Jardins e Mata da Quinta da Ínsua / Jardins e mata da Quinta do Solar dos Albuquerques

IPA.00010317
Portugal, Viseu, Penalva do Castelo, Ínsua
 
Espaço verde de recreio e de produção agrícola e florestal. Jardim de estilob barroco do séc. 18, de desenho simétrico e abunância de linhas curvas de geometria complexa; Mata estilo inglês séc. 18, de linhas orgânicas e colecção de árvores de flora exótica; Arte nova na decoração dos gradeamentos dos portões de ferro forjado. A quinta detém um dos exemplos mais significativos de matas de recreio do séc. 18 do nosso país, caracterizadas pela introdução de nova flora proveniente das antigas colónias portuguesas. Aproveitamento para construção de planimetria medieval, já que há notícia e vestígios de construção do séc.16, o que leva a supôr ter existido outra anteriormente; Em VITERBO, 1909, Marques Loureiro resume a quinta em 1890: "As matas principalmente são de uma beleza surpreendente, e quem as visita pela primeira vez, reconhece claramente que a sua plantação fora desde logo subordinada a um plano geral, plano que patentai os muitos conhecimentos de quem os desenhou."; Numa carta escrita em 1909, o então proprietário Manuel de Albuquerque decreve assim a composição: "a parte murada e arborizada tem approximadamente 40 hectares, fechada por um muro de 2 a 3 metros de alto. As principaes ruas têem 4m, 40 de largo (4 varas) de fórma que póde ser percorrida facilmente de carruagem. Essas ruas são todas arborizadas, sendo as mais notáveis uma rua de buxo, formando abobada, plantada em 1775, com 300 metros de comprimento em linha recta, uma de Cedros do Bussaco, provavelmente da mesma data, uma de Palmeiras, uma de Avelleiras, e outras de Carvalhas."; Segundo Binney, "as janelas pontiagudas e os telhados baixos (...) emprestam-lhe um toque exótico das casas das longínquas antigas colónias portuguesas."; Segundo ARAÚJO, 1974, "estes Cupressus foram plantados em 1836, assim como as variadíssimas essências que fazem parte da mata adjacente"; Os paineis de base das esculturas alegóricas (Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança), repetem os temas ilustrados na casa de fresco da Quinta da Bacalhoa, datada de 1532; Relativamente aos exemplares únicos de árvores exóticas ou de grande porte, diz Ilídio de Araújo, no "chamado jardim inglês, entre muitas outras árvores diversas de merecimento encontram-se dois Taxodium sempervirens de um tamanho colossal; alguns Abies e Criptomeria japonica como ainda não vi em parte alguma. [...] A rua das Palmeiras orlada de Chamaerops excelsa mede 250 metros de comprimento. Esta avenida de construção ainda recente será de futuro um local encantador. Encontra-se ali um bosque de loureiros (Laurus nobilis) que medem para cima de 35 metros de altura. Junto deste bosque há um grupo de Populus pyramidalis (choupos de porte colunar), árvores ainda pouco conhecidas entre nós e que fazem um efeito admirável. Estes choupos (...) devem estar plantados há cerca de 44 anos, logo depois que o Sr. João de Albuquerque regressou de uma viagem que fez ao estrangeiro, onde naturalmente os adquiriu. Além destas ruas há uma outra de 760 metros de comprido, arborizada em toda a sua extensão com Eucalyptus globulus plantados há 15 ou 16 anos, e que medem já cerca de 30 metros de altura." ; As japoneiras talhadas em pequenas casas de fresco, as ruas de buxos, os tabuleiros de jardins colocados numa sequência de patamares e ainda a frondosa mata que envolve a quinta, fazem dos jardins de Ínsua o mais completo exemplo de traçado paisagístico chegado até nós na região da Beira; lenda: cavaleiro antepassado de João de Albuquerque aparecia nos jardins e mata por vezes num cavalo branco.
Número IPA Antigo: PT021811050015
 
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Registo

 
Espaço verde  Conjunto de espaços verdes        

Descrição

Extensa propriedade destaca-se na paisagem por mancha escura de árvores cercada por sistema reticulado de muros de pedra e alinhamentos que delimitam diversos talhões de produção, compartimentando terrenos envolventes. Cinco portões de entrada, cada com denominação própria: Portão da Mata, da Meia-Laranja, do Barato, Principal e da Sereia. Todos têm composição diferenciada, tendo na sua maioria sido construídos no fim do séc. 19, altura de grandes intervenções estéticas na propriedade. Portão da Sereia é o mais importante, composto por tríptico de portões separados por largos pilares de granito, sobre os quais se apoia estrutura de colunelos encimados por figuras esculpidas com referências ao mundo clássico. Incrição em latim declara: "COM MUITA SATISFAÇÃO, SAUDAMOS OS NOSSOS CONVIDADOS". A entrada actual faz-se através do Portão Principal, perto do alçado NE. da casa e do jardim francês. Átrio de acesso à porta de entrada da casa não é visível de fora e tem ao centro enorme fonte, formada por vários andares de taças esculpidas e no topo uma capela com torre sineira, e é cercado por plátanos, tulipeiros e magnólias. Na parte posterior da casa, a seguir a átrio da casa e com acesso através de arco de passagem para a quinta, existe pátio mais rural com edificações para fins de lavoura. Para SE. inicia percurso na mata através de rua ladeada por antigos e grandes exemplares de buxo. Este cruza com rua perpendicular que atravessa topo da mata, formando largo rodeado por assentos datados de 1775. Bancos ornamentados a azulejos são encimados por esculturas alegóricas, que representam as quatro virtudes morais: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança, repetindo os temas ilustrados na Casa de Fresco da Quinta da Bacalhoa, valores próprios da família detentora de cargos como vice-rei de Goa ou governador no Mato-Grosso. Deste largo em direcção a NE., surge embutida no caminho uma plataforma circular rebaixada, pontuada por tanque com mesmo formato. Esta composição, de traço barroco, é delimitada por balaustrada em pedra, em forma de semi-círculo, da qual partem duas escadarias simétricas, dispostas no alinhamento recto da mata. Através de caminhos agora orgânicos e labirínticos chega-se a outra clareira da mata, onde se encontra oratório com a Virgem e o Menino em terracota, assinado por Luigi Battistini. Cada alameda da mata tem uma espécie que a caracteriza, sendo evidentes uma de buxo em abobada, uma de Cedros-do-Buçaco, uma de Palmeiras, uma de Aveleiras e outras de Carvalhos, tendo nomes das senhoras da família, Camila de Faria, de 340 m., toda coberta de ciprestes de mais de 50m de altura, ou a Rua Laura, a Rua Luísa, a Rua Maria e a Rua Emília, todas elas referenciadas por exemplares arbóreos exóticos e com comprimentos superiores a 150 m., como sequóia-da-califórnia (fêmea e macho juntos), ou cedro-do-líbano (famoso no Cântico dos cânticos, da bíblia), pau-brasil, azevinho ou eucalipto de 60m. Perto do torreão nascente, ao nível do primeiro piso da habitação e em terraço superior ao jardim de buxo, existe bosquete com traçado romântico, pelas linhas orgânicas, característico do séc. 19. Neste jardim, de estilo inglês, encontra-se teixo (Taxodium sempervirens) de tamanho colossal, alguns abetos e criptomeria. Distingue-se na parte anterior da casa jardim formal, de estilo francês com traçado geométrico e canteiros rodeados de buxo, representando formas originais como cornucópias, vasos ou leques. Centro do parterre com clareira delimitada a altas sebes de cameleiras (Fevereiro em floração com cerca de 60 variedades de camelias) com quatro arcos rigorosamente topiados *2, envolve tanque circular em pedra, onde crescem nelumbos, planta da flor-de-lotus, espécie muito rara nos jardins portugueses. Interessante pela raridade, embora se manifeste apenas em 48h do ano, momento em que atinge floração. De um dos lados existe magnólia única de espécie pouco usual, caduca, tendo normalmente porte arbustivo, mas neste caso atingindo dezenas de metros pela sua idade (de 1842), tendo sido das primeiras plantadas em Portugal. Existe ainda flor-de-lis talhada em buxo, encomendada para comemorar o casamento do actual proprietário, estando também associada ao brasão da família. Existe junto à frontaria enorme lago rectangular, onde há cisnes, patos e nenúfares que a reflecte e junto estátua de Senhora de Cortesia, que costumava estar à porta da propriedade, hoje sobre relógio de sol junto a escadaria de acesso ao jardim inglês.

Acessos

EN 329 do centro de Penalva do Castelo, para 239-1, a 600m no lugar da Ínsua, na Rua Luís de Albuquerque.

Protecção

Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto n.º 29/84, DR, 1.ª série, n.º 145 de 25 junho 1984 *1

Enquadramento

Rural, pequena urbanização da Ínsua e casario simples de arquitectura com dominância do granito; Isolado e destacado, tanto a nível de relevo pela imponência e monumentalidade em relação à envolvente; separado por muros; extensos campos de vinha e mata.

Descrição Complementar

"A parte murada e arborizada tem aproximadamente 40 hectares, fechada por um muro de 2 a 3 metros de alto e orlada de cyprestes em distâncias iguais em número de 400 aproximadamente, e 25 a 30 metros de alto. As principais ruas têm 4,40 m de largo ( 4 varas) de forma que pode ser percorrida facilmente de carruagem. Essas ruas são todas arborizadas, sendo as mais notáveis uma rua de buxo, formando abobadado, plantada em 1775 com 300 metros de comprimento em linha recta; uma de cedros do Bussaco, provavelmente da mesma data uma de Palmeiras, uma de Abelheiras e outra de Carvalhos.(...)" (descrição da quinta, escrita por Manuel de Albuquerque)

Utilização Inicial

Produtiva: mata / Recreativa: jardim

Utilização Actual

Produtiva: mata / Recreativa: jardim

Propriedade

Privada: Pessoa singular

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 16 / 18 / 19 / 20

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITECTO PAISAGISTA: Gonçalo Ribeiro Telles (1971).

Cronologia

Séc. 16 - foi mandada construir a primitiva casa por João Albuquerque e Castro, alcaide-mor do Sabugal, de que restam ainda vestígios; 1770/1780- provável (re)construção por Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres (1739-1797), governador e capitão-general de Mato Grosso; 1775 - colocação na mata de bancos ornamentados de azulejo com esculturas alegóricas das quatro virtudes morais, plantação de buxo a preencher as sebes de uma das ruas; 1836 - plantação de Cupressus em alamedas e na mata; 1842- plantação de uma magnólia; 1876 - construção do portão de meia-laranja; séc. 19 - insersão na mata de outros exemplares trazidos de diversas partes do mundo, nomeadamente do hemisfério norte, tirando partido da melhoria das técnicas de acondicionamento e transporte que entretanto possibilitaram a introdução de novas espécies nos jardins da época; 1901- Nicola Bigaglia constrói a Casa da Guarda da Mata e a fonte do pátio e restaura as salas de jantar de Luís XIV; atribui-se-lhe a construção dos portões; 1909 - Luigi Battistini executa o altar (com a Virgem e o Menino) ao ar livre de terracota e azulejos da capela; 1971 - o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles elabora um projecto de ordenamento paisagistico da mata que foi executado posteriormente.

Dados Técnicos

muros de suporte: granito; Cantaria; Construção de alvenaria de granito; topiária.

Materiais

Inerte: Granito, alvenaria, madeira, ferro; Vegetal: sequóia da califórnia (Sequoia semprevirens), cedro-do-líbano (Cedrus libani), pau-brasil (Caesalpinia echinata), azevinho (Ilex aquifolium), eucalipto (Eucalyptus globullus), cameleira (Camellia japonica), flor-de-lotus (Nelumbo nucifera), magnólia-caduca (Magnolia heptapeta), buxo (Buxus sempervirens), salvia (Salvia splendens), alfazema (Lavandula officinalis), roseiras (brava: Rosa canina; galica: Rosa gallica; de-damasco: Rosa damascena), lantana (Lantana camara, aurea, montevidensis), crisântemos (Dendranthema x grandiflorum), vinha-japonica (Parthenossissus tricuspidata), feto (Pteridium aquilinum, Asplenium obovatum), laranjeiro (Citrus sinensis), limoeiro (Citrus limon), plátano (Platanus hybrida), escalonia (Escalonia rubra), hera (Hedera helix), agapantos (Agapanthus africanus), cipreste (Cupressus sempervirens), freixo (Fraxinus angustifolia), teixo de grande porte (Taxus semprevirens), tulipeiro (Liriodendron tulipifera), cedro-do-buçaco (Cupressus lusitanica Mill.), palmeiras (Chamaerops excelsa), aveleira (Corylus avellana), abetos (Abies sp), cedro-japonês (Criptomeria japonica), flor-de-lis (Sprekelia formosissima), lavandula (Lavandula pedunculata, multifida…), Ameixoeira-dos-jardins (Prunus cerasífera), tília (Tilia cordata), castanheiro (Aesculus hippocastanum), pinheiro-bravo (Pinus pinaster).

Bibliografia

VITERBO, Sousa, A Jardinagem em Portugal, O Instituto - Revista Scientifica e Literária, série II, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1909; ARAÚJO, Ilídio de, Quintas de Recreio (Breve introdução ao seu estudo com especial consideração das que em Portugal foram ordenadas durante o século XVIII), separata da revista Bracara Augusta, Braga, Livraria Cruz, 1974; CARITA, Helder, HOMEM CARDOSO, António, Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal ou da originalidade e desaires desta arte, 1990, p. 252 - 253, 263, 278, 279; GIL, Júlio, Os mais belos palácios de Portugal, Editora Verbo, Lisboa, 1992; BOWE, Patrick, BINNEY, Markus, Casas e Jardins de Portugal, Lisboa, Livros Quetzal, 1998; CASTEL-BRANCO, Cristina, Jardins com História, Poesia Atrás dos Musros, Edições INAPA, Lisboa, 2002; CARAPINHA, Aurora e TEIXEIRA, J. Monterroso, A Utopia com os pés na Terra. Gonçalo Ribeiro Telles, 2003; http://arqpapel.fa.utl.pt/jumpbox/node/74?proj=Restaura%C3%A7%C3%A3o+do+Pal%C3%A1cio+Manuel+de+Albuquerque+-+Quinta+da+Insua, 12 Setembro 2011; http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/74675 [consultado em 28 dezembro 2016].

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSID, Arquivo Pessoal de Gonçalo Ribeiro Telles; Arquivo da Casa da Ínsua

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

IHRU: DGEMN/DSID, DGEMN/DSARH

Intervenção Realizada

Observações

*1 - DOF: Casa da Ínsua, também conhecida pelo Solar dos Albuquerques, incluindo todo o conjunto formado pelos jardins, logradouro, lagos, portões e a parte norte da quinta.* 2 - Foi visitada pela Secção Portuguesa da Sociedade Internacional das Camélias, no âmbito da "Visita às Camélias da Beira Alta"; Em 1909, já havia electricidade na casa; fábrica de gelo. Visitas guiadas ao jardim com marcações em www.casadainsua.pt

Autor e Data

Luísa Estadão 2004

Actualização

Luísa Estadão 2007
 
 
 
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