Rua da Junqueira

IPA.00015835
Portugal, Lisboa, Lisboa, Belém
 
Componente urbano. Eixo viário. Rua. Rua paralela ao eixo ribeirinho apresentando considerável extensão, sendo por isso composta por frentes urbanas de características muito diversificadas, reflectindo a sua génese como zona de praia fluvial e a lenta urbanização do caminho peri-urbano que ligava Alcântara a Belém, a partir da construção de estruturas defensivas e industriais, nos séculos 17 e 18, respectivamente. Estrutura linear progressivamente consolidada através da implantação de palácios e quintas de veraneionos séculos 18 e 19 e mais tarde, já no século 20, por equipamentos contemporâneos. A estrutura da generalidade dos quarteirões é irregular e resulta de uma base de parcelas senhoriais de grande dimensão; nas zonas mais regulares os lotes são estreitos e apresentam logradouros nas traseiras.O espaço construído é dominado pela arquitectura civil residencial, caracterizada por uma edificação contínua formando arruamentos de fachadas rebocadas e alinhadas, onde se destacam seis tipos arquitectónicos: a casa térrea e a casa de dois pisos, com telhados de duas águas, normalmente relacionadas com o modelo funcional unifamiliar, implantando-se em lotes estreitos e alongados (predominantes na Rua do Embaixador); a habitação colectiva, de modelo funcional plurifamiliar, com volumetria variável entre 3 e 5 pisos, desenvolvidos em frentes de diferente dimensão e implantada em lotes rectangulares de frente reduzida (predominante no conjunto da Junqueira, com especial incidência na área compreendida entre o Largo do Marquês de Angeja e a Calçada da Ajuda); a casa abastada, com características que demonstram outros cuidados na composição, como a presença de varandas e janelas de sacada ou outros pormenores arquitectónicos notáveis; os palácios e as quintas, implantadas em lotes de grande dimensão, com estrutura complexa e amplos jardins, que tanto podem surgir na frente urbana como nas traseiras; a habitação operária, baseada no principio da modulação, isto é, da adição sucessiva do modelo tipológico da fachada tipo porta-janela. Observam-se exemplos de arquitectura industrial, que apresenta uma síntese baseada na simplicidade, na simetria e, em alguns casos, na repetição modular. Presença de arquitectura pública, baseada nos conceitos racionalistas apresentados pelo Movimento Moderno. Pelas condicionantes que estiveram na sua origem e evolução, a Rua da Junqueira constitui um exemplo onde se encontram bem documentadas as etapas do processo de transformação de um caminho rural em rua urbana. Apresenta um conjunto de pormenores arquitectónicos importante, sendo possível verificar a presença massiva de alguns desses elementos, como é o caso dos trabalhos em ferro forjado, as platibandas ou o revestimento azulejar. No entanto em especial no troço E. correspondente à zona monumental da rua, observam-se conjuntos arquitectónicos excepcionais, como por exemplo o Palácio de Lázaro Leitão (v. PT1106320380), a Fábrica de Cordoaria (v. PT031106320175), o Palácio Burnay (v. PT031106020121), o Palácio do Marquês de Angeja (v. PT031106020294), o Palácio da Quinta das Águias (v. PT031106020195), o Palácio dos Condes da Ribeira Grande (v. PT031106020296), e algumas casas abastadas, que congregam na sua composição um grupo de pormenores arquitectónicos notáveis, tais como elementos em cantaria e argamassa, portas, janelas, e chaminés. A grande diversidade arquitectónica presente na Rua da Junqueira não chega, no entanto, para diluir a unidade que a caracteriza como conjunto urbano.
Número IPA Antigo: PT031106320747
 
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Registo

 
Conjunto urbano  Elemento urbano  Eixo viário  Rua    

Descrição

Estrutura urbana linear paralela ao eixo definido pela margem N. do rio Tejo e por isso com uma orientação E., percorre uma extensão que se aproxima dos 2000 metros, apresentando uma largura variável entre os 10 e os 30metros. A sua configuração varia significativamente entre duas zonas, correspondentes a áreas de crescimento distintas: uma primeira zona, entre a Rua 1º de Maio e o Largo do Marquês de Angeja, de carácter monumental e erudito, formada durante o século 17 a partir da construção dos fortes da Junqueira, consolidando-se durante os séculos 18 e 19 com a edificação de palácio e quintas de veraneio implantadas em grandes lotes, bem como através da localização de estruturas industriais, com destaque para a Cordoaria Nacional que, introduzindo uma ruptura, contribuiu de forma significativa para a delimitação do eixo da Junqueira. Uma segunda zona limitada pelo ínicio da Calçada da Ajuda e o mesmo Largo do Marquês de Angeja, apresenta um cariz mais urbano, sendo já delimitada por sequências de habitações de carácter colectivo, constituídas nos séculos 18 e 19 com a construção de estruturas de apoio à produção industrial e piscatória (alojamento para operários e armazéns). Assumindo-se como um eixo estruturante, sempre gerador da malha urbana que a envolve, a Rua da Junqueira, apresenta uma regularidade própria e como dispositivo ordenador, permite uma continuidade visual que congrega grande diversidade de elementos formais. É identificável uma configuração composta por frentes urbanas principais, mas algo descontínuas, definidas por unidades arquitectónicas complexas (palácios e jardins murados, edifícios da Cordoaria e alguns equipamentos contemporâneos), que estruturam a via pública principal (correspondente à Rua da Junqueira propriamente dita) e um conjunto de ruelas e travessas que se rasga perpendicularmente à linha de água do Tejo e portanto perpendicularmente ao eixo fundamental do conjunto. Os limites da área de influência da Rua da Junqueira são definidos a E. e O. pela Calçada da Ajuda e pela Rua 1º de Maio, respectivamente; a N. pelo Bairro da Ajuda e Santo Amaro, e a S. pela zona marginal ao rio. Neste contexto é de destacar, pela sua singularidade e homogeneidade, a Rua do Embaixador, um segmento que opera no sistema geral da área da Junqueira, estruturado por duas correntezas de habitações correntes, conferindo-lhe um carácter próprio muito diferente do ambiente urbano aristocrático que caracteriza o eixo principal. A existência destes pequenos espaços descentralizados ao longo do eixo fundamental é proporcionada pelas características do loteamento em pequenas parcelas, que contrasta com a generalidade do conjunto, onde predominam os grandes lotes, pertença das várias casas nobres que ali existiam e que lhe conferiram um carácter monumental. Esta ambivalência parcelar tem ainda reflexo no tipo de espaço verde que acompanha o espaço construído, verificando-se a existência de dois grandes tipos: o espaço verde de grandes dimensões, como os jardins dos palácios ou dos equipamentos (característico da zona da Junqueira compreendida entre o Largo do Marquês de Angeja e a Rua 1º de Maio); e o espaço verde de dimensões reduzidas, materializado na forma de pequeno logradouro, existente na área compreendida entre a Calçada da Ajuda e o Largo do Marquês da Angeja, onde se enquadra o tipo de lote que define a Rua do Embaixador. Associada ao processo de parcelamento, surge a forma dos quarteirões, onde é visível a existência de dois grandes grupos: o grande quarteirão, na zona monumental da Junqueira (troço compreendido entre a Rua 1º de Maio e o Largo do Marquês de Angeja); e o pequeno quarteirão, na área compreendida entre a Calçada da Ajuda e o Largo Marquês de Angeja, e na zona da Standard Eléctrica (Rua da Galé, Travessa Conde da Ponte, Travessa da Praia e Travessa Pinto). O espaço construído é caracterizado por uma grande diversidade, podendo-se encontrar tipos arquitectónicos que variam entre a casa unifamiliar e o palácio ou a quinta, passando por vários outros tipos, como a casa abastada e a habitação colectiva ou operária. Não sendo já perceptível a presença das antigas fortificações *1, podem ainda observar-se exemplos de arquitectura religiosa e industrial bem com a existência de alguns equipamentos comtemporâneos de impacto relevante no contexto urbanístico e tipológico da rua ( Hospital Egas Moniz, Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Centro de Congressos, Standard Eléctrica).

Acessos

Pr. Afonso de Albuquerque; R. 1º de Maio

Protecção

Parcialmente incluída na Zona Especial de Proteção do Palácio Nacional de Belém (v. IPA.00006547) e na Zona Especial de Proteção conjunta da Capela de Santo Amaro (v. PT031106020014), Palácio Burnay (v. PT031106020121), Salão Pompeia (v. PT031106020065) e Casa Nobre de Lázaro Leitão Aranha (v. PT031106320161)

Enquadramento

Urbano. Localizada numa zona ribeirinha, corresponde a uma área de expansão da cidade de Lisboa para Ocidente, nos séculos 17 e 18. Formada a partir do percurso da antiga estrada para Belém, que corria desde o início da Calçada de Santo Amaro até ao começo da Calçada da Ajuda, a Rua da Junqueira ocupa uma extensão mais limitada, entre a Tv. do Conde da Ponte e o começo da Calçada da Ajuda. Situada numa antiga zona de praia, foi sendo progressivamente afastada das margens do rio através de sucessivos aterros não perdendo, no entanto, a estreita relação com o Tejo que desde sempre regulou e orientou o seu crescimento. A sua evolução urbana enquanto zona periférica da cidade, esteve continuamente relacionada com a ligação que proporcionava entre Alcântara e Belém, desenvolvendo as relações socio-económicas entre as referidas zonas. A área que hoje corresponde à Rua da Junqueira foi outrora uma densa zona de pântano onde abundavam as espécies herbáceas de regadio, nomeadamente a erva do junco. O topónimo "Junqueira" surge assim por associação directa às características essenciais do espaço que denomina, um local que, no século 18 conheceu um enorme surto urbanístico sem todavia conseguir afastar a imagem de origem da Junqueira ou Juncal, "o lugar dos juncos".

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Não aplicável

Utilização Actual

Não aplicável

Propriedade

Pública: estatal, municipal / Privada: Igreja Católica, pessoas colectivas, pessoas singulares.

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 18 / 19

Arquitecto / Construtor / Autor

Carlos Mardel (Palácio da Quinta das Águias; Palácio Lázaro Leitão); Reinaldo dos Santos (Edifício da Fábrica Nacional de Cordoaria); Honorato José Correia de Macedo e Sá (Chafariz da Junqueira); Fortunato Lodi (Palácio da Quinta das Águias); Raul Lino (arranjo urbanístico da Rua da Junqueira); Lucínio Cruz (Instituto de Higiene e Medicina Tropical).

Cronologia

Paleolitico Superior e Neolitico - existência de focos de ocupação dispersa, dominados por comunidades de caçadores e pescadores, na encosta virada a S., entre Monsanto e o rio de Alcântara; Época dos Metais, final - intensificação das actividades agrícolas e formação de povoados de ocupação celta na zona referida, determinantes na forma de povoamento e estrutura económica desenvolvidos depois com o processo da romanização, em curso desde o séc. 1 a.C., vindo ainda a constituir a base da ocupação muçulmana a partir do séc. 8; séc. 12 - criação do Reguengo de Algés ao qual pertencia a zona da Junqueira; séc. 13 - a Junqueira assumia-se como pólo ribeirinho, agregador de actividades agrícolas e piscatórias que se desenvolveram nos séculos seguintes; aparecimento de hortas e casais; 1318 - D. Dinis doou terrenos na zona da Junqueira ao convento de Odivelas; séc. 17, meados - construção dos Fortes de S. João e de S. Pedro da Junqueira, pertencentes à linha de fortificação abaluartada instalada ao largo da barra do Tejo; toda a zona da Junqueira fazia parte da Quinta das Caldas encontrando-se estas terras vinculadas à família Saldanha; séc 17, fins - a área da Junqueira contava 22 vizinhos; 1672 - construção da casa dos Saldanha; 1687 - instalação de uma fábrica de cabos de linho para a Armada; 1701 - João de Saldanha e Albuquerque, presidente do Senado da Câmara de Lisboa, obteve de D. Pedro II um alvará pelo qual lhe foi concedida licença para aforar algumas terras com frente para rua direita ribeirinha, desde as Escadinhas de Santo Amaro até Belém proporcionando o aparecimento de vários palácios, o que se intensificou ao longo do século seguinte; séc. 18 - a antiga Estrada para Belém recebe o nome de Junqueira; enquanto as frentes palacianas de expressão urbana e erudita estruturavam a via pública principal, um conjunto de ruelas e travessas com casario simples rasgava-se perpendicularmente à praia da Junqueira, tradicionalmente ligada às actividades piscatórias e ao movimento fluvial; construção do Palácio dos Condes da Ribeira Grande; 1701 / 1734 - construção do Palácio Burnay; 1713 / 1716 - construção do Palácio da Quinta das Águias; 1720 - a Rua da Junqueira tinha 29 fogos; 1729 / 1740 - construção do Palácio de Lázaro Leitão; 1748 - concedida autorização para realizar touradas na Rua da Junqueira; 1755 - construção do Palácio do Marquês de Angeja sobre as ruínas do Forte de S. Pedro da Junqueira; 1771 / 1778 - construção da Cordoaria Régia no sítio do Forte de S. João da Junqueira; 1811 - primeira numeração das portas da Rua da Junqueira; 1821 - construção do Chafariz da Junqueira com risco do arquitecto Honorato José Correia de Macedo; 1859 - instalação da iluminação a gás; 1873 - inauguração do caminho-de-ferro entre o Rossio e Belém; 1901 - inauguração da carreira de eléctricos entre o Cais do Sodré e Algés; 1902 - instalação da Escola de Medicina Tropical na Cordoaria Régia; 1927 - instalação do Arquivo Colonial no Palácio da Ega; 1945 / 1948 - construção do edifício da Standard Eléctrica; 1954 / 1958 - construção do edíficio do Instituto de Higiene e Medicina Tropical; 1957 - construção dos pavilhões da Feira Internacional de Lisboa.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes em alvenaria de pedra e alvenaria mista com argamassa de areia, terra e cal; estruturas reticulada em betão armado com paredes em tijolo furado e argamassa corrente de areia e ligante comum (cimento); coberturas com telhado de duas ou quatro águas revestido com telha cerâmica; coberturas planas em betão armado com capeamento de entalhe simples; remate das coberturas com cornija, beirado ou platibanda; revestimento das fachadas com reboco pintado, azulejo ou pedra; vãos guarnecidos a pedra; guardas de varandas em ferro forjado.

Materiais

Pedra: calcário; cal e areia; betão; tijolo furado; tijolo maciço; telha de canudo; telha de aba e canudo; telha marselha; ferro fundido; ferro forjado, alumínio; madeira; azulejo; vidro.

Bibliografia

LAMAS, Artur, A Rua da Junqueira, Lisboa, 1922; ARAÚJO, Norberto de, Inventário de Lisboa, Lisboa, 1946, fasc.4; Idem, Inventário de Lisboa, Lisboa, 1950, fasc. 8; Idem, Peregrinações em Lisboa, Lisboa, s.d, vol. IX; ATAÍDE, M. Maia, Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Lisboa, 1988, tomo III; ROSSA, Walter, "A Cidade Portuguesa", in PEREIRA, Paulo, dir., História da Arte Portuguesa, Lisboa 1995, vol.III, pp 232-323; SALGUEIRO, Teresa Barata, A Cidade em Portugal, Porto, 1999.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID; CML: Museu da Cidade; AMOP; BNP; MARDEL, Carlos, "Planta Topographica da Marinha da Cidade de Lisboa", 1727 - Lisboa, Museu da Cidade; MARDEL, Carlos, " Explicação do Cais Novo", 1746 - Lisboa, Arquivo do Ministério das Obras Públicas - D 27 C; FAVA, Duarte José, SOUZA, José Bento de, "Carta Topográfica de Lisboa" 1826 - Lisboa, Gabinete de Estudos Olisiponenses - CDR 17; FOLQUE, Filipe, 1856 - Lisboa, CML; Instituto Geográfico Cadastral, "Planta da Cidade", 1911 - Lisboa, CML; Instituto Geográfico Cadastral, "Planta da Cidade", 1949 - Lisboa, CML

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID; CML: Arquivo Fotográfico; BNP

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID; CML

Intervenção Realizada

1930 - obras de pintura exterior do Palacete dos Condes da Ribeira Grande; 1940 - obras de pintura exterior do Palacete dos Condes da Ribeira Grande; 1940 - obras de pintura exterior do Palácio do Marquês de Angeja; 1950 - obras de pintura exterior do Palacete dos Condes da Ribeira Grande; 1988 / 1992 - obras de conservação e restauro da Casa Nobre de Lázaro Leitão Aranha; 1990 - pintura das fachadas do Edifício da APL.

Observações

*1- o Palácio do Marquês de Angeja e o Quartel da Brigada Fiscal da Guarda Nacional Republicana, foram erigidos sob as ruínas dos fortes de S. Pedro e S. João, respectivamente, sendo possível que alguns vestígios das antigas fortificações façam parte integrante da estrutura dessas construções.

Autor e Data

João Marques e Ricardo Porfírio 2003

Actualização

 
 
 
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