Paço Episcopal e Capela anexa

IPA.00004131
Portugal, Ilha da Madeira (Madeira), Funchal, Funchal (Sé)
 
Arquitectura civil e religiosa maneirista e barroca. Corpo do primitivo Paço Episcopal, com "loggia" à italiana associando num lado pequena capela maneirista e noutro grande monobloco barroco de inspiração militar e regional, com torre central aberta ao mar.
Número IPA Antigo: PT062203100013
 
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Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Residencial senhorial  Paço eclesiástico    

Descrição

Planta longitudinal com orientação E. / O. composta de grande rectângulo, ao qual se articula um corpo mais estreito, com "loggia", rematado a O. por capela de planta na mesma orientação, com corpo de serviços anexo para N.. Grande massa marcada pelo volume do corpo E., com cobertura de 3 telhados de 4 águas, corpo intermédio e capela com 2 águas, e anexos da capela com 4 águas, todas com telha portuguesa de canudo e beirais simples, duplos e triplos conforme a fenestração. Fachada principal a S. com 3 altos pisos, com embasamento e cornija de balanço em alvenaria, flanqueada por cunhais em cantaria, com marcação de 3 corpos evidentes por 2 gárgulas em meia cana implantadas na cornija e na divisão das águas; piso térreo com o corpo central definido por grande portal de cantaria, encimado por lintel recto datado e ladeado por 2 janelões de moldura de cantaria de recorte ondulado, filete exterior relevado e gradeados; corpos laterais com porta de moldura idêntica ladeada por pares de óculos quadrilobados; 8 janelas articuladas, com as superiores do andar nobre com varanda de sacada a servir de lintel de balanço às do andar de serviços; molduras de cantaria rematadas por filete ondulado e relevado exterior; varandas de hastes de ferro com bolachas, pintadas a verde escuro; portadas de almofadas de madeira pintadas a verde, com postigos envidraçados pintados a branco. Torre central de mais 2 pisos, recuada em relação à fachada e aberta ao mar com alpendre de estrutura de madeira assente em hastes de ferro e balcão com pilastras de cantaria e grade de ferro; parede de fundo totalmente revestida de azulejos, com 2 portas emolduradas a cantaria com lintel de balanço e volantes de guilhotina envidraçados a trabalharem sobre balcão de portadas de almofadas de madeira pintadas de branco. Corpo O. do edifício com 2 pisos e beiral de telha triplo; piso térreo com portas de molduras de cantaria simples e janelas gradeadas; soco pintado a vermelho em todo o comprimento da fachada e janelas do piso nobre com molduras de cantaria, volantes de guilhotina envidraçados e armas reais de coroa aberta a E.. A fachada O. é a da capela, terminada em empena aguda, com campanário de cantaria assente a N.; portal com as armas episcopais do fundador e encimado por Cruz de Cristo a qual ainda se articula com um pequeno óculo superior. Fachada N. dominada pela "loggia" com arcaria de volta perfeita, assente em colunas toscanas com estilóbatos, balcão de cantaria com filete ressalvado a todo o comprimento e colunas de suporte do alpendre assentes em mísulas ressalvadas sobre o balcão. Corpo anexo à capela com acesso ao piso superior a N. por escadaria com balcão superior e muro de cantaria, com porta inscrita em arco de cantaria de volta perfeita com impostas ressalvadas. Corpo principal a E. dominado pela torre central, sobre estrutura semelhante à fachada oposta, mais simples e com o piso térreo definido por 4 meio janelões gradeados de iluminação da sala de exposições temporárias.

Acessos

Funchal (Sé), Largo Município e Rua Bispo n.º 9 a 23

Protecção

Categoria: MN - Monumento Nacional, Decreto nº 39 175, DG, 1.ª série, n.º 77 de 17 abril 1953

Enquadramento

Urbano, destacado, entre o Lg. do Município e a R. do Bispo, articula-se com um interessante edifício para nascente, ainda não classificado e confronta-se com o Palácio dos Ornelas (v. PT06220310016) na R. do Bispo e no Lg. com a igreja de São João Evangelista (v. PT06220310006).

Descrição Complementar

A entrada do actual Museu de Arte Sacra faz-se pela R. do Bispo com acesso a átrio empedrado com calhau rolado tradicional, dominado por uma escadaria central com corrimão de cantaria e portal superior de arco abatido e de acesso a novo lanço, emoldurado por 2 largos óculos ovais de iluminação com os eixos a acompanharem o novo lanço de escadas e 2 portas de acesso aos fundos. As antigas arrecadações episcopais para E. encontram-se adaptadas a sala de exposições temporárias, e para O., a arrecadações; os pisos superiores do corpo principal encontram-se adaptados a museu e a "loggia" a serviços directivos. Entre o riquíssimo espólio do Museu, referência a um Presépio, em terracota, do séc. 18.

Utilização Inicial

Residencial: paço eclesiástico

Utilização Actual

Cultural e recreativa: museu

Propriedade

Pública: estatal

Afectação

Diocese do Funchal

Época Construção

Séc. 17 / 18 / 19 / 20

Arquitecto / Construtor / Autor

Mestres das obras reais Jerónimo Jorge (1604) e Domingos Rodrigues Martins (1748 / 1751).

Cronologia

1566, 20 Setembro - alvará régio de fundação do Seminário do Funchal; 1578, 18 Out. - promulgação das "Constituições do Bispado do Funchal"; 1586, 4 Agosto - tomada de posse do bispo D. Luís Figueiredo de Lemos; 1594, antes de - instalação do Bispo nas casas do Seminário; 1594, 26 Julho - incêndio no centro do Funchal, iniciado na antiga residência episcopal; 1597 - publicação das "Constituições Extravagantes do Bispado do Funchal"; 1600 - ordem de D. Luís Figueiredo de Lemos de levantar a capela de São Luís de Tolosa, junto às "Casas Episcopais"; 1604, Janeiro - pagamento a Jerónimo Jorge por umas traças e diligências que fez no sítio do Seminário, tocantes às casas episcopais; 1675 / 1682 - obras de ampliação executadas pelo bispo D. Fr. António Teles da Silva; 1712 - saída do Seminário, então "colégio de São Luís", para o "Mosteiro Novo" para ampliação do Paço Episcopal por ordem de D. José de Sousa Castelo Branco; 1747, 27 Maio - posse do bispo D. Fr. João do Nascimento como Governador; 1748, 31 Março - terramoto arruína o Paço Episcopal e instalação do bispo e família em São Lourenço; 1748 - pedido de reconstrução e aumento do Paço Episcopal, "que já era muito pequeno, pelo que se tinha ocupado o Colégio de S. Luís, seminário da Diocese"; 1749 - projecto e orçamentação do novo Paço Episcopal do mestre das obras reais Domingos Rodrigues Martins; 1750, 24 Janeiro - autorização do Conselho da Fazenda para as obras do Paço Episcopal do Funchal; 24 Fevereiro - arrematação das obras pelo mestre carpinteiro Francisco Gomes por 5:870$000 réis; 1751, 20 Agosto - instalação do bispo D. João do Nascimento no novo Paço Episcopal; 1752 - direcção das obras a cargo do próprio prelado; 1760, cerca - colocação dos azulejos na varanda; 1795 - instalação pontual de D. José da Costa Torres nas casas da Penha de França; 1796, 6 Outubro - embarque coercivo na Penha de França do Bispo para o "continente do Reino"; 1807, 24 Dezembro - 2ª ocupação inglesa da Madeira e expulsão do bispo Luís Rodrigues de Vilares do Funchal, fixando-se-lhe residência no Santo da Serra; 1914, Janeiro - transferência do Liceu do Funchal para o antigo Paço Episcopal; 1940, 26 setembro - publicação de Decreto nº 30 762, no DG, 1.ª série, n.º 225, determinando a classificação do Paço Episcopal e capela Anexa como Imóvel de Interesse Público; 6 Outubro - inauguração do núcleo inicial do museu na sala do cabido da Sé do Funchal; 01 novembro - publicação do Decreto nº 30 838, DG, 1.ª série, n.º 254, suspendendo o decreto n.º 30 762, de 26 de setembro do mesmo ano, relativamente à classificação de imóveis de propriedade particular; 1948, 29 setembro - decreto nº 37 077, DG, 1.ª série, n.º 228, classifica o Paço Episcopal e Capela anexa como Imóvel de Interesse Público; 1950 - entrega do edifício para Museu Diocesano de Arte Sacra, iniciando-se obras de adaptação; 1951 - exposição de ourivesaria sacra no Convento de Santa Clara, com vista ao futuro acervo; 1953, 17 abril - decreto nº 39 175 revoga a classificação como Imóvel de Interesse Público pelo decreto de 1948 e classifica o imóvel como Monumento Nacional; 1954 - exposição de esculturas religiosas no mesmo convento e com o mesmo fim; 1955, 9 Maio - apresentação no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, do núcleo de pintura flamenga da Madeira; 23 Maio - regresso do acervo de pintura ao Funchal; 1955, 1 Junho - inauguração do Museu Diocesano de Arte Sacra do Funchal a que presidiu o então presidente da República, general Francisco Higino Craveiro Lopes; 1991 / 1992 - deslocação à Europália e a Lisboa do espólio de pintura e escultura flamengas do Museu; 1993 - obras de reabilitação do Museu para reinstalação da colecção de pintura e escultura flamengas; 1994, 14 Dezembro - reabertura do Museu.

Dados Técnicos

Paredes autoportantes e estrutura mista.

Materiais

Cantaria mole e rígida regional aparente, alvenaria de cantaria regional rebocada, madeira (carvalho, til, pinho de Riga e outras), amarrações mistas de tirantes de madeira e de ferro, vidro, azulejos, e telha marselha e de meio canudo.

Bibliografia

NORONHA, Henrique Henriques de, Memórias Seculares e Eclesiásticas..., 1720, Funchal, 1996; SILVA, padre Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, Funchal, 1940 - 1945; ZAGALLO, Manuel Cayolla, A pintura dos séculos XV e XVI da Ilha da Madeira: subsídios para o seu estudo e inventário, 1943; CLODE, Eng. Luís Peter e FERREIRA, padre Manuel Juvenal Pita, Catálogo ilustrado da exposição de ourivesaria sacra realizada no convento de Santa Clara, Funchal, 1951; idem, Exposição de esculturas religiosas no convento de Santa Clara, Funchal, 1954; VIEIRA, Dr. Elmano, O Museu de Arte Sacra do Funchal, Diário de Notícias do Funchal, 24 Maio 1955; SIMÕES, J. M. dos Santos, Azulejaria nos Açores e na Madeira, Lisboa, 1963; CLODE, Luísa, O Museu terá de ser um centro de apoio cultural e pedagógico, Diário de Notícias do Funchal, 17 Maio 1987; CARITA, Rui, O Colégio dos Jesuítas do Funchal, 2 vols., Funchal, 1987; CLODE, Luísa, Exposição mariana, Funchal, 1988; ARAGÃO, António, Para a História do Funchal, DRAC, 1991; CARITA, Rui, La Peinture Flamande dans l'Ile de Madère à l'époque des Decouvertes in Feitorias, EUROPÁLIA, Antuérpia, 1991; idem, A Pintura Flamenga na Ilha da Madeira na época dos Descobrimentos, No Tempo das Feitorias, Lisboa, 1992; idem, História da Madeira, 1º, 2º, 3º e 4º vols., Funchal, 1989, 1991, 1992 e 1996; idem, Museu de Arte Sacra do Funchal: o espectáculo como exposição, Diário de Notícias, 6 Junho 1993; BRITO, Dr. Oscar Spínola de, Uma data histórica: Um liceu e a sua força evocativa, Diário de Notícias, 1 Dezembro 1993; R. F., Museu de Arte Sacra reabriu, Bispo alerta para a falta de mecenas, Diário de Notícias do Funchal, 14 Dezembro 1994; CARITA, Rui, Os mestres das obras reais no século XVIII e a reconstrução do Paço Episcopal, in Islenha, nº 17, Funchal, Jul. 7 Dez. 1995, p. 18 a 24; idem, Arquitectura Militar da Madeira, séculos XV a XVII, tese de doutoramento, 1993, Lisboa / Funchal, 1998; idem e TRUEVA, José Manuel de Sainz, Itinerário Cultural do Funchal, CMF, 1997, p. 110 a 115; CARITA, Rui, Escultura flamenga na Ilha da Madeira in O Brilho do Norte, catálogo de exposição no palácio da Ajuda, Lisboa, Outubro de 1997, p. 137 a 143 e 200 a 203; idem, O Ensino, catálogo EXPO 98, Pavilhão da Região Autónoma da Madeira, Lisboa, 1998; PAIS, Alexandre Manuel Nobre da Silva, Presépios Portugueses Monumentais do século XVIII em Terracota [ dissertação de Mestrado na Universidade Nova de Lisboa ], Lisboa, 1998; CLODE, Luiza, O Tesouro da Sé no Museu de Arte Sacra, in Monumentos, nº 18, Lisboa, 2003.

Documentação Gráfica

BN Rio de Janeiro (Planta do Funchal de 1567); mapoteca do IGC (planta do Funchal de 1804), Lisboa; CMF (Planta Ventura Terra / Stubbs, 1915), Funchal; IHRU: DGEMN/DSID; GR / Equipamento Social e DRAC, Funchal

Documentação Fotográfica

Museu Vicentes Photographos, Funchal; IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa

ANTT, Sé do Funchal e Provedoria da Fazenda do Funchal; AHM, Governo Civil e CMF, departamento estratégico e de obras (zona classificada da Sé); AE, Câmara Eclesiástica, Funchal; IHRU: DGEMN/DSID

Intervenção Realizada

1910 - obras de adaptação a Liceu; 1940 - amputação da cerca para construção do Largo do Município e de um pequeno corpo para libertação da "loggia"; DGEMN: 1954 - obras de adaptação a Museu Diocesano de Arte Sacra; 1963 - reconstrução da cobertura da Biblioteca "Utille Dulce"; 1964 - trabalhos de reconstrução da cobertura do alpendre e reintegração da respectiva fachada; 1965 - restauro da cobertura da capela, sacristia anexa e cantarias da fachada, alpendre e escadas de acesso; 1966 - restauro exterior da Biblioteca; 1967 - trabalhos de conservação e restauro da Biblioteca. 1993 / 1994 - adaptação das salas do 1 e 2º andares para exposição das pintura e escultura flamengas; 1995 - 1995 - pintura da fachada N.

Observações

*1 - Edifícios marcados pelo cariz militar e "chão" executados sob desenho de arquitectos de formação militar: os mestres das obras reais, com dinheiros da fazenda régia. Acresce que a reconstrução dos meados do séc. 18, novamente foi um projecto de um arquitecto militar a ser executado, depois assumido pelo prelado franciscano. *2 - O acervo do Museu é internacionalmente importante ao nível de colecção de pintura flamenga dos séc. 15 e 16, de dimensões invulgares, possuindo ainda escultura e ourivesaria flamenga da mesma época, pintura e escultura e ourivesaria portuguesa dos séc. 15, 16, 17, 18 e 19, num conjunto nacionalmente importante e proveniente não só do "Tesouro da Sé" como das restantes igrejas da Madeira. Para além do recheio de Arte Sacra, possui o edifício um importante conjunto de azulejos de uma oficina de Lisboa, datáveis de 1750 / 1770 a cobrirem todo o pano de fundo da varanda. *3 - Foi proposta à CMF a adaptação do andar térreo da "loggia" para café público em Junho de 1998, que não foi aceite.

Autor e Data

Rui Carita 1998

Actualização

 
 
 
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