Cemitério da Colónia Judaica de Faro / Cemitério Israelita de Faro / Museu Israelita

IPA.00001311
Portugal, Faro, Faro, União das freguesias de Faro (Sé e São Pedro)
 
Arquitectura funerária, oitocentista. Cemitério judaico que se insere na tipologia ditada pela tradição sefardita de Marrocos, onde as lápides, em mármore, são colocadas directamente sobre a sepultura. Um dos poucos cemitérios israelitas de Portugal continental, existindo um outro na zona envolvente à Basílica da Estrêla em Lisboa e outro mais recente no Alto de São João na mesma cidade; soma-se ainda o facto de que, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, as sepulturas não são dotadas de lápides à cabeceira, estando antes filiada com a tradição sefardita marroquina, tradição a que este cemitério se encontra historicamente relacionado.
Número IPA Antigo: PT050805050008
 
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Registo

 
Conjunto arquitetónico  Edifício e estrutura  Funerário  Cemitério    

Descrição

Planta rectangular formada por quatro muros de alvenaria caiada de branco de c. de 4m de altura, com tahara *2 de planta rectangular adossada ao canto SO., sendo disposta em comprimento paralelamente ao muro a O.. A fachada na qual se abre ao centro o vão de entrada é a que está orientada a S., sendo parcialmente ocultada pela disposição dos ciprestes plantados no jardim que a precede; o vão de entrada é emoldurado por cantaria, com ombreiras assentes em plintos e encimadas por impostas de onde arranca o arco pleno da verga do portal, tendo este na pedra saliente do fecho a inscrição "5638"; o portal dispõe ainda de dois degraus para o acesso ao interior; este é ainda ladeado por duas pilastras em massa pintadas de cinzento onde assenta um frontão triangular em jeito de empena com a cornija inferior interrompida; as portadas são de ferro pintado de verde, com bandeira vasada na zona interior do arco com um desenho radial. As restantes fachadas apresentam-se lisas e sem qualquer pormenor. A tahara possui cobertura em terraço; fachadas rebocadas e caiadas; fachada principal voltada a E. com porta ao centro emoldurada por cantaria de verga recta e que dá acesso ao compartimento a N., sendo ladeada à esquerda por um pequeno óculo com moldura em cantaria com forma octogonal que ilumina o compartimento a S.; a fachada voltada a N. apresenta apenas um óculo ao centro com moldura de forma oval. Pavimento em calçada portuguesa estando as sepulturas, de pedra e com inscrições em hebraico, dispostas segundo vários sentidos, concentrando-se sobretudo a NE. do espaço *3, entre um carvalho e uma alfarrobeira; o carvalho encontra-se situado junto ao centro do muro N. enquanto a alfarrobeira ocupa um lugar junto ao centro do muro E.. INTERIOR: Tahara dividida em dois espaços, com pavimento em ladrilho cerâmico, pintado a vermelho no compartimento a N.; tecto em abóbada de berço de arco abatido que percorre os dois compartimentos; a parede que divide este espaço em dois compartimentos só sobe até à altura onde arranca a abóbada, tendo ao centro uma porta de comunicação entre os dois compartimentos.

Acessos

Na Estrada da Penha, junto ao Estádio de São Luís e do Hospital Distrital de Faro

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 95/78, DR, 1.ª série, n.º 218 de 12 setembro 1978

Enquadramento

Urbano, planície, ao centro de largo com pavimento em areia batida; perto do Hospital Distrital de Faro, a N. e do Estádio de São Luís, a O.; a S., numa cota inferior à da plataforma onde o imóvel assenta, parque de estacionamento com piso alcatroado que comunica com a plataforma superior por meio de duas escadas de lanço recto; paralelo ao estacionamento, logo imediatamente a uma via de circulação viária, vários prédios de habitação com comércio nos pisos térreos; o portal do cemitério abre-se para esta frente, sendo a respectiva fachada precedida de uma zona ajardinada e vedada, com 18 ciprestes plantados, acompanhando toda a extensão desta fachada; a E. situa-se uma grande rotunda que dá acesso a várias artérias importantes da cidade, com prédios altos de habitação na área envolvente *1.

Descrição Complementar

INSCRIÇÕES: inscrição na pedra sepulcral n.º25, em mármore, correspondente à sepultura do Rabino Joseph Toledano, escrita hebraica; tradução para português: PEDRA SEPULCRAL DO SÁBIO COMPLETO LOUVADO EM ISRAEL, DE ASCENDÊNCIA DE SÁBIOS RABINO JOSEPH TOLEDANO. FALECEU SEXTA-FEIRA 12 DE ADAR DO ANO 5598 (1838). SEJA A SUA ALMA UNIDA AO FEIXE DOS VIVOS; inscrição na pedra sepulcral n.º6, em mármore, correspondente ao último enterramento neste cemitério, escrita hebraica; tradução para português: PEDRA SEPULCRAL DO ANCIÃO ABRAHAM RUAH, QUE DESCANSE EM PAZ, FILHO DE MOISÉS, QUE DESCANSE NO PARAÍSO, UM PRECIOSO COLABORADOR DA IRMANDADE GUAMILUT HASSADIM, FALECEU NO DIA DE SÁBADO SANTO 23 DO MÊS DE TEBET DO ANO 5692 (1932). SEJA A SUA ALMA UNIDA AO FEIXE DOS VIVOS; inscrição em lápide de mármore branco, rectangular situada à esquerda do portal de entrada, com sulcos pintados a preto e sem moldura; tipo de letra: capitais quadradas: CEMITÉRIO JUDAICO DE FARO / IMÓVEL DE INTERESSE PUBLICO / DECRETO-LEI N. 95/78 / FARO JEWISH CEMETERY / REGISTERED NATIONAL HERITAGE SITE; inscrição em lápide de mármore branco, rectangular situada à direita do portal de entrada, com sulcos pintados a preto e sem moldura: 5598-5692 1838-1932 / CEMITÉRIO JUDAICO DE FARO / O único vestígio da primeira presença judaica em Portugal após a inquisição (segue-se a tradução em inglês); inscrição em lápide rectangular, de mármore, situada dentro do recinto ao centro do muro O., com sulcos pintados a preto e sem moldura: In fond and loving memory of Ernestine Westheimer (1919 - 1985). Beloved Mother of Patricia Westheimer; and Milton Price (1901 - 1961), beloved Father of Don David Price. / Dedicated: October 2003.

Utilização Inicial

Funerária: cemitério

Utilização Actual

Cultural e recreativa: museu

Propriedade

Privada: Comunidade Judaica Portuguesa

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 19 / 20

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido

Cronologia

1830, c. de - após a abolição da Inquisição em 1821, um elevado número de mercadores judeus sefarditas de Gibraltar e do Norte de África estabelecem-se no Algarve; a comunidade judaica, conhecida por Pequena Jerusalém, seria composta por sessenta famílias, possuindo uma sinagoga; o responsável por este templo era Isaac Schocron, avô de Isaac Bitton, futuro benfeitor do cemitério; 1838 - o rabi Toledano é enterrado numa zona desabitada nos arredores de Faro, muito próximo de onde sita a Ermida de São Luís ( v.PT050805050061), e que tinha o nome de Vale de Cães; 1851, 29 Dezembro - é realizada a escritura notarial em Faro da compra do terreno onde estava sepultado o Rabi Toledano pelos líderes da comunidade israelita farense, os comerciantes Samuel Amram, Moises Sequerra e Joseph Sicsu, para que aí instalassem o cemitério da comunidade; o terreno pertencia a Luiz Filipe Pereira do Carvalhal, Marechal de Campo reformado, e a sua mulher D. Maria José de Sousa Barros Campeso, residentes em Lisboa, e foi vendido pela quantia de 72 000 rs. pelo procurador destes, António Xavier Gonçalves*4; 1860 - funda-se uma segunda sinagoga em Faro, na mesma rua que a primeira, na R. Castilho, sendo esta duas diferenciadas por uma ser a dos pobres e a outra a dos ricos; 1887 - no arco do portal aparece a data 5638, correspondente à data cristã de 1887, ano que marca a construção do muro que circunda as sepulturas; construiu-se também tahara; 1899 - uma lápide de um judeu falecido em 1315, de nome Joseph Dotomd, possível rabi de Faro nessa data, foi encontrada nos subúrbios da cidade de Faro, tendo sido colocada neste ano na parede fundeira do cemitério, onde permaneceu até ter sido transferida para o Museu Hebraico de Tomar, deslocação que cultivou uma acessa discussão entre várias entidades individuais de Faro e o director do Museu de Tomar e que toma corpo em artigos de jornais locais nos anos quarenta do século 20; 1930, década de - aumentado em altura o muro que circunda o cemitério; as sinagogas deixam de funcionar; 1932 - é enterrado Abraham Ruah, sendo esta a última das 106 sepulturas que repousam neste espaço; 1940, década de - a comunidade judaica de Faro entra em declínio devido à fuga destes para outras cidades; 1953 - só existia um judeu na cidade de Faro; 1965 - o advogado Semtob Sequerra doa 2500m2 do terreno do cemitério ao município de Faro para a construção de uma escola primária; 1971 - expropriação do terreno a N. do cemitério para a construção do Hospital Distrital de Faro; 1978, 12 Setembro - o cemitério é declarado como imóvel de interesse público, título a que se deve à proposta do Dr. Mário Lyster Franco, de Faro; 1980, Maio - é feito um inventário das sepulturas do cemitério por Sam Levy, que copiou as inscrições, por José Maria Raposo de Sousa Abecassis, que as fotografou, e por Lourenço Léchaud Assor que limpou as pedras sepulcrais, sendo a tradução das incrições da autoria do Rabino Abraham Assor de Lisboa; 1984 - Isaac "Ike" Bitton funda Faro Cemetery Restoration Fund Inc em Illinois (E.U.A.), visando angariar fundos para a recuperação do cemitério, entregando as somas colectadas à Comunidade Israelita de Lisboa; 1991 - Ralf Pinto e sua mulher Judy Pinto, estabelecem a Comunidade Judaica do Algarve, após a celebração de Chanukah, ficando esta sediada em Portimão; 1992 - o líder da comunidade judaica algarvia visita o cemitério, transmitindo de seguida a Isaac Bitton os seus planos para a restauração do cemitério, acabando por ser nomeado como Director das Operações; a Comunidade Israelita de Lisboa disponibiliza o dinheiro necessário para as obras que se seguem; no fim deste ano as obras eram dadas como terminadas, tendo ainda sido estabelecido um pequeno museu na casa da antiga tahara, sendo este aberto ao público; a equipa de restauro foi liderada por Gideon Gil, arquitecto paisagísta; nestes trabalhos foram retiradas as ervas daninhas, pinaram-se os muros e a casa, sendo ainda ajardinada a zona exterior pela Câmara Municipal de Faro; foi ainda necessário aplicar um tratamento químico nos mármores das sepulturas uma vez que estes se apresentavam descolorados, tendo sido de igual forma necessário proceder a reparos estruturais; dentro deste projecto de restauro estava previsto a criação de uma zona ajardinada em torno do cemitério, cortada por vários caminhos pedestres, que não foi concretizado; 1993, 16 Maio - inauguração do cemitério sob a dedicação ao Dr. Aristides de Sousa Mendes, contando esta cerimónia com 400 convidados, contando entre estes o Presidente da República, Dr. Mário Soares, o bispo do Algarve, Dom Manuel Madureira Dias, o Governador Civil, Sr. Cabrita Neto, o presidente da câmara municipal de Faro, Dr. Botelheiro, Isaac Bitton, Ralf Pinto, os representantes do Duque de Bragança, os embaixadores de Israel e da África do Sul, entre outros; nesta cerimónia é plantado o primeiro dos 18 ciprestes que se situam frente ao cemitério, oferecidos por Leonard Oblowitz em honra do Dr. Aristides de Sousa Mendes; 1996 - a Comunidade Israelita de Lisboa assina um protocolo com a Câmara Municipal de Faro; Isaac Bitton produz um documentário de 30mn sobre o cemitério, intitulado de "Without the Past", ganhando com este a medalha de bronze no concurso da USA Tellyawards em 1999; 2003, 18 Maio - celebração do 10º aniversário da rededicação do cemitério, sendo apresentadas duas lápides, uma referente à doação do terreno da comunidade em 1965 para a construção de uma escola primária, e outra relativa à dedicação do museu a Isaac Bitton.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes (tahara)

Materiais

Estrutura de alvenaria, com pavimento em calçada portuguesa no espaço aberto e em ladrilho cerâmico na tahara; vãos emoldurados por cantaria com portadas e caixilharia de ferro no portal principal e de madeira na tahara, com vidro nas janelas desta última; sepulturas e lápides de identificação em mármore.

Bibliografia

ABECASSIS, José Maria, Os Judeus no Algarve Medieval e o Cemitério Israelita de Faro (levantamento epigráfico), Anais do Município de Faro, vol. XV, Faro, 1985; IDEM, Geneologia Hebraica - Portugal - Séc. XIX e XX, Faro, 1986; CESANA, Laura, Vestígios hebraicos em Portugal - viagens de uma pintora, Lisboa, 1997; FRANCO, Mário Lyster, O caso da inscrição hebraica removida para Tomar (...), Correio do Sul, Faro, 11 de Janeiro, 1945; FRANCO, Lyster, Breve Notícia da Presença dos Judeus no Algarve, Faro, 1978; IRIA, Alberto, Os Judeus no Algarve medieval e o cemitério israelita em Faro do século XIX (História e Epigrafia), Anais do Município de Faro, vol. XIV, Faro, 1984; LAMEIRA, Francisco, Faro. Edificações Notáveis, Faro, 1995; LAMEIRA, Francisco Ildefonso, Faro - A Arte na História da Cidade, Faro, 1999; MASCARENHAS, J. Fernandes, Dois documentos arqueológicos recentemente achados sobre os Judeus no Algarve, Faro, 1980; PINTO, Ralf, Cemitério Israelita de Faro e Museu (...), (prospeto), Faro, 1997; IDEM, O Renascimento da Comunidade Judaica do Algarve e outros acontecimentos judaicos em Portugal: 1991-2000, Portimão, ed. do autor, 2000; SCHWARZ, Samoel, O caso da inscrição hebraica de faro removida para o Museu Hebraico de Tomar, Correio do Sul, Faro, 25 Junho 1945; WEINHOLTZ, Justino de Bivar, A propósito da lápide do Cemitério Israelita, O Algarve, Faro, 7 Janeiro, 1945.

Documentação Gráfica

CMF: Gabinete Técnico Local

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

Intervenção Realizada

Proprietário: 1992 - pintura dos muros e da casa; remoção da vegetação invasora; colocação de calçada portuguesa; tratamento químico dos mármores das sepulturas e respectiva reparação das partes danificadas.

Observações

*1- a actual envolvente do imóvel é relativamente recente, tendo substituído a original paisagem erma que recebeu a fundação do cemitério; *2 - a tahara corresponde ao espaço onde os corpos são lavados e onde se reza; *3 - as sepulturas mais antigas situam-se ao centro do espaço do cemitério, encontrando-se entre estas a sepultura do Rabino Joseph Toledano (campa nº25), sendo esta a única que se encontra envolvida por um murete que acompanha a forma da campa; as campas das mulheres ocupam uma zona separada do restante conjunto de sepulturas; *4 - o notário responsável foi o Licenciado Januário Severiano Daniel dos Reis.

Autor e Data

João Neto 1991 / Daniel Giebels 2005

Actualização

 
 
 
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