Igreja de Nossa Senhora da Muxima / Igreja de Nossa Senhora da Conceição / Santuário de Nossa Senhora da Muxima

IPA.00020044
Angola, Luanda, Quiçama, Quiçama
 
Igreja seiscentista, de planta retangular composta por nave contrafortada e capela-mor, interiormente com iluminação axial e bilateral e tetos de madeira, constituindo o Santuário Mariano de maior peregrinação católica em Angola. A igreja tem linhas muito sóbrias, com a fachada principal terminada em frontão triangular sem retorno, rasgada por portal de verga reta encimada por nicho em arco e duas janelas retangulares laterais, com vários elementos decorativos volutados, concheados e fitomórficos, em massa. As fachadas laterais são flanqueadas por possantes contrafortes vasados por vãos de circulação. No interior tem arco triunfal de volta perfeita entre duas capelas colaterais em arco e na capela-mor, a parede testeira é rasgada por vão também em arco.
Número IPA Antigo: AO910108000002
 
Registo visualizado 260 vezes desde 27 Julho de 2011
 
   
   

Registo

 
Edifício e estrutura  Edifício  Religioso  Templo  Igreja  

Descrição

Planta retangular composta por nave e capela-mor, tendo adossado à fachada lateral esquerda torre sineira quadrangular e dois corpos retangulares, o primeiro mais comprido, correspondendo à sacristia e sala de reuniões. Volumes articulados, de dominante horizontal, quebrada pelo verticalismo da torre, com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na igreja, de uma e quatro águas nos corpos adossado, e em coruchéu piramidal na torre. Fachadas rebocadas e pintadas de branco, com soco a vermelho e os cunhais, cornijas e elementos estruturais da fachada principal sublinhados a bege. Fachada principal com pilastras nos cunhais e terminada em frontão triangular sem retorno, com aletas junto aos cunhais, coroados por plintos paralelepipédicos sustentando pináculos. É rasgada por portal de verga reta, encimado por elementos volutados e pináculos piramidais relevados e nicho, em arco de volta perfeita sobre pilastras, desnudo, sobreposto por cruz latina sobre cartela, envolvida por elementos volutados e concheado, criando falso espaldar. Lateralmente abrem-se dois janelões retangulares, com peitoril saliente e encimadas por volutados criando falso espaldar. O tímpano é rasgado por óculo circular e vários elementos relevados: duas cruzes laterais e uma central, maior sobre escudo e motivos vegetalistas. Torre sineira de dois registos separados por cornija, o primeiro cego e o segundo rasgado, em cada uma das faces, por sineira em arco de volta perfeita; a torre remata em cornija encimada por platibanda vazada, com acrotérios nos cunhais sustentando pináculos. Fachada lateral esquerda com corpos adossados de dois pisos, ritmada por vãos retilíneos e tendo sensivelmente a meio contraforte. A fachada lateral direita é reforçada por três contrafortes, vazados inferiormente por vãos de passagem em arco de volta perfeita. Fachada posterior com capela-mor terminada em empena, rasgada por duas janelas quadrangulares e a do anexo por duas outras, ao nível do segundo piso. INTERIOR com as paredes rebocadas e caiadas de branco e elementos estruturais sublinhados a bege ou azul. A nave tem cobertura de madeira, em masseira, pintada de azul celeste, assente em cornija. No lado do Evangelho possui púlpito, com guarda vazada de madeira. Arco triunfal, de volta perfeita, sobre pilastras toscanas, ladeado por duas capelas colaterais à face, em arco de volta perfeita, assente em pilastras toscanas, formando no interior dois ou um nicho, respetivamente no lado do Evangelho e da Epístola, em arco de volta perfeita, sobre pilastras toscanas. A preceder o arco triunfal surge teia em balaustrada de madeira. Na capela-mor a parede testeira é rasgada por nicho em arco de volta perfeita sobre pilastras, albergando imaginária; lateralmente, abrem-se duas portas de verga reta encimadas por pequenos nichos, em arco de volta perfeita sobre pilastras, albergando imaginária. Sobre os nichos corre cornija e abre-se, ao centro, vão retilíneo.

Acessos

Muxima

Protecção

Classificado, Estado Português, Portaria n.º 2, Boletim Oficial n.º 1 de 12 janeiro 1924

Enquadramento

Fluvial, isolado, a cerca de 130 km de Luanda e a 63 km da cidade de Catete na província de Luanda. Situa-se na margem esquerda do rio Cuanza, adaptado ao declive do terreno, inicialmente junto à beira do rio, no alto de uma falésia com re-entrância sobre a corrente, e atualmente com adro frontal, delimitado por muro terminado em crista, e pintado de vermelho, com vários degraus laterais. No cimo do morro posterior ergue-se a Fortaleza de Muxima (v. IPA.00020043).

Descrição Complementar

Utilização Inicial

Religiosa: igreja

Utilização Actual

Religiosa: igreja de peregrinação

Propriedade

Privada: Igreja Católica

Afectação

Sem afetação

Época Construção

Séc. 17 / 20

Arquitecto / Construtor / Autor

Desconhecido.

Cronologia

1599 - data provável da construção da primitiva igreja, cerca de uma década após a conquista de Muxima pelos portugueses; segundo um relato de Baltazar Rebelo de Aragão ao rei de Portugal, citado pelo bispo emérito de Luanda D. Manuel Nunes Gabriel, a igreja teria sido fundada pelo próprio Baltazar Rebelo de Aragão; 1646 - Muxima é atacada pelos holandeses, que saqueiam e incendeiam a igreja; 1625 - o governador-geral, Fernão de Sousa, pede para Lisboa que se resolvesse se é ao bispo, cabido e vigário geral que compete prover os vigários dos presídios de Muxima, Massangano, Cambambe e Ambaca; séc. 17 - António de Oliveira de Cadornega escreve que a população de Muxima tem uma igreja de muita devoção com orago da Imaculada Conceição "com capella das Almas de bastante fábrica com seu vigário que he tambem capellão de infantaria e moradores que serão até vinte cazaes com suas moradas e famílias" *1; séc. 17, 2ª metade - re-edificação da igreja; 1799 - na relação das igrejas de Angola, a paróquia de Muxima aparece já vaga, sem pároco; séc. 18 / 19 - a rainha D. Maria I oferece à imagem de Nossa Senhora de Muxima uma coroa de ouro; séc. 19, 1ª metade - Muxima tem vários párocos, embora com numerosas intermitências; 1814 - o capitão-mor do presídio, Manuel Francisco Pacheco, chama a atenção do Governo para a ruína que ameaça a igreja por causa das águas; isto "porque tendo o rio decepado a terra, hoje já está no rio a escada principal do adro e, se não houver cuidado em se formar um paredão que impeça a água, certamente cairão as paredes da igreja"; 1833 - início da grande devoção a Senhora Conceição da Muxima, ali se deslocando cristãos de várias localidades de Angola; 1846 - relatório do alferes Sampaio, oficial às ordens do governador de Angola, Pedro Alexandrino da Cunha, diz que a "igreja é do mesmo gosto de arquitectura, pouco mais ou menos da do Corpo Santo; tem muitas alfaias e ouro e prata que, não obstante de gosto antigo, são ricas pela quantidade de metal nelas empregado"; refere ainda que sempre houve e ainda há grande fé com a imagem da Senhora da Conceição daquele presídio, por pessoas de Luanda e de outros presídios e distritos; 1853 - construção da torre sineira; 1865 - 1933 - Muxima tem quase sempre pároco residente, sacerdotes angolanos formados no Seminário diocesano, missionários de Cernache ou de Goa; 1867 - visita Muxima o juiz de direito da comarca de Luanda, Dr. Carlos Frederico de Bettenvourt em correição judicial, o qual refere em relatório que o ângulo direito do adro da igreja assenta mesmo na aresta da ribanceira, de maneira que estava sujeito a que a primeira cheia lhe levasse um bocado; ainda se notavam vestígios de uma muralha de proteção que ali existira; por fim alerta para o perigo de, mais cedo ou mais tarde, "a igreja venha a parar em montão no leito do rio, salvo algum milagre da Senhora"; 1868 - visita Muxima o Secretário Geral do Governo, Eduardo de Sá Nogueira Pinto Balsemão, que afirma ser a igreja um templo solidamente construído, mas bastante abandonado; refere que é povoada por inúmeros morcegos que provocam um cheiro nauseabundo; séc. 19, finais - a devoção a Nossa Senhora de Muxima é extraordinária por parte das pessoas de Luanda, de todos os presídios e distritos e até de gentios quissamas e libolos; durante todo o ano ali ocorrem devotos a implorar graças para todas as suas necessidades, demorando-se, muitas vezes, 8 a 15 dias, ficando recolhidos numa casa própria para receber os devotos *2; quando a doença do sono dizima populações inteiras, os cristãos das povoações do Cuanza aumentam a sua devoção à Senhora, popularmente conhecida como Mamã Muxima; 1896 - compra de uma casa para residência paroquial; 1910 - 1912 - visita Muxima D. João Evangelista de Lima Vidal, bispo de Angola e Congo, o qual refere que a "igreja é vasta, maciça, rústica, semelhante a muitas outras nossas paróquias campestres. Por dentro tem um aspecto nu, frio, qualquer coisa de grande, de severo, de solitário. Só no fundo da nave, no seu nicho do altar-mor, se destaca, como uma nota radiante e piedosa, o manto azul e o rosto cor de cera da Virgem Maria"; 1924, 12 janeiro - classificação da igreja, ao que parece, como Monumento Provincial, ainda que a categoria não seja referida na lista dos Monumentos & Sítios Registados de Angola; 1929, maio - segundo relato do pároco Ruela Pombo, Muxima é uma vila completamente isolada, sendo necessário cinco dias para lá chegar a partir de Luanda; 1933 - o administrador do concelho, Francisco Bragadesto, manda construir o paredão de defesa da igreja contra as águas do rio; depois, estas obras são renovadas e ampliadas pelos Serviços de Obras Públicas; depois deste ano, poucas vezes a paróquia tem pároco residente, sendo servida pelos de Novo Redondo e, posteriormente, pelos de Dondo e de Catete; 1956 - Muxima é classificada como Imóvel de Interesse Público; 1996 - a igreja é incluída no Corredor do Cuanza (Luanda-Cuanza Norte), da Lista Indicativa com bens a classificar como Património Mundial, pela UNESCO.

Dados Técnicos

Sistema estrutural de paredes portantes.

Materiais

Estrutura rebocada e pintada; elementos decorativos em massa; pavimento cerâmico; cobertura de madeira; teia de madeira; cobertura de telha.

Bibliografia

BATALHA, Fernando - Muxima. Luanda, Angola: Direcção dos Serviços de Obras Públicas e Transportes - Monumentos Nacionais, s/d.; GABRIEL, Manuel Nunes - Padrões da Fé. As Igrejas antigas de Angola. Braga: Arquidiocese de Luanda, 1981; Teixeira Cândido, Mama Muxima, A Lenda do Santuário, (http://www.opais.net/pt/dossier/?id=1867&det=4906), [consultado em 18-12-2013]; Monumentos & Sítios Registados em Angola, (http://www.mincultura.gv.ao/monumentos_reg_angola_bengo.htm), [consultado em 18-12-2013].

Documentação Gráfica

Documentação Fotográfica

IHRU: SIPA; Arquivo Histórico Ultramarino: Agência Geral do Ultramar

Documentação Administrativa

Intervenção Realizada

1840 / 1850 - feitura de obras na igreja; 2010, 4 setembro - decorrem obras de beneficiação do santuário, com execução de pintura, maior iluminação, nova cobertura e renovação do interior.

Observações

EM ESTUDO. *1 - Cadornega conta ainda que a imagem de Nossa Senhora da Conceição foi levada para Massangano quando os holandeses conquistaram Muxima e dali teria acompanhado o governador Pedro César de Menezes até ao arraial do Outeiro do Gango, perto de Quifangondo. Quando os holandeses atacaram esse arraial, a imagem teria caído em seu poder, sendo depois enviada para o Congo. Posteriormente, teria sido enviada por um sacerdote de Luanda para aquela cidade, que a repara e pinta; tendo um morador de Muxima, que visita a oficina do padre, reconhecido que aquela era a imagem da Igreja de Muxima, a mesma é reconduzida festivamente ao seu templo. É impossível conformar a veracidade destas informações, mas Muxima só foi ocupada pelos holandeses em 1647 e o ataque ao arraial foi muito anterior. *2 - Durante a escravatura, os devotos chegavam a oferecer serviçais a Nossa Senhora, os quais ficavam adidos no serviço da igreja, sendo então a que possuía maior número de escravos. No início do séc. 20, ainda era costume escrever cartas à Senhora pedindo pelas suas aflições ou desejos, sobretudo pelos que não podiam ir pessoalmente a Muxima, os quais mandavam uma esmola e uma carta ou até mesmo um requerimento em papel selado. Atualmente, o culto à Senhora da Muxima e a presença de devotos ocorre ao longo de todo o ano, mas especialmente durante a festa do orago, no 1º fim-de-semana de setembro. Antes de entrarem no santuário, normalmente os peregrinos visitam o forte visto a imagem ali ter estado primeiramente, antes da construção da igreja. A areia do local é vigiada por escuteiros para impedir que os muitos fiéis a levem para vender nos mercados de Luanda.

Autor e Data

Joaquim Gonçalves 2003 / Paula Noé 2013

Actualização

João Almeida (Contribuinte externo) 2018
 
 
 
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