa: Imprensa Nacional, 1886; MENDIRATTA, Sidh Losa, e RODRIGUES, Vítor Luís Gaspar - «Fortificação da Aguada» (http://www.hpip.org/def/pt/Homepage/Obra?a=1396), [consultado em 10 julho 2018]; MOREIRA, Rafael - Os grandes sistemas fortificados. A Arquitectura Militar na Expansão Portuguesa. Porto: 1994; NAZARETH, J. M. do Carmo - Praça de Aguada e seu Pharol, Oriente Português. Nova Goa: Imprensa Nacional, vol. 1, n.º 6, Junho 1904, pp 287-292; SALDANHA, Pe. Manuel J. Gabriel de - História de Goa (Política e arqueológica). História Arqueológica. 2.ª edição. Nova Goa: Casa Editora Livraria Coelho, 1926, vol. 2, pp. 262-267; SILVA, Botelho da - "Dossier" Goa, Vassalo e Silva, a recusa do sacrifício inútil. Lisboa: Liber, março 1975; SOARES, Joaquim Pedro Celestino - Bosquejo das possessões portuguezas no Oriente ou resumo de algumas derrotas da Índia e da China. Lisboa: Imprensa Nacional, 1851; TELLES, Ricardo Michael - «Fortalezas de Goa e suas legendas». In O Oriente Português. Bastorá: Tip. Rangel, n.º 19, 20 e 21, 1938; (http://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.com/2014/08/batalhas-e-combates-1740.html), [consultado em 15 julho 2108]; (http://asi.nic.in/alphabetical-list-of-monuments-goa/ e http://asi.nic.in/protected-monuments-in-goa/), [consultados em 12 julho 18]; 8http://swadeshdarshan.gov.in/index.php?Theme), [consultado em 14 julho 2018]; (https://worldphototravel.blogspot.com/search/label/Aguada?view=sidebar#!/2017/01/india-3-dez-2016-fortes-de-goa.html), [consultado em 15 julho 2018].

Documentação Gráfica

Documentação Fotográfica

DGPC: SIPA

Documentação Administrativa

Intervenção Realizada

1650, década - reparação e beneficiação das obras de fortificação a sul da praia de Sinquerim, durante o governo do Visconde de Vila Nova de Ourém; 1841 - obras e modificação do sistema de iluminação do farol; 1864 - reforma do farol; 1906 - reforma do farol, recebendo novo aparelho de iluminação; 2016 - obras na cidadela para abertura da mesma ao público.

Observações

*1 - O Forte da Aguada faz parte da Lista de Monuments of National Importance, do Archaeological Survey of India, referente ao Estado de Goa com os identificadores N-GA-11 relativo ao "Aguada Fort (Upper)", referente à Cidadela, Fortaleza Real e obras associadas a esta, e e N-GA-17, relativo ao "Fortification Wall of Aguada Fort (Lower)", referente ao Baluarte de D. Maria, cortinas e obras vizinhas. *2 - O Morro da Aguada, península e elevação alongada entre a foz do Rio Nerul (também referido como Rio Sinquerim) e o Rio Mandovi a nascente, e o Oceano Índico a poente, cuja altitude máxima ronda os 70 m, deve o seu nome ao facto das naus fazerem "aguada", isto é, abastecerem-se de água potável para as viagens, em nascentes, poços e fontes existentes na base da encosta sul do morro, no local onde foi construído um embarcadouro e junto da chamada Fortaleza Real. *3 - O Forte Gaspar Dias, foi construído em 1598 por ordem do vice-rei D. Francisco da Gama, em praia da margem esquerda do Rio Mandovi, no local hoje designado por Miramar, com o objetivo de defender a barra do rio, cruzando fogos com a Fortaleza dos Reis Magos, na margem direita. *4 - Para além da fonte, existia um poço, com nora, e um sistema de calhas de madeira que conduziam a água diretamente ao cais. *5 - António Bocarro, por volta de 1635, faz a seguinte descrição da Fortaleza de Aguada: "A fortaleza da Aguada, que esta da outra banda de Nossa Senhora do Cabo, ao entrar da barra de Goa, em terra de Bardes, está principiada lá em sima do monte, com hua serca de muro de 15 pes de alto e de 4 de largo (com seu parapeito), a qual he de 48 braças de roda. Dentro della estão huas cazas de sobrado pera a vivenda dos capitães e hua torre de 6 braças no alto. Em sima desta torre esta posto o forol, que se asende de noite quando se esperão as naos do Reino. Da dita serca de muro vem descendo dous panos deles pelo monte abaixo, seis braças distante hum do outro, que, por cem degraos feitos em sima do mesmo muro, decem a hua couraça onde fica o mar batendo de mare chea, e de vazia descubrindo huas pedras que faz muy perigoso e quazy impossível poder-ce desembarcar por sima dellas. Tem esta couraça hua plataforma de cento e trinta paços de comprido e, onde mais largo, de sincoenta, ficando estreitando mais pera as portas de hua e outrabanda. E, pella banda do mar, tem hum parapeito de sete palmos de alto, com lugar de suas bombardeiras e, pella da terra, lhe ficão encostadas huas sete cazas de sobrado, vivenda do capitão que nesta fortaleza assiste. A porta por onde se serve pera o rio fica debaixo de hua caza onde os soldados desta fortalza fazem corpo da guarda e, daly té o rio, se anda por hua estrada cuberta de trezentos paços de comprido ate chegar a hum cais, posto que não de todo acabado, junto do qual esta hua bica de aguoa dosse nacida, onde fazem aguoada as Naos do Reino e mais embarcações e armadas que vão pera fora, junto da qual, pegada ao rio, fica hum terrapleno como caes, em que se poem artelharia entre sestões quando há muitos inimigos, com que se fica defendendo a aguoda e dezembarcação no dito caes. Tornando à dita plataforma da couraça, tem em ssy sete peças de artelharia de bronze, muy reforçadas, columbrinas e canhões de vinte até setenta libras de ferro, todas postas em seis repairos, muy bem concertadas. Da outra banda da terra fica nesta praça o almajem das munições, com hum alpendre ao longo da porta delle, onde estão as armas, espingardas e lanças, dos soldados e piões que lhe assistem. E assym mais lhe fica sobre a outra porta, por onde se sae da dita praça pera a banda do norte, hum baluarte cavaleiro de 29 pes de alto, que caye sobre esta praça donde se vigia, e esta hum sino. Deixando esta praça, se sae della pella dita porta que lhe fica da banda do norte e se vay por hua estrada cuberta, feita com hua parede que começa na rais do dito monte, que bem beber ao mar, e assy lhe chegua a aguoa de preamar. E, à distancia de corenta paços, fica hum baluarte feito sobre o mesmo monte, com hua praça de quinze em roda, com seus parapeitos, onde estão quatro pelas de artelharia de metal de doze libras de pilouro de ferro, que alcanção mais ao mar do que as pelas da dita plataforma, por ficarem mais fora. Do dito baluarte vay continuando a dita estrada, e cuberta na mesma forma, distancia de mil paços, com que se chega a hum baluarte que fica já fora do rio defronte do mar, feito sobre o mesmo monte com hua praça de vinte em roda, com seu parapeito de sete palmos de altura, onde estão quatro pessas de artelharia de bronze de doze libras, de pilouro de ferro. Fez-ce este baluarte nesta paragem porque, como as Naos do Reino não podem tomar carga onde is possa defender a artelharia da dita fortaleza da aguada por não terem fundo bastante, senão fora, ao mar, as fica defendendo mais a artelharia deste baluarte, a terra do qual estão cazas pera bombardeiros e munições porque, como está tanta distancia da fortaleza, convem nua occazião repentina ter aly prestes tudo o necessário. Adiante deste baluarte esta hua emceada onde se podem desembarcar, a cuja consideração e as ditas Naos do Reino tomarem carga defronte ao mar e os inimigos de Europa virem aqui muitas vezes esperar nossas embarcações que vem demandar a barra de Goa, por lhe não poder aqui chegar a artelharia da dita fortaleza da Aguoada, mandou o Conde de Linhares Veizo-Rey fazer hum baluarte na ponta de hum outeiro que fica adiante da dita emceada. O prezidio que assiste nesta dita fortaleza da Aguoda he hum capitão com cento oitenta mil res de odenadom que faz em xerafins seiscentos. Dez soldados, que vencem a rezão de dezoito mil res cada hum de soldo e mantimento cada anno, que vem a ser cento oitenta mil res, que fazem seiscentos xerafins. Hum condestable, dous bombardeiros, que todos vencem de soldo e mantimento corenta e sete mil seiscentos res, que fazem cento cincoenta e oito xerafins, três tangas e vinte res. Tem mais a dita fortaleza hum naique com vinte e quatro piães opera sua guarda e vigia. ~Vence o naique oitocentos res por mez e os piães quatrocentos cada hum, o que tudo vem a ser cada anno quatrocentos e dezasseis xerafins. E assy dica sabendo esta fortaleza de despeza a Sua Magestade todos os anos mil setecentos setenta e quatro xerafins, três tangas e vinte res, afora as munições, que lhe vem de Goa todas quantas são necessarias e artelharia e concertos. E, alem da dita gente do prezidio, lhe acode de Bardes, avendo occazião de guerra, toda a necessaria, assy de portuguezes que morão nas ditas terras como dos naturais. Dá-se azeite para asender forol no tempo em que se esperão as Naos do Reino; não he couza certa" (BOCARRO: 126-128). *6 - A utilização da Praça, mais precisamente a Fortaleza Real como prisão é anterior a 1841, contudo não foi possível determinar a data de início de tal utilização. *7 - A guarnição do Forte da Aguada era assegurada por um pelotão de Caçadores comandado pelo alferes José Pereira Pinto e tinha à sua guarda 120 presos. Na noite de 18 para 19 de dezembro de 1961, uma força indiana, acreditando em boatos de que os militares portugueses iriam fuzilar nacionalistas presos, abordaram a porta de armas do forte provocando um confronto armado de que resultaram 2 mortos e 2 feridos nas forças indianas. *8 - As forças militares portuguesas contavam com menos de 4.000 efetivos (o General Vassalo e Silva refere cerca de 3.000), mal armados e municiados, sem carros de combate e aviação, enquanto as tropas indianas, com cerca de 45.000 efetivos em primeiro escalão (existem fontes que referem cerca de 30.000) e 25.000 em reserva, dispunham de todos os meios de combate, incluindo meios aéreos e navais, apoio de combate e apoio de serviços. Face a tal desproporção de potencial de combate, apesar de alguma resistência e de cerca de 30 mortos nas forças portugueses, o governador, General Vassalo e Silva, não acatou a ordem do então Presidente do Conselho de Ministros, Dr. António de Oliveira Salazar, no sentido das forças portuguesas resistirem, não prevendo "possibilidade de tréguas nem prisioneiros portugueses" pois sentia que apenas podia haver "soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos", e fez render as forças portuguesas às indianas. *9 - No total foram feitos 4.668 prisioneiros, entre militares e civis, 3.412 em Goa, 853 em Damão e 403 em Diu, todos enviados para campos de concentração localizados em Nevelim, Praça da Aguada, Pondá e Alparqueiros (local de prisão do General Vassalo e Silva), onde permaneceram até serem repatriados para Portugal em maio de 1962, nos navios Vera Cruz, Moçambique e Pátria. *10 - "Development of Coastal Circuit (Sinquerim-Baga, Anjuna-Vagator, Morjim-Keri, Aguada Fort and Aguada Jail) in Goa", projeto aprovado em junho de 2016, com uma duração de 36 meses e que, entre outros objetivos, pretende o desenvolvimento da antiga prisão de Aguada como destino turístico e o desenvolvimento do Forte de Aguada e sua envolvente.

Autor e Data

Hugo Sérgio Fernandes (Contribuinte externo) e João Almeida (Contribuinte externo) e Paula Noé 2019

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