Capela de Nossa Senhora dos Meninos do Bairro da Ponte

IPA.00014041
Portugal, Viseu, Lamego, Lamego (Almacave e Sé)
 
Capela maneirista e barroca, de planta retangular, com nave, coro-alto, capela-mor, sacristia e campanário adossados ao lado esquerdo. Fachada principal rasgada por pórtico de volta perfeita, ladeado por janelas e remate em empena. Pórtico epigrafado com arquitrave encimada por brasão heráldico do fundador. Janelões de grandes proporções em relação à capela. Torre sineira aproveitando um antigo campanário, em plano significativamente mais recuado que a fachada principal, na ligação da nave com a capela-mor. O interior tem profusa decoração, mantendo o revestimento azulejar com azulejos de padrão dos sécs. 17 e 18. Altares colaterais em ângulo, de talha policromada rococó. Imitação de marmoreados em detrimento das talhas douradas. Retábulo-mor de talha dourada, com colunas pseudo-salomónicas e pilastras profusamente decoradas. Tribuna com trono em posição centralizada e em destaque. Tectos em masseira, de caixotões relatando cenas da vida de Cristo e da Virgem. No aspecto hagiográfico, a designação dada a esta Nossa Senhora dos Meninos, porque o povo lhe atribuía muitos milagres aos meninos frequentemente arrastados pela corrente do Rio Balsemão.
Número IPA Antigo: PT011805210030
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Templo  Capela / Ermida  

Descrição

Planta retangular irregular, composta por nave, coro-alto, capela-mor, sacristia e torre adossadas ao alçado lateral esquerdo. Volumes articulado, e disposição horizontalista das massas, com coincidência entre o exterior e o interior. Cobertura homogénea de duas águas e quatro na torre. Embasamentos proeminentes e alçados de cantaria aparente com aparelho isódomo e remate em cornija. Fachada principal voltada a SE., com portal de volta perfeita, com duas arquivoltas epigrafadas e assentes em impostas, e pilastras. As exteriores elevam-se a partir dos arranques dos arcos, unindo a arquitrave, rematada com pináculos de bola, que flanqueiam o brasão heráldico do Bispo de Lamego, D. Manuel de Noronha. A ladear o pórtico, duas fenestrações quadradas com grades. Remate da fachada em empena,que se eleva acima do nível das coberturas, encimada por cruz de pedra assente em pedestal, com a imagem da Virgem, e, sobrepujando os cunhais, dois pináculos. Em plano ligeiramente mais recuado, um pequeno escadório de acesso ao primitivo campanário, transformado em torre de duas sineiras, com vãos de volta perfeita e remate em cornija e pináculos. Alçado SO. cego. Alçado tardoz cego no corpo da capela-mor, tendo, na zona da sacristia, uma fenestração rectangular. Alçado NO. possui, na capela-mor e nave, dois janelões rectangulares de grandes dimensões. Pequena janela, de menores dimensões, ilumina o coro-alto. INTERIOR com guarda-vento de madeira e coro-alto com a zona central avançada, protegido por balaustrada de madeira, assente em estrutura do mesmo material, onde se integra a escada de acesso, no lado do Evangelho. Púlpito com bacia de cantaria e guarda em madeira de pau-preto. Retábulos colaterais são semelhantes, o do lado do Evangelho dedicado ao Senhor da Agonia e o oposto a Nossa Senhora de Fátima. Ambos possuem nicho central de arco a pleno centro e encimado por frontão curvado e contracurvado com espaldar. Lateralmente e fora do nicho, assentes em mísulas, imagens de madeira estofada. Toda a nave é forrada a azulejos tipo tapete, com duas padronagens. Na metade inferior, por painéis de padrão tipo maçarocas e, na parte superior, separada por friso igualmente azulejar, pelo tipo de laçaria e rosas. Como cobertura, um tecto de masseira com caixotões pintados, representando a vida de Cristo. Neste, sobre o coro-alto, rasga-se uma clarabóia. A capela-mor, resguardada por teia de pau-preto, é revestida com padrões de azulejos iguais aos da metade superior da nave. Possui, do lado do Evangelho, uma porta rectangular para a sacristia e, do lado da Epístola, um janelão rectangular, junto ao altar. Retábulo formado por dois pares de colunas pseudo-salomónicas, ladeadas por três pares de pilastras de profusa decoração vegetalista, que formam, como remate, cinco arquivoltas unidas no sentido do raio, decoradas igualmente com motivos vegetalistas. Em posição centralizada a tribuna com a imagem da padroeira. Cobertura em masseira com 25 caixotões representando cenas da vida da Virgem. A sacristia, iluminada por uma fenestração rectangular, é coberta por tecto de masseira, tendo também acesso pelo exterior. Do lado esquerdo, pequeno corredor de acesso ao púlpito.

Acessos

Em Lamego, em frente à Igreja do Desterro, para a Rua Da Calçada, até pequeno Largo, no denominado Bairro da Ponte. Neste para a Rua da Senhora dos Meninos, a 100 metros

Protecção

Categoria: MIP - Monumento de Interesse Público / ZEP, Portaria n.º 740-CD/2012, DR, 2.ª série, n.º 248 de 24 dezembro 2012

Enquadramento

Peri-urbano, a meia encosta, nas imediações do rio Balsemão, implanta-se em superfície plana em plataforma horizontalizada artificialmente. Isolado e destacado, com acesso por pequena escadaria descendente, sendo protegida por grades de ferro ladeadas por pilares com grandes pináculos, sendo delimitado e separado por adro murado ajardinado. Jardim com vários canteiros de buxo recortados e bancos de pedra. No exterior, junto à entrada do adro e fronteiro ao alçado principal, uma fonte de espaldar recortado, encimado por cruz de pedra, com duas bicas e tanque rectangular.

Descrição Complementar

No arco exterior do pórtico principal, pode ler-se, depois de actualizada a grafia: "LOUVADO. SEJA. O SANTISIMO SACRAMTO". No arco de menor arcatura: "E A IMACVLADA CÕSEISÃO. DA VIRGE. SNRA. NOSA". As armas heráldicas do Bispo de Lamego D. Manuel de Noronha (1561-1569), sobre a arquitrave, são de negro, com uma montanha verde em contrachefe e sobre ela uma torre de prata entre 2 lobos assaltantes de ouro. Coroando o brasão, o chapéu eclesiástico e as borlas laterais da dignidade. Entre o chapéu e o brasão uma estrela, símbolo da devoção a Maria. No retábulo de Nosso Senhor da Agonia, surgem as imagens do Crucificado ( séc. 17 ) de São Pedro ( séc. 18, 84 cm. ) e Santa Rita de Cássia ( séc. 17, 72 cm. ); na banqueta, a imagem de Nossa Senhora da Conceição ( séc. 17, 40 cm. ); no dedicado a Nossa Senhora de Fátima, a imagem do orago de barro ( 110 cm. ) as de São Francisco de Assis ( séc. 18, 75 cm. ) e Santo António ( séc. 18, 77 cm. ). Retábulo-mor possui a imagem da padroeira, policromada, sentada de frente, numa cadeira, tendo ao colo a imagem do Menino, que abençoa ( séc. 16, 129 cm. ). Tem igualmente as imagens dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. No lado do Evangelho da capela mor, um óleo sobre tela, provavelmente da primeira metade do séc. 18, com 142 x 130 cm., representando Nossa Senhora sentada com o Menino ao colo, coroada por dois anjos, que seguram uma coroa real. Aos pés uma ponte, as lavadeiras do rio e roupa estendida ao sol, o rio onde nadam gansos. Em segundo plano, várias casas de ambos os lados. Pode supor tratar-se de uma representação do Bairro da Ponte, topónimo ainda hoje do local, que igualmente possui uma ponte semelhante à representada. Na nave, no lado do Evangelho, uma tela representando a Virgem com o Menino, São João Baptista e Santa Isabel. Os caixotões da capela-mor, todos com legenda latina, possuem a seguinte iconografia, partindo do Evangelho e junto do retábulo-mor: Nossa Senhora em Adoração ( "AB INITIO ET ANTE SARC", Ecles. XXIV, 14 ), Virgem com anjos ( "LAETAMINI COELI, ET QUI HABITATIS IN EIS",Apoc, XII, 12 ) , Imaculada Conceição ( "ET IRATUS EST DRACO IN MULIEREM", Apoc. XII, 7 ), Luta de São Miguel com o dragão ( "DRACO PUGNABAT ER ANGELI". Apoc, XII, 7 ), Deus Pai adverte Adão e Eva ( "IPSA CONTERET CAPUT TUUM", Gen. III, 15 ), Virgem coroada ( "GLORIFICATA IN MULIERIBUS", Gen. III, 15 ), Reis e doutores a discutir as Escrituras ( "PROPOSITA A PROPHETIS", Is. VII, 14 ), símbolos marianos ( árvores, água a jorrar, sol, lua, espelho, estrela ), Árvore de Jessé ( "EDITA REGIBVS", Is. XI, 1 ), Santa Ana ( "NUBE IOACHINO", Proto-Ev., II, 4 e IV, 1 ), Anjo e São Joaquim ( "NUBE ANNA", Proto-Ev. II, 2 ), Casamento de Santa Ana e São Joaquim ( "DESPONSATIO JOACHIM ET ANNAE", Pseudo Mateus I, 1-2 ), São Joaquim no templo ( "REPREHENDITUR UT INFECUNDUS", de Nativitate Ma, VII ), São Joaquim e Santa Ana em oração ( "PROMITTITUR EIS VIRGO MARIAE", de Nativitate Ma, VII ), Porta Dourada ( "IMMACULATA CONCEPTUS", de Nativitate Ma, VII ), Nascimento da Virgem ( "LAETA NATIVITAS, de Nativitate Ma, VII ), Virgem e a Santíssima Trindade ( "PRAESENTATIO IN CAELO", de Nativitate Ma, VII ), Apresentaçºao da Virgem no templo ( "PRAESENTATIO IN TEMPLO", Pseudo Mateus, 4 ), Maria educada no templo ( "SANCTA EDUCATIO", de Nativitate Ma, VII ), Maria ajoelhada em oração ( "PRIMAM VOVET VIRGINITATEM", de Nativitate Ma, VII ), sumo-sacerdote advertido do casamento de Maria e José ( "MONETUR PONTIFICEX DE EIVS NUPTIIS", de Nativitate Ma, VII ), São José em busca do sumo-sacerdote ( "ET ESSUS A DOMINO", Proto-Ev. IX, 1 ), Casamento da Virgem ( "DESPONSATIO BEATAE MARIAE VIRGINIS CUM BEATUS JOSEPH", de Nativitate Ma, VIII, 2 ), Nossa Senhora a trabalhar ( "LABORAT PRO VICIO QUOTIDIANO" ), Virgem em oração ( "DEDITA ORATIONI" ). Na sacristia, arcaz do séc. 18 e dois armários. Junto à janela a imagem processional de Nossa Senhora dos Meninos ( séc. 20, 107 cm. ), Santo André Avelino ( séc. 18, 55 cm. ); surgem, ainda, duas casulas, uma de cetim branco e bordada a fio de ouro, do séc. 17; outra cor de rosa, do séc. 18.

Utilização Inicial

Religiosa: capela

Utilização Actual

Religiosa: capela

Propriedade

Privada: Igreja católica

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 16 / 17 / 18 / 19

Arquitecto / Construtor / Autor

CARPINTEIRO: Manuel Pereira da Silva (1723). ENSAMBLADOR: Manuel de Sousa (1720). FUNDIDOR: Adriano P. Loureiro (1926). PEDREIROS: António de Bastos (1708). Manuel Monteiro Supico (1740), Leonardo da Silva (1747). PINTOR: Francisco de Mesquita (1714). PINTORES - DOURADORES: Francisco da Mesquita (1714), Manuel José e Luís de Almeida (1747).

Cronologia

Séc. 16 - execução da imagem do orago; 1555 - remodelada desde os fundamentos, pelo Bispo D. Manuel de Noronha; 1683, 26 Julho - o Padre Bernardino Rodrigues da Corredoura, faz doação da casa onde vivia, com a obrigação de lhe celebrarem, para sempre, 12 missas por ano; 1698 - possuía uma confraria florescente; 1700 - conclusão da construção do campanário, por 18$500; 1701 - a Irmandade possuía várias propriedades em Penude e Figueira; 1708 - conclusão das obras da capela-mor, pelo mestre pedreiro António de Bastos, por 55$000; execução de novo forro, pintado a óleo (importando em 40$000) e da tribuna (60$000), incluindo o estofado dos quatro anjos da tribuna; 1713 - assentamento dos azulejos; execução da grade da fresta por 10$480 e conserto da cruz de prata, por 6$320; 1714 - Irmandade recebia a receita do jogo da bola, que prefazia 72$356; 1714, 4 Abril - contrato para o douramento e pintura do retábulo-mor, cobertura da capela-mor com 25 caixotões, por Francisco de Mesquita, do Porto, por 265$000; 1720 - junto à capela existia o Cruzeiro do Senhor do Amparo, implantado sobre rocha granítica; 1720, 22 Fevereiro - contrato com o emsamblador Manuel de Sousa para a execução da teia da capela-mor em pau preto, incluindo os bronzes dourados; 1721 - acrescento da sacristia e assentamento de azulejo produzido no Porto, por 3$610; construção de novo púlpito, pelo mesmo; 1723 - execução da cobertura pelo carpinteiro Manuel Pereira da Silva, por 5$400; 1726 - forro da sacristia; 1740 - reconstrução do arco triunfal por Manuel Monteiro Supico, de Seara; 1747 - o mesmo faz obras no pórtico e executa a imagem do remate da empena; reparação da cobertura, por Leonardo da Silva, por $200 por dia; arco ornamentado com pintura por Manuel José e Luís de Almeida; 1758 - a capela tinha três invocações: Nossa Senhora dos Meninos, Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora da Cadeirinha; a Irmandade patrocinava duas procissões, a de 6.ª feira da Quaresma e o 1.º dia das Ladainhas de Maio; 1805 - transformação do campanário em torre sineira; execução de um dos sinos; 1926 - fundição de um sino por Adriano P. Loureiro, da Granja Nova; 1938 - Irmandade adquire uma imagem processional do orago; 1995, 13 devereiro - Despacho de abertura do processo de classificação pelo presidente do IPPAR; 2003, 28 fevereiro - proposta da DRPorto de classificação como Imóvel de Interesse Público; 2009, 25 fevereiro - proposta da DRCNorte de classificação como Monumento de Interesse Público e fixação da respetiva Zona Especial de Proteção; 2011, 23 novembro - parecer favorável à proposta da DRCNorte pelo Conselho Nacional de cultura; 2012, 04 abril - publicação do projeto de decisão relativo à classificação da capela como Monumento de Interesse Público e fixação da respetiva Zona Especial de Proteção, em Anúncio n.º 7457/2012, DR, 2.ª série, n.º 68.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes.

Materiais

Granito, rebocos, madeiras, azulejos e ferro.

Bibliografia

MARIA, Frei Agostinho de Santa, Santuário Mariano, Lisboa, 1711; LEAL, Augusto Soares D'Azevedo Barbosa de Pinho, Portugal Antigo e Moderno, vol. IV, Lisboa, 1874; AZEVEDO, D. Joaquim de, História Eclesiástica da Cidade e Bispado de Lamego, Porto, 1877; Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 14, Lisboa / Rio de Janeiro, s.d.; CORREIA, Vergílio, Artistas de Lamego, Coimbra, 1923; COSTA, M. Gonçalves da, História Eclesiástica do Bispado e Cidade de Lamego, vols. III e V, Lamego, 1982 e 1986; ALVES, Alexandre, Artistas e Artífices nas Dioceses de Lamego e Viseu, in Beira Alta, vol. XLIII, n.ºs. 1 e 2, Viseu, 1984; LARANJO,F. J. Cordeiro, Capela de Nossa Senhora dos Meninos, Lamego, 1990; ALVES, Alexandre, Artistas e Artífices nas Dioceses de Lamego e Viseu, vol. II, Viseu, 2001.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DREMC

Documentação Administrativa

BCMPorto: Cod. 547

Intervenção Realizada

População do Bairro da Ponte: 1998 - recuperação das coberturas.

Observações

*1 - a imagem da padroeira venerava-se na Sé de Lamego, na capela onde posteriormente foi colocada a de Nossa Senhora do Rosário, adquirida em Roma pelo Bispo D. Manuel de Noronha, tendo então mandado a de Nossa Senhora dos Meninos para onde hoje se encontra.

Autor e Data

João Carvalho 2001

Actualização

 
 
 
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