Palacete Nunes Correia / Edifício na Avenida da Liberdade, n.º 24

IPA.00021626
Portugal, Lisboa, Lisboa, Santo António
 
Palacete urbano de planta em U, de corpos laterais alongados e assimétricos, organizada em torno de pátio central, originalmente destinado a jardim. Fachadas rebocadas e pintadas, divididas em cinco pisos, sendo um em mansarda, com pilastras nos cunhais, remate em balaustrada, e introdução de frisos e cornija na separação do segundo e quartos pisos. Com cobertura em telhados de duas águas, revestido por placagem de ardósia, alteado em mansarda e perfurado regularmente por trapeiras. Fenestração regular, maioritariamente de moldura recta, exceptuando ao nível do andar nobre, onde se introduzem cornijas, medalhões e bustos no remate. Fachadas principal e lateral esquerda voltadas á via pública, concentrando-se aí os elementos decorativos, numa continuidade do esquema compositivo, e fachada posterior articulada com o pátio. Composição da fachada dentro de moldes clássicos, na acentuação do corpo central e no tratamento simétrico dos panos murários. Linguagem ornamental de raiz clássica, mas subvertendo-se o aspecto mais canónico a moldes de um ecletismo cosmopolita, com referência primeira á arquitectura parisiense do Segundo Império, particularmente na mansarda e na pontuação escultórica das fachadas.
Número IPA Antigo: PT031106450950
 
Registo visualizado 730 vezes desde 27 Julho de 2011
 
   
   

Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Residencial unifamiliar  Casa  Palacete  

Descrição

Planta em U, de volumetria paralelepipédica, de corpos laterais muito salientes e assimétricos, organizada em torno de pátio central fechado, com coberturas diferenciadas efectuadas a duas águas, de perfil recto e placagem de ardósia. Anexando-se na sequência do corpo esquerdo do U dependências de planta sensivelmente rectangular e volumetria paralelepipédica. Fachadas rebocadas e pintadas a rosa, rematadas por balaustrada de cantaria sobre cornija, divididas em cinco pisos, sendo o primeiro revestido a placagem de cantaria de calcário e o último em mansarda, rasgado regularmente por trapeiras encimadas por cornija triangular. Apresenta divisão de pisos ao nível do segundo piso através de cornija e friso, e ao nível do quarto piso através de friso e cornija saliente, com pilastras salientes nos cunhais. Criando jogos de cor entre o rosa forte e o branco da cantaria de calcário. A fenestração faz-se a ritmo regular, maioritariamente com vãos de moldura rectilínea, exceptuando o andar nobre. A fachada principal voltada a E. divide-se em 5 panos sendo o central e os extremos destacados e revestidos a cantaria. No 1º piso do pano central rasga-se porta de madeira almofadada, com moldura em arco asa de cesto abatido, com pedra de fecho que encaixa na mísula central com o nº de polícia. Ladeada por dois candeeiros avançados e duas janelas de peito com moldura simples rectangular, guarnecidas por gradeamento em ferro forjado. No segundo piso, correspondente ao andar nobre, os três vãos centrais são abarcados por varanda corrida de pedra, suportada por sete mísulas, e com guarda em ferro forjado. Os vãos, de moldura recta, são sobrepujados por cornija ondulada, sobre consolas e preenchida por medalhões com figuras e grinaldas vegetalistas. Sobre as cornijas assentam as mísulas de suporte das sacadas dos três vãos do terceiro piso, de moldura recta e repetindo o modelo da varanda do piso anterior, mas desta feita em sacadas individuais. O conjunto dos vãos do segundo e terceiro pisos é intercalado por pilastras gigantes de remate eclético, onde em molduras quadrangulares se inscrevem rostos femininos. Sobre a cornija três vãos simples de peitoril, intercalados por pilastras, rematadas por molduras quadrangulares. Os panos intermédios são simétricos, apresentando ao nível do primeiro piso três janelas de peitoril, semelhantes ás do pano central. No segundo piso janelas de varandim em ferro forjado, rematadas por cornija ondulada, sob aletas, com busto sobre mísula no eixo e preenchidas por medalhão. O terceiro e quarto pisos apresentam janelas de peitoril de moldura simples. Os panos exteriores, igualmente simétricos, repetem o módulo do pano central, mas limitando-se a um vão por piso. A fachada lateral esquerda organiza-se em três panos, em que o pano central, com os seus quatro vãos correspondentes entre andares é análogo aos panos intermédios da fachada principal. E os panos exteriores repetem o modelo da fachada principal, exceptuando que nesta fachada, ao nível do primeiro piso, temos janelas de peitoril e não portas. A ala direita da fachada posterior, voltada á via pública apresenta primeiro piso revestido a cantaria, onde se abre ao centro porta de moldura rectilínea simples, ladeada por duas janelas de peitoril, também de moldura recta, guarnecidas por gradeamento de ferro forjado. Os pisos superiores são rasgados por três janelas de peitoril correspondentes em cada andar, sendo as do quarto piso de menores dimensões. Na sequência da pilastra esquerda desenvolve-se pano murário que fecha o pátio interior, com gradeamento em ferro forjado e ritmado por pilastras, na sequência das quais se colocam vasos. A ala esquerda é flanqueada por anexos dissonantes, rasgados por amplos janelões com remate em arco ligeiramente abatido. As alas internas, assimétricas, são maioritariamente rasgadas por vãos de peitoril, com moldura simples de cantaria, com remate superior em platibanda alta e não em balaustrada. Na ala interna direita contam-se duas janelas correspondentes entre andares, e na esquerda quatro, sendo que a nível do primeiro piso temos amplos janelões com remate em arco ligeiramente abatido, sobre os quais se dispõe cornija saliente. A ala interna central apresenta cinco janelas correspondentes por piso, exceptuando nos dois primeiros pisos em eixo onde temos portas envidraçadas com moldura em arco de volta perfeita, sobre pilastras de capitel saliente, sendo a do primeiro piso de maiores dimensões. Adjacente a esta ala dispõe-se escada exterior em liga metálica que se desenvolve até ao piso em mansarda e conduta de ar condicionado no extremo direito. O pátio fronteiro pavimentado em calçada portuguesa, é coberto na sequência dos anexos, funcionando como estacionamento no piso térreo e terraço no superior, com acesso por escada em liga metálica. INTERIOR: organização interna segue o esquema tradicional da planta em U em torno de pátio central. O portal principal dá acesso a vestíbulo, cuja articulação com a escadaria principal, na ala direita, se faz mediante zona de circulação intermédia que conduz ao pátio. Junto á fachada principal surgem ainda três quartos, que serviriam originalmente para alojamento a empregados ou eventuais hóspedes. Na ala esquerda do primeiro piso dispõem-se outras zonas de serviço, como as cozinhas, despensas, alojamentos de empregados domésticos e latrinas e escada de acesso ao segundo piso. No segundo piso estaria o núcleo da habitação dos proprietários e os salões de recepção, estar e jantar. A distribuição interna dos pisos superiores foi irremediavelmente perdida com as obras de alteração da EPAL.

Acessos

Avenida da Liberdade, n.º 24; Largo da Anunciada, n.º 5 a 6

Protecção

Incluído na classificação da Avenida da Liberdade (v. IPA.00005972) / Incluído na Zona Especial de Proteção Conjunta dos imóveis classificados da Avenida da Liberdade e área envolvente

Enquadramento

Urbano, fachada principal integrada na frente de lotes E. da Avenida da Liberdade, flanqueado a S. e fachadas lateral N. e posterior voltadas para o Largo da Anunciada. Fachada posterior aberta para pátio murado, sensivelmente rectangular, com muro exterior rebocado e pintado, com embasamento em cantaria e animado por pilastras também de cantaria e sobrepujado por guarda de ferro forjado, rasgando-se na vertente N. um portão e dois janelões com moldura em arco-abatido, com marcação de fecho. Parte do pátio é coberto e ocupado por estacionamento privativo da EPAL, desenvolvendo-se por cima um terraço. Fachada principal fronteira a placa pedonal arborizada, onde se insere lago com cascata e estátua alegórica, pertencentes ao conjunto do antigo passeio público (v. PT031106450428). Nas proximidades da Igreja da Anunciada (v. PT031106451100), e do antigo Cinema Condes (v. PT031106450416).

Descrição Complementar

Os bustos e medalhões que animam os dois alçados principais do edifício representam um universo de personalidades ligadas á formação cultural de Manuel Nunes Correia*1, a saber, Colombo, Guttenberg, Meyerbeer, Rafael Sanzio, Newton, Volta, Galvani, o barão de Cuvier, Rousseau, Molière, Shakespeare, Dante, Rafael, Miguel Ângelo, Camões, João de Barros, António Feliciano de Castilho e o 1º Duque de Palmela.

Utilização Inicial

Residencial: casa

Utilização Actual

Serviços: sede de empresa

Propriedade

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 19

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITETO: Giuseppe Luigi Cinatti (1865); Porfírio Pardal Monteiro (1938). CANTEIRO: oficina de canteiros de José Loureiro (1860, década).

Cronologia

Séc. 19 (década 60) - aquisição de faixa de terreno onde se erguera antes do terramoto de 1755 o palácio dos Condes da Ericeiras, Marqueses do Louriçal por Manuel Nunes Correia (1801-1871) para construção de grandiosa moradia familiar; 1865, 5 de Junho - apresentação da planta proposta para a construção do edifício na CML, com risco de Giuseppe Luigi Cinatti (1808-1879); 1865, 12 de Junho - o projecto é aprovado pela Repartição Técnica municipal liderada por Pézerat consoante o comprimento de algumas condicionantes tendo em vista o ordenamento urbano; 1865, 15 Julho - deferimento do projecto pelo Ministério das Obras Públicas; 1865, 31 Agosto - é realizada uma vistoria ao edifício em construção, com parecer favorável; execução de cantarias esculpidas por José Loureiro, residente na Rua da Trombeta ao Calhariz; 1868 (Julho) - a construção do palácio estava praticamente concluída; 1938 - acrescento de um terceiro andar e mansarda, reconstruída segundo o modelo original, na fachada principal imposto pela adaptação do palacete a instalações da Companhia das Águas de Lisboa, com projecto do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro.

Dados Técnicos

Estrutura autoportante

Materiais

Estrutura de alvenaria mista rebocada e pintada; revestimento de fachadas em placas de cantaria de calcário; molduras de vãos, frisos, cornijas, pilastras, balaustrada, varandas, e bustos em cantaria de calcário; guardas de vãos e varandas em ferro forjado; cobertura em placas de ardósia; portas exteriores em madeira; escada exterior em liga metálica.

Bibliografia

FRANÇA, José-Augusto, A Arte em Portugal no século XIX, Lisboa, Bertrand, 1981; "Um passeio pela Avenida: construtores e construções" in A Construcção. Lisboa, nº 9-12, ano II, 1894; Leal, Joana da Cunha, Giuseppe Cinatti (1808- 1879) Percurso e obra (dissertação de mestrado), Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 1996; SILVA, Raquel Henriques da, Lisboa Romântica, Urbanismo e Arquitectura, 1777-1874 (dissertação de doutoramento), Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 1997, pág. 504-505; VITERBO, Sousa, Diccionario Historico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Construtores Portuguezes ou a serviço de Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1904, vol. III.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/Arquivo Pessoal de Porfírio Pardal Monteiro PPM NT2 UAC46 (relativo a ampliação de mansardas n.d.)

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

CML: Arquivo Intermédio

Intervenção Realizada

Proprietários: 1904 - obras de modificação interior; 1914 - abertura de duas portas e demolições interiores; 1918 - construção de garagem; 1922 - obras de alteração na garagem; 1923 - obras de ampliação para o Pátio do Tronco, construindo-se compartimento destinado a contadores; 1924 - abertura de portão em ferro para o Lg. Da Anunciada; 1928 - obras de limpeza e reparações interiores, exteriores e de esgotos; 1935 - transformação de janela em porta voltada para o Lg. da Anunciada; 1937 - obras de reparação interior e exterior, telhados, esgotos e calhas, limpeza e pintura de fachadas e muros; 1938 - início de obras de alteração e ampliação, consistindo na construção de dois novos andares, um em ático e um amansardado, remodelação global de interiores e ampliação de garagem; 1941 - alteração das obras em curso no que toca á compartimentação dos dois novos andares; 1943/1950 - entre estes anos realizaram-se sucessivas obras de conservação; 1951 - limpeza de fachadas; 1958 - obras de conservação; 1969 - pequenas alterações e reparações de pavimentos, revestimentos, pintura, portas e caixilharias nos primeiros pisos e sobreloja do anexo no pátio do Tronco; 1976 - obras de modernização das instalações, demolindo-se paredes em alvenaria de pedra, introduzindo-se tetos falsos, novos pavimentos, e redes de água, estuque e pintura de paredes acima dos lambrins; ampliação do anexo no pátio do tronco; 1977 - obras no primeiro piso, abrindo-se três vãos e porta de lagarto em ferro.

Observações

*1 - Manuel Nunes Correia pertencia a uma longa dinastia de alfaiates lisboetas, com sede na rua de São Julião; funciona ainda na Rua Augusta estabelecimento com o mesmo nome, activo desde 1856.

Autor e Data

Luísa Castro-Caldas 2004 / Inês Pais 2006

Actualização

 
 
 
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