Casa de Francisco Maria de Oliveira Simões

IPA.00000240
Portugal, Aveiro, Estarreja, Salreu
 
Casa de habitação unifamiliar, construída na 2.ª década do séc. 20, com projeto do arquiteto Silva Rocha, em Arte Nova e num conceito de "obra total", já que o projeto incluía a decoração interior e o jardim adjacente, constituído um excelente exemplar daquela corrente estilística e do conjunto de obras que este arquiteto aveirense concebeu para a cidade de Aveiro e para a região Norte. Autor de um dos mais importantes núcleos de arquitetura Arte Nova, o arquiteto Silva Rocha projetou a casa de Salreu para Francisco de Oliveira Simões em 1914, unindo-se pouco depois as duas famílias pelo casamento dos filhos de ambos. A casa impõe-se no núcleo urbano, pela qualidade arquitetónica e exuberância decorativa, revelando o alto estatuto financeiro do proprietário, onde todos os pormenores revelam a estética Arte Nova e as suas próprias características estilísticas, deixadas noutras obras, como o esquema e a modinatura dos vãos, o remate em falso frontão, ou as rosas inseridas em motivo cruciforme, este último presente, por exemplo, no Balneário de Espinho. Destaca-se ainda pelo facto de conservar a estrutura primitiva, bem como a quase totalidade do mobiliário, que na época foi concebido ou adquirido. Apresenta planta retangular, com coberturas em telhados de quatro águas, integrando sótão, formando trapeiras nas fachadas laterais, com telhados de três águas, rematadas em beirada simples. As fachadas evoluem em dois pisos, sobre cave alta, rematada em friso de azulejos Arte Nova, com motivos florais (rosas e narcisos), e cornija. A fachada principal, virada a noroeste, tem os pisos separados por cornija, os inferiores revestidos a cantaria e o superior a placas cerâmicas verdes, com cunhais de cantaria. A fachada é marcada pela composição simétrica, organizando-se em três eixos de vãos, destacando-se o central, que tem remate sobrelevado em falso frontão curvo, sobreposto por urnas, e tendo inferiormente e enquadrado por pilastras, painel de azulejos datados com representação de Mercúrio, segurando um caduceu e um livro, e um anjo, também com livros, entre festões. O portal de acesso ao primeiro piso surge sobrelevado, em arco em asa de cesto, com bandeira tripartida e chave volutada, precedido por escada com balcão, protegida por guarda em ferro, ornada de motivos vegetalistas e geométricos Arte Nova. É protegido por alpendre assente em colunas de capitéis vegetalistas, que repousam na guarda do balcão, em cantaria e ferro, igualmente decorada, tendo dois arcos em asa de cesto frontais e um lateral. Ao nível do segundo piso, abre-se porta entre duas janelas estreitas, todas em arco e inseridas em pano de cantaria, terminado em cornija contracurva, com fechos salientes e lateralmente ornado com rosas sobre cruz. Sobre o alpendre desenvolve-se varanda, com guarda em cantaria, firmada por plintos no alinhamento das colunas, ornados de motivos geométricos, de recorte curvo, enriquecida com grade em ferro, de motivos Arte Nova. Nos eixos laterais abre-se, ao nível do piso térreo, uma trífora, de arco abatido, definida por pilastras que lateralmente formam aletas estilizadas com rosas, encimada por friso vegetalista, prolongando-se superiormente as pilastras centrais para criar frontão contracurvo, decorado com flores; o vão central forma sacada pouco avançada num esquema semelhante à central do segundo piso, sobre mísulas, com guarda de perfil curvo e grade em ferro, ornado com motivos vegetalistas, intercalada por plintos estilizados e decorados. A sacada é ladeada por painéis com rosas e folhagem esculpida e sob ela abrem-se dois vãos curvos que iluminam a cave, surgindo sob o direito painel de azulejos, azuis e brancos, representando o Palácio do Buçaco, devidamente assinado e datado. No segundo piso, abrem-se bíforas, igualmente definidas por pilastras, as laterais mais estreitas e terminando numa pequena aleta geométrica, interligadas superiormente por friso vegetalista e cornija abatida. Todos os vãos têm caixilharia, com bandeira, de elegante desenho. A fachada posterior, de maior simplicidade, mas abrindo-se no piso térreo uma bífora e uma trífora, com friso de cantaria e cornija superior, sofreu algumas alterações relativamente ao projeto inicial. De facto, Silva Rocha projetou uma varanda em ferro, sobre colunas do mesmo material e com guarda trabalhada, para onde abriam quatro portas do segundo piso, mas essa não se chegou a construir. Além disso, abriu-se um óculo circular, com volutas geométricas, que não foi previsto no projeto. Interiormente, o primeiro piso estrutura-se espacialmente através de vestíbulo e corredor central, possuindo, virada à frontaria, duas grandes salas, acedidas por portas amplas envidraçadas e tripartidas, com vitrais policromos inseridos em caixilhos recortados. A sala de jantar tem lambril de estuque pintado com festões e motivos florais estilizados, teto com estuques relevados, de motivos geométricas e conserva os móveis com as iniciais do proprietário, um "F" e um "S" entrelaçados. Na sala fronteira, destaca-se a decoração do teto, pintado com flores e andorinhas numa grande elipse, inserida num retângulo, com círculos nos vértices. O corredor comunica com as dependências viradas ao jardim, destacando-se a cozinha, o escritório e uma outra sala, com decoração do teto mais simples. Nessa sala, tal como nos quartos do piso superior, existe lavatório encimado por painel de azulejos polícromos, com motivos florais estilizados Arte Nova. Acede-se ao segundo piso por escada bastante ampla, levemente espiralada, com balaustrada de madeira, iluminada por várias janelas e por uma claraboia, com vidros policromos. Junto à escada existe um outro lavatório, mas o painel de azulejos é ornado de querubins, fitas, festões e frisos geometrizados. O segundo piso repete a organização espacial inferior, com os quartos, amplamente iluminados, acedidos pelo corredor central. O sótão tem pequenas divisões, bem compartimentadas, e a cave foi totalmente modificada, tendo-se introduzido ainda novas casas de banho nos dois pisos. Da cozinha acede-se ao jardim, desenvolvido junto à fachada posterior. Aí, os anexos apresentam na fachada dois grandes painéis de azulejos, azuis e brancos, com cenas de pesca, assinados por Francisco Pereira, em 1915, e, no topo, um outro com retrato do proprietário. Ao centro, entre os dois painéis, sobre a porta, existe pequeno painel de azulejos polícromos com motivos florais (lírios e flores azuis) e geométricos. Entre o arvoredo, existe lago, tipo rio serpenteante, atravessado por ponte de madeira, de tabuleiro em cavalete acentuado, com guarda vazada de ramagens, sobre a qual Silva Rocha projetou ao centro um pombal, de que existe desenho de 1917, mas que nunca chegou a ser construído (FERNANDES: 2014, p. 26). Existem ainda vários grupos escultóricos em barro, provavelmente executados nas fábricas da região, representando uma sereia, sobre um peixe, ao centro de um lago, um casal de meninos, uma figura feminina, representando a terra e a agricultura, uma figura masculina com um recipiente de onde escorre um fio de água, também em barro, um menino cavalgando um peixe e outro sobre uma tartaruga (FERNANDES: 2014, pp. 23-24). Nos dois extremos do jardim existem ainda grutas, com carrancas esculpidas e uma serpente de cuja boca escorria água.
Número IPA Antigo: PT020108060005
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Residencial unifamiliar  Casa    

Descrição

Acessos

Salreu, Largo da Igreja, n.º 4. WGS84 (graus decimais) lat.: 40,735795, long.: -8,560769

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 5/2002, DR, 1ª Série-B, nº 42, de 19 fevereiro 2002

Enquadramento

Urbano, flanqueado. Implanta-se no interior da vila, adaptada ao declive do terreno, junto a uma encruzilhada de caminhos, com rotunda, possuindo passeio separador. A casa possui balcão alpendrado avançado, com zonas laterais vedadas por murete, encimado por gradeamento, intercalado por plintos ornados com motivos cruciformes e rosas, tudo em linguagem Arte Nova, e com portões de acesso a pequeno espaço ajardinado, à esquerda, e à escada do portal, à direita. O pavimento desta última zona é em mosaicos de padrão geométrico e policromo. Nas imediações ergue-se a Igreja Paroquial de Salreu, com alguns jazigos no adro (v. IPA.00000862).

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Residencial: casa

Utilização Actual

Residencial: casa

Propriedade

Privada: pessoa singular

Afectação

Época Construção

Séc. 20

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITETURA: Francisco Augusto da Silva Rocha (1914). FÁBRICA DE CERÂMICA: Fábrica da Fonte Nova (1914, 1915). PINTOR DE AZULEJOS: Francisco Pereira (1915); Licínio Pinto (1915).

Cronologia

Séc. 20 - Francisco Maria de Oliveira Simões, que fizera fortuna no Brasil, estabelece-se em Salreu, perto de Estarreja; 1914 - data do projeto da casa de habitação que Francisco Maria de Oliveira Simões manda construir em Salreu, com projeto do arquiteto aveirense Francisco da Silva Rocha, de que se conserva o alçado posterior, pormenores do alçado principal e do jardim, devidamente assinados; 1914 - data do painel de azulejos da frontaria, executado pela Fábrica da Fonte Nova (FERNANDES: 2014, p. 18); 1915 - data do painel de azulejos azuis e brancos, sob a janela direita do primeiro piso, assinado pelo Licínio Pinto, da Fábrica Fonte Nova (FERNANDES: 2014, p. 15); 1915 - data do painel de azulejos existentes nas fachadas do anexo junto à fachada posterior, assinado por Francisco Pereira (FERNANDES: 2014, p. 22); 1919, dezembro - data do casamento de Maria Luísa, filha única do arquiteto, com Justino de Oliveira Simões, filho de Francisco Maria Simões (FERNANDES: 2014, p. 14); Séc. 20, 2.ª metade - venda da casa com todo o recheio.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estrutura rebocada, na fachada principal parcialmente revestida a cantaria e placas cerâmicas; painéis de azulejos policromos; cornijas e molduras dos vãos em cantaria; portas e caixilharia de madeira; vidros simples e policromos; pavimentos cerâmicos e de madeira; cobertura de telha.

Bibliografia

FERNANDES, Maria João Fernandes - «Francisco Augusto da Silva Rocha e a Casa de Francisco Maria Simões em Salreu um novo padrão de beleza». Revista Terras de Antuã, Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja. Estarreja: Câmara Municipal de Estarreja, Ano 8, n.º 8, 2014; FERNANDES, Maria João Fernandes - «Silva Rocha. Aveiro, Cidade Museu». JL. 20-05-2008; FERNANDES, Maria João Fernandes - «Silva Rocha, o Gaudí português». Jornal de Notícias. 31-10-2018; PEREIRA, Marco - Salreu - Património Construído. Salreu: Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 25-26.

Documentação Gráfica

Documentação Fotográfica

Documentação Administrativa

Intervenção Realizada

Observações

Autor e Data

Paula Noé 04-05-2023

Actualização

 
 
 
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