Mosteiro do Santíssimo Sacramento / Convento dos Vimiosos

IPA.00006539
Portugal, Lisboa, Lisboa, Estrela
 
Arquitectura religiosa, renascentista, maneirista, barroca. Mosteiro feminino de Dominicanas com igreja de planta centralizada, apoiada em arcarias que definem uma cruz grega de linhas serlianas, influenciada tardiamente pela Renascença Italiana.
Número IPA Antigo: PT031106260445
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Convento / Mosteiro  Mosteiro feminino  Ordem de São Domingos - Dominicanas

Descrição

Planta composta por 4 corpos articulados, dispostos horizontalmente com 2 pisos cada e coberturas diferenciadas de 2 e 4 águas e cúpula. IGREJA de nave única e planta quadrada, orientada a E.. Cunhais de pedra aparelhada, iluminada por 6 janelas laterais; 2 ao nível do piso térreo, 2 nas galerias e 2 óculos no arranque do zimbório, rematado por 4 janelas da cúpula em arco abatido. Capela-mor com 2 aberturas a nascente. Eleva-se sobre 8 arcos estruturais maneiristas de volta perfeita e travejam o corpo central através de 2 galerias laterais independentes com uma abertura central no piso térreo e 3 arcos de volta perfeita ao nível do primeiro. Estas abraçam a igreja a N. e a S., decoradas com pilastras contratravadas com friso em anel, apoiado nos arcos, de onde arranca o zimbório. Acesso às galerias feito por 2 escadas que arrancam dos cantos SO. e NE.. Torre Sineira orientada a N.. com pequena janela a meia altura, e remate com aberturas de ressonância em arcos de volta perfeita. Acesso por Portal maneirista, em mármore, apoiado à esquerda por cunhal, e encimado por frontão em arco abatido, interrompido por custódia. Corredor lateral de acesso que percorre a igreja no sentido N. / S., revestido com silhares de azulejos do início do séc. 18 com influências do 17. Ao fundo uma pia de água benta em mármore, datada de 1703, inserida num painel de azulejos de 1720 - ciclo dos mestres - representando serafins segurando em reposteiros, encimados por barra representando brocados. O corredor abre para a igreja, por arco de volta perfeita, outrora com portadas. Capela-mor recuada, rematada por cúpula heptagonal com estuques. Sacristia sob a capela-mor, em abóbada de cruz rematada com as armas dos dominicanos, iluminada por 2 pequenas janelas, forrada com silhares de azulejos azuis e brancos dos finais do séc. 17. Coro Alto, por cima do corredor de entrada, separado da igreja por 2 grades com picos em ferro. DORMITÓRIO: corpo rectangular com espaços diferenciados que percorre a área entre a igreja, a E., e o claustro, a O.. Engloba no piso inferior: Cozinhas abobadadas, actual portaria, das quais subsistem os azulejos de figura avulsa, com o esponjado por cima de uma barra de padrão; Confessionários e Refeitório, actual museu, recheado com colecção de azulejos de figura avulsa, tanto da fase inicial da azulejaria rococó como da pombalina. Piso superior - dividido longitudinalmente por corredor distributivo com acesso à igreja, e serve a S. uma sequência de celas estreitas. A N. encontra-se as escadarias, o ante-coro e o coro-alto, ambos iluminados por 2 grandes janelas rectangulares, elevadas e gradeadas. Ante-coro com tectos abobadados. Porta de acesso ao coro-alto encimada por nicho, tendo à direita, uma pequena pia de água benta em mármore encarniçado. Paredes forradas a azulejos azuis de padrão de camélias dos finais do séc. 17. Cercadura da mesma época mas já com movimento barroco. Coro-Alto actualmente compartimentado em 2. Pintura do Joanino tardio no tecto e um silhar de azulejos seiscentistas, com cercadura de sanefa a envolver o pano de fundo branco. CLAUSTRO de 2 pisos, implantado a poente com 5 tramos por ala. Abre para a quadra por 40 arcos de volta perfeita intercalados por aberturas rectangulares. Envolvido a N. e E. por acrescento oitocentista. Entrada do convento por antigo alpendre com silhar Joanino da primeira metade do séc. 18, cujo pano interior representa golfinhos e jarros floridos com carrancas, separados por palmitos, adaptado a uma moldura de composição arquitectónica, recolocada invertidamente. Porta conducente ao claustro através de corredor revestido por silhares de azulejos de padrão azuis e brancos dos finais do séc. 17, que tem ao centro uma fonte octogonal em mármore branco com 4 carrancas. Piso Térreo: Casa Mortuária ( actual bar ) anexa ao que foi uma pequena capela (actual balcão do bar), abre para o claustro, revestida com azulejos Joaninos e vestígios de pinturas no tecto; Escadarias de acesso ao Claustro Superior revestidas a silhares de azulejos ilustrativos da transição do período Joanino para a 1ª fase rococó. No topo do 1º lanço, 2 emblemas de forma oval, compostos por azulejos flamejantes azuis e brancos, do segundo período da azulejaria rococó. Claustro Superior composto por varandas, hoje envidraçadas, com rodapés revestidos por azulejos de xadrez azul e branco do início do séc. 17. No beiral está encastrado um relógio de Sol com carranca em relevo, datado de 1710. SALA DO CAPÍTULO: resulta do alargamento para S. decorrido por volta de 1750. Destaca-se das dependências conventuais, com as quais comunica por pequeno passadiço. No piso superior funcionam as secretarias. Tem 3 janelas a poente, 2 elevadas a nascente, e 2 rasgadas a S.. Revestida por albarradas do final do séc. 17, transição para o 18. Tectos de masseira barrocos, pintados com representações iconográficas. A nascente, um nicho em consola iluminado por 2 pequenas janelas laterais. Piso assente em viga e pilar de madeira escorado, que descarrega no piso térreo, de estrutura auto-portante semelhante ao superior.

Acessos

Rua do Sacramento a Alcântara, n.º 53

Protecção

Incluído na Zona Especial de Proteção do Palácio das Necessidades (v. IPA.00006541)

Enquadramento

Urbano. Corpo desenvolvido a meia encosta, ao longo do rio, no sentido E. / O.. Delimitado a N. pela Rua do Sacramento a Alcântara, para a qual se abre o pátio gradeado envolvido em U pelas dependências conventuais. Adossado a E. ao edifício afecto à Associaçao dos Deficientes das Forças Armadas, a S., ao pátio do edifício da Armada e a S. e E., pela Rua Tenente Valadim.

Descrição Complementar

Azulejos seiscentistas do coro-alto dispostos em adaptação invulgar que provavelmente serviu de fundo à imagem de Cristo Crucificado que aqui existiu até 1897. Albarrada joanina e vários azulejos dispostos desordenadamente. Silhar de azulejos do alpendre da entrada do convento. Fonte do Claustro com carrancas da (provavelmente da autoria de João Antunes, fim do séc.17), por onde jorrava água proveniente primeiramente de uma bica natural e posteriormente do Aqueduto das Águas Livres (abastecimento dos sobejos do chafariz da Armada, alimentado por ramal de acesso da galeria das Necessidades). Tectos em abóbada de berço, da antiga capela, apresentando parte de antigas pinturas representando uma chibata e um chicote. Escadarias de acesso ao Claustro Superior revestidas por azulejos com motivos movimentados e frágeis, como as asas de morcego, acompanhadas por elementos vegetais e concheados soltos. Silhar Joanino (no arranque das escadarias) representando cesto de flores com barra de volutas em negativo. Exeptuando o ultimo degrau, cujo espelho representando sanefa amarela, remonta à 1ª metade do séc. 17, todos os outros têm o espelho revestido a esponjado pombalino azul e branco, do séc. 18, idêntico ao rodapé de preenchimento. No topo do primeiro lanço de escadarias, um painel de azulejos pombalinos simboliza o emblema dos Dominicanos e o de Nossa Senhora do Rosário, amparados cada um por 2 querubins, que mais fluidos, contrastam com a massa carregada dos concheados envolventes, ligados cerradamente em torno do motivo central. Albarradas da Sala do Capítulo representando vasos escamados, ainda com contornos escuros do manganês, embora já com mistura de cobalto para abrir o tom. Tectos de masseira pintados da Sala do Capítulo. Medalhão lateral (a poente) não identificável. Com traços forçosamente mais livres e dinâmicos, devido à moldura triangular, os cantos do tecto aparentam o estilo rococó.

Utilização Inicial

Religiosa: mosteiro feminino

Utilização Actual

Assistencial: recolhimento

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

Sem afectação

Época Construção

Séc. 17

Arquitecto / Construtor / Autor

Cronologia

1605, 20 outubro - escritura lavrada em Évora a ceder terrenos pelo aposentador-mor Lourenço de Sousa; 1607 - os condes de Vimioso comprometem os bens, desistindo de todos os direitos e regalias que proviessem da sua benfeiturança; iniciou-se a construção com decisiva intervenção do Dominicano Frei João de Portugal; 1612, 7 janeiro - lançada a primeira pedra *1, por D. Aleixo de Menezes, arcebispo de Braga, que fora primaz de Goa e de Espanha; 1620 - conclusão da igreja; 1635 - igreja reformulada e ampliada pelo vigário Padre Mestre Frei João de Vasconcello; séc. 18 - execução de um presépio em terracota *2; 1747 - Soror Maria do Rosário, feiticeira declarada possessa do Demónio, provoca inquietação com fenómenos extraordinários, vindo a ser presa pela Inquisição, juntamente com um grupo de seguidoras, as "bruxas da Pampulha"; 1755, 1 novembro - pequenos estragos com o terramoto, em virtude dos gigantes que sustentavam as paredes e das características das fundações, sendo prontamente reparado; 1756 - afetado por duas medidas pombalinas: proibição de admissão de noviças sem licença régia e substituição dos dotes por pensões vitalícias; 1758, 27 abril - nas Memórias Paroquiais, assinadas pelo pároco de Santos-o-Velho, Gonçalo Nobre da Silveira, é referido o Convento, como sendo do padroado dos Marqueses de Valença; 1760 - a comunidade religiosa envolve-se em luta política; 1765 - deposição da prioresa e prisão das religiosas; 1781 - inicia-se exposição do Santíssimo às quintas-feiras, das 20 às 21 horas, o que perduraria até 1910; 1833 - segundo Luís Gonzaga Pereira, a igreja é pequena, quadrada, com capela-mor contendo quatro nichos e as colaterais de Nossa Senhora do Rosário no lado do Evangelho; cobertura em estuque e retábulos de talha; 1834 - extinção das ordens religiosas; vários presépios provenientes de espaços conventuais foram depositados no imóvel; 1889 - 1895 - algumas parcelas do imóvel e terrenos adjacentes foram, através de várias portarias, concedidas provisoriamente à Associação Protetora de Meninas Pobres, mais tarde Associação das Irmãs Terceiras de São Domingos; 1895 - parte do terreno contíguo ao convento é cedido à CMLisboa, para alargamento da Rua do Sacramento a Alcântara; 1897 - na capela-mor, existia até esta data um retábulo em talha dourada que ocupava toda a extensão desta, contendo segundo a descrição de Frei Luís de Sousa: as 7 Colunas da Sabedoria, uma Imagem de Nossa Senhora com o Menino nos braços, 4 imagens em madeira revestida a talha, de grande beleza e dimensoes reais, estando á esquerda São Domingos dando a mão a São Tomás, e à direita São Francisco e Santo António de Lisboa, 2 anjos venerando o Santíssimo, exposto num ostensório / tabernáculo - Sol suportado por um terceiro anjo; existiam também 2 capelas laterais, menores, inseridas nos arcos portantes onde se notam vestígios do seu adossamento à estrutura; 1911, 23 agosto - instala-se na ala poente a Academia das Ciências, que lá permaneceu até 1916; 1916, 12 março - foi determinado que a restante parte do extinto Convento (excluindo a cedida à Academia das Ciências, ao Dispensário Popular de Alcântara e a repartição da Administração e do Registo Civil) que ainda se encontrava sob a administração da Comissão Jurisdicional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas, foi cedida a título precário ao Ministério da Guerra para instalação dos serviços dependentes do Depósito Central de Fardamento; 1922 - construção da garagem que se prolonga para a parada N., ocupando o que foi um pequeno jardim quadrangular; 1936 - o Depósito Geral de Material de Aquartelamento encetou diligências no sentido de obter a cedência de várias dependências do convento; celebração de dois contratos, sendo a referida Comissão Jurisdiscional dos Bens Culturais do Ministério da Justiça a entidade locadora; 1954, 14 dezembro - a Direcção-Geral da Fazenda Pública impoe à D.G.M.A. renda anual a título de indemnização pela ocupação do imóvel, no valor de 36.000$00; 1962 - renda: 41.000$00.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes / Estrutura autónoma

Materiais

Alvenaria, mármore, calcário, madeira ferro, tellhas, vidro ladrilhos, estuques, betão armado.

Bibliografia

AMADO, P. José de Sousa, Vida de Sta. Stephania, seguida de uma memória do Mosteiro do Sacramento em Alcântara, Lisboa, 1858; ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, Livro IX, Lisboa s/d.; CAEIRO, Baltazar de Matos, Os Conventos de Lisboa, Lisboa, 1989; CASTILHO, Júlio, Lisboa Antiga, A Ribeira de Lisboa, Lisboa, 1938; CERQUEIRA, Cruz, Quem foi o arquitecto de S.Domingos de Benfica e do Sacramento de Alcântara, Jornal A Voz, 19/10/1933, Lisboa; FREIRE (MÁRIO), João Paulo, Alcântara, apontamentos para uma monografia, Coimbra, 1929; Guia de Portugal I - Generalidades, Lisboa e Arredores, Lisboa 1924; História dos Mosteiros - Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, Tomo II, Lisboa, 1972; Imagens do Porto de Lisboa, Administração Geral do Porto de Lisboa, s/d; LEAL, Pinho, Portugal Antigo e Moderno, Lisboa 1873; LIMA, Maria Amélia Fonseca Freire de, Alcântara, Evolução de um bairro de Lisboa - Dissertação de Geografia apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa 1971; MATOS, Alfredo, PORTUGAL, Fernando, Lisboa em 1758. Memórias Paroquiais de Lisboa, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1974; MECO, José, Azulejaria Portuguesa, Lisboa, 1985; Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Tomo III, Lisboa, 1988; NABAIS, António José Castanheira Maia e RAMOS, Paulo Oliveira, 100 Anos do Porto de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa, Lisboa, 1987; PAIS, Alexandre Manuel Nobre da Silva, Presépios Portugueses Monumentais do século XVIII em Terracota [dissertação de Mestrado na Universidade Nova de Lisboa ], Lisboa, 1998; PEREIRA, Esteves e RODRIGUES, Guilherme, Portugal, Vol. IV - L, Lisboa 1885; PEREIRA, Luís Gonzaga - Monumentos Sacros de Lisboa em 1833. Lisboa: Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1927; SILVA, Augusto Vieira da, Dispersos, Vol II e III, Lisboa 1960; SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo, Dicionário da História de Lisboa, Lisboa 1994.

Documentação Gráfica

IHRU: DGEMN/DSARH

Documentação Fotográfica

IHRU: DGEMN/DRMLisboa

Documentação Administrativa

CML: Arquivo do Arco do Cego, Gabinete de Estudos Olisiponenses, Arquivo do Alto da Eira, Arquivo Histórico de Lisboa, Arquivo Fotográfico, Museu da Cidade; Arquivo Histórico Militar; Arquivo Geral da Marinha; DGA/TT

Intervenção Realizada

1935 - Arranque dos degraus e altar, e reparação dos pavimentos e paredes; 1970 - reparação dos tectos, pavimentos e rodapés, emparedamento dos vãos de comunicação para o claustro e outras dependências, que se encontravam fechados por portas de madeira.

Observações

*1 - a pedra tinha grande inscrição gravada, dando conta do acto e invocando a Divindade do Senhor Jesus; talvez entaipada ou parte integrante das fundações, não foi encontrada. *2 - integra o espólio do Museu Nacional de Arte Antiga.

Autor e Data

Pereira Coutinho 1995

Actualização

Cecília Matias 1999
 
 
 
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